Semanada

(In Blog O Jumento, 14/05/2017)

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Mais uma semana difícil para alguns protagonistas do mundo da bola e da política, JJ prometeu que com o novo Sporting passariam a haver três candidatos ao título; Passos Coelho tinha prometido no Japão que graças ás suas políticas Portugal seria o país mais competitivo do mundo. Azar, Jorge Jesus vai perder duas vezes seguidas e pode agradecer o terceiro lugar ao SLB e àquele que nem sequer é treinador. Passos Coelho que previu a desgraça e a vinda do diabo diz agora que os bons resultados económicos se devem a ele; enfim, teve mais imaginação que JJ, que também poderia usar o mesmo argumento, mas parece que o treinador tem mais vergonha do que o político.
O papa partiu e alguns jornalistas repararam que na hora da partida se fez sol, 100 anos depois do milagre da luz o país assistiu ao milagre da chuva e não se pode dizer que teria sido um milagre a baixo preço, como Francisco se referiu a alguma crendice na santa milagreira de Fátima. Quem não terá gostado desta abordagem dos milagres pelo papa Francisco terá sido a esposa de Cavaco Silva, que atribuiu às suas rezas e mezinhas o resultado positivo da 7.ª avaliação, a tal que nos permitiu uma saída com caca até ao pescoço.
Poucos repararam, mas Assunção cristas montou uma armadilha onde esperava apanhar António Costa, esqueceu as circunstâncias atuais e propôs o milagre das estações de metropolitano, só não disse que a sua proposta era quase idêntica a uma que em tempos foi apresentada pelo governo de Sócrates, apoiada pelo então autarca de Lisboa António Costa. Assunção Cristas teve azar, Costa não caiu na sua rasteira. Não ganhou nada com a sua esperteza saloia.
A vida política portuguesa foi surpreendida com uma nova forma de convidar personalidades para se candidatarem a grandes autarquias, agora os convites são feitos através de mensagens anónimas de SMS. Se o convidado aceitar deverá dirigir-se á sede do partido que o convidou e apresentar a mensagem ao porteiro. Ridículo? Não.
O Benfica foi campeão; como diria o Jorge Jesus os benfiquistas estão a ficar habituados a serem campeões, quem está a perder o bom hábito é o próprio JJ, que de títulos apenas viu uma taça de pré-época e já foi no ano passado; este ano vai ficar, na melhor das hipóteses, com menos seis pontos do que na época de Marco Silva e sem nenhum título, ao contrário do seu antecessor que conquistou a Taça de Portugal, graças à qual Jorge Jesus se gabou durante muitos meses do ano passado.

O futebol como ele é

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                Pedro Santos Guerreiro

A coisa podia ser assim tão simples: Bruno de Carvalho comeu as papas na cabeça de Luís Filipe Vieira, de Jorge Mendes e de Marco Silva e, sabe-se com que dívidas, pagou um balúrdio a Jorge Jesus, deixando a nação primeiro gelada no pasmo e depois fervendo numa história que, consoante a análise, vai do brilhantismo à velhacaria. Mas a coisa não é assim tão simples. Aliás, essencialmente, não estamos sequer a falar de futebol.

Corrupção durante mais de uma década da FIFA, com dirigentes indiciados por subornar e enriquecer. Suspeitas de viciamento nos 4-0 do Benfica-Penafiel, a favor de apostadores que ganharam uma pipa por acertarem no resultado. Esquemas palacianos financiados por empresários e regimes detestados para o Sporting tirar Jesus ao Benfica. Se isto é futebol, então o futebol ao mais alto nível não é de alto nível.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. No Benfica, Jesus e Vieira quiseram tanto disputar o pedestal do mais amado que de lá tombaram ambos, o primeiro porque enganou, o segundo porque foi enganado. Na verdade, ambos se destrataram, mas Vieira nunca pensou ser toureado desta forma. Tudo está ferido, mas nada mais o está do que o orgulho. O Benfica entra na próxima época com menos dinheiro, com menos equipa e com um treinador que será, pelo menos ao princípio, menos que Jesus.

No Sporting, é ao contrário. Entra na próxima época com mais dinheiro, com mais equipa e com o melhor treinador em Portugal. Bruno de Carvalho porta-se muitas vezes como um rufia, mas orgulho foi precisamente o que a sua presidência devolveu aos adeptos, resgatando-o do lugar envergonhado para onde ia sendo remetido.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. E o Sporting goleou o Benfica — arriscando não se sabe ainda o quê. Ou quanto.

Com este movimento, que é inteiramente seu, Bruno de Carvalho passa definitivamente a ser respeitado por aqueles que sempre o subvalorizaram — mas é um respeito mais por medo que por grandeza. Esta jogada é brilhante, embora seja velhaca no tratamento a Marco Silva, o frágil da história. E tem riscos. Falta contar o lado B da operação: que poder, controlo ou negócios teve Bruno de Carvalho de ceder em troca do suporte financeiro de gente sinistra do regime guineense e de Álvaro Sobrinho, o antigo presidente do BESA. Bruno de Carvalho, que sempre criticou (e bem) o esquema de fundos e de agentes que se serve dos clubes para extrair dinheiro parece ter dado um salto de fé que, se correr mal, pode criar servidão. Porque o dinheiro vem de algum lado e ou é dívida financeira ou deixa dívidas junto de alguém. É um tudo ou nada.

