Pelo fim do cerco e do bloqueio a Cuba

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 09/02/2026, Revisão da Estátua)

Bad Bunny

Que o mundo feche os olhos ao que se passa em Cuba, incluindo alguns dos países que receberam ajuda de Havana, submetendo-se às imposições de Washington, é uma das maiores provas de ingratidão deste século.


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O mundo estremeceu quando Bad Bunny avançou sobre o relvado, no Super Bowl, diante de milhões de telespectadores, com as bandeiras de todos os países da América, numa performance que, sendo um pontapé no imperialismo, só vai encontrar pólvora seca no entusiasmo liberal. Enquanto o cantor porto-riquenho disparava em castelhano, do outro lado do Golfo do México, Cuba anunciou que deixou de ter combustível para abastecer aviões.

Este cerco medieval por parte dos Estados Unidos é uma agressão intolerável que asfixia um povo e que não vai ter a indignação de uma bolha habituada a conduzir a sua solidariedade ao compasso do que diga Washington ou Bruxelas. Deixem-me ser claro: eu defendo a revolução cubana. Contudo, independentemente do que achemos do modelo político de Cuba, esta é uma agressão intolerável que está a deixar ambulâncias sem gasóleo, universidades sem eletricidade, bairros inteiros sem luz.

Uma vez mais, depois de permitirmos um genocídio em Gaza, os assassinatos extrajudiciais no mar das Caraíbas e o sequestro de um presidente estamos a permitir que os nossos líderes com a sua indiferença seletiva nos levem ao abismo. O problema de Cuba não é a democracia ou a falta dela porque já percebemos que não é isso que guia a empatia política dos Estados Unidos ou da União Europeia.

Vou-vos contar porque é que acho que Cuba é o país mais bonito do mundo. Já depois de ser eleito presidente da África do Sul, Nelson Mandela visitou Fidel Castro em Havana e deu-lhe uma reprimenda. Como é que o líder da revolução cubana não tinha ainda visitado a sua pátria sul-africana, perguntou. Mandela recordou que Cuba havia treinado militarmente os combatentes do ANC que lutaram contra o apartheid. Quando Fidel decidiu visitar, finalmente, a África do Sul, passou por vários outros países que o receberam como um herói. Porquê?

Nos anos 60, Cuba havia apoiado a libertação de países como a Argélia e a Guiné-Bissau. Nos anos 70 e 80, milhares de cubanos lutaram em Angola contra a invasão sul-africana e derrotaram o regime do apartheid em Cuito Cuanavale. Para países como a Namíbia, essa vitória foi fundamental para a sua independência. Cuba construiu hospitais no Vietname, apoiou as lutas das resistências em toda a América Latina, incluindo Porto Rico.

Ajudou a esconder panteras negras e foragidos de todo o mundo. como Assata Shakur. Tratou milhares de crianças afetadas pelo acidente nuclear de Chernobyl e em muitos países do Sul Global os únicos médicos que os mais pobres alguma vez viram na vida eram cubanos. Quando rebentou uma epidemia de ébola em Serra Leoa, os médicos cubanos foram os únicos que se atreveram a enfrentar ao lado das populações a doença. Diante de uma crise sanitária sem precedentes em décadas, quando rebentou a covid-19, Itália viu-se obrigada a pedir ajuda a Cuba.

Como é que uma pequena ilha bloqueada há mais de meio século pela maior potência mundial, sem grandes recursos naturais, conseguiu eliminar a transmissão de HIV entre mãe e filho? Como é que consegue ser um dos países com menor taxa de mortalidade infantil? Como é que consegue ter uma esperança média de vida ao nível dos países mais avançados?

Se isto não interessar, recordo que não haveria Bad Bunny sem Cuba. Muitas das sonoridades que hoje ouvimos e que vêm das Caraíbas, incluindo Porto Rico, nasceram com o som cubano, que com a comunidade emigrante em Nova Iorque deu origem àquilo que se conhece como salsa e que foi fundamental para o advento do reggaeton.

Que o mundo feche os olhos ao que se passa em Cuba, incluindo alguns dos países que receberam ajuda de Havana, submetendo-se às imposições de Washington, é uma das maiores provas de ingratidão deste século. Muitas vezes, Cuba abdicou dos seus parcos recursos para estar ao lado dos povos do mundo. É hora de os povos do mundo exigirem ainda com mais firmeza o fim do cerco e do bloqueio.

Na hora dos monstros

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 21/01/2026)


Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.


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O primeiro-ministro canadiano tratou de assinar acordos com a China e o Catar e fez um discurso em Davos que, a ser feito por qualquer um de nós há poucos anos, levaria o carimbo de marxista. Ontem, Mark Carney anunciou que o mundo baseado em regras acabou e fez mea culpa assumindo algo que muitos de nós vínhamos denunciando desde sempre.

Em primeiro lugar, que a história da ordem internacional baseada em regras “era parcialmente falsa” e que os mais fortes se “isentariam quando lhes fosse conveniente”, que as regras comerciais eram aplicadas “de forma assimétrica” e que o direito internacional “era aplicado com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima”.

No mesmo dia, o primeiro-ministro belga citou o líder comunista italiano Antonio Gramsci com a mesma frase que o Professor António Avelãs Nunes cunhou o título do seu livro: “O mundo velho está a morrer, o novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros”.

