Isto só lá vai com educação

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 28/08/2017)

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É bonito constatar que há quem acredite tão religiosamente na educação que acha que se vestir um menino de rosa e lhe der uma Barbie ele se transforma numa menina.

Quando nasci, em 1964, a lei dizia que, por ser menina, era e seria sempre menos que um menino. Estava em vigor a norma do Código Penal que permitia aos pais matar as filhas até aos 21 anos se “desonradas” (só foi alterada em 1975); o Código Civil era o de 1868, que estabelecia a obrigação, pela mulher, de obediência ao marido, entregando-lhe a gestão dos bens dela; o que se lhe seguiu, em 1966, dizia que as mulheres só podiam viajar com autorização do marido e este podia abrir-lhe a correspondência; para ter emprego ou negócio só com sua permissão; e sobre a educação dos filhos só tinham o direito de “ser ouvidas”, sendo o homem o “chefe” da família. Um recém-casado podia repudiar a noiva se ela não fosse virgem (estava assim na lei) e o direito de voto para as mulheres só existia em circunstâncias especiais. “Os sexos são iguais”, dizia a Constituição em vigor, de 1932 – salvo, acrescentava-se, “quanto às mulheres, as diferenças da sua natureza e do bem da família”.

“Diferenças da natureza” e “bem da família”: é interessante reler estas frases da Constituição salazarista na semana em que vimos tanta gente arrepelar os cabelos por causa de uma recomendação da Comissão para a Igualdade de Género sobre dois “cadernos de atividades” da Porto Editora. Porque o que se viu, à mistura com um clamor sobre uma alegada “proibição” e “censura” de livros pelo governo, foi a certificação, por vários opinadores, de que as “diferenças da natureza” justificam materiais didáticos diferentes para crianças entre quatro e seis anos, conforme sejam meninas ou meninos.

De cada vez que esta questão é discutida — e muito recentemente o foi, a propósito da célebre Happy Meal do McDonalds e do facto de a cadeia distribuir brinquedos diferenciados com a refeição, consoante a criança fosse rapariga ou rapaz (procedimento que reconheceu discriminatório, anunciando que iria deixar de atribuir “género” aos brinquedos, permitindo às crianças escolher sem “guião”) – constata-se que existe muita gente que crê realmente que as meninas nascem a gostar da cor rosa e os rapazes a odiá-la, e que estes não têm qualquer atração por “bonecas” e “panelinhas” enquanto elas não se interessam por bolas, carrinhos, brinquedos tecnológicos e “brincadeiras violentas”. Em suma, que aquela divisão nas lojas de brinquedos e nos hipermercados entre “para menina” e “para menino” está inscrita nos cromossomas XX e XY – “na natureza”. Curiosamente, estas mesmas pessoas parecem ao mesmíssimo tempo acreditar que se vestirmos um rapaz de rosa e lhe dermos uma boneca ele se transforma numa rapariga. Outra coisa não pode concluir-se do facto de perderem a cabeça com a ideia de não haver distinção por género em brinquedos e outros materiais infantis. Ou seja: defendem a separação rigorosa dos universos feminino e masculino com base numa alegada “lei natural” enquanto demonstram crer de forma religiosa no poder da educação, a ponto de acharem que o género das crianças – ou, no caso, a sexualidade, porque é nisso que estão realmente a pensar – depende mesmo dos brinquedos com que brincam e da cor que vestem. Aliás, algumas destas pessoas chegam ao ponto de certificar que brinquedos sem diferenciação de género são uma imposição do hermafroditismo, querendo dizer que acham que dar uma Barbie a um menino lhe faz crescer uma vagina. A não ser que, claro, estejam apenas a ser ordinárias.

Acresce a tudo isto – e ao cansaço que é estar sempre a ter esta conversa – que são também estas as pessoas que invariavelmente, a propósito de temas que consideram “fraturantes” (nem vou perder tempo com tal designação), dizem que tudo se resolve com educação. Legalização do aborto? Não, isso não é solução, tem é de se investir na educação sexual. Quotas para mulheres? Não, não se pode fazer isto à força, até é pior para as mulheres, tem é de se educar as pessoas para a igualdade. Punir a discriminação? Não se vai lá com punições, as pessoas têm de perceber que somos todos iguais, tem de se ensinar na escola. E por aí fora. O problema, como se constata, é quando se quer mesmo pôr a educação a tratar do assunto: aí vem a gritaria da “ditadura” e da “imposição” e o “porque não cabe ao Estado educar.”

Sério? Então o que é aquilo no artigo 13º da Constituição, sobre a interdição da discriminação com base no sexo, orientação sexual, etc? É para enfeitar? O que são os planos para a igualdade a que o Estado se obriga, o último dos quais, em vigor até este ano, assinado pelo PM Passos Coelho, estabelece ser “tarefa fundamental do Estado promover a igualdade entre homens e mulheres” e “dever inequívoco de qualquer governo”, prevendo “reforçar a intervenção no domínio da educação, designadamente com a integração da temática da igualdade de género como um dos eixos estruturantes das orientações para a educação pré-escolar”? “Tarefa fundamental” e “dever inequívoco”: dúvidas nenhumas. E com tal consenso nas forças partidárias, da direita à esquerda, o que há a perguntar não é se a CIG deve pronunciar-se sobre os materiais à venda para crianças, é o que andou a fazer até hoje para só reparar em livros estereotipados quando alguém lhos põe à frente do nariz. O problema não é excesso de intervenção: é o défice que permitiu chegar-se a este ponto.

