A seita

(Hugo Dionísio, in Facebook, 25/01/2023)

Hoje em dia, quem se libertar para fora da esfera “liderada” pelos EUA e acantonada no G7, EU e NATO, e assim romper com o circuito comunicacional, político-ideológico e também cultural, constituído pelo identitarismo individualista anglo-saxónico e judaico-cristão, identificativo do que se designa como “o bilião de ouro”, não pode senão chegar à conclusão de que a elite privilegiada que exerce, de facto, o poder, está cristalizada numa espécie de seita ou sociedade secreta, tão mais hermética quanto maiores são as ameaças externas ao seu domínio. O clube de Nações “livres” a que aludiu Biden na reunião do G7, é um clube seleto, mas fechado e, como em qualquer seita, para entrar é preciso prescindir de algo importante: da liberdade!

Como todas as seitas, a sua existência parte de uma noção de “exclusividade”, associada a uma certa “excecionalidade”, que justifica diferentes tratamentos e entendimentos. Acho que todos podemos concordar, que aquilo que identificamos como ideologia neoliberal se funda, pelo menos primariamente, numa ideia de excecionalismo civilizacional, fundador de uma cultura única, “eleita” para liderar o Mundo e a Humanidade. Nem os mais empedernidos fanboys da NATO podem negar o ideal, herdado das luzes europeias e do supremacismo britânico e hiperbóreo, que posiciona os EUA como líderes “eleitos” da Humanidade. Sem falar de Hollywood, no canal História (que disso tem muito pouco), sucedem-se os programas, documentários e peças sobre a origem divina, excecional, até “extraterrestre” da nação norte americana e da sua vocação civilizadora.

Aliás, é neste excecionalismo racial que radica a origem do individualismo neoliberal por oposição a uma visão mais coletiva e cooperante da Humanidade. É neste excecionalismo que se funda a lógica da competição – diz a teoria que é o melhor quem ganha (meritocracia) – por oposição à lógica que fundou as sociedades humanas e, em última análise, a própria existência do animal que somos – a cooperação, a capacidade de trabalhar coletivamente, o animal social e político.

Como em todas as seitas, existe um jargão próprio e uma tendência para o ensimesmamento, provocado pelo fechamento do circuito em que opera. Quanto maior a incapacidade para estabelecer pontes e linhas de contacto com outras existências, maior o radicalismo e sectarismo das suas posições, que se corporiza, precisamente, numa contradição a que não conseguem fugir: quanto mais querem arrastar, mais os outros lhes fogem. Se a reação da maioria dos países ao conflito no leste europeu demonstra a desconexão entre a narrativa oficial propalada no Ocidente coletivo e o entendimento que a maioria das nações e da população mundial têm do mesmo, a identificação de nações como a China, a Rússia ou o Irão como entidades agressoras e opressoras é algo que só cabe mesmo nas mentes mais sectárias da seita, ou dos seus seguidores.

Atentemos, por exemplo, ao encontro promovido pela Casa Branca para África (US-Africa Leaders Summit). À partida poderíamos vê-lo como um sucesso; afinal, mais de 40 nações africanas compareceram. Os fundos também não faltavam: à cabeça, prometiam-se 55 biliões de dólares para “ajudar” a África a desenvolver-se, combater as alterações climáticas e o terrorismo. Contudo, foi apresentado um senão: para receber o “investimento” há que “desacoplar” da  China e da Rússia. O habitual jargão da “democracia” e dos “direitos humanos” estava bem identificado, principalmente como forma de garantir a manutenção da dolarização através da adesão às instituições que o impõem (FMI e Banco Mundial). Toda a Casa Branca estava otimista. Contudo, uma vez mais, o grosso dos enviados africanos não pode ter deixado de pensar: “mas quem é que esta seita de brancos anglo-saxónicos pensa que somos? Parvos?” Choveram artigos internacionais dizendo o que soubemos logo: “para convencer África não basta conversa”!

Se nas ideologias com conexão à realidade, é a própria realidade que valida os respetivos pressupostos teóricos (mais fácil dizer do que fazer), as seitas tendem a funcionar ao contrário, optando por uma abordagem mais idealista, no sentido em que é a própria realidade que tem de se moldar às suas ideias. Os EUA não ouviram África, como não ouviram outros. Os EUA tentaram arrastar África para as suas ideias.

