O balanço da austeridade, agora em números

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 22/02/2017)

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Durante anos, muitos foram os que avisaram que a chamada política de austeridade era incapaz de cumprir o seu objectivo declarado (equilibrar as contas públicas e controlar a dívida pública), e que teria efeitos sociais devastadores, desde logo ao colapsar a Economia enquanto transferia riqueza dos mais pobres para os mais ricos.

No que respeita àquele último aspecto, os dados sobre evolução da pobreza e repartição do PIB entre capital e trabalho são esclarecedores.

Vale a pena relembrar que, como escrevemos aqui no final do ano passado: “É absolutamente atípico, por um lado, que a remuneração do capital (o excedente bruto de produção) aumente em anos de crise e, por outro lado, os dados em causa demonstram de forma cabal o colapso da renumeração do trabalho, que caí a partir de 2010 de forma abrupta quase 10 mil milhões de Euros. Estes dados são corroborados por uma análise qualitativa e quantitativa da receita fiscal.”.

Na altura lembrámos também que: “O que seja, em bom rigor, austeridade, é desde logo discutível. O conceito tem pouca ou nenhuma base científica, tem sido usado, e abusado, no contexto político para defender ou atacar as mais variadas políticas, e nunca foi objecto de uma avaliação rigorosa que permita um mínimo consenso quanto aos seus resultados.”.

Essa avaliação científica está a começar. Esta semana foi publicado um interessante estudo em que o sucesso ou insucesso da austeridade foi avaliado para o conjunto da a União Europeia (“Austerity in the Aftermath of the Great Recession” por Christopher House, Linda Tesar e Christïan Proebsting, da Universidade de Michigan).

É uma leitura ao mesmo tempo recomendada e imprópria para os estômagos mais fracos.

Primeiro aspecto, a dívida devia ter descido mas subiu.

Para espanto dos cavaleiros do Excel, cortar de forma cega, abrupta e injusta a despesa pública e fazer o mesmo do lado do aumento de impostos gera um efeito perverso em que a contracção da Economia arrasta o ratio da dívida pública na direcção oposta à pretendida.

Em vez de descer, sobe. Em média, a dívida pública para os Países do Sul (mais Irlanda) subiu o dobro do que teria subido sem as políticas de austeridade focadas no défice de curto prazo a todo o custo. O dobro. Isso enquanto a Economia afundava.

Essa contração da Economia é calculada por House, Tesar e Proebsting, para os mesmos países num total de 18% do PIB entre 2010 e 2014.

Quase um quinto da Economia pura e simplesmente desapareceu. Não admira que o desemprego tenha explodido. Tirando situações de Guerra ou catástrofes naturais é difícil encontrar paralelo na história para um tal descalabro.

Os mesmos autores salientam que essa queda poderia ter sido de apenas 7% se estes países pudessem ter acompanhado a política de austeridade com uma política monetária adequada mas, mais, que se além disso não tivessem aplicado políticas de austeridade, essa queda poderia ter sido de apenas 1%.

Ficam comprovados dois pontos: a arquitectura do Euro não consegue lidar com recessões sem as agravar, factor muito associado a opções políticas erradas e há uma óbvia “self fulfulling prophecy” que diz que se um país não pode desvalorizar a sua moeda isso aumenta o seu risco de incumprimento o que por sua vez gera juros mais altos que mais agravam o risco de incumprimento e assim sucessivamente.

A austeridade não é apenas uma má ideia, cujos fundamentos básicos são destituídos de lógica e cujos efeitos são contrários aos pretendidos, é uma ideia perigosa que agrava desigualdades, cria pobreza e transforma crises financeiras em crises económicas e estas em crises políticas.

Como ainda não resolvemos nenhuma delas em definitivo, teremos de lidar agora com as três ao mesmo tempo. Tem tudo para correr bem.

As horas em que a troika esteve em parte nenhuma

(Francisco Louçã, in Público, 08/02/2017)

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Francisco Louçã

Parece que o correspondente do Financial Times foi o jornalista que descobriu um buraco na agenda da delegação da troika em Lisboa, quando vieram negociar o resgate, pela Páscoa de 2011: os homens tinham desaparecido por um par de horas. O tempo do discreto pequeno-almoço, soube-se depois, foi passado no palácio da Nova Business School com alguns economistas lusos e foi um encontro feliz: “Eles (os da troika) estavam desejosos por ouvir as nossas ideias”, contou o director da faculdade, José Ferreira Machado. “Num país pequeno como o nosso, as principais faculdades de Economia são em certo sentido co-líderes da nação de um modo que não seria possível nos países maiores”, acrescentou ufano. “Somos o ponto de encontro das elites de hoje e de amanhã e a nossa obrigação é indicar aos futuros líderes do país as direcções possíveis”, explicou ainda. O resultado é sabido, o memorando da troika: “[Tem] a marca intelectual da nossa escola”, esclareceu Ferreira Machado ao Financial Times.