Um país que tem o escândalo do BES pode pensar que não deve armar-se em carapau de corrida com grandes moralismos sobre o futebol. Dizer que aquele mundo é assim, é cada vez mais assim, e o Sporting, depois de ver o FC Porto e o Benfica liderar esse mundo que é assim, deixou-se de peneiras e ganhou uma batalha, surpreendendo o adversário por usar as armas que este costuma controlar, razão pela qual o Benfica foi negligente e ultrapassado. A próxima época vai ser um festival de emoções. E o futebol é cada vez mais um mundo de jogadas do que de jogos. Nesta jogada, o Sporting goleou o Benfica. Arriscou tudo o que tem — e provavelmente também o que não tem. Neste campeonato pequeno, voltámos a ter três grandes. Esperemos que corra bem. Lá do alto da estátua, o Marquês de Pombal deve estar banzo.

Há petróleo em Alvalade?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 05/06/2015)

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Para lá da forma lamentável como a direção do Sporting está a tratar Marco Silva e para lá da surpreendente mudança de Jesus para Alvalade, verdadeiramente espantoso é como de repente há imenso dinheiro em Alvalade. E ou se trata de uma gestão genial ou de uma gestão vudu.

Sim, sabe-se que a SAD teve um resultado positivo de 22,1 milhões de euros nos primeiros nove meses do exercício de 2014-15, para o que contribuíram os 10,7 milhões das receitas da Champions, o aumento da venda de bilhetes (mais 3,4 milhões), patrocínios e publicidade (2,5 milhões), merchandising (um milhão) e direitos de transmissão televisiva (um milhão). No total, as receitas operacionais aumentaram 19 milhões, atingindo os 44 milhões de euros.

Não adianta continuar a desfiar o rosário contabilístico. Do que estamos a tratar é de opções que podem fazer disparar os números no sentido positivo ou de levar o clube para uma situação insustentável. E é isto que importa discutir.

Não, não há petróleo em Alvalade. Mas Bruno de Carvalho conseguiu contratar, Jorge Jesus, algo impensável há uma semana. O que se pode esperar desta contratação do ponto de vista económico? Bom para já, uma enorme expectativa: quem contrata o treinador bicampeão nacional só pode apontar para muito alto, ou seja, a entrada na Champions (o Sporting tem de disputar a pré-eliminatória) e ganhar o campeonato, pelo menos. Não chega a Taça de Portugal ou a Taça da Liga para o investimento que o clube está a fazer.

Depois, surgem as perguntas. É claro que se espera que a contratação de Jesus potencie as receitas em Alvalade. Mas chegará isso para lhe pagar os 6 milhões anuais, mais o prémio de assinatura de cinco milhões? E para os reforços que ele seguramente vai exigir? Não há dinheiro de Álvaro Sobrinho nem da Guiné Equatorial? A SAD diz que não, mas os rumores são mais que muitos. E quem vai patrocinar as camisolas do clube de Alvalade na próxima época, agora que a PT está fora de combate e o BES implodiu? E como passa a ser a política salarial em Alvalade? Acaba-se a contenção?

Bruno de Carvalho fez uma jogada de mestre. Sabia que só podia abafar o despedimento de Marco Silva com a escolha de um nome sonante para o substituir. A contratação de Jorge Jesus foi genial. Resta saber se a história vai acabar bem.

E o que vai acontecer em matéria de utilização dos jogadores da academia de Alcochete? Jesus vai recorrer a ela e lançar novos valores vindos da escola sportinguista ou vai preferir, como fez no Benfica, a contratação de jovens da América Latina, que depois valoriza para serem vendidos a bom preço? Vai haver uma mudança da política desportiva do Sporting nesta matéria?

A outra questão tem a ver com o relacionamento que existirá entre Bruno de Carvalho e Jorge Jesus. Bruno, mais que um presidente, é um adepto com o coração ao pé da boca e a cabeça demasiado quente, Jesus também ferve em pouca água e não teme os confrontos. O potencial explosivo está reunido. Se Bruno pensa que vai continuar a entrar pela cabine adentro aos berros e a vociferar contra os jogadores está certamente enganado. Jesus não lho vai permitir. Veremos, pois, durante quanto tempo vai durar este idílio, nomeadamente quando acontecer uma derrota.

Uma coisa é certa: os jogos entre Sporting e Benfica, a partir de agora, vão ser bem mais tensos do que nos últimos 20 anos. Não sobretudo entre os jogadores, mas principalmente entre as claques organizadas. A polícia terá de estar muito mais atenta.

Finalmente, o caso de Marco Silva, que há menos de uma semana deu ao Sporting o seu primeiro troféu em sete anos, conquistando a Taça de Portugal. Bruno de Carvalho não está só a ser ingrato. Portou-se de forma lamentável ao não comparecer na reunião onde Marco foi despedido. E está a tornar-se patético quando invoca «justa causa» para despedir Marco Silva, com argumentos tão caricatos como não ter usado o fato oficial do Sporting num jogo. É mau de mais para ser verdade. O Sporting não é assim, o Sporting não pode ser assim, sobretudo para os que o servem com dedicação, esforço e devoção, conduzindo-o à glória.

Em qualquer caso, Bruno de Carvalho fez uma jogada de mestre. Sabia que só podia abafar o despedimento de Marco Silva com a escolha de um nome sonante para o substituir. A contratação de Jorge Jesus foi genial. Resta saber se a história vai acabar bem.