Quando a realidade – essa teimosa inexorável – insiste em não validar os pressupostos teóricos que justificam a existência da seita, ela opta por mover uma guerra contra a realidade, identificando os principais agentes da sua transformação e elegendo-os seus inimigos. No fundo, toda a estratégia de “contenção da China” é uma luta contra a própria realidade, consubstanciada em 5000 anos de história. Daí que, como seita que são, o resultado é também ele previsível; ou estás comigo, ou estás contra mim! O sectarismo da seita não deixa espaço para meios-termos, soluções de conjunto ou compromisso.

Analisar, hoje, a privilegiada elite ocidental, aquela que compõe a superestrutura do sistema, as suas características sociais de origem, os percursos académicos e sociais e a postura ideológica profundamente idealista, é constatar, não apenas a existência, mas o reforço e aprofundamento da lógica de seita. Neste caso, uma seita em divórcio acelerado com o mundo real e numa luta desenfreada contra a mudança das condições materiais que, numa primeira fase, não apenas originaram, como sustentaram, alimentaram e fizeram desenvolver a sua própria existência. Dos cursos Ivy League, aos postos CEO, passando por glamorosos e exclusivos cargos institucionais nas instâncias internacionais, fechados ao comum dos mortais, por “incumprimento” originário dos “requisitos” de mérito, a constituição da elite económica e política numa seita, representa também a sua aristocratização e a consequente drástica redução da mobilidade social a que tanto alude o “sonho americano”. É uma espécie de volta ao tempo dos “senhores feudais”, num claro recuo civilizacional em matéria de divisão social de classes.

Outro exemplo concreto deste funcionamento em circuito fechado é o que se passa no conflito no leste europeu. Basta ouvir as notícias no território NATO/EU/G7 para apreciarmos algumas das variáveis em que assenta a narrativa oficial. Como em todas as seitas, são os dogmas que produzem a força agregadora e centrífuga que mantém a periferia fiel ao centro. A repetição destes dogmas até à exaustão tem uma função ritualística que visa manter os fiéis mais periféricos o mais centrados possível, quase como uma reza ou ladainha. São muitas as ladainhas que, neste caso, visam manter a coesão do conjunto:

  • “Tratou-se de um conflito não provocado”, omitindo a sua origem num golpe de estado perpetrado por forças de extrema-direita e neonazis, profundamente racistas contra a população russófona, obrigando esta a acantonar-se no leste.
  • “A guerra começou em 24 de Fevereiro de 2021, com a invasão”, omitindo o real início da guerra em 2014, momento a partir do qual as regiões em secessão foram bombardeadas diariamente.
  • “O povo está todo contra o invasor”, omitindo a profunda divisão étnica da população daquele país, que levava a uma rotação constante do poder entre fações, originando 3 “revoluções coloridas” organizadas pela CIA, como forma de afastar os governos eleitos pela população russófona.
  • “As democracias contra as autocracias”, omitindo o facto de o país que designam como “democrático” ter elegido o seu governo após impedir milhões de cidadãos russófonos de exercerem o seu direito ao voto, de ter ilegalizando cerca de 13 partidos, fazendo apenas restar os que são pró Nato, que por acaso também são os de extrema-direita, sendo que, o país que a narrativa aponta como “autocrático”, assenta num sistema pluripartidário, não se lhe conhecendo casos de ilegalização de partidos.
  • “Foi invadido um país pacífico”, omitindo que este país “pacífico” tinha um exército de 600.000 homens e uma capacidade bélica composta por centenas de aviões, milhares de tanques, centenas de sistemas de defesa aérea, centenas de lançadores de misseis e milhares e canhões, tudo de fazer inveja, em qualidade e quantidade, a qualquer país da NATO, com exceção do pai da aliança, os EUA.

