2,06%!

(Joaquim Vassalo Abreu, 27/03/2017)

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Que título, dirão vocês? É realmente esquisito, mas não é nem um número mágico, nem tão pouco um número cabalístico.

Andaram para aí a vender que seria 2,1%, que seria o mais baixo défice orçamental da nossa Democracia e eis que o Cadilhe, logo secundado pelo Passos, vem dizer: Na,Na,Na,Na…em 1989 eu também atingi esse valor: 2,1%, nada mais nada menos! Porque ninguém se lembra, perguntava ele indignado?

E eis que o INE vem dizer que, afinal, estavam todos errados: o Défice final foi de 2,06%!

Foi bom? Foi! Foi óptimo? Não! Mas porquê, perguntar-me-ão?

Não é por nada do que argumentou a Oposição, que está numa fase em que não sabe o que diz, por muito que o Marques Mendes na sua “missa” dominical os chame  à atenção, mas porque continua a ser um défice. E havendo um défice ele tem que ser colmatado. Como? Com mais Dívida. E mais Dívida é mais dependência, que é o contrário de independência, quer se queira quer não.

Claro que esta redução do défice é extremamente positiva, e por várias razões:

  • Demonstra à saciedade que existia alternativa ao “não havia alternativa”!
  • Que essa alternativa não passava pela simples austeridade sempre sobre os mesmos, tidos por únicos responsáveis pelo descalabro das contas públicas.
  • Porque se demonstra que os Bancos portugueses e internacionais, os verdadeiros grandes responsáveis tinham, não pés de barro, mas pés de areia e movediça…
  • Que a paz social, as reversões e a confiança geral que, por si só, impulsionam a economia, são mais importantes que quaisquer discursos macroeconómicos, sempre discutíveis.

Mas não basta ter descido em 2016. É preciso que a trajectória continue descendente, e o Governo assim promete e tem orçamentado. Porquê? Porque só assim se fundamenta sem quaisquer hesitações e suspeitas por parte das instituições europeias a sua sustentabilidade e a certeza de um caminho correcto para afirmação política deste Governo e desta solução governativa.

E quando se fala em pelotões, como se de uma prova ciclista se tratasse, é bem melhor ir à frente, do que se ter que fazer um esforço de recuperação que pode ser inútil. Para mais porque, a ser verdade que o BCE vai a partir do fim do ano restringir as compras de dívida pública dos países sujeitos a resgate, é necessário apresentar bons índices de rendibilidade, de execução orçamental, de diminuição do seu défice e de aumento do saldo primário, para que o “garrote” do serviço da dívida possa apresentar um menor peso e as renegociações constantes de “tranches” da nossa dívida, possam ser efectuadas por prazos mais longos e com juros mais baixos, de modo a fazer com que ela “coma” cada vez menos parte da nossa receita e mesmo superavit.

O objectivo deste governo tem que ser, portanto, o de atingir o défice Zero, é o que eu penso. E porquê? Porque, diz a nossa experiência profissional e de vida, que nunca se consegue negociar bem quando se está na mó de baixo. Quando se vai de chapéu baixo ou de calças caídas. Só se negoceia bem quando se tem argumentos, é da vida e dos livros.

Por isso falar-se em “reestruturar” a dívida é inapropriado porque, não sendo o mesmo que “renegociar”, ela remete para algo como um “aircut” (redução ou corte da mesma), que só acontece quando não se consegue mesmo pagar e se fica sujeito a todas as condições.

Falar em “renegociar” já é coisa bem diferente pois, apresentando números progressivamente fiáveis, favorece a aceitabilidade por parte dos detentores da dívida para a tal extensão da mesma, em condições mais favoráveis e dentro do “sistema” onde se integra. E é minha convicção que essa tal “renegociação” só se alcançará com sustentabilidade financeira (sem défice e consequente aumento dessa mesma dívida) e que só poderia ter alternativa de emissão de dívida interna (emissão de obrigações do tesouro, bilhetes do tesouro e instrumentos afins) se a nossa poupança interna não fosse o que é e o nosso sistema financeiro fosse outro também…

De modo que, finalizando, é com alguma preocupação que vejo o Bloco de Esquerda apresentar um discurso absolutamente errático e sem quaisquer soluções alternativas. Assim como se aquilo que eu deseje seja aquilo que escrevi. Não é! Como a minha vida também não o é. É o que é, é o que pode ser e, se não conseguir suster os meus gastos, que outro caminho me resta?

Posição diferente é a do PCP, que não é novidade, há muito que não o é, e é sim uma afirmação de denúncia e de aviso para, a não serem conseguidos, sou levado a pensar, os objectivos que atrás enunciei, Portugal se vá preparando para um “Euroexit”. Com que custos? Esse é que é o problema!

Por isso, neste momento, tendo-se alcançado aquilo que nunca se alcançou, tendo-se conseguido uma afirmação perante a CE que não existia, sendo possível apresentar argumentos, em suma, creio ser salutar continuar este caminho, para mim o caminho certo.

