Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIII

(Por José André Campos Ferreira, in Estátua de Sal, 31/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Strategic Culture Fondation ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 31/10/2022)


 Império russo:

– Russo, muito pouco falado no estrangeiro.
– O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1991, na crença de que já não havia um inimigo americano.
– Sem porta-aviões (não são necessários, pois permanecem em casa a maior parte do tempo)

O Império Americano:
– Numerosas bases em todo o mundo, incluindo áreas que são territórios dos EUA.
– Com a omnipresença da língua inglesa no mundo, (mesmo no Parlamento Europeu quando já não há inglês)
– Satélites Starlink permanentemente aéreos.
– Controlo dos exércitos de outros países através da NATO
– 11 porta-aviões necessários para o controlo militar global

Há angústia do decrescimento imperial está mais do lado das multinacionais financeiras anglo-saxónicas, basta seguir as curvas da estagflação da economia ocidental, do declínio do nível de vida per capita, do desemprego, da agitação social e de várias crises de identificação.

No contexto desta guerra, existe obviamente um conflito de civilizações: entre um homem completamente desconstruído (“ocidental” para simplificar) e um homem “tradicional” ligado a uma história, uma família, uma religião, um território… No Ocidente, ainda há propaganda sobre uma democracia que permanece, no máximo, num horizonte distante. A europa, está dependente da energia. Poderíamos continuar e continuar… As alternâncias políticas não mudam nada. Em suma, quando ouço que “a Ucrânia está a defender a democracia” sinto-me como se estivesse a ser tomado por um tolo, ou burro.

Os valores ocidentais são aplicáveis apenas na Ucrânia.
Porque é que os valores ocidentais não são aplicados à Arménia, um país que está a ser atacado por outro país que está cheio de gás, o Azerbaijão, que está a aguçar o apetite dos países ocidentais. O agressor aqui é apoiado e armado por Israel, pelos EUA e pela Turquia. Os valores europeus não são senão uma hipocrisia.

Claro que a Rússia e a China não são democracias, mas será que nós próprios continuamos a ser democracias?
Desde que os principais meios de comunicação social estão nas mãos dos oligarcas e influenciam grandemente as eleições para manter uma casta de tecnocratas que têm pouca preocupação, ou nenhuma com o bem público e os interesses daqueles que os colocam no poder, mas que são servidores de um sistema financeiro internacional, podemos perguntar a nós próprios.

É realmente a vontade do povo Português ser dissolvido num mundo globalizado, dividido em comunidades e finalmente escravizado por interesses fora do seu controlo?

O problema com o discurso dos europeístas é que eles pensam sempre que sabem qual é o melhor sistema de governação para os outros em vez de reverem o funcionamento da sua própria democracia. É engraçado ouvi-los dizer cada vez que Putin é aprovado por 70-80% da sua população e que é um ditador autocrático, enquanto em casa na Europa não sabemos quem elege os seus líderes e como chegaram a estas posições!

Os líderes ocidentais podem ter métodos diferentes, mas não são diferentes daqueles a que chamam ditadores.

Na UE não há democracia mas sim idiocracia. Não gosta de ter a guerra na Europa perto de si e prefere exportá-la para outro lugar, Iraque e Líbia sabem muito sobre ela. Não têm vergonha, matando dois presidentes de países soberanos com impunidade, os assassinos continuam a monte.

A Europa continua a seguir a política dos EUA apesar da crise energética que a está a abalar seriamente e a ameaçar a sua economia. A guerra na Ucrânia é sobretudo um assunto para a Europa como um todo e não para os EUA, especialmente no caso da utilização de armas nucleares ou químicas, que deve ser acordada com a Rússia. É portanto mais que tempo de a Europa decidir por si própria sobre o futuro das suas populações que viveram as atrocidades das duas guerras mundiais!
Os europeus não sabiam como fazer as suas escolhas após o colapso da URSS, onde era necessário na altura, após a implementação da perestroika por Gorbatchov, reformar o sistema, sim, a Europa teria iniciado mesmo um convite da nova Rússia para a integração da marcha que foi feita para a criação da futura comunidade europeia em 93.

É certo que a Rússia deve encontrar o seu lugar na comunidade europeia da qual faz parte geograficamente, o que levará ao derretimento da NATO, que é apenas um conjunto de problemas para os países europeus e para o mundo inteiro, e é assim que a ameaça russa terminará com a sua integração.