A este propósito, o New York Times ou a CNN surgem como os teólogos de serviço, definindo à partida as linhas dogmáticas a seguir. O editorial do New York Times de dia 21 de Janeiro (órgão que é o verdadeiro farol ideológico da imprensa do Atlântico Norte) demonstra toda a incapacidade que a seita composta pela elite privilegiada que exerce o poder de facto tem, em lidar com uma realidade que, cada vez mais, lhe foge. Como em qualquer seita, para a qual – e também face à cristalização – a realidade não se molda às suas pretensões, a opção pelo histerismo, pela demagogia, hipocrisia e cinismo, constitui um recurso necessário. No fundo, passam a mover uma guerra contra a própria realidade. Vejamos a que ponto o círculo se fecha em si mesmo:

  • A “invasão” é resultado da “loucura de um homem” solitário. Ora, acho que esta apresentação do presidente do país “invasor” como sendo um homem “louco”, é daquelas que não joga, nem na aparência, nem tão pouco na substância. Se há característica que sempre foi apontada ao presidente daquela nação foi a sua “ponderação”, “frieza” e “calculismo”. Nenhuma das características físicas ou psicológicas denuncia qualquer espécie de “loucura”, ainda para mais “descontrolada”. Por outro lado, custa a crer que um homem que colidera organizações regionais importantes – algumas das que reúnem a maioria da população mundial, como a Organização de Cooperação de Xangai, para não falar dos acordos bilaterais que vai fazendo, e das parcerias estratégicas com India, Irão, China, Turquia e muitos outros, sendo sempre visto como um parceiro confiável m-, seja efetivamente um “louco incontrolável”. Acreditar que países como a Argentina, Arábia Saudita, Indonésia, Argélia, Turquia, Emirados, Paquistão e outros – que querem entrar para os BRICS+, o fariam caso o NYT tivesse razão -, vale tanto como a “revelação” do comediante sem graça sobre o facto de tal presidente estar morto. Lá está, uma luta contra a realidade.
  • O “louco” é “cruel” e vai distribuindo um “horror regular” contra “alvos civis”. Ora, quando no mesmo artigo em que se acusa o “invasor” de provocar tais coisas (e se a guerra provoca tais coisas!), o próprio editor chefe, que o redige, vem defender uma escalada da guerra através da entrega pelos EUA de armas ainda mais letais… Afinal, o que é que faz impressão ao NYT? É a morte de civis inocentes por uma guerra que apoia claramente, ou é o facto de o objeto do seu apoio estar a perder, também claramente, essa guerra? E porque não refere, o mesmo editor, os custos que advieram para a Humanidade das outras guerras provocadas pelos EUA nos pós 11 de Setembro, que custaram ao povo americano mais de 8 triliões de dólares e milhões de sem abrigo, cerca de 1 milhão de mortos diretos e mais de 30 milhões de refugiados, cálculos feitos por organizações ocidentais (como o Brown University Watson Institute)?

O artigo continua com um sem fim de acusações deste tipo, apontando para uma narrativa heroica de um lado e uma ilusão, de outro. Esta visão é ela própria resultante de uma incapacidade, também própria da lógica de seita, de se colocar acima dos fenómenos e de os analisar numa perspetiva objetiva. O mesmo NYT que tanta tinta perde neste conflito, é o mesmo NYT que nenhuma tinta gasta relativamente aos 85 países intervencionados, atualmente, do ponto de vista militar, pelos EUA (79 operações de treino contraterrorista; 41 exercícios militares conjuntos; 12 participações em combate; 7 bombardeamentos).

Típico do funcionamento numa lógica de seita é também a pretensão de que as ações dos seus membros são todas justificadas, aceitáveis e benignas; ao passo que as ações dos inimigos são sempre malévolas. Aliás, basta olhar para o que diz a documentação oficial americana (como a 2022 National Defense Strategy, entre muita outra), referindo-se à intervenção da Rússia como “influência maligna”, e recorrendo a uma verborreia de cariz quase-religioso.

E, tal como as seitas, incapazes de fazer uma análise objetiva dos movimentos do real, basta ver como se relaciona o bloco ocidental, formado pelo G7/EU/NATO, com o resto do mundo, para se perceber o estado de negação e fechamento em que operam: “o mundo condena a “invasão””, sendo que, este “mundo” se resume a cerca de 50 países, que votam sempre isolados ou em contradição com os restantes 140, o que é bem patente no caso das sanções, cuja aplicação apenas é assumida por este “mundo” cada vez mais fechado atrás de uma barricada que diz ser “democrática”.