A grande escola de valores da inconstitucionalidade, da violência e do anacronismo

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 12/06/2017)

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Crianças de 10 anos com tímpanos perfurados, queimadas, açoitadas com cintos. Não é no século XIX; é no XXI, em Portugal, em escolas do Estado. Como é possível que não se acabe com esta selvajaria?


Que sucederia a qualquer colégio privado no qual se denunciassem ciclicamente atos de violência por parte de alunos mais velhos sobre mais novos, ritualizados por via de uma “tradição” aceite e promovida pela respetiva direção? E se soubéssemos que nesses episódios de bullying – os conhecidos – um aluno de 10 anos teve o tímpano perfurado, ou que, como denunciado esta semana, outro, da mesma idade, foi parar ao hospital devido a queimaduras e “golpes de cinto”? Exigir-se-ia, no mínimo, uma inspeção do Ministério da Educação para apurar responsabilidades e, no máximo, o encerramento da escola, certo?

Certo. Mas há dois colégios em Portugal, nos quais se leciona o ensino básico e secundário, onde isto se passa e nada acontece – nem se põe fim à tal “tradição”, nem as direções são responsabilizadas, nem se põe em causa o “modelo educativo”. E de encerrá-los nem falar. Aliás, estes dois estabelecimentos de ensino são os únicos nos quais a Inspeção-Geral da Educação não entra a não ser que para tal “convidada” – é o Ministério da Educação que o afirma (em resposta de maio de 2016, ao DN), e é provável que mesmo o MP se sinta pouco à vontade para os investigar.

Porquê? Porque pertencem às Forças Armadas. Trata-se do Colégio Militar e do Instituto dos Pupilos do Exército, que, na génese – no século XIX a do CM e em 1911 a do IPE – eram “escolas de elite”, com o objetivo de educar os filhos (rapazes) primeiro dos nobres e mais tarde dos oficiais, no caso do CM, e dos sargentos no caso do IPE, e de os preparar para a carreira militar. Na era democrática, apesar de definidos na lei como “estabelecimentos de ensino da rede pública”, funcionam como privados de luxo, cobrando mensalidades de centenas de euros e recebendo sobretudo alunos “civis”. Ou seja, continuam a ser escolas de elite segregada, mas agora em concorrência com o ensino privado enquanto custam milhões ao Estado, que assim subsidia, em muitos milhares de euros por cabeça, famílias que põem os filhos numa escola na qual, além da possibilidade de internato, têm aulas de equitação, natação e esgrima sem custo acrescido – assim como “uma educação à antiga”.

Com que justificação? Instada pelo DN a responder a esta pergunta, quer durante o governo de Passos quer no atual, a tutela não conseguiu adiantar que objetivo nacional preenchem as duas escolas, como se justifica o esforço financeiro que representam e como é possível manter o absurdo inconstitucional de estabelecimentos públicos que fazem depender o acesso da capacidade económica dos alunos. É de resto incompreensível que no período no qual supostamente se procuraram extirpar do Estado gastos inúteis e proceder a “reformas estruturais” estas duas caríssimas e aviltantes inutilidades tenham sido mantidas – até se decidiu investir nelas.

Na verdade, subsistem porque ninguém teve a coragem de dizer basta. De resto, qualquer mexida nos colégios militares dá origem a campanhas, insultos e ameaças. Foi assim quando em 2013 o governo Passos decidiu acabar com a segregação de género no CM e fechar o Instituto de Odivelas (que só recebia raparigas) – a Associação dos Antigos Alunos do CM lançou um spot televisivo alegando que isso iria “matar” a escola, e generais na reserva desdobraram-se em artigos de opinião inflamados. E voltou a assim ser quando em 2016, na sequência de uma reportagem do Observador na qual o subdiretor do CM admitia a exclusão e expulsão de alunos homossexuais, o ministro da Defesa reputou a prática de inconstitucional e exigiu explicações. O chefe do Estado Maior do Exército demitiu-se e logo surgiu um coro a exigir a demissão do ministro.