Quem não estiver de acordo que objete e apresente outro. Por isso eu entendo que, sendo legítimas as críticas e as objecções dos dois Partidos mais à esquerda e que suportam a nível parlamentar este Governo, estes devem medir bem aquilo que dizem e propõem porque, julgo estar certo e eles devem ter essa consciência, numas próximas eleições, depois de uma recuperação do País, ninguém compreenderia a apresentação de alternativas de muito difícil imediata sustentação e seriam fatalmente afectados eleitoralmente.

Eu coloco e todos podemos colocar todas as reticências ao rumo que a Europa leva etc, mas, quer queiramos quer não, é a que temos. E o que temos é que, dentro da que temos, conseguir a nossa afirmação!

Por tudo isto continuo a apoiar este Governo!


Fonte aqui

Semanada – De Marcelo a Gama passando por Passos, qual deles o pior

(In Blog O Jumento, 26/03/2017)

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Marcelo Rebelo de Sousa descobriu que qualquer governo consegue um défice de 2,1%, pelos que se deduz que as políticas governamentais pouco importam. Marcelo não ouviu falar do famoso desvio colossal, dos cortes de vencimentos e de pensões, da recessão, dos sucessivos orçamentos rectificativos, do reembolso da sobretaxa e de outras situações. Para ele tanto faz que o défice seja controlado com medidas inconstitucionais ou por rigor orçamental. Também não explicou muito bem qual foi o outro governo que conseguiu fazer baixar o défice até 2,1%.
Quem andou a precisar de um frasquinho de Alka-Seltzer foi Passos Coelho; depois de ter prometido votar no PS se este respeitasse as metas do défice, de ter apelado à direita europeia que boicotasse o governo, de ter esperado a rejeição do OE pelo Eurogrupo, de ter exigido um plano B, de ter anunciado a vinda do diabo, não consegue aceitar os resultados. Agora parece um presidente de um clube desportivo mau perdedor, a dizer que houve um penalti por assinalar.
Jaime Gama que Ricardo Salgado promoveu a presidente do BES Açores quando deixou o parlamento, reapareceu agora na política para dar a sua primeira entrevista, agora já na qualidade de presidente da fundação do merceeiro holandês, que tem desempenhado o papel de Tea Party tuga.
Veio falar da dívida e fê-lo de tal forma que até Assunção Cristas sugeriu ao governo que o ouvisse.
Antes de Jaime Gama ter refletido sobre a dívida já tinha vindo o ministro das Finanças holandês explicar a sua origem, ao que parece a culpa dos nossos males é da famosa dupla das putas e do vinho verde. Nada de novo, sem especificar os consumos há muito que Passos Coelho defende a mesma tese, só não se entende o porquê de tanta indignação por parte dos admiradores portugueses do presidente do Eurogrupo.

O jogo do déficit

(Por Estátua de Sal, 24/03/2017)

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Diga dois virgula um ou mais exactamente diga dois virgula zero seis. É este o número oficial do déficit de 2016 que o INE hoje divulgou e que vai ser comunicado às instâncias europeias, permitindo ao país sair do procedimento de déficit excessivo. António Costa e Mário Centeno estão de parabéns.  (Ver notícia aqui)

Durante meses os profetas da desgraça de todos os quadrantes apostaram no preto e saiu vermelho. Apostaram no par e saiu ímpar. A direita pode dizer que tem azar ao jogo. A Dona Teodora bem pode recolher à sua clausura dourada e tratar dos seus gatos. A  Maria Luís bem pode dedicar-se a fazer uma reciclagem dos seus parcos saberes de economia, e talvez a nova edição das Novas Oportunidades lhe seja útil. O Passos Coelho, já que teima em não se demitir, bem pode votar na Assembleia da República, sempre ao lado de bloquistas, comunistas e socialistas, como ele gosta de dizer, e como prometeu que faria.

Mas, contrariamente ao que diz o ditado – azar ao jogo, sorte no amor –, o azar da direita não tem vindo a ser acompanhado por ganhos nos afectos do eleitorado. As sondagens são cada vez piores e adivinha-se para a direita, nas próximas eleições autárquicas, um terramoto maior que o de 1755. Passos Coelho e companhia colocaram as fichas todas no desmoronamento da actual solução política e na realização de umas hipotéticas eleições antecipadas. Quem coloca todas as fichas num único número, à espera de fazer um pleno, ou ganha tudo ou perde tudo. Passos perdeu tudo e resta-lhe ir para casa a pé, já que nem lhe deve ter sobrado dinheiro para pagar o táxi. Acontece a muitos jogadores e, como dizia Gueterres em tempos idos: – É a vida…

Assim, ter hoje ouvido Passos dizer que vai ganhar as próximas eleições autárquicas e que vai ganhar a câmara de Lisboa, ia-me fazendo cair da cadeira, tal a descomunal gargalhada que me assaltou. O homem está completamente demente e como já não consegue enganar ninguém – nem mesmo os seus mais prosélitos seguidores -, só posso considerar que se quer enganar a ele próprio. É um caso clínico do foro psiquiátrico a necessitar de urgente internamento.