Vejamos o caso do artigo que desmonta totalmente a ideia de que o ocidente formado pelo bloco imperialista lidera uma qualquer pretensão democrática, emancipatória ou de libertação dos países do Sul Global ver aqui. A análise que faz das votações na AG da ONU, permite-nos retirar a conclusão de que este “mundo” unipolar, supremacista, fechado e acantonado atrás da sua própria esquizofrenia – identificando ataques em todos os que não o seguem acriticamente -, está em perfeita contradição com o mundo real, cada vez mais multipolar. Todas as votações da AG da ONU sobre a criação de um sistema económico mais justo, igualdade ou desenvolvimento sustentável, colocam o bloco “ocidental” em oposição à esmagadora maioria da Humanidade. Vejamos:

  • Em 12 de dezembro de 2022, 123 países votaram a favor da criação de uma “nova ordem económica internacional” baseada nos princípios da “igualdade, soberania, interdependência, interesse comum, cooperação e solidariedade entre Nações”. Quem votou contra? Pois… A seita. 50 Nações do Ocidente coletivo.
  • Numa votação sobre “comercio internacional e desenvolvimento”, 122 votaram a favor, 48 contra. A proposta visava regular o abuso de posições dominantes e o uso de sanções unilaterais que não sejam autorizadas pelos órgãos da ONU. Os sancionadores-mor votaram contra os sancionados ou sancionáveis.
  • Na convenção sobre diversidade biológica e o seu papel no desenvolvimento sustentável, 166 votaram a favor e só três nações se opuseram: EUA, Israel e Japão. Todos os 193 países da ONU ratificaram esta convenção, com uma exceção, os EUA.
  • Numa votação sobre a “soberania do povo Palestiniano” (aqui o NYT não consegue ver atrocidades!), 159 países aprovaram, e apenas 8 votaram contra. EUA, Canadá, Israel, Chade, Ilhas Marshall e outros que tais.

Aliás, esta votação é exemplificativa do que sucede de cada vez que se vota a condenação do bloqueio a Cuba, em que EUA e Israel, repetidamente surgem isolados contra o mundo. Este padrão repete-se constantemente quando se tratam de resoluções sobre controlo das armas nucleares de Israel. Recentemente, até em matéria de resoluções que visam condenar a ideologia Nazi e a propagação do fascismo, o mundo todo votou a favor (7 biliões de seres humanos) contra o Ocidente coletivo (1 bilião). Quando a seita bilionária ou capataz de bilionários acusa o presidente da Rússia de ser um Hitler, parece que o resto do mundo continua, muito bem, a saber quem foi Hitler e a não embarcar em hediondas transmutações históricas.

Imaginem o que pensarão os líderes das 140 nações que governam 7 biliões de seres humanos, quando lhes entra um grupo de engravatados de fato azul pela frente, a prometer “democracia” e “direitos humanos”, a troco de guerra, armas e quezílias com os países vizinhos…: “- Mas que seita esta…” – não deixarão de pensar, através dos seus diversos mas ameaçados idiomas e por entre as suas exóticas mas acossadas vestimentas tradicionais!

Como alguém disse: “só a verdade liberta”. E, ao contrário do que se diz, mesmo em guerra a verdade continua a existir, assim a saibamos identificar!

A ideia de que “na guerra a verdade é a primeira baixa” é apenas mais um dogma inventado pela seita aristocrática para poder mentir sem ser, por isso, responsabilizada.

Não espere é encontrar a verdade por entre a informação de quem usa a guerra para mentir.

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Davos: Fórum do entretenimento mundial!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 19/01/2023)

É de rebentar a rir até não podermos mais! Já passei a fase do choro, da raiva e da depressão. Desta feita, a estratégia a utilizar só pode ser a da ridicularização.

Não sei o que é mais ridículo, se o tempo de antena que a imprensa corporativa do Atlântico Norte dá ao Fórum Económico Mundial – que de “mundial” tem muito pouco, não passando de uma feira das vaidades da vassalagem mais rica do império -, ou o facto de desfilarem notícias, comentadores da ordem e eloquentes conclusões sobre as “preocupações” e “soluções” manifestadas pela aristocracia bilionária e seus capatazes. Ao mesmo tempo, tentam fazer-nos acreditar que uma gente que vive absolutamente à margem das dificuldades do comum dos mortais e da esmagadora maioria da Humanidade, quer, de facto, salvar o mundo. É de doidos!