O facto é que depois de múltiplas sanções, invasões, ocupações e um genocídio contra países terceiros só agora é que os líderes europeus parecem despertar. Não porque estejam preocupados com o mundo mas porque está em causa a sua própria sobrevivência. A União Europeia e os seus aliados regionais são vítimas das políticas de subordinação aos Estados Unidos e da relação supremacista com as antigas colónias.

Sejamos sinceros, os líderes europeus estão como aquele adolescente conhecido por fazer bullying aos colegas, sempre protegido pelo seu amigo mais alto e mais forte, e que agora se vê abandonado no recreio da escola sem qualquer proteção em frente às suas vítimas.

Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.

Por isso, neste prelúdio de um mundo em guerra, os povos europeus têm de fazer escolhas. Uma delas é lutar pela sua soberania e romper com o escolho que representa a União Europeia, um instrumento ao serviço de potências como a Alemanha e a França em detrimento de países como Portugal. Outra é estabelecer relações de igualdade e respeito mútuo entre países e procurar promover um mundo onde prevaleçam as regras e não a lei do mais forte.

Naturalmente, nada disto faz sentido sem governos que trabalhem para o bem-estar dos seus povos como um todo e não para alimentar as riquezas de elites que estão subordinadas a interesses externos. A guerra que nos espreita hoje é a mesma a que alguns fecharam os olhos quando acontecia noutras regiões do planeta. O general prussiano Carl von Clausewitz escreveu a frase que é ensinada em todas as escolas militares: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.

Nesta hora dos monstros, recordo que há muito que o Ocidente mergulhou o mundo na guerra e que muitas vezes rejeitámos os refugiados dos conflitos e das crises alimentares que o próprio Ocidente criou. Enquanto jornalista, assisti a todo o tipo de massacres que insistentemente tentaram ocultar porque eram obra daqueles que os nossos líderes financiam e apoiam. Por causa disso, prenderam e assassinaram jornalistas. Para que não pudéssemos ver o que acontecia em Gaza, assassinaram duas centenas de repórteres.

No Donbass ou no Líbano, as bombas tinham o carimbo das empresas norte-americanas e europeias. Eu vi-as, ninguém me contou. Debaixo delas morreu muita gente inocente. É este o destino que queremos para a Europa?

Estados Unidos ‘à caça’ de petróleo venezuelano

(Bruno Amaral de Carvalho, in TSF, 22/12/2025)


O maior dispositivo naval estacionado por Washington nas Caraíbas capturou já dois petroleiros e deixou escapar um. Donald Trump reclama a restituição de petróleo que diz ter sido “roubado” pela Venezuela.


O tráfego na cidade de Caracas é muitas vezes uma verdadeira dor de cabeça para os automobilistas que tentam cruzar a capital venezuelana. Nesses momentos, a opção por um mototáxi pode ser a solução mais rápida. É sentado numa motorizada que encontramos a única pessoa que, até ao momento, assumiu à TSF compreender o bloqueio naval dos Estados Unidos. Sem querer dar o nome verdadeiro, este condutor justificou a decisão de Washington com a “indemnização insuficiente” que Hugo Chávez teria dado às empresas petrolíferas norte-americanas que operavam no país. Contudo, em vários dias de entrevistas e reportagens em Caracas, entre apoiantes e opositores do Governo de diversas categorias profissionais e de diferentes zonas da cidade parece haver uma unanimidade em torno da rejeição aos ataques a embarcações, ao bloqueio naval e até a uma eventual invasão.

No centro de Caracas, no Parque Central, à frente de uma histórica taberna, António, emigrante português há quatro décadas na Venezuela, assume ter sido apoiante de Hugo Chávez, embora não se identifique com Nicolás Maduro. Originário do Porto, rejeita, ainda assim, qualquer intervenção dos Estados Unidos contra a Venezuela. Enquanto serve ao balcão, explica que este ano não pôde passar o Natal em família em Portugal devido às pressões da Administração Trump sobre as companhias aéreas.

Por sua vez, o português Ricardo Vaz considera que esta é a “ameaça mais séria” que a “revolução bolivariana” sofre desde 1999. Enumerando várias tentativas de golpe e sanções, este jornalista a viver há oito anos em Caracas diz que a maior mobilização militar dos Estados Unidos nas Caraíbas pode ter consequências graves para os comerciantes portugueses no país. “Mesmo que nos últimos anos, a partir de 2021, tenha havido, ao nível macroeconómico, uma recuperação, a economia continua muito instável, continua com problemas estruturais. O Governo tem muita dificuldade em reagir, por exemplo, à especulação”, explica.

Caça ao petróleo

Uma semana depois de anunciar um bloqueio naval contra a Venezuela, Washington conta já com a captura de três petroleiros. Apesar de o petróleo venezuelano ter sido nacionalizado há mais de meio século, bem antes de Hugo Chávez chegar ao poder, Donald Trump condenou aquilo que considerou ter sido um roubo dessa matéria-prima ao seu país. A caça aberta aos recursos da Venezuela começou com a interceção do cargueiro Skipper no dia 10, em frente à costa venezuelana, numa abordagem que levou Nicolás Maduro a considerar que a pirataria havia regressado às águas das Caraíbas. Com duas décadas de navegação, este navio, da Triton Navigation Corp., levava pavilhão da Guiana e estava debaixo de sanções dos Estados Unidos desde há três anos. Transportava a bordo 1,8 milhões de barris de crude e terá sido levado para Galveston, no Texas.