“Vladimir Putin, acaba de explodir a era dos combustíveis fósseis.
Ele desencadeou um movimento global e determinado na Europa, apoiado pelos EUA, para se afastar dos combustíveis russos e acelerar a eficiência e as energias renováveis.
Era para lá que a Europa se dirigia de qualquer forma, mas agora está a avançar muito mais depressa.
Então a guerra na Ucrânia é um o jogo da transição energética?

Esta guerra pôs em prática um imposto global sobre o carbono muito maior do que os economistas queriam pôr em prática para proteger o clima.

É claro que não é exatamente um “imposto”, não é aplicado da forma correta e está a causar muitos problemas. Mas como um “sinal de preço” [o custo mais elevado da energia e o seu impacto nos transportes, por exemplo], dará um grande estímulo à mudança para a eficiência e as energias renováveis.
E se a Europa continuar a afastar-se do petróleo, gás e carvão com a visão e determinação que tem demonstrado até agora, então o grande sofrimento infligido por Vladimir Putin não terá sido inteiramente em vão.”

Seja intencional ou não, este tipo de informação não é dada: O ganho territorial mineral russo na Ucrânia é estimado em 13 triliões de dólares e este aumentará com a captura de Odessa. Fonte: Washington Post. Quanto ao declínio do dólar, este foi desvalorizado em 95% e o euro em 85% em relação ao ouro. Todos os economistas sabem disto.

A Rússia não está sozinha e os países amigos não são como os países ocidentais. O mundo sabe que o Ocidente é um continente com o qual não se pode contar, e eles escolheram o seu lado.

É preciso pensar sempre nos recursos naturais que cada país possui. Isto muda completamente o padrão e os números ‘ocidentais’. A Rússia, o Cazaquistão, a Mongólia, vários países da África Central, e claro o Médio Oriente, podem muito rapidamente recuperar, apagar as suas dívidas e esmagar o seu poder em 3 anos. Isto é o que os BRICS+ e a OPEC+ estão a demonstrar.
O petrodólar já não será a única referência num futuro próximo, nem mesmo na América do Sul e Venezuela (na OPEP+).

Este Inverno será duro: a Europa desfrutará de banhos frios, refeições cruas e longos passeios de bicicleta à chuva, neve e mísseis de algum lado.

Penso que se o México quisesse entrar numa aliança militar com a Rússia e a China, os americanos não a aceitariam. Cuba ainda está sob um embargo americano, e isso do ponto de vista do ocidente é lógico. Mas o que o ocidente acha lógico não acham lógico da Rússia. O que me perturba é que temos a impressão de que o nosso mundo está a ruir diante dos nossos olhos, que o nosso poder de compra está a cair e que tudo isto poderia ter sido evitado. A diplomacia poderia ter evitado esta guerra.

Por falar em diplomacia…
A diplomacia ocidental é falar muito para finalmente não dizer nada, confundir o interlocutor para tirar vantagem sem partilhar o ganho…

A diplomacia é a encarnação da arrogância ocidental… tem de pensar como ocidentais, falar como ocidentais, atualizarmo-nos como ocidentais, governar o país como ocidentais… e no dia em que já não queremos tudo isso, é o exército que tem de intervir para acrescentar tempero à diplomacia ocidental.
As colónias desapareceram, mas os colonos ainda estão presentes.

Esta guerra é de facto entre os EUA e a Rússia e é provocada pelos EUA para enfraquecer o progresso russo e o da Europa como consequência. É necessário reconhecer que o império americano está em declínio e que, por este facto, procura manter a sua posição por todos os meios, como todos os impérios anteriores, incluindo a guerra de enfraquecimento dos emergentes.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXII

(Por José Neto, in Estátua de Sal, 16/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de André Campos ver aqui, e a um artigo de Garcia Pereira, ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 17/10/2022)


Oi, cá estou eu outra vez.

Honestamente, não li o texto de Garcia Pereira.

O que ele escreve não me interessa porque a pessoa não me interessa e certamente não disse nada que eu não esteja farto de saber. Sei que muito do que ele depositou é verdade, porque ele se baseia no Marxismo-Leninismo-Maoismo, mas todo o percurso político deste triste personagem reflete um esforço resiliente focado na divisão dos trabalhadores para melhor os enfraquecer, e consubstanciado num ódio não disfarçado à única força coerente que desde sempre combateu o Fascismo e o Capitalismo em Portugal, que foi (e continua a ser) precisamente o Partido Comunista Português.

