A civilização contra a cultura

(António Guerreiro, in Público, 16/11/2018)

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António Guerreiro

E, de repente, ao entrar em funções, confrontada com a questão das touradas, a ministra da Cultura pronunciou a palavra “civilização”, explicitando assim, espontaneamente, o campo e o horizonte de ideias em que esta discussão tem lugar. O aparecimento e a evolução semântica e ideológica da palavra “civilização” e das problemáticas que ela trouxe consigo é um assunto importante na história das ideias, que no nosso tempo mobilizou estudos de figuras tão importantes como Jean Starobinski e Émile Benveniste.

A civilização como categoria é um elemento central do projecto iluminista, para o qual ela designa o processo fundamental da História e o resultado desse processo: a superação de um estado primordial em direcção a um estado considerado superior do ponto de vista moral, cultural, científico, tecnológico, etc. A ideia de civilização tornou-se o critério pelo qual a barbárie — ou não-civilização — é julgada e condenada. Ela só pode ser compreendida em função da ideia de progresso, da concepção de que há um progresso da humanidade.

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A história da ideia de civilização não pode ser feita sem a referência à ideia de cultura, com a qual ela forma um par. E esse par ganhou uma importante configuração dicotómica — a civilização em oposição à cultura — que nos chegou da tradição romântica alemã. A reivindicação da Kultur contra a Zivilisation (vista com desconfiança como ideia muito francesa), a defesa da “cultura espiritual” e enraizada contra o cosmopolitismo e universalismo da ideia de civilização, democrática na sua essência, encontra em Thomas Mann, na sua fase inicial, um representante que manifestou todo o seu desprezo pela classe que ele denominou como intelectuais da civilização, Zivilisationsliterat, a que pertencia, aliás, o seu irmão Heinrich Mann.

O par dicotómico civilização/cultura é de uma grande complexidade, ao ponto de ser muito difícil responder a esta questão: quando Freud escreveu Unbehagen in der Kultur, publicado em 1930, é sobre o mal-estar da cultura ou sobre o mal-estar da civilização que ele escreveu? Sobre isso, os tradutores nunca se entenderam e nas principais línguas europeias encontramos o título traduzido das duas maneiras.

Fácil é então perceber porque é que os defensores das touradas reivindicam a ideia de cultura e os que querem que elas sejam proibidas tomam a civilização como critério. Mais difícil — mas necessário — é perceber que as duas partes não estão envolvidas num litígio em que é possível uma verdadeira discussão, isto é, um encadeamento das frases de um lado e de outro que formam uma argumentação e uma contra-argumentação, tendo como condição necessária o pressuposto de que é possível as duas partes litigarem.

Ora, neste caso não se trata nunca de um litígio, mas de um diferendo. O que é um diferendo? Há um diferendo, explicou o filósofo francês Jean-François Lyotard, quando o discurso de uma parte não tem nenhum sentido para a outra parte porque as duas falam uma linguagem diferente e nem partilham um terreno mínimo, uma razão comum, que possa tornar possível o esforço que consistiria em cada uma das partes se colocar no lugar da outra.

É que, neste caso em que há um diferendo, as palavras de uns não podem ser encadeadas nas palavras dos outros. Há uma absoluta heterogeneidade de linguagens, uma incomensurabilidade dos discursos, ao ponto de aquilo a que uns chamam cultura os outros chamarem barbárie. E cada vez que uma das partes explica e defende as suas razões, só confirma as razões da outra parte. E, assim, o conflito nunca pode ser equitativamente resolvido, não é possível recorrer a uma regra de julgamento aplicável ao discurso de ambos os lados. O diferendo não é uma mera oposição de opiniões nem se resolve accionando os mecanismos da democracia.

