O Papa, a homossexualidade e a psiquiatria

(In Blog Um Jeito Manso, 28/08/2018)

Estou eu aqui sossegada, a banhos, e a ser maçada com um surururu que atravessa dunas e marés para aqui chegar até mim. Desde jornalistas a bloggers meio mundo desatinou com um desabafo do ex-Jorge Bergoglio: disse ele que, quando um filho manifesta inclinações homossexuais, os pais deveriam tentar fazer qualquer coisa por ele, nomeadamente levá-lo ao psiquiatra….


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O Hospital de Cascais e o policiamento dos costumes

(Por Carlos Esperança, 26/03/2018)

cascais

O salazarismo dos costumes, e talvez também o outro, estão de volta. O “Regulamento Interno de utilização e conservação do fardamento e cacifo” do referido hospital impede aos funcionários [leia-se funcionárias] certo tipo de maquilhagem, saias acima do joelho piercings e tatuagens visíveis.

Não se pense que são regras de controlo de infeções, são decisões a exigir o regresso da pudicícia e dos bons costumes, onde se “proíbem minissaias, botas e desodorizante com cheiro”, ameaçando de ‘procedimento disciplinar’ quem não use collants em tom natural ou azul escuro e o cabelo de acordo com as normas que o regulamento define.

Quem diria que a carta da senhora Lúcia de Jesus, irmã Lúcia para os amigos, dirigida a Marcelo Caetano, encontraria na direção do Hospital de Cascais o eco que não teve no último ditador fascista!

A freira das Carmelitas Descalças, em Coimbra, escreveu, em 24 de fevereiro de 1971, ao Presidente do Conselho, suplicando medidas legislativas sobre as vestes femininas: «…não seja permitido vestir igual aos homens, nem vestidos transparentes, nem curtos acima do joelho, nem decotes a baixo mais de três centímetros da clavícula. A transgressão dessas leis deve ser punida com multas, tanto para as nacionais como para as estrangeiras». *

A parceria público-privada exige maquilhagem “discreta”, especificando que “o baton e sombras” têm de ser “em cores nude” e a “base, lápis e rímel adequados à fisionomia de cada pessoa”, o que se presume destinado a ambos os sexos.

São proibidos “piercings, joias, tatuagens de qualquer tipo em locais visíveis do corpo”, temendo, na omissão, a perversidade do autor, a pensar em sítios recônditos, e o que se adivinha é o regresso manso do fascismo a policiar as vestes femininas e a transformar o hospital numa extensão da sacristia, onde medra a prepotência e germina a insanidade.

O Regulamento dispõe ainda que os homens “devem, entre outras coisas, usar meias lisas e discretas, de preferência azuis escuras”, mas é omisso quanto às sanções a aplicar a divorciadas, recasadas e outras mulheres de mau porte.

A sharia romana chegou ao hospital de Cascais.


*(In Arquivos Marcelo Caetano, citados em Os Espanhóis e Portugal de J.F. Antunes Ed. Oficina do Livro)

UMA MULHER CHEIA DE SORTE

(In Blog O Jumento, 24/10/2017)
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Quem leu o acórdão do processo da Relação do Porto tem de tirar uma conclusão: a mulher que foi violentamente espancada por dois homens, o marido e outro companheiro, foi uma mulher com sorte; se tivesse nascido nos tempos em que a Bíblia era levada a sério teria sido morta; se fosse apanhada em Raqqa, quando esta era capital do Estado Islâmico, teria sido lapidada até á morte. Mas foi uma mulher cheia de sorte, foi levada à justiça em Portugal e teve o perdão divino, o juiz foi de uma grande compreensão pelo seu comportamento pecaminoso.
Este não é um caso único na justiça portuguesa, de vez em quando somos brindados por pérolas deste género, curiosamente sucedem com alguma frequência nos tribunais superiores. Mas à voz pequena fala-se de casos; recordo-me que nos tempos da Boa Hora havia por lá um juiz que era receado pelos traficantes de droga, sabia-se que se o sorteio os mandasse para aquela vara apanhariam pela medida grossa. O juiz tinha tido um namorado toxicodependente que se tinha suicidado, e desde então o juiz aplicava a justiça pela medida grossa.
Quantos juízes portugueses sobrepõem os seus valores à lei, quantos magistrados conseguiram passar todas as barreiras, desde o Centro de Estudos Judiciários até ao Tribunal da Relação ou até ao Supremo, com os seus valores medievais ou anti constitucionais intactos?
O juiz Neto Moura não nasceu na idade média, estudou na universidade bem depois do 25 de Abril e começou a sua carreira em 1989, está longe de ser o protótipo do velho jarreta, já julgou e condenou muita gente em conformidade com os seus valores anacrónicos, mas tem ainda muitos anos para julgar muitos mais no conforto da Relação e para isso vai ser muito bem pago: são necessários os impostos de umas dezenas de trabalhadores pagos com o salário mínimo para o manter.
Como podemos confiar na justiça de um magistrado que consegue fazer uma carreira e ser promovido, até pelo menos à Relação, somando sentenças em que ignora de forma grosseira os valores constitucionais, elaborando sentenças que destroem a vida de terceiros com base apenas nos seus valores medievais? Não estamos perante uma aberração casual, este juiz já tinha feito a mesma aberração.
O juiz Neto Moura serve de prova de que é possível alguém sem condições éticas chegar a juiz, ser sucessivamente promovido e continuar impune. Se aconteceu com este, nada garante que aconteça com outros ou com muitos outros. Aliás, uma famosa página criada por magistrados no Facebook para comentarem o Caso Marquês mostrou o que vai na cabeça de muitos dos nossos juízes.
Em Portugal qualquer anormal pode ser juiz, pode condenar quem e  como lhe apetecer, ser promovido e continuar a sua carreira indigna nos tribunais superiores, até se jubilar e beneficiar de uma pensão de muitos milhares mais um subsídio de residência vitalício. Se calhar ainda fazem greve em defesa da justiça portuguesa, da separação de poderes e da defesa da Constituição.