O ministro ficou; foi introduzida nos estatutos do CM a proibição de discriminação em função da orientação sexual e da identidade de género, passando também, pelo menos em teoria, a serem admitidos alunos com necessidades especiais (algo que a direção especificara em 2013, ao DN, não ser possível – outra inconstitucionalidade). O subdiretor do CM foi substituído e o responsável hierárquico pelos dois colégios também. Parece bem mas, na verdade, não resolve nada. Desde logo porque o Exército, sendo suposto ter ouvido falar da Constituição, chegou a 2013 achando que o Estado podia ter escolas segregadas por género e a 2016 a considerar que podia nestas discriminar homossexuais e excluir deficientes, só mudando à força, o que levanta grandes dúvidas sobre a efetividade das mudanças. E sobretudo porque a discriminação, a exclusão, a ausência de espírito democrático são o ADN destas escolas, cujo modelo é o do privilégio de casta – tão típico do espírito castrense. É, afinal, o Portugal velho, do Estado Novo, que ali está, naquelas regras e naquela atmosfera, preservado como num museu; é a ideia de que se pode continuar a fazer as coisas “à antiga”, porque “aqui mandamos nós”. Particularmente simbólico pois que seja da escola e no ano letivo cuja “abertura solene” Marcelo abrilhantou em outubro de 2016 que surja a denúncia dos pais (dos pais, porque nunca são as direções das escolas a denunciar estes crimes à justiça) de um menino de 10 anos queimado e agredido com cinto. “Ser-se de uma instituição como os Pupilos do Exército é pertencer-se a uma grande escola de valores“, proclamou o PR. E que valores.

Ciência e tecnologia: o império dos precários

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/01/2017)

Autor

                        Daniel Oliveira

Não será exagero dizer que foi Mariano Gago que criou um sistema científico nacional digno desse nome. Num país com enormes dificuldades em compreender o papel essencial do Estado na investigação e desta no desenvolvimento social e económico, a empreitada exigiu determinação política. Teve, pelo atraso com que chegou, um preço: a extrema precariedade dos investigadores. No início, os passos tímidos assim o exigiam. E tratava-se, apesar de tudo, de um avanço.

O problema foi quando a coisa se institucionalizou e, pior, passou a funcionar como forma de resolver todas as carências de centros de investigação e universidades, do secretariado à docência. Hoje, são precários que garantem a grande parte da investigação, uma parte considerável do ensino (por vezes sem qualquer remuneração por isso) e até o funcionamento quotidiano das instituições. E quase todas as atividades dos centros de investigação socorrem-se de bolsas para serem garantidos.

Instalou-se, no nosso sistema de investigação científica, uma cultura de precariedade que não tem paralelo com quase nenhuma atividade profissional. Pensa-se que cerca de 70% dos investigadores científicos que trabalham em instituições públicas são precários, sejam bolseiros, contratados a prazo ou, num dos casos previstos, contratados a termo incerto.

No caso dos bolseiros, apesar de muitas vezes trabalharem de forma permanente e com relações hierárquicas para instituições, não têm qualquer desconto para a segurança social (existe apenas um seguro social voluntário).

Qualquer pessoa que queira trabalhar em ciência e tecnologia em Portugal sabe que escolhe uma das mais incertas profissões, quase nenhuma progressão ou acesso a uma carreira e uma reforma miserável. Isto, numa das profissões mais avaliadas, competitivas e exigentes que se pode escolher. Construir com base nestes pressupostos um sistema científico é ter a certeza de que grande parte do investimento feito nestas pessoas será perdido ou para a emigração ou para a desistência. E o problema da precariedade no sistema científico e tecnológico nacional não afeta nem apenas investigadores (também atinge técnicos, comunicadores e gestores de ciência), nem apenas os doutorados (também atinge licenciados e mestres).

Manuel Heitor, o ministro da Ciência deste governo, avançou com uma proposta que, pretendendo combater a precariedade, a institucionaliza. A proposta é atribuir aos bolseiros de pós-doutoramento com financiamento público há mais de três anos um contrato a prazo até seis anos. A coisa faz-se através de concursos públicos falsamente abertos, porque o Estado garante o financiamento se o escolhido for o concorrente que preencha este requisito. Começa logo mal aqui: a solução baseia-se na promoção de uma aldrabice. Passados seis anos o contratado estará de novo desempregado, tendo de vencer outro concurso – provavelmente daqueles “com fotografia”, que abundam no nosso sistema.

Omitindo uma ligação às carreiras existentes, Manuel Heitor está, na prática e por decreto, a criar um sistema paralelo e precário à carreira de investigação científica. Parecendo que combate a precariedade, a proposta promove-a, criando três grupos de trabalhadores (bolseiros, contratos a termo e docentes) que fazem o mesmo trabalho com remunerações e direitos totalmente diferentes. Depois, alguém dirá que são os malandros com carreira que impedem mais direitos para os precários.

A bolsa só devia servir para a obtenção de um grau. Tudo o resto é trabalho e deve ser tratado como tal. E a contratação a prazo, tenha a forma que tiver, só faz sentido em projetos financiados e com duração limitada no tempo. Não pode servir para garantir a continuidade de centros e laboratórios de investigação. Claro que deve haver um período de experimentação e concursos que vão, na carreira mais avaliada que existe, tornando cada vez menos precária a situação do investigador. O que não é tolerável é todo um sistema funcionar com base em bolsas e contratados a prazo. E a solução para isto não pode ser, como pretende Manuel Heitor, criar uma carreira igualmente precária mas um pouco melhor do que as bolsas, ao lado da carreira normal, contribuindo para que os 70% de precários que garantem a investigação científica pública em Portugal venham a ser 100%.

Ainda em digestão da intervenção de Theresa May, deixo o Brexit para amanhã, quarta-feira.