Mas, a direita, perdedora em toda a linha no jogo das previsões, continua a jogar, na mira de recuperar o capital desbaratado, qual jogador inveterado e compulsivo. Agora o jogo passou a ser outro: o deficit cumpriu-se sim, mas não é sustentável. É o jogo da sustentabilidade, e é aí que anda a colocar agora as fichas todas. Quer dizer, o único discurso da direita não é discutir o presente mas fazer apostas sobre o futuro – acreditando que desta vez vai sair preto -, já que o eleitorado acha que o presente está melhor e acredita que irá continuar a melhorar, como demonstram todos os indicadores de confiança, quer dos consumidores quer dos empresários.

Mas claro. Como a direita está escaldada e já não acredita muito na sorte, na eficácia da sua pata de Coelho, sempre vai fazendo os trabalhos de casa mínimos para que a não sustentabilidade se concretize. E aí o ataque é ao sistema financeiro e a tudo o que com ele se correlaciona. Porque quanto mais problemas surgirem no sistema financeiro, mais eles  se transmitirão à economia, e a degradação da economia implicará necessariamente a degradação do déficit público. É simples, portanto, e é neste contexto que devem ser vistas as novelas dos últimos tempos:

  • Ataque á Caixa Geral de Depósitos e à sua recapitalização. Neste dossier, é de rir com as preocupações do PSD com o facto de parte desta capitalização ser feita por privados, eles que a queriam privatizar a 100%. É de rir com a preocupação que agora enunciam com o fecho de agências e redução de trabalhadores, eles que se fartaram de fechar agências, e mandar cidadãos para o desemprego. É de rir com a preocupação que dizem ter com o fecho de agências da CGD no interior do país, eles que privatizaram os CTT levando ao fecho de estações de correio por tudo quanto é sítio, não só o interior mas também nos meios urbanos.
  • Ataque ao Banco de Portugal tentando criar um clima de tensão entre o Governador e a actual solução governativa. Contrariamente ao que muitos pensaram na altura, achei a peça da SIC, Ataque ao Castelo, algo suspeita vinda de onde veio. Suspeita, não do ponto de vista jornalístico, mas sim do ponto de vista dos objectivos que prosseguia e a quem interessava. Não sejamos inocentes e ingénuos. Colocar em causa o Governador do Banco de Portugal, fragilizando-o e quase que forçando o Governo a pedir a sua demissão, apesar deste ser quase totalmente inamovível, nesta altura do campeonato, fortalece o sistema financeiro? Seguramente que não. Pôr a nu as pechas do regime angolano – que desde há muito se sabe ser uma cleptocracia -,  favorece as relações políticas e económicas entre Portugal e Angola e as nossas exportações? Seguramente que não.
  • Ataque dos correlegionários europeus à política económica do actual governo. Neste âmbito inserem-se quer as últimas declarações do ministro Schäuble, quer as do paspalho do Eurogrupo, o tal Dijsselbloem, e até do próprio Draghi. Vão de agoiro em agoiro, ainda que não sejam tão estúpidos que acreditem que rogar pragas seja suficiente. É por isso que vão trabalhando na sombra para que o Diabo venha, nem que para isso tenham que o puxar pela arreata.

E é este o cenário da confrontação política actual. Mas falemos de coisas mais sérias. E o que é mais pertinente não é discutir a sustentabilidade do déficit, mas sim a sustentabilidade da dívida pública. Com taxas de juro acima dos 3% e taxas de crescimento nominal do PIB abaixo dos 2% a dívida pública só pode aumentar, a não ser que ocorram cortes brutais na despesa pública, mormente nas despesas com o Estado Social. Cortes no Estado Social é sempre a receita da direita para equilibrar as contas públicas, cortes a que eufemisticamente  chamam reformas estruturais.  E é também decisivo discutir as regras europeias que exigem tais valores do déficit público, sacrificando as políticas públicas que poderiam fazer aproximar a economia do seu produto potencial.

Daí que, chegará um dia em que não será mais possível adiar a discussão desta realidade objectiva. O que fazemos na Europa, o que fazemos no Euro, como e em que prazo e condições poderemos liquidar a dívida do país, compatibilizando tal pagamento com um cenário de crescimento económico e de utilização mais eficiente dos recursos disponíveis, que tal possibilite.

Mas essa discussão a direita não a faz, não a quer fazer, e critica quem a pretende colocar no cerne do debate político. No fundo, o seu desígnio último é só um: regressar ao poder a qualquer preço. Ainda que o preço seja tão alto que leve à destruição do país e que passem a reinar sobre ruínas. Já o fizeram uma vez e querem compulsivamente repetir o feito. Está nas nossas mãos travar-lhes o passo.