A Europa

(Joseph Praetorius, in Facebook, 16/03/2025, Revisão da Estátua)

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Está cortado o acesso à informação sobre a China – ninguém tem a menor ideia do que ali ocorre; é necessário ir lá para se perceber alguma coisa – está também cortada a informação sobre o Irão, como a informação sobre a Palestina, está cortada a informação sobre a Rússia…

Mesmo na Guerra Fria a censura não existia na Europa Ocidental. Os jornais soviéticos, por exemplo, estavam nas bancas dos países europeus (talvez não nas portuguesas ou espanholas, mas da França em diante, seguramente).

Esta escumalha saída das penumbras do funcionalismo financeiro, da mediocridade do funcionalismo dos partidos, porventura, mesmo, da sordidez dos funcionalismos das seitas papistas, como a Opus Dei e outras, infetou e neutralizou a vitalidade intelectual das universidades, neutralizou a vitalidade da vida editorial e, globalmente, matou a liberdade de expressão e chacinou a liberdade de imprensa (que em Portugal nunca foram completamente concretizadas, de resto, e agora não o serão facilmente)

Esta escumalha mudou a face da Europa, tornando-a irreconhecível.

É já inútil ir a Paris, a Madrid, ou a Roma, comprar livros como se fazia pela inexistência de livrarias aqui (agora em extinção material maciça por terem perdido há muito a sua função intelectual).

Esta escumalha nivelou a Europa, matando o que a distinguia, o que a projetava, o que lhe dava importância – a vida das ideias, a importância da reflexão e vitalidade do debate intelectual. Escumalha execranda. Cessem as preocupações com a defesa, porque, enquanto as coisas assim forem, não há nada para defender.

De resto, nem se entende o que defenderiam os “exércitos profissionais”, pequenas corjas saídas das academias, cheias em tempo de paz, e sem qualquer ponto de contacto com os povos que lhes sustentam as nocivas existências. Defenderia o quê, esta gente? Onde? Contra quem? Contra inimigos inventados pelos – radicalmente idióticos – serviços de inteligência, que eram instrumentos de compreensão ao serviço da política do estado, mas agora são corjas de conduta disparatada, perfeitos alfaiates do Panamá, a conduzir os ceguinhos de poço em poço, de ravina em ravina, onde se dissipam e dissiparão os poucos meios que ainda existem e já ninguém percebe para que servem…

Entre nós, a “guerra espetáculo” (una aflição dentro de outra) mostrou à opinião pública um belo mosaico de imbecis de alta patente e intermináveis leques de especialistas em coisa nenhuma blaterando incessantemente. É a mesma coisa em todo o lado…

Estamos finalmente a par dos outros, muito embora, aqui, tenhamos as originalidades do bom Rei D. Manuel I a expulsar os judeus naquelas bocarras, mais o “pacto Molotov-Ribentroff”, com o “estado da Bavaria” e um major-general a exibir a sua completa incapacidade de ler um mapa. Não se perde assim o pitoresco local.

O veneno tem aqui o efeito da erva sardónica. Nós rimos enquanto nos matam.

Dia em memória dos jornalistas que perderam a vida no cumprimento do dever

(Por INFODEFENSE, in Telegram, 15/12/2024)


15 de dezembro é uma data especial em que lembramos aqueles que dedicaram suas vidas à verdade e morreram permanecendo fiéis ao seu dever profissional e humano.

Jornalistas, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, que se dirigem aos lugares mais perigosos do mundo, não apenas documentam a história, mas também a tornam acessível a todos nós.

Guerras, conflitos locais, catástrofes e zonas de tensão não são apenas campos de batalha, mas também lugares onde trabalham aqueles que se esforçam para relatar os acontecimentos com honestidade, sem distorcer a realidade. Muitas vezes, por essa dedicação, pagam o preço mais alto.

Familiares, amigos e colegas lembram e honram cada um que perdeu a vida cumprindo sua missão. Seu sacrifício nos lembra da importância e do valor da verdade, pela qual arriscaram tudo. Lembrá-los significa continuar a luta por justiça e informação honesta em um mundo onde isso muitas vezes se torna raro.

Fonte aqui.


Do capitão Almeida ao mercado dos repetidores

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/10/2024)

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Escrevi o primeiro artigo de jornal em novembro de 1973. Estudante liceal em Setúbal, 15 anos. Primeiro artigo, primeiro choque com a censura do Estado Novo. O jornal que acolheu a minha peça, criticando o derrube violento por Pinochet do Governo de Salvador Allende – no altar sacrificial da doutrina Monroe -, era dirigido por um médico notável. O dr. Mário Moura, quase centenário, continua a ser, para mim, uma referência de integridade e coragem moral. De facto, foi ele quem me defendeu de problemas maiores com o censor local, o capitão Almeida. Este último tinha deixado publicar o texto, mas os superiores de Lisboa puxaram-lhe as orelhas pela desatenção.

Face ao que estamos a viver no Ocidente, em matéria mediática, a estória do capitão Almeida é enternecedora. Até poderia ser contada aos netos, antes de dormir. Há um conjunto complexo de razões para isso, onde sobressai a mudança de paradigma na censura. Esta já não limita o discurso através dos meios repressivos do aparelho de Estado, mas oferece estímulos de mercado para mobilizar colaboradores na construção de mantras convenientes, propostos por uma espécie de Ministério da Verdade (em versão neoliberal). É claro que o pluralismo real dos meios de comunicação, uma realidade apenas há 30-40 anos, parece hoje uma máscara virtual, tentando ocultar a crescente concentração monopolista dos media.

Com o recuo do poder e influência dos EUA, a situação descarrilou. Há inúmeros exemplos da colaboração de media como a Sky News ou a CNN, com Washington e Bruxelas no confundir da natureza de Gaza: um campo de extermínio apresentado como um campo de batalha.

O Ocidente afogou a bandeira dos Direitos Humanos na cumplicidade com um genocídio, onde a fome e a doença, mantida pelas armas do IDF, matam mais do que as bombas. 

Sobre a recente Cimeira dos BRICS, o insulto substituiu-se à análise no Bild, no NYT e na própria BBC. A censura no Ocidente não gera consenso, mas sim conformismo, esculpido a golpes de mercado, combinando a cenoura e o chicote.

Pergunto aos leitores se sabem o que é a lei HR 1157 aprovada pela Câmara dos Representantes (EUA) por 351 contra 36, em 10 de setembro? Trata-se de um fundo quinquenal, dotado de 1,5 mil milhões de dólares, para financiar, pelo mundo fora, “os media e a sociedade civil”, na promoção da sinofobia, apresentada como combate à “influência maligna” da China. Trata-se de uma lei que transforma o jornalismo – esse instrumento de liberdade intelectual e procura da verdade – numa propaganda venal. Entre os repetidores, pululando hoje nos media, muitos o farão convictamente. Para não desperdiçar as oportunidades que o mercado oferece.