Os que “amam” muito os touros e os torturam e matam

(Pacheco Pereira, in Público, 17/11/2018)

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A ideia de que ser a favor ou contra as touradas é uma questão de liberdade de expressão é um absurdo. Ser a favor ou contra as touradas é uma questão de civilização e, por muito que a palavra esteja gasta, nós sabemos muito bem o que é. É o mundo frágil que nos faz viver melhor, mais tempo, com menos violência do que no passado. É completamente frágil e contraditório, muitas vezes anda para trás e poucas vezes anda para a frente, mas representa o melhor da vida possível, feito por um olhar humanista sobre as coisas, que inclui condenar, limitar, punir a violência.

É o mundo em que há direitos humanos, em que os homens e as mulheres são iguais, é o mundo em que as mulheres e as crianças são protegidas da violência doméstica, é o mundo em que o direito de viver de forma livre o sexo é garantido, é o mundo em que a tortura, a pena de morte, o genocídio são condenados, é o mundo em que há liberdade religiosa, de opinião, política, etc., etc. Sim, é verdade que é também o mundo em que tudo isto não existe, mas escolham. Pode não ser o mundo que temos, mas é o mundo que desejamos.

Os animais não podem ter “direitos” equiparados aos direitos humanos, mas faz parte de uma sociedade humana que valorize a ética e combata todas as formas de violência olhar para os animais com um sentimento de especial proximidade que está para além da domesticidade.

Os movimentos a favor dos animais, ou melhor, os movimentos contra a crueldade com os animais, fazem parte da tradição humanista dos séculos XIX e XX. A ideia central era que o modo como tratamos os animais era um sinal de como tratávamos os homens, a crueldade contra os animais era um sinal de uma violência institucionalizada que não se limitava aos animais, mas se estendia aos homens, mulheres e crianças.

Não me estou a referir a nenhuma das variantes radicais modernas dos direitos dos animais que fazem parte da moda dos nossos dias. Não é isso, não tem que ver com aviários, nem com matadouros, nem com as mil e uma formas de industrialização da produção de alimentos, algumas das quais ganhavam em ser menos cruéis. Nem com a caça. A caça tem um valor económico, e tem um papel no controlo das espécies, e é cada vez mais moldada pela lei de modo a que o seu carácter lúdico seja subordinado a estas necessidades.

Tem que ver com as touradas. Podem dar as voltas que quiserem, mas as touradas são a exibição pública da tortura de um animal, que é esfaqueado para enfraquecer e depois, no caso das touradas de morte — que todos os defensores das touradas desejavam poder ter sem limitações —, ser morto. As touradas vivem do sangue, da dilaceração da carne, do cansaço até ao limite e da morte. Podem ter todos os rituais possíveis, ter toda a “arte” de saracotear à volta de um bicho, mas as touradas não são uma arte, são a exibição circense de um combate desigual entre homens e animais, cuja essência é a sua tortura para gáudio colectivo.

Não é um combate de iguais. Na verdade, os combates de cães e de galos — proibidos não se sabe porquê à luz da permissão das touradas — são muito mais um combate entre iguais do que o homem de faca e o touro sem armas a não ser os chifres, que muitas vezes são embolados. Mas é o sangue e a morte que fazem o espectáculo e, ao serem um espectáculo, são um sinal de barbárie.

O argumento da tradição também não é argumento. Se há coisas que a tradição encobre é um vasto conjunto de práticas que felizmente hoje são consideradas inaceitáveis, desde a violência doméstica à discriminação dos homossexuais, à excisão feminina, à pena de morte, à legitimação da tortura. Se aceitamos que a “tradição” por si só legitima a violência e crueldade, então podemos voltar ao “cá em casa manda ela e quem manda nela sou eu” e toca de lhe bater.

Os argumentos dos defensores das touradas são a versão portuguesa dos argumentos da National Rifle Association nos EUA, que também se identifica como uma “associação de direitos civis” e usa o argumento da tradição para justificar uma sociedade banhada de armas e em que a violência dos massacres é sempre culpa de outra coisa que não sejam as armas.