É um dos truques mais queridos do Grande Capital, este de usar fantoches como Garcia Pereira, com linguagem esquerdista muito “prá frentex”, do tipo “vamos fazer a Revolução hoje, abaixo o Revisionismo, Mao é que é bom”, etc. Todo o percurso desse patético indivíduo foi no sentido de destruir a unidade e a luta dos trabalhadores, e é preciso esta pobre criatura não ter nenhuma vergonha na cara para vir agora, que a obra em que ele foi humilde participante, está praticamente acabada, vir para os media dar lições de moral revolucionária.

Nos dias de hoje esse mesmo trabalho é da responsabilidade dos trotskistas do BE, que com um palavreado mais meloso e socialmente equilibrado, foram gerados no seio do PS e existem justamente para retirar influência e apoio eleitoral ao PCP. “Dividir para conquistar” é a máxima que sempre norteou o Capital na sua luta incessante para manter o seu gado humano submisso e controlado. Isso nunca muda.

Quanto ao texto de André Campos, é difícil não nos solidarizarmos com o seu estilo humanista e com as preocupações sinceras que ele apresenta, mas está repleto de erros de análise cuja desmontagem me levaria mais tempo do que disponho neste momento e ter de ficar para outra ocasião. Deixarei por isso aqui apenas umas linhas gerais:

1. O já famoso “Great Reset” é uma “teoria de conspiração” sem nenhum fundamento e muito provavelmente criada e alimentada pelos ideólogos do próprio Grande Capital. Ela apenas nasceu para justificar a enorme crise global do Capitalismo que ele hoje atravessa e impedir a sua real compreensão pelas populações. Procura-se atribuir as culpas de uma situação que resulta da evolução natural do sistema capitalista, e que já aconteceu duas vezes no passado no espaço de um século, tendo os seus momentos culminantes coincidido com as guerras mundiais de 14/18 e 39/45.

O que se tenta fazer é atribuir as culpas deste desenlace inevitável a uma espécie de seita obscura que se terá revelado em Davos, assim uma espécie de história de ficção ao nível dos livrinhos de banda desenhada juvenis.

O Grande Capital não tem interesse absolutamente nenhum em reduzir a população mundial como um propósito em si mesmo. Menos pessoas significam menos consumidores, menos mercados e consequentemente um agravamento da crise da qual o Capitalismo já enferma. Uma redução dessa população poderá ocorrer em consequência da fome e de uma guerra de destruição massiva, mas ela não é um objetivo em si mesma.

Claro que uma redução da população global poderia ser um acontecimento “benéfico” para a raça humana, basicamente porque dentro de cem anos o planeta simplesmente não terá condições para a sustentar e a continuarmos assim muito mais gente terá então de morrer, e morrer muito rapidamente, mas a ecologia planetária não é um objetivo do Capitalismo. Ele vive no momento.

E de resto ninguém que não seja um maldito psicopata iria querer promover hoje um holocausto global em nome da preservação de Gaia. Esse problema terá de ser resolvido pelas gerações vindouras, mas para que a Humanidade seja capaz de mudar os seus atuais padrões de vida destrutivos, será absolutamente necessário que o Capitalismo seja destruído.

É isso, ou a extinção pura e simples de toda a vida no planeta. E bem podem continuar a vender-nos fantasias estúpidas como a aquela da “colonização” de Marte.

2. O que realmente se passa, como foi muito bem colocado num recente texto publicado aqui, é que os Estados Unidos já estão em guerra com a Europa, representada no texto em questão pela Alemanha.

Trata-se de conquistar mercados e destruir concorrentes diretos num momento em que os mercados existentes já não são suficientes para alimentar as oligarquias existentes. Mais uma vez recordo as duas guerras mundiais. Tal como sucedeu na II Grande Guerra, a Rússia só está em palco devido às suas riquezas naturais e pela sua recusa em aceitar submeter-se ao Império Americano, e pelo facto de a sua proximidade geográfica e interesses comuns com a Europa poder colocar em causa a hegemonia de Washington. A segunda parte desta equação foi aparentemente resolvida no curto prazo com recurso a europeus traidores. Mas outros episódios se seguirão.

As verdadeiras causas da crise terminal que assola o capitalismo no Ocidente, elas prendem-se com o encurtamento dos mercados como resultado da ascensão das novas potências asiáticas, do expectável fim das excecionais condições favoráveis à economia liberal, nomeadamente a permanência do dólar como única moeda de referência mundial, e do próprio processo entrópico que está na génese do sistema capitalista e que termina sempre da mesma maneira.