Ouvir o milionário John Kerry, do clã Clinton, ex-candidato a presidente dizer “é o que somos”, a propósito de poderem ridicularizar o facto de gente como ele querer um mundo melhor, salvar o planeta, entre outros objectivos nada consonantes com a sua prática política; ouvir Mário Centeno (ex-chefe do Eurogrupo) dizer qualquer coisa como “afinal isto (referindo-se à economia) pode não correr assim tão mal”; ouvir o mentor, Schwab, dizer que Davos tem “um espírito positivo”… ; é melhor do que assistir aos melhores filmes dos Monty Pyton. É uma comédia sem fim, regada com vinhos e whisky – será que podem comer caviar? – que custam mais do que um trabalhador médio ganha num ano.

Uma das questões fundamentais – jamais colocadas pelos mesmos órgãos que nos querem fazer acreditar nos nobres objetivos de Davos -, consiste em perguntar: “Afinal, para que Humanidade se dirigem as reflexões desta gente”? É que, partindo dos temas que ocupam a agenda da edição deste ano e da lista de “convidados” e principais oradores, imediatamente percebemos que a “Humanidade” a que se dirigem, não é a mesma que povoa este imenso planeta, mas apenas uma minúscula parcela.

O conflito no leste europeu dominou a maioria das intervenções. Ora, acreditar que, para a maioria da Humanidade, esse conflito tem importância, é viver numa bolha fechada e absolutamente opaca. Uma rápida busca pelos principais órgãos de comunicação dos países do Sul Global (85% da humanidade) e todos percebemos que, o conflito em causa, não apenas não está nas prioridades do dia, como nem sequer nas do ano. Simplesmente, quase não se fala do assunto e quando se fala, nem sempre o fazem em termos que agradem à elite que domina as nossas vidas e que nos condena, todos os dias, a uma vida pior.

Os “iluminados” que falam em Davos, falam por quem, afinal? Em jactos pessoais ou institucionais, que poluem numa viagem o que um automóvel de um trabalhador polui em anos, a Davos, vão os representantes, capatazes (CEO, CFO, CTO…) daquela percentagem de seres “excepcionais” que se apropriaram de 63% da riqueza produzida desde 2000, em plena pandemia de Covid, enquanto os salários dos trabalhadores europeus estão estagnados há 20 anos e os dos americanos há 50. E é a Oxfam, financiada em parte pela NED (o mesmo é dizer pela CIA), que o vem dizer, no seu último relatório. É também a mesma Oxfam que vem dizer que 50% da riqueza está concentrada nas mãos desse 1% da população. Os tais que adoram Davos.

E o autismo é de tal ordem que temos de ouvir a anglo-germânica Ursula Von der Lata gabar-se de que a UE “aplicou as mais fortes sanções, fazendo o regime de Moscovo enfrentar 10 anos de regressão económica e falta de tecnologias críticas na sua indústria”. Mas, afinal, de que mundo fala ela? Estará a Europa – que ela governa com uma procuração passada por Washington -, em condições de se gabar de tal coisa? Estará a situação económica da Europa melhor do que a do país que ela acusa de ter pela frente “10 anos de retrocesso económico”? Esse país que, apesar das piores sanções da história do imperialismo, teve apenas uma quebra de 2,1% do PIB e uma inflação de 11%, prevendo-se já este ano crescimento e uma inflação de 3 a 4%. Estará a UE em condições de poder regozijar-se com tal realidade? Afinal, como está a economia da UE?

Não estará a indústria da UE, por causa das sanções arquitectadas pelos seus mestres, a enfrentar insolvências e deslocalizações? Não está a Alemanha a colocar empresas em lay-off para poder fazer face à falta de gás e aos elevadíssimos preços que, por causa das suas políticas, triplicaram? Não estará a inflação na UE a galopar, o desemprego a aumentar e a economia a retrair-se? Não estará isto tudo a acontecer quando a UE sanciona, ao invés de ser sancionada? Não representará, esta realidade, um falhanço total das ações da Comissão Europeia na proteção do seu espaço? Sendo o país mais sancionado da História, não poderá o maior país do mundo regozijar-se, por oposição, não apenas pela capacidade de resistir ao maior ataque económico e militar desde a Segunda Guerra Mundial, mas, e apesar disso, por conseguir diversificar mercados, fornecedores e até aumentar a produção em áreas chave? O que diz isto, de uns e outros?