As histórias ridículas de como os defensores das touradas “amam os touros” (sic), de como prezam a valentia dos animais, de como o “touro bravo” enobrece os campos do Ribatejo, para depois ser trazido à arena de tortura e morte como se esse fosse o seu destino teleológico, a cultura machista da “coragem” perante os mais fracos (o touro é o mais fraco dentro da praça), devem pouco a pouco envelhecer no passado. É isso mesmo que chamamos civilização.

O mundo em que vivemos é duro, desigual, injusto, violento. Quem saiba história sabe que não há maneira de o tornar limpinho, higiénico, pacífico, nem em séculos, quanto mais numa geração. Mas acabar com as touradas, com a tortura dos touros para satisfação sádica das massas, é um passo no bom sentido. Porque senão vivemos na pior das hipocrisias em que matar ou tratar mal um cão e um gato pode levar à prisão — e bem —, mas em que no meio de cidades e vilas de uma parte do país podemos aplaudir a tortura, o sangue e a morte.

O ADMIRÁVEL MUNDO SEM EMPREGO

(Por Daniel Oliveira, in Expresso,  ilustração Gonçalo Viana)

O medo de um mundo sem trabalho é tão antigo como a tecnologia. Só que estamos perante uma alteração sem paralelo na História. Pela rapidez e pela capacidade de as máquinas garantirem o seu próprio desenvolvimento, dispensando-nos de quase tudo.

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O entusiasmo correu as plateias das sessões do Web Summit de cada vez que alguém, no palco, prometeu que determinada função, criativa ou não, dispensaria a intervenção humana. A excitação dos humanos presentes faria qualquer pessoa lúcida perguntar: “Então e nós, o que vamos fazer?” Não consta que alguém se tivesse lembrado de fazer tal pergunta. E, no entanto, as funções de que se estava a falar não eram, como no passado, repetitivas e monótonas, das quais queiramos realmente ser libertos. São as coisas que gostamos de fazer, pelas quais nos podem pagar e das quais nos querem dispensar.

A convicção geral é que, tal como aconteceu no passado, depois de algumas atividades humanas passarem a ser cumpridas por máquinas encontraremos outros trabalhos. Como já não estamos a ser dispensados de funções básicas, mas de tarefas elaboradas e até criativas, isto implica que não sobrará nada para quem não saiba fazer coisas extraordinárias. E mesmo esses acabarão por ser substituídos. É por isso que a acusação de ludismo para calar quem olhe com desconfiança para este movimento civilizacional é inadequada. A dúvida sistemática perante os avanços tecnológicos é um dever de todos os seres inteligentes. Porque a História não é, ao contrário do que pensam os incautos, uma caminhada triunfante para a felicidade.

Apesar de já ser possível ter conversas inesperadas com computadores, ouvir música e ler textos totalmente criados por inteligência artificial, ainda estamos noutra fase: a generalização de robotização de funções humanas que, não sendo repetitivas, ainda não são as mais criativas. Em Pittsburgh, uma cidade simpática, cheia de colinas e serpenteada por um rio, a Uber já tem carros autónomos em funcionamento, em fase de teste. A Google estava a testar os seus em Mountain View (Califórnia), Austin (Texas), Kirkland (Washington) e Phoenix (Arizona), mas recentemente parece ter desistido de desenvolver um carro próprio e deverá dar prioridade a parcerias com empresas como a Fiat Chrysler. Ainda assim, tem planos ambiciosos para entrar no mercado dos táxis autoguiados, competindo com a Uber e a nuTonomy. Os primeiros táxis autónomos da nuTonomy já começaram a ser usados em Singapura, em agosto. Empresas como a General Motors e todos os gigantes da indústria automóvel apostam no crescimento de dois novos segmentos de mercado: os carros elétricos e os carros autónomos.