A atual crise, e como já alguém disse não é uma crise, mas sim o fim de uma era, só difere das duas anteriores pela sua elevada componente financeira. A “financeirização” das economias é um fenómeno relativamente recente e posterior à II Guerra Mundial. Basicamente as sociedades ocidentais estão a pagar pelas toneladas de dinheiro falso que têm vindo a imprimir e ao longo dos anos e da gigantesca dívida pública que esse fenómeno gerou. Alguns analistas claramente confiáveis dizem que “a crise programada vem aí”, mas isso não deve ser mal interpretado.

Imaginem uma grande barragem. Já está? Agora imaginem que as águas estrondeiam com violência contra as paredes da estrutura e ameaçam desfazê-la em pedaços. O que se faz? Simples, abrem-se gradualmente as comportas para aliviar a pressão e permite-se uma inundação mais ou menos controlada das terras limítrofes para evitar um desastre maior. É exatamente o que os economistas do FED estão a fazer com a sua gigantesca e super inflada “barragem virtual”. Vai causar muitos problemas e bastante miséria, sim, mas o rebentamento brusco da economia seria mil vezes pior. Seria as pessoas matarem-se nas ruas de Nova Iorque por uma côdea de pão. Também é verdade com os níveis de criminalidade ali existentes que já pouco falta para isso.

Então, podem parar de atirar as culpas para os velhos de Davos. Eles são apenas os bodes expiatórios.

3. O André Campos diz que “a maioria da população não compreende nada”, e isso só é verdade em parte. Eu irei escrever sobre esse tema quando tiver tempo e disposição num texto que tenho na ideia, em que irei falar “de coisas que não existem”. Mas, apesar de ter muita simpatia pela candura do André, tenho que dizer que isso só é meia verdade. Claro que o Povo é ignorante, e é-o por culpa própria, O conhecimento está disponível e se o André e eu próprio, tal como muitos outros aqui, lá conseguem chegar, as outras pessoas com um volume semelhante de massa encefálica também o poderiam fazer. Na minha idade, não penso por nenhuma cartilha e já não tenho pachorra para pieguices.

A questão basilar aqui é que o Capitalismo singrou no mundo porque ele está em conformidade com a natureza humana, egoísta, agressiva e impiedosa. A raça humana sempre foi grande predadora ao longo de toda a sua existência e isso está no código genético. Na sua natureza. Foi o que impediu a sua extinção em confronto com outras espécies animais fisicamente mais poderosas nos tempos primordiais, e é também o que lhe irá ditar o fim.

Há pessoas boas no mundo, claro, mas por cada uma dessas pessoas existem cem que “não prestam”, como eu disse há dias aqui sem papas na língua, provocando algumas ondas de choque que muito me divertiram. A maioria das pessoas aceita o capitalismo porque vive na esperança de ser rica um dia, sabe-se lá por que sopro de sorte, e tornar-se ela própria um tiranete dos outros. Vivem a pensar nisso até que morrem abandonadas num lar miserável. São essas pessoas que elegem os governos.

Um bom exemplo da “solidariedade europeia” e da verdadeira natureza humana pode ser encontrado por exemplo nas manifestações de agricultores espanhóis para pressionar o governo espanhol a fechar as barragens que deixam passar ainda alguma água para Portugal. Outro, é o genocídio de todo um povo no continente americano levado à prática por imigrantes dos mais variados países europeus. Mas eu poderia citar muitos mais, e em todos os continentes. Vamos deixar os Tutsis e os Rohingyas em paz por agora.

Por outro lado, o Socialismo não singrou até hoje nas sociedades ocidentais porque ele fala de partilha e igualdade, e isso é coisa que não interessa a ninguém. Os orientais estão mais suscetíveis a estas ideias pelo seu passado em que foram colónias vítimas da brutalidade ocidental, mas tudo pode mudar no futuro com as “rotas da seda” e as riquezas que elas vão produzir e concentrar nas mãos de alguns. Isto, claro, partindo do princípio de que a Humanidade tem futuro, o que não é líquido de maneira nenhuma.

Alguém aqui acredita que o capitalista é de uma raça diferente da raça humana, como naquele divertido filminho de série B “They Live” (1988) de John Carpenter, e que os trabalhadores atualmente explorados não fariam exatamente a mesma coisa se, por artes mágicas trocassem de lugar?

Abra os olhos, André…

Claro que as coisas podem sempre mudar, basicamente porque, como eu já disse aqui várias vezes, o estômago pensa melhor do que o cérebro. Nada como uma boa dieta para mudar rapidamente a mentalidade das pessoas.

4. Finalmente, onde foi que você sonhou com “uma guerra nuclear” limitada à Europa, André?

Pensa que os russos são parvos assim? Sonhe outra vez…


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Crise financeira: até o FMI teme o pior

(Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022)

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.


Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.

Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.


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