Poderá um europeu médio, nos dias de hoje, dizer que nada mudou na sua vida, nos últimos anos, como nós vimos acontecer com transeuntes entrevistados nas ruas de Moscovo, no programa de Tucker Carlson? Deveria dar que pensar. E o que diz isto de Ursula e das suas gentes? Do seu autismo, arrogância, autocracia e falso triunfalismo?

Diz Úrsula que “existem nações a observar com muita atenção o conflito” e que “não se pode permitir que achem que podem invadir quando quiserem”, e por isso – qual louca a lembrar o papel de Jack Nicholson em “Voando sobre um ninho de cucos” -, “a Rússia tem de ser punida”! Afinal, de que nações fala ela? Não serão nações que, ao contrário das dela, nunca invadiram qualquer país, pelo menos nos últimos séculos? E como se arroga ela de um qualquer direito universal para punir nações inteiras? Afinal, quais são as nações que invadem a seu bel-prazer, senão as que a suportam? Eis o caricato da questão: é que ela parece mesmo acreditar nas suas próprias mentiras! E isso é trágico, porque por muito louca que a achemos, ela, uma corrupta empedernida, contra a qual estão a decorrer investigações conduzidas pelo próprio Tribunal de Contas europeu, manda nas nossas vidas, fazendo-o sem qualquer escrutínio ou avaliação!

Ficasse o discurso por aqui e já não seria mau. Mas quando vamos para o dualismo maniqueísta das “democracias” contra as “autocracias”, está tudo arrumado.  Eu gostaria de saber qual foi o processo de consulta utilizado para que os povos europeus se pronunciassem sobre a necessidade de embarcarmos nesta guerra – sim, porque somos parte desta guerra –, e nos sujeitarmos ao ricochete das sanções, trocando uma dependência de gás barato, por uma de gás três vezes mais caro e de pior qualidade. Alguém colocou esta questão aos povos? Será que os europeus pretendiam pagar mais caras as suas casas, energia, alimentação e outros bens essenciais, como resultado da guerra económica movida? Ou, ao contrário, o que é veiculado na Imprensa corporativa do Atlântico Norte, não será que isto tudo acontece “por causa da guerra”, nunca expondo quais os mecanismos através dos quais a “guerra” nos afecta?

Será democrático, uma elite tomar todas as decisões, para mais uma elite não eleita, baseando-se na manipulação que faz através de órgãos de comunicação totalmente arregimentados, incapazes de uma mensagem dissonante e, mesmo quando a apresentam, logo a enquadram com o necessário comentador que tem a função de “explicar” ao público espectador como a enquadrar na narrativa oficial fornecida?

Como podem admirar-se, os poderes instituídos, da enorme crise que os grupos económicos que exploram a actividade de imprensa atravessam? Em Portugal, desde 2017, os principais grupos tiveram 191 milhões de euros de prejuízos. Porque será?

Imaginem um qualquer trabalhador, ou estudante, abaixo dos 50 anos, com estudos, capacidade de pesquisa de informação, conhecimentos informáticos suficientes para contornar os condicionamentos do Google e outros motores de busca da Califórnia, e com uma rede de amigos, de todo o mundo, com quem se relaciona em plataformas de comunicação. Essa pessoa, habituada a receber e a procurar e pesquisar a informação que pretende, ao contrário do espectador tradicional acima dos 50 que se habituou apenas a receber, seja através da TV, da imprensa escrita ou das sugestões do Google e plataformas sociais da Califórnia – que funcionam num circuito fechado em conexão com as primeiras -, olha para notícias como “Moscovo bombardeia central nuclear de Zaporizhzhia”, isto depois de os mesmos terem noticiado que essas mesmas forças tinham controlado a central logo nos primeiros dias da operação, ou “Moscovo pode ter rebentado o Nord Stream”.