A tecnologia não é boa nem má. É uma forma de poder e depende sempre de quem o tem

Ainda não chegámos à fase tão desejada: continua a haver uma pessoa atrás do volante, para qualquer eventualidade. Mas na maior parte do tempo o carro funciona sozinho e o condutor é redundante. Diz-se que entre 2018 e 2022 estes carros terão total autonomia e que em 2026 estarão capazes de entrar no mercado sem restrições. Um estudo da empresa IHS Automotive, citado num artigo recente da “New York Review of Books” (“Our Driverless Future”), previa que em 2050 quase todos os veículos fossem autoguiados (a Universidade de Michigan fala de 2030). Na China, a Baidu diz que terá os seus primeiros carros autónomos prontos para venda daqui a dois anos. Um anúncio considerado arrojado. No artigo recorda-se que para um sistema deste género poder ser realmente usado precisa de três garantias: rapidez de reação em tempo real, 99,999% de fiabilidade e um nível de perceção melhor do que o dos humanos. Nenhuma delas está assegurada e muitos acham que a fase final do desenvolvimento tecnológico será a mais difícil. E há o que está para lá da tecnologia. Mesmo sem total autonomia, o condutor eventual perde a concentração e dificilmente consegue reagir com a atenção e perícia normal quando a máquina falha. Uma insegurança que criará muitas resistências à utilização destes veículos. E há questões jurídicas — o sistema de seguros, por exemplo — e até éticas — as escolhas humanas, até na condução, carregam dilemas morais. Mas a verdade é que através do GPS, radar, LIDAR, sonar, IMU, mapas e comunicação entre carros autónomos, a inteligência artificial destes veículos vai permitindo, à medida que vão sendo testados, cada vez mais capacidades.

O caminho parecer ser inexorável: nos próximos 30 anos a mobilidade sofrerá uma revolução comparável às que fizeram nascer os caminhos de ferro, popularizaram o automóvel ou criaram as companhias aéreas comerciais. O carro autoguiado pode levar a uma revolução no transporte urbano. É provável que cada vez mais pessoas comecem a dispensar o carro próprio e o sistema de carsharing, que continua a ter um peso marginal (prevê-se que em 2020 seja usado por 1% dos norte-americanos), vá ganhando terreno. Mas deixará o carro de ser um elemento de distinção social? Não é absurdo que, na geração do Uber, isto possa acontecer. Sobretudo se políticas fiscais e de planeamento urbano tornarem cada vez mais cara a propriedade e a utilização de carro próprio. Mas, para refrear otimismos excessivos, a cidade de Singapura fez tudo isto e o resultado foi praticamente nulo.

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Os efeitos da introdução maciça de carros elétricos autoguiados e partilhados seriam extraordinários para o ambiente e para a qualidade de vida urbana. Mas neste tipo de assuntos o pessimismo é sempre um bom conselheiro. Nunca devemos esquecer o que os interesses económicos relacionados com um determinado desenvolvimento tecnológico farão para transformar o que parece garantir a nossa liberdade em novas formas de dependência. Não era a internet um espaço de liberdade individual, onde finalmente nenhum Estado nos calaria? E não andamos nós a debater o poder censor do algoritmo? Não era a internet um novo e inviolável espaço de privacidade? E não passou a ser uma forma de entrar em todos os recantos da nossa vida e controlar cada um dos nossos movimentos, como nunca o mais totalitário dos Estados alguma vez conseguiu? Não eram as redes sociais um novo e imparável instrumento de participação cívica? E não se transformou num dos mais eficazes instrumentos contra a democracia? A tecnologia não é boa nem má. É uma forma de poder e depende sempre de quem o tem.