O director escreveu então, num livro com os seus “co-líderes”, que, “se levadas a cabo com entusiasmo e rigor, estas reformas mudarão Portugal para melhor” e que “a crise forçou a cooperação e silenciou as reservas sobre este modelo económico”. Do sucesso destas “reformas”, levadas com “entusiasmo e rigor”, já se sabe e não é com essa questão que incomodo os leitores. O que quero sublinhar é a lógica explícita e a implícita desta “marca intelectual”.

A explícita é o que Passos chamou “o empobrecimento”. Olivier Blanchard, então economista chefe do FMI, tinha explicado que “a redução dos salários nominais parece exótica, mas é o mesmo na essência que uma desvalorização bem sucedida”. Para isso, explicava ele, é necessário um “período sustentado de grande desemprego”, com um “ajustamento que é provável que seja longo e doloroso”, com “tantos anos de elevado desemprego quantos necessários para convencer os trabalhadores da necessidade do ajustamento”. Há poucos dias, três economistas do Banco de Portugal, suponho que incluindo um dos co-líderes que mata-bichou com a troika nos idos de 2011, teorizou também que os contratos colectivos devem ser limitados, se os salários baixos são a boa condição económica. Quando ouvir falar de “reformas estruturais”, já sabe que é disto que se está a tratar, é tudo Padaria Portuguesa.

É claro que tanta agressividade ideológica havia de ser chamada à pedra. Mesmo dentro do FMI, alguns economistas desmentiram as soluções da “marca intelectual”, suscitando um ralhete dos seus chefes. Ficam os factos a tirar teimas: a estagnação e portanto a divergência entre economias, a crise permanente das dívidas e o risco de nova recessão dizem tudo.

Mas há também uma lógica implícita nesta “marca intelectual”, que é o cimento do orgulho tribal dos “co-líderes da nação”. Paul Romer, distinto académico e agora economista-chefe do Banco Mundial, escreveu uma diatribe contra essa “marca”, criticando os erros matemáticos na identificação dos modelos, o arbítrio na definição de causalidade, a convocação de variáveis imaginárias para explicar os acontecimentos, a regressão intelectual desta pós-realidade e o ambiente académico de devoção acrítica pelos co-líderes. Foi uma tempestade.

Mas a questão é esta: como é que pessoas inteligentes aceitaram trabalhar com hipóteses tão mirabolantes e blindar os seus modelos em relação à realidade? Uma resposta é a religiosa: converteram-se a uma noção transcendente que afirma que os mercados têm sempre razão porque a razão do comportamento humano é o egoísmo ambicioso.

Mas já era assim lá atrás, quando o palácio dos economistas se entusiasmou com o desemprego de massas por “tantos anos” e com o corte das pensões da Segurança Social, não é certo?

 

Toda a procura cria a sua própria oferta

(Jorge Nascimento Rodrigues, in Facebook, 11/12/2016)

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O austerismo consolidou duas ideias do mundo da fantasia.

A primeira fantasia é que o capitalismo se “reproduz” pela poupancinha dos poupadinhos (no limite, uma espécie de auto-flageladores que tiram à comida e ao bem-estar civilizacional para aforrar na conta do banco, entre eles também os avaros, ainda que os juros líquidos do esforço sejam cada vez mais de um dígito), e não pelo consumo de massa e globalizado, ou seja, pela criação de “procura” (para irmos para o tecnicalês) nas economias. Pois é, meus: o capitalismo não vive da oferta, mas sim da procurazinha; sem procura mesmo, a oferta fica mono e os produtores entram em crise, sabem?

A segunda fantasia é que os bancos e os investidores – do institucional ao zé-ninguém – vivem sobretudo para, direta ou indiretamente, “investir” na produção de bens e serviços, na tal “criação da riqueza”, e não para especular em produtos financeiros (sejam os mais comuns em bolsa ou na dívida, pública e privada, ou noutras n invencões do inventivo e imparável capital financeiro).