Se formos para outras áreas, somos confrontados com contradições como as que se têm visto aquando das manifestações violentas no Irão, que os porta-vozes atlantistas apoiam sem excepção, mas que, quando as manifestações violentas acontecem na Europa, nos EUA ou em países nos quais perpetram golpes institucionais, como o Peru ou a Bolívia, nesses casos condenam a violência, apelando à “ordem democrática”. Isto já para não falar do apagamento da Palestina, cuja repressão e genocídio acontece há mais de 70 anos, ou nas guerras de agressão contra inúmeras nações, cujas consequências devastadoras para as respectivas populações nunca são apontadas como “crimes de guerra”.

Perante tanto brincar com a nossa inteligência e tão descarada hipocrisia, não admira a crescente desconfiança na imprensa corporativa do Atlântico Norte e a sua identificação como braço armado comunicacional da elite autocrática e neo-feudal da classe rentista que se formou com a financeirização da atividade económica mundial.

Mas o circo de Davos significa muito mais. Quem olhar atentamente, não deixa de identificar a desgraça da vida de muitos que aí desfilam. Fernando Haddad, ministro de Lula, disse em Davos, numa mensagem muito pouco velada, aos seus interlocutores a norte da América, que o Brasil pretende adiar a conferência dos BRICS de 2024 para 2025, pois, segundo as suas palavras, como têm de organizar o G20, não querem fazer coincidir dois eventos desta magnitude num mesmo ano. Esta posição levantou suspeitas, sobretudo entre alguns parceiros BRICS, após o que sucedeu em 8 de Janeiro no Brasil e após o mais que certo envolvimento das agências de segurança imperiais na organização do sucedido e do seu financiamento. Para muitos, o 8 de Janeiro, foi um sério aviso a Lula: “ou te alinhas”; ou “descarrilas de vez”. Pouco dado a comédias como as de Davos, a Casa Branca passa as suas mensagens através de actos sempre caracterizados por enorme contundência: “é só estalar os dedos e já foste”!

Esta acção de Haddad mostra bem o que é Davos, realmente. Um desfile de prestação de juramentos de vassalagem, mesmo que envergonhados e habilidosos, aos poderes de facto, em oposição frontal aos crescentes espaços de verdadeira cooperação internacional, despidos do tradicional dividir para reinar do imperialismo ocidental, como é o caso dos BRICS. Como em qualquer cerimónia de juramento real, há sempre que contar com os tradicionais e imprescindíveis bobos da corte. Afinal, quem, no meio de tanta miséria, nos faria rir, senão as Ursulas deste mundo? Não obstante, esta ação de Haddad, não deixa de nos trazer uma certa sensação de negritude… E não é de humor negro! É que a sujeição de muitos quadros do PT à doutrina identitária neoliberal – que celebra a liberdade individual enquanto oprime a colectiva, o que, por sua vez, impede a primeira -, não tem nada de engraçado. É uma tragédia para a América Latina.

Daí que a grande ironia que Davos nos traz, e que quem o noticia é incapaz de nos contar, é que, em Davos, programa-se, não a “salvação do mundo” e muito menos a sua libertação, mas a sua continuada e renovada submissão aos interesses que até aqui o trouxeram.

Davos é como um qualquer circo… Como em qualquer circo, no meio de todo o espectáculo, é na parte dos palhaços que mais rimos, e é também nessa parte que melhor percebemos o que o circo é! Entretenimento!

O entretenimento esconde as condições nefastas em que o circo opera! E quem melhor do que os palhaços, para o disfarçar perante as crianças?

Eis, pois, Davos no seu esplendor!

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A nova direita radical

(António Guerreiro, in Público, 12/01/2023)

António Guerreiro

Os movimentos da direita radical de hoje não participam da cultura de direita de uma aristocracia reaccionária que não tinha nenhum espírito de revolta.


Manifestações e invasões violentas das sedes do poder democrático praticadas por uma massa tão alienada nos seus meios que deixou de reflectir sobre os seus fins, como aquelas que se verificaram há dois anos em Washington e agora em Brasília, podem ser vistas como um fenómeno da era digital, potencializadas pelas redes sociais e os novos meios de comunicação. Mas as bases “mitológicas”, mais do que ideológicas, desta direita radical, nos seus expedientes — a propaganda, a mentira, a difusão das teorias do complot, a indução de reacções emotivas e regressivas — não tem nada de novo, é mais um retorno do mesmo.