No caso dos carros autoguiados e partilhados, se estes conseguirem entrar no mercado em força, é provável que os monstros económicos em que se transformarão as empresas que dominarem este mercado (sejam os atuais gigantes da indústria automóvel, seja a Google, a Uber e as suas concorrentes) comecem a pressionar para reduzir o investimento em transportes públicos. Não seria de espantar que oferecessem viagens muito baratas ou gratuitas em troca de informação sobre nós, sobre os nossos movimentos e sobre os nossos consumos. Começarem a fazer na rua o que já fazem no mundo digital. Mas a revolução na mobilidade é apenas o sinal mais evidente, mesmo a despontar, da mudança radical que a robotização provocará nos nossos modos de vida e as possibilidades abertas pelo extraordinário desenvolvimento da inteligência artificial. E é no mundo do trabalho que tudo mudará de forma mais radical.

Menos cinco milhões de empregos

Por enquanto, as perdas de emprego acontecem nas atividades mais óbvias. Em maio, a multinacional de Taiwan, Foxconn, conhecida por fornecer a Apple ou a Samsung, substituiu 60 mil dos seus 110 mil trabalhadores por robôs. Nos Estados Unidos abriu a primeira cadeia de fast food quase totalmente automatizada. Na Eatsa, que tem quatro lojas na Califórnia e uma em Washington DC, os pedidos são feitos num iPad da loja, recebidos nuns cubículos de vidro, sem nunca se ver um ser humano. Até ver, só há cozinheiros. Mas nada disto é uma revolução. Essa virá depois.

O maior estudo sobre as mudanças no emprego foi feito pelo Fórum Económico Mundial (FEM) e divulgado já em 2016. “The Future of Jobs” concentrou-se em 15 economias desenvolvidas ou emergentes que correspondem a 65% da força de trabalho global. A conclusão do que se espera entre 2015 e 2020 dá-nos razão para todos os temores. Só nestas economias serão perdidos 7,1 milhões de empregos, compensados pela criação de apenas 2,1 milhões. E as previsões são, avisa o FEM, conservadoras. Grande parte das tecnologias de que ouvimos hoje falar chegará ao ponto extremo de mudança em 2025 (apenas daqui a oito anos) e em 2030 as atividades económicas estarão irreconhecíveis por via da automação. Em resumo, nos próximos anos assistiremos a uma mudança ainda mais radical do que aquela que sentimos desde que surgiu a internet. Nas últimas décadas a rede contribuiu para efeitos em cadeia: globalização de mercados, financeirização da economia, ciclos de crises cada vez mais curtos, crise dos media tradicionais, atomização da sociedade, redução do poder dos Estados, crescimento de movimentos políticos xenófobos. Imaginem o que nos espera nas próximas décadas.

À quarta revolução industrial — inteligência artificial e machine-learning, robótica, impressão 3D, nanotecnologia, genética e biotecnologia — juntam-se novos fatores económico-sociais, como a crescente volatilidade geopolítica, os jovens e a classe média nos mercados emergentes e as alterações climáticas. Apesar de rápida, não é uma evolução nem linear nem simultânea. A internet móvel e a tecnologia de cloud já tiveram o seu maior salto; a economia de partilha e o crowdsourcing tenderão a estabilizar nos próximos três anos; as novas energias ainda terão uma evolução significativa; e o desenvolvimento da robótica, dos transportes autónomos e da inteligência artificial só se sentirá a sério no final desta década, lançando, até 2025, o mundo para um novo e arriscado patamar civilizacional. E mudando radicalmente o mercado de trabalho.

A mudança será sentida com especial violência entre os trabalhadores administrativos, com perdas colossais de emprego. E entre os operários, mas isso não é novo. Em algumas profissões mais especializadas, nas áreas informáticas, da matemática e da engenharia, surgirão os novos empregos, mas em muito menor número. Analistas de dados e representantes de vendas especializados são áreas prometedoras. Outras, como a finança, as infraestruturas e os transportes sentirão fortíssimas alterações. Das 15 economias estudadas prevê-se um cenário de emprego positivo para o Sudeste asiático, com a criação de 3,72 empregos por cada um perdido, México (3,06), Reino Unido antes do ‘Brexit’ (2,91), EUA (1,37) e Turquia (1,14). Todas as restantes dez economias perdem emprego, algumas delas em larga escala, com destaque para França e Brasil. Como a participação das mulheres em várias áreas em crescimento é menor, estima-se que por cada emprego feminino criado se perderão cinco enquanto nos homens a relação será de um para três.