O capitalismo, desde a segunda revolução industrial, que não é mais esse paraíso da poupança e do PIB industrial: ter o ordenadinho de pelintra ou de classe média média ou o lucro ou a renda multimilionária, poupar e aforrar, depois alguém dar crédito e o endividado investir no engordar do PIB “produtivo”.

O capitalismo desde o século XIX que sofre do vírus da financeirização (metam pedras na boca para dizer o palavrão). As primeiras crises financeiras globais não começaram no século XX — em 1907 ou em 1929. Começaram no século XIX, antes, que chatice.

O austerista diz basicamente que basicamente a crise surge porque basicamente a arraia-miúda não poupa (aliás, a maioria não poupa mesmo, mesmo, porque o rendimento que tem fica aquém do gasto mínimo que deveria ter no quadro civilizacional atual, o que é que querem?), porque uma parte (aquela parte a que chega os prospectos dos bancos com as ofertas de crédito) desses malandros se põe a pedir emprestado e a gastar à tripa-forra. Ao que parece, ultimamente, depois do garrote aliviar um pouco, voltou a adquirir bens duráveis (que fazem a beleza do comercio internacional, sobretudo o de média e alta intensidade tecnológica)

Por isso, para o austerista, o que se tem de impedir é que essa galera se estique — e há sempre duas maneiras, ou limitar-lhe as “ambições” com uma “desvalorização interna” que lhes corte o rendimento ainda mais e por aí fora enquanto o termómetro do ‘aguenta’ resistir; ou meter uma mordaça no crédito ao consumo dessa gentalha (que não aos ‘investidores’, que, como a malta indiscreta sabe, são depois os números gordos no malparado).

O azar do austerista é que o mundo não é o da sua fantasia.

No mundo real, real mesmo, as crises surgem — e continuarão a surgir (um gajo chamado Minsky dizia que este mundo é mesmo, mesmo, ‘instável’ e tem no seu ADN os estoiros) – porque a exuberância do investimento não é na economia real, real, real mesmo, mas no mundo maravilhoso da finança — onde se obtêm rendas e não tem de se andar a penar a ver se se ganha o ordenadito ou empenhar tudo ao banco para se aguentar a empresa (sobretudo quando esta é um projeto pessoal de vida).austeridade1

E esse mundo maravilhoso precisa de duas roldanas:
a) que haja consumo de massa para fazer rolar a economia real (já que a finança não está para aí virada no seu grosso);
e b) que o crédito se multiplique como as rosas da rainha de Coimbra para que o consumo role e o fluxo para aplicações financeiras também.

E tudo isto não vem só da poupança dos poupadinhos (ou das contas à ordem que qualquer mortal ou negócio tem de ter), mas do dinheiro fiduciário que se cria do ar puro (pelos bancos centrais) e que permite a toda esta máquina girar, pelo menos, por ciclos.

O dia em que acabasse o consumo de massa e o endividamento (de toda a maralha, dos ‘investidores’, e mais dos Estados), a máquina do capitalismo modernaço pifava. As metas defendidas pelos austeristas se fossem levadas até ao fim matavam a galinha dos ovos de ouro de que eles mesmo vivem. Um austerista não é só um patife, é burro sistémico.

É, por isso, que a finança usa (e alimenta) os austeristas como mata-mata para certas missões (como a de fazer pagar à gentalha a crise financeira com medidas patifórias e moralice de sacristia) e depois os dispensa como fralda descartável, quando o que tem de começar a dar, de novo, é a exuberância financeira.

E, para a nova fase de exuberância financeira, nada como um populismozinho que dê algumas migalhas para baixo (trickle down), através de um Keynesianismo bastardo (como lhe chamava a Joan Robinson, amiga de peito do John Maynard).

Os austeristas estão condenados à morte política, mais dia menos dia. E ninguém vai derramar uma lágrima por eles, a não ser uns fanáticos no tweeter.

Quanto mais tarde o funeral desse grupo de patifes, mais o populismo caudilhista e totalitário se agigantará como vaga, tomem nota.

Mas, deixem lá, os financistas, na bebedeira em que vão embarcar, vão repetir, mais ano menos ano, o filme que a gente já conhece.

Mas, entretanto, enquanto o pau vai e vem, a maralha folga as costas. Haja natal, galera.