Trump aposta no investimento público para relançar a economia?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 09/11/2016)

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Durante a campanha eleitoral para a Casa Branca, Donald Trump foi sempre politicamente incorrecto, muito surpreendente e bastante truculento, sobretudo contra os emigrantes mas também sobre outras matérias. E do ponto de vista económico sempre se esperou dele a defesa intransigente do capitalismo puro e duro. Contudo, para além da enorme surpresa que foi a sua vitória para o mundo, ele reservou uma outra grande surpresa para o seu discurso de consagração ao defender uma aposta muito forte no investimento público para relançar a economia e criar emprego.

Eis o que Trump disse sobre esta matéria:

“Trabalhando em conjunto vamos dar início à urgente tarefa de reconstruir o nosso país e de renovar o sonho americano (…) Vamos resolver os problemas do nosso interior, reconstruir as nossas estradas, pontes, túneis, aeroportos, escolas e hospitais. Vamos reconstruir as nossas infra-estruturas que se tornarão ímpares e vamos colocar milhões de americanos na reconstrução (…) Vamos dar início a um projecto de crescimento e renovação nacionais. Vou capacitar os talentos criativos dos americanos e teremos os melhores e os mais inteligentes para impulsionar o seu grande talento para o benefício de todos. Vai acontecer”.

“Temos um grande plano económico. Vamos duplicar o nosso crescimento e ter a economia mais forte do mundo. Ao mesmo tempo vamos trabalhar com todos os países que estejam dispostos a trabalhar connosco. Vamos estabelecer grandes relações. Esperamos estabelecer grandes, grandes relações. Nenhum sonho é demasiado grande. Nenhum desafio é demasiado desafiante. Nada que queiramos para o nosso futuro está para além do nosso alcance”.

Palavras são palavras e as palavras de um político podem depois não ter concretização prática.

Mas o que disse Trump não admite outras interpretações: ele quer despejar investimento público nas envelhecidas infra-estruturas norte-americanas para, por essa via, levar atrás o investimento privado, criar empregos e duplicar a actual taxa de crescimento. Por muito que custe a alguns ouvir, isto é uma espécie de New Deal adaptado aos tempos actuais, um programa que segue as recomendações keynesianas para impulsionar o crescimento.

Quer mais, obviamente: quer descer os impostos para as empresas e para os mais ricos, esperando que o crescimento económico que daí venha traga um aumento da receita fiscal que compense a perda que resultará destas medidas. Mas isto era o óbvio. O surpreendente foi realmente o anúncio da aposta no investimento público.

Quanto ao relacionamento externo no plano económico, Trump foi mais evasivo: o que vai acontecer nas relações com o México, o Canadá e a Europa? O que vai acontecer ao tratado comercial transatlântico com a União Europeia? Para já, os sinais apontam para que Trump aposte num aumento do protecionismo das indústrias e das empresas norte-americanas. E se isso acontecer, a resposta mundial pode levar a uma travagem da globalização – que, até agora, era muito pouco previsível que pudesse acontecer.

Finalmente, uma palavra para Hillary Clinton: provavelmente seria muito melhor presidente do que foi candidata – porque como candidata foi o que é (gélida, nada empática, sem carisma), além de ter recorrido (ou os seus apoiantes por ela) a manobras desleais para sabotar a candidatura do seu opositor, Bernie Sanders. Depois, tivemos o caso dos e-mails, uma enorme imprudência numa pessoa com a sua experiência e posição, embora aí o FBI tenha decididamente entrado na campanha. Finalmente, por muitas voltas que se dê, por muito que apresente todas as causas sociais por que se bateu e o seu curriculum como servidora da Res Publica, Hillary foi e será sempre vista como uma das faces do “establishment” norte-americano, do círculo político-pantanoso de Washington, de ser uma mulher bem vista por Wall Street e pelos banqueiros, além de representar uma das dinastias familiares dos Estados Unidos que se julgam ungidas para dirigir o país – o que irrita, e muito, o americano médio, sobretudo todos os que perderam o emprego por causa da globalização ou trabalham hoje nos “mac jobs” onde se ganha muito pouco e viram o seu nível de vida degradar-se assinalavelmente neste século.

Entre dois candidatos que concentravam mais a rejeição do que o apoio, Hillary era a face do sistema, Trump aquele que vinha de fora e o queria mudar. E o mundo em geral simpatiza actualmente muito mais com este tipo de candidatos.

É amarga, mas justa, a lição que Donald Trump acabou de nos dar

(Miguel Esteves Cardoso, in Público, 09/11/2016)

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Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contámos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Está tudo de calças na mão

(Estátua de Sal, 08-11-2016, 23h:50m)
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Aguarda-se que comecem a sair resultados efectivos das eleições nos EUA, e não de sondagens, que as há aos montes. Não sei quem vai ganhar as eleições americanas. Em qualquer dos casos, qualquer que ganhe parece que será por margem diminuta. A corte global dos comentadores, políticos, gente importante e com tempo de antena, todos temem que venha aí o Diabo, ou seja Mr. Trump. Está tudo com as calças na mão. Mas, se tal acontecer, o mainstream só a si próprio deve culpar-se. Criou o caldo de cultura económico, ideológico, e politico para que tal acontecesse.
As classes médias foram esmagadas pelo desemprego originado pela deslocalização dos empregos para a Ásia onde os baixos salários e ausência de direitos faz engordar os bolsos das grandes companhias americanas. A pobreza e a miséria grassam nas cidades americanas. As prisões nunca estiveram tão cheias e os EUA são o país da OCDE que mais população prisional possui em relação à população total.
A cultura da estupidificação que as televisões servem com o fito de demesticar a contestação e os eleitores é agora aproveitada por Trump a seu favor com resultados efetivos e espectaculares.
Os escândalos políticos a que a senhora Clinton está ligada, os fluxos financeiros que ela recebe de gente mais que duvidosa que apoiam em força a sua campanha também lhe retiram a aura de confiabilidade que um candidato limpo, de alma e mãos, deveria ter.
Mais, o seu espírito de falcão assanhado no que toca à política externa, conflitual e de garras afiadas para a guerra também não auguram nada de bom, nem para o seu país nem para o Mundo.
Sim, se Trump vencer, bem pode agradecer aos interesses que o partido democrata defende neste momento e que Clinton corporiza.
Bastava o partido democrata ter jogado limpo e não ter de forma explicita apoiado a senhora Clinton contra Sanders, usando todas as manobras sujas que foram postas a nu recentemente.
E isto os comentadores não dizem, e disto não falam.
Antes da nomeação de Trump todas as sondagens diziam que ele perderia contra Sanders por mais ou menos 20 pontos percentuais, mas que disputaria palmo a palmo as eleições com Hillary.
Só que Sanders era incómodo, ele tinha um programa de recuperação da economia americana a favor daqueles que foram perdedores até aqui. E isso, os interesses dos 1% mais ricos, da finança, de Wall Street, não poderiam tolerar. Resolveram arriscar e colocar “a cave” como se diz no poker.
Pois bem, podem perder tudo e está a ver-se que a vitória, a acontecer será sempre pífia. E se perderem, não acusem Trump, o populismo, e no final os próprios eleitores que nele votaram.
Não, a culpa é de quem, até ao fim, e à beira do abismo se recusa a aceitar que as políticas neoliberais tem que ser invertidas, a globalização tem que ser repensada, e que o capitalismo só subsiste enquanto for capaz de gerar mais cidadãos com esperança do que cidadãos desesperados.