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Mudança: A Google estava a testar o seu carro autónomo, mas recentemente parece ter desistido. Agora deverá dar prioridade a parcerias com empresas

Os gestores e empresários parecem estar mais interessados em investir nas capacidades dos seus trabalhadores do que em contratar mais precários ou colaboradores virtuais. Uma boa notícia que no entanto reforça a ideia de que o trabalho se concentrará nas mãos de alguns, a quem será exigido cada vez mais, enquanto ao lado engrossa o exército de desocupados. Ao contrário das revoluções tecnológicas anteriores, esta não demorará uma geração. Mesmo que a educação chegasse, teria de ser para quem já está na vida profissional ativa. Mas a educação não chega, porque os empregos criados serão, depois desta primeira fase, cada vez menos. Incluindo nas áreas especializadas.

Um estudo de 2013, de Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, da Universidade de Oxford (“The Future of Employment: How Susceptible are Jobs to Computerisation”), previa que cerca de 47% dos empregos dos Estados Unidos estariam em risco de automação numa ou em duas décadas. Para demasiada gente a questão já não é saber se vai perder o emprego para um computador, é saber quanto tempo levará até que isso aconteça. É verdade que o medo de um mundo sem trabalho é tão antigo como a tecnologia. E, no entanto, a economia cresceu e houve mais emprego depois de cada uma das revoluções industriais. Só que se este estudo está certo, não vale a pena procurar um padrão no passado. Estamos perante uma alteração sem paralelo na história. É uma revolução industrial toda concentrada apenas numa parte da vida de uma só geração, sem as possibilidades de adaptação do passado.

Este estudo é citado no livro de referência sobre o tema, que já está traduzido para português: “Robôs – A ameaça de um futuro sem emprego”. O autor, Martin Ford, empresário de Silicon Valley, garante que “mesmo o trabalho dos engenheiros de software poderá brevemente ser largamente computorizado”. Numa entrevista ao “Dinheiro Vivo”, em julho deste ano, Ford explicava que se numa primeira fase a tecnologia criará novo emprego, a tendência será para que as máquinas venham a substituir os empregos altamente qualificados. O que quer dizer que, a prazo, nem os países que invistam muito em educação se salvarão da perda de emprego. O avanço na inteligência artificial cria um novo mundo, em que as máquinas aceleram o seu próprio desenvolvimento. Ao contrário do que aconteceu com o anterior processo de industrialização, não ficaremos apenas livres do trabalho físico. O trabalho intelectual, de que o desenvolvimento tecnológico costuma precisar, também empregará, a médio e longo prazo, cada vez menos pessoas.

Jerry Kaplan, um cientista e empreendedor que dá aulas em Stanford, diz, em “Humans Need Not Apply: A Guide to Wealth and Work in the Age of Artificial Intelligence”, citado num número recente da “The New Yorker”, que “quando a maioria das pessoas pensa em automação tem em mente a simples substituição de trabalho ou a melhoria da velocidade de produção, não a mais extensiva disrupção causada pela reengenharia”. Dessa reengenharia, que permite às máquinas garantirem a sua própria evolução e reinvenção, resulta a certeza de que por mais que um negócio se expanda não vai contratar mais humanos.

