Sob o cisma de Jesus

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 04/06/2015)

António José Teixeira

Quais linhas de orientação geral para a elaboração de programas eleitorais! Quais cartas de garantias! Quais convenções de confiança! Quais marchas nacionais! Portugal está agora sob o cisma de Jesus. Jesus, o treinador, bem entendido.

Já andávamos vergados às grandes celebrações sulistas de bicampeonatos e taças de Portugal. Já muitos portugueses, aqui e além-mar, tinham levantado toda a espécie de troféus. Da Inglaterra à Rússia, do México à Grécia, a lei do ludopédio luso ganhou uma força nunca vista. Ronaldo, o melhor jogador do mundo, falhou os títulos, mas não deixou fugir o Pichichi… O futebol é o reduto de resistência a todas as crises, o grande palco da vida, do jogo da vida, o maior espetáculo do mundo. Aí se expiam desaires e frustrações, aí se empolgam vontades. Arte, ilusão, magia, choro, raiva, traição, combate, circo, tudo se ganha e se perde na fogueira das paixões. Não são apenas paixões. São negócios de muitas artes e engenhos. Audácias demasiadas vezes criminosas. Digam o que disserem, andamos rendidos à maldição da bola. Até o FBI se abateu sobre as máfias do futebol. E nem o imperador Blatter resistiu.

Não é o amor que move as montanhas do futebol. São os milhões, sabe-se lá de onde, que fazem entrar e sair os feiticeiros do futebol.

É público e notório que, nos últimos dias, a grande dúvida do falatório público não era sobre quem poderá ganhar as eleições que Cavaco Silva ainda nem sequer marcou. Ou sobre quem o quer substituir em Belém. O grande cisma é o que iria fazer Jesus? Fica no Benfica? Vai para o estrangeiro? Ir para o FC Porto parecia fora de causa. Para o Sporting seria absurdo. Mas, como dizem os grandes filósofos do futebol, o que é mentira hoje é verdade amanhã. E assim é. Jesus, o sportinguista que levou tantas vezes o Benfica à vitória, vai agora fazer milagres para Alvalade. Jesus, o dissidente, cismou em multiplicar milhões e deixou muitos admiradores de cara à banda. Dizem que os profetas dificilmente fazem milagres na sua terra. Aliás, o bíblico Jesus terá dito que nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Mas o nosso Jesus é outro. Descansem os sportinguistas. Também porque não é o amor que move as montanhas do futebol. São os milhões, sabe-se lá de onde, que fazem entrar e sair os feiticeiros do futebol.

De resto, o folhetim é a não perder. Muitas figuras e figurões, bancos, novos e velhos, bons e maus, acionistas de referência duvidosa, agentes com pouca majestade, heróis e vilões, homens mal falantes, empertigados, gratos e ingratos, esqueletos em muitos armários, e muitas contas a ajustar. Não há moral nesta história. É pura arte do jogo e do negócio. A lei de Jesus.

UM PROGRAMA ELEITORAL PARA MