Assalto à Casa Branca: a corrida mais louca do mundo

(Multimedia in Expresso Diário, 08/11/2016)

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Para que não seja tudo tão deprimente, há que ver estes excelente filme de desenhos animados em que os personagens e as suas diabruras são retratados na perfeição. Parabéns da Estátua de Sal aos autores. O Expresso, que anda de mal a pior a tratar da política interna, no que toca à política externa ainda vai tirando uns coelhos da cartola.


Há um muro a separar Donald… do seu próprio cabelo. Hillary foi assombrada pelo fantasma de Bernie para parar de mandar emails. Melania voltou à escola com Bill. E Vladimir está prestes a matar os “americanos estúpidos”. Esta é a versão alternativa das eleições nos Estados Unidos, num pequeno filme de animação realizado pelo Expresso. Em formato “soap opera” americana, claro está…


Pode ver o vídeo aqui

Hillary Clinton venceu… mas por pouco. E, por enquanto, só na net

(In Expresso Diário, 08/11/2016)

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A candidata democrata foi mais bem-sucedida do que Donald Trump na caça ao eleitor na internet, garante um orador da Web Summit. Estamos a umas horas de saber se isso lhe garante a Casa Branca


Quem está na Internet quer ser visto, lido, ouvido, comprado, partilhado ou votado. Para isso, contudo, é preciso saber atrair internautas. A guerra pelas audiências ou pelos sufrágios é também uma guerra por cliques, likes e shares. O assunto esteve em foco hoje no palco SaaS Monster da Web Summit, dedicado ao “Software as a Service”, isto é, à informática enquanto serviço.

A análise da campanha das presidenciais republicanas ficou a cargo de Or Offer. O israelita, co-fundador e CEO da SimilarWeb — uma start que analisa o tráfego de sítios e aplicações —, explicou que é importante saber de onde vem quem chega a uma determinada página de Internet. A maioria dos visitantes chega, hoje, das redes sociais e motores de busca. Os sítios oficiais de Hillary Clinton e Donald Trump não foram exceção.

Offer explica que, analisando uma vasta gama de utilizadores, é possível tirar conclusões e agir de forma a reforçar ou inverter tendências. No caso dos candidatos à Casa Branca, destacou cinco técnicas de marketing: da parte do republicano, aquilo a que chamou “equipar um exército” e “desorientar”; no caso da democrata, “ser mais esperto do que o adversário”, criar uma “máquina viral” e “equilibrar as atenções”.

Vender bonés rende

O orador explicou que um pico de audiências do sítio de Trump se deu pouco depois de o candidato ter anunciado, com uma foto sua de boné na cabeça, a venda de artigos de merchandising com o lema “Make America Great Again” (equipar o exército).

Outro momento alto, ainda durante as eleições primárias do Partido Republicano, aproveitou o flanco dado por um adversário. Jeb Bush, filho e irmão de ex-presidentes, decidiu concorrer sem usar muito o apelido, talvez para evitar associações ao impopular George W, chefe de Estado entre 2000 e 2008. O seu sítio era, por isso, jeb2016.com. Os estrategas digitais de Trump aproveitaram a oportunidade e compraram o domínio jebbush.com (por nove dólares, ou oito euros, anuais).

Ato contínuo, quem foi aos motores de busca procurar por Jeb Bush passou a obter como primeiro resultado uma página que encaminhava diretamente para o sítio de Trump. Foram mais 3,2 milhões de internautas que a campanha de Trump “desorientou”.

Clinton também usou o nome de Trump para lhe conquistar público. A ferramenta “Trump Yourself” permitia aos utilizadores divertirem-se a ver o que o milionário, conhecido pela sua linguagem incendiária e insultuosa, diria deles. A democrata viu, assim, 5% dos que procuravam Trump acabarem no seu sítio. É o que se chama “ser mais esperto”. O passo seguinte é conseguir “tornar a máquina viral”. Através da partilha dos internautas em várias plataformas e redes, sobretudo o Facebook, Clinton conseguiu crescer 354% em visitas a partir desta fonte.

Com a verdade me conquistas

Quanto a “equilibrar focos”, Offer explica que se trata de chamar a atenção para aspetos negativos do adversário. No primeiro debate entre os dois, a 26 de setembro, Clinton convidou o público a visitar no seu sítio a secção “literally Trump”, dedicada ao fact checking, ou seja, à verificação das afirmações do republicano. Dada a relação flexível deste último com a verdade, a ferramenta atraiu mais 920% de tráfego.

Tudo somado, Hillary Clinton conseguiu que 89,9 milhões de pessoas visitassem o seu sítio de campanha. Donald Trump ficou-se pelos 83,3 milhões. Logo à noite veremos se o sucedido no mundo virtual se repete no mundo real.

Para se perceber melhor as razões do fenómeno Trump

Crime, fome e encarceramento na América

(Por Gary Flomenhoft, in Blog Real-World Economics Review)

Os efeitos das políticas neoliberais aí estão. O país mais poderoso do Mundo está a atingir o primeiro lugar noutras classificações. Na pobreza, no crime e no número de encarceramentos. O sistema capitalista no seu pior, criou milhões de pobres e de criminosos. Eles não tem quem os defenda. Hillary Clinton teve 30 anos para o fazer e sempre esteve de mãos dadas com os grandes interesses que promoveram e beneficiaram com tais políticas. Se Trump lhes promete o Céu, ou pelo menos o alívio das dores, não é difícil perceber que o sigam julgando ver nele uma tábua de salvação. Ver estes gráficos é crucial para perceber a dimensão da catástrofe.

(Comentário de Estátua de Sal, bem como a tradução do texto  que segue).


Existindo um mercado de trabalho totalmente desregulado, Polanyi acreditava que “os trabalhadores morreriam, vítimas de aguda desorganização social por vício, perversão, crime e fome”.

Os EUA têm o mercado de trabalho mais “flexível” de todos os países da OCDE, ou seja, o mercado de trabalho mais livre, com a menor intervenção do governo ou das instituições sociais, como definido por Polanyi. “Essencialmente, para obter altas notas escala da flexibilidade, um país deve ter baixas taxas marginais de imposto, um salário mínimo baixo, um alto grau de flexibilidade na contratação e despedimento, uma pequena quantidade de negociação coletiva centralizada e baixos subsídios de desemprego” (Lawson, Robert A . & Bierhanzl, 2004, página 122). Os defensores do laissez-faire “livre mercado” políticas acreditam que a ameaça de fome vai motivar as pessoas a procurar emprego. O número de pessoas em assistência alimentar chegou a um patamar histórico após a crise financeira de 2008, e atualmente nos EUA é à volta de uma em cada seis pessoas no país (14% a partir de 13 de janeiro de 2015, Departamento dos EUA Ag [1]) , E uma em cada cinco crianças (US Census Bureau, 28 de janeiro de 2015) [2] estão no Programa Suplementar de Assistência Nutricional (SNAP), anteriormente conhecido como food stamps. A afirmação de Polanyi de que sem reforçar as instituições sociais, um mercado de trabalho livre, não regulado, resultaria em fome prova-se ser verdadeira. Sem SNAP essas pessoas iriam morrer de fome.

Taxas de encarceramento nos países da OCDE. Grande liderança dos EUA.

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A variação da população prisional, desde Reagan e do neoliberalismo é galopante

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Os Estados Unidos têm 5% da população mundial e 25% dos reclusos. A taxa de encarceramento é mais do que o dobro de todos os outros países da OCDE. Deve sublinhar-se que a era da supremacia neoliberal começou com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e acelerou-se com o colapso da União Soviética em 1991. As políticas nos EUA tornaram-se mais favoráveis aos mercados não regulamentados do que nunca, de acordo com a (TINA), e na senda do “Consenso de Washington” sobre a privatização, a liberalização, o livre comércio, a livre circulação de capitais, o ajustamento estrutural e todas as outras políticas promovidas pelos fundamentalistas de mercado desde 1980. Houve Um ponto de inflexão em 1980, quando as taxas de encarceramento dos EUA começaram a aumentar drasticamente (figura 16). Antes disso, os EUA estavam alinhados com outros países da OCDE. Este encarceramento acrescido não foi resultado de um aumento do crime violento porque a taxa de crime violento caiu durante este mesmo período. Embora não possa ser diretamente atribuído a mercados de trabalho flexíveis, esse aumento na taxa de encarceramento é consistente com a afirmação de Polanyi de que tratar o trabalho como um produto de mercado resultará em “crime e fome”.


O artigo original em inglês aqui