No mesmo artigo propõe-se uma análise há muito imaginada por académicos. Pensando em dois eixos — trabalho manual ou intelectual, trabalho rotineiro ou não rotineiro —, temos quatro tipos de funções. Nos extremos, o trabalho manual não rotineiro — servir às mesas, limpar quartos de hotel —, que é geralmente o mais mal pago; e o trabalho intelectual não rotineiro — gestão de fundos de risco, advocacia, produzir um programa de televisão, trabalho criativo —, que é regra geral o mais bem pago. No meio, está o trabalho manual rotineiro, que a comutação tornará redundante (a robotização das linhas de montagem já nem sequer é uma novidade); e o trabalho intelectual repetitivo — administrativo, por exemplo —, que será, nos próximos anos e em larga escala, substituído por computadores. Ou seja, antes de atingir os assalariados mais pobres e desqualificados e os mais abonados e qualificados, atingirá em cheio o grosso da classe média. Depois, serão os restantes. E isto bate certo com as previsões do FME. O que quer dizer que impedir a partida de fábricas para a China não resolve grandemente o problema: a própria China está a tratar da automação das suas fábricas e são outros os empregos que se começarão agora a perder no Ocidente. E muitos deles não vão para lado algum.

Receber para não trabalhar

Martin Ford prevê, com alguma satisfação, um futuro sem postos de trabalho: “Se um dia a maioria de nós não precisar de trabalhar, isso poderá ser uma coisa boa. Nós conseguimos adaptar-nos.” E com essa alegria jovial que domina quase todos os deslumbrados pela tecnologia, porque ela “sempre nos deixou melhor”, vê um mundo perfeito onde as pessoas passam mais tempo com a família e a trabalhar: “Não temos de encontrar sentido na vida na mesma fonte de onde vem o nosso rendimento.” Reconhecendo que é difícil viver numa sociedade onde não há emprego, Ford afirma: “Se quisermos que o capitalismo continue, vamos ter de encontrar uma forma de pôr dinheiro nas mãos das pessoas. Se não houver empregos, precisaremos de outro mecanismo como o rendimento básico.”

Perante o provável crescimento do desemprego e do subemprego, o Rendimento Básico Incondicional (RBI) tem ganho cada vez mais adeptos. Trata-se de uma prestação do Estado que seria dada a todos os adultos, empregados ou desempregados, no mesmo valor. Na União Europeia milhares de cidadãos têm pressionado as autoridades para que a adoção deste instrumento comece a ser debatido e na Suíça a proposta foi a referendo em junho, tendo sido recusada por 77% dos eleitores. Daniel Häni, um dos principais impulsionadores da consulta popular, explicou ao “Financial Times” o desencontro em que vivemos: “O nosso sistema social tem 150 anos e é baseado na resposta de Bismarck à Industrialização 1.0.” E defendeu que é necessário um sistema adaptado a esta nova industrialização. Mas vale a pena recordar como o Estado social, que respondeu tardiamente à industrialização do século XIX, se deparou com o mesmo problema e nem por isso pretendeu substituir o emprego por apoios sociais. Pelo contrário, promoveu como objetivo central o pleno emprego.

Para demasiada gente a questão já não é saber se vai perder o emprego para um computador, é saber quanto tempo levará até que isso aconteça

Há bons argumentos a favor do RBI: o facto de as pessoas terem um rendimento garantido permite que recusem condições inumanas de trabalho e é um bom instrumento de combate à pobreza que evita critérios discricionários do Estado, tão visíveis no cada vez mais difícil acesso a apoios que resultam de descontos feitos pelos trabalhadores. Tem, sobre o RSI, a vantagem de dar a todos por igual, não permitindo que desenvolvam discursos populistas. Mas não é por acaso que cada vez mais liberais aderem à ideia, apesar de, à partida, um subsídio do Estado para todos ser um pouco estranho às suas convicções. O inevitável aumento do desemprego e do subemprego para níveis impensáveis até hoje levanta um problema ao capitalismo: falta de consumidores. Alguém tem de consumir as coisas extraordinárias que as máquinas que nos vão tirar o emprego irão produzir. E como o processo que aqui vivemos acabará por chegar às economias emergentes, o problema também será vivido nesses mercados. O RBI poderia transformar-se numa espécie de subsídio ao consumo para quem foi excluído do papel de produtor.