Percebemos isso perfeitamente quando lemos o diagnóstico que Adorno fez da ascensão de um partido neonazi, o NPD, nos anos 60 do século passado, na República Federal da Alemanha. Foi numa conferência, em Viena, no ano de 1967, que o filósofo falou para um auditório de estudantes sobre os “Aspectos do Novo Radicalismo de Direita”: foi este o título da conferência e é este o título do texto transcrito e publicado pela primeira vez sob a forma de livro em 2019 (em Portugal, caso raro, esse livro foi logo publicado no ano seguinte, pelas Edições 70; tradução de Mariana Toldy e Teresa Toldy), com um longo e excelente posfácio do historiador Volker Weiss.

Muito antes dos processos de difusão de fake news, Adorno identifica o recurso à mentira como um instrumento fundamental desta direita radical, isto é, a difusão reiterada de informações falsas, às vezes grosseiras, outras vezes difíceis de comprovar. A mentira é um dos meios, não o único, que alimenta os mecanismos da propaganda, aptos a fomentar os comportamentos emotivos e a estimular aquilo a que Adorno chama a “ostentação pática” (do grego pathos), sem substância. Encontramos aqui uma análise que prossegue algumas ideias que ele já tinha desenvolvido num texto de 1951, A Teoria Freudiana e o Modelo da Propaganda Fascista.

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A palavra “propaganda” tem hoje conotações muito negativas, mas os regimes fascistas usaram-na sem reservas nem pudor. Ela pertenceu naturalmente e de pleno direito ao léxico da acção política e ideológica. A propaganda, diz Adorno, foi sobretudo uma técnica da psicologia de massas, geralmente instadas a mobilizar-se em torno de uma “personalidade autoritária”. Mas nos métodos propagandísticos do “novo radicalismo de direita” encontra Adorno algo novo, uma lógica hiperbólica dos meios, de tal modo que se torna possível afirmar que nestes movimentos radicais de direita a propaganda constitui a própria substância da política. Daí, a queda no irracionalismo.

Adorno mostra como a tentação para o irracional exerce um fortíssimo efeito sobre esta direita radical (mais um aspecto cuja actualidade os recentes acontecimentos bem ilustram). O triunfo do irracional explica a negação das evidências, tanto das evidências científicas (Bolsonaro e os seus seguidores mostraram bem a lógica do negacionismo), como das evidências da argumentação racional. A submissão ao pathos, ao emotivo, típica deste radicalismo de direita, não aceita as demonstrações do visível porque está exclusivamente orientada para o obscuro, o suspeito, o complot.

Não é preciso submeter nada à racionalidade da prova porque a verdade está encontrada à partida, e essa verdade diz-lhes que é preciso agir para que o mal não triunfe, para que os “homens de bem” (ouvi esta expressão a um bolsonarista e registei o modo como ela atravessa fronteiras; é de facto uma expressão, quase um conceito, tão antiga como o “honnête homme”) não sejam anulados por plebiscitos que só são válidos quando os elegem.

O irracional compreende medos ancestrais e visões paranóicas (psicopatologias diagnosticadas e analisadas por Adorno). Hoje, esta direita radical já não publicaria certamente os Protocolos dos Sábios de Sião, mas difunde outras informações inverosímeis, à medida das solicitações do nosso tempo. Tais psicopatologias e os seus sintomas continuam actuais e, como vemos, não foi preciso que aparecessem as redes sociais para que elas se manifestassem. Estes movimentos da direita radical (os de hoje, afinal muito iguais àqueles que Adorno definiu como “novos”) não participam da cultura de direita de uma aristocracia reaccionária que não tinha, evidentemente nenhum espírito de revolta.

Como alguém disse: alguém imagina o Spengler a revoltar-se? E quando entra no Capitólio ou nos palácios do governo, em Brasília, não é para destruir símbolos, como diziam os comentadores e jornalistas na televisão. É para destruir coisas reais, concretas. Nada da simbologia: isso pertence às retóricas românticas de uma certa cultura de direita bem defunta.



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