O problema não é o RBI desincentivar a procura de trabalho. Nisto, Roberto Merrill, um dos principais defensores da ideia em Portugal, investigador e autor do livro “Rendimento básico incondicional: uma utopia realista para o século XXI”, tem razão no que escreveu em 2014: “A ideia de que o RBI é um incentivo à preguiça corresponde sobretudo a um preconceito cultural e social, e não a uma verdade empiricamente comprovada. Os estudos empíricos realizados com o objetivo de averiguar a objetividade desta conceção, no Brasil, na Namíbia e em vários países da União Europeia, demonstraram que entre as pessoas que recebem uma renda incondicional apenas um número reduzido opta por mudar de trabalho e as que o fazem é com o objetivo de encontrar um trabalho que corresponda mais às suas capacidades e gostos.” A questão é se este rendimento desincentiva a sociedade a ter como meta o pleno emprego e se transfere da economia para o Estado o provir de uma parte muito significativa da população. De uma sociedade de trabalhadores passaríamos a uma sociedade de subsidiados. E isso terá um preço.

O trabalho continua a ser a forma mais eficaz de inserção social. Viver numa sociedade onde a maioria das pessoas não tem emprego minimamente estável é viver numa sociedade deslaçada, mesmo que essas pessoas tenham rendimento. A democracia precisa de comunidade e não há sentimento de comunidade se não houver a convicção geral de que todos contribuímos e recebemos de acordo com as nossas possibilidades e necessidades. Uma sociedade onde uma minoria contribui com o seu trabalho e uma maioria está condenada a não trabalhar e só receber será, mesmo sem pobreza, uma sociedade disfuncional. Mesmo que pagássemos muito (coisa impossível) a quem não trabalhasse. Não é difícil perceber que uma sociedade assim teria de viver com a insatisfação da minoria que trabalha e sente sustentar o resto dos cidadãos e com a frustração de quem não trabalha e não tem, além do rendimento que o Estado lhe dá, qualquer perspetiva de progressão. Alguém sinceramente acredita que a democracia resistiria a este sentimento de injustiça, de um lado, e de menoridade, de outro? Alguém acredita que uma sociedade onde metade das pessoas não seja remunerada pelo seu trabalho pode funcionar? Se fosse para garantir rendimento por via de dinheiro do Estado, seria bem mais eficaz e interessante a criação de emprego público útil para novas funções sociais.

Recusando o ludismo, qualquer alternativa tem de passar por novas partilhas de trabalho num mundo que será, inevitavelmente, robotizado. Se aceitarmos, por exemplo, que em vez de sermos menos a trabalhar temos todos de trabalhar menos, talvez trilhemos o caminho certo. Até porque a concentração do trabalho em poucos tenderá a sobrecarregar esses poucos, que tudo aceitarão perante o gigantesco exército de reserva de desempregados, pronto para lhes tirar o lugar. Claro que para reduzir horários de trabalho sem perda salarial é preciso voltar a equilibrar a distribuição do rendimento entre trabalho e capital (que regressou aos desequilíbrios do início do século XX) e impedir que a competitividade se faça através da desregulação laboral. Num mercado de trabalho totalmente liberalizado não se reduzem horários porque nada realmente se negoceia.

Rohan Silva, o ex-conselheiro de David Cameron para o empreendedorismo e cofundador da Second Home, fez elogios rasgados a Lisboa. Mas, numa entrevista ao “Público”, identificou um problema: as nossas leis laborais. É um clássico e poucas são as economias que não são vítimas desta critica. Só que leis mais flexíveis, desequilibrando ainda mais a balança do poder negocial, acabarão por aprofundar o que já existe: alguns trabalham imenso, muitos trabalham quando é preciso, imensos não têm trabalho. Infelizmente, seria para financiar esta tendência, e não para permitir um tempo de conforto onde todos têm o mínimo e trabalham o que querem, que o RBI seria aproveitado. Parafraseando a banda Timbuks 3, o futuro é tão brilhante que temos de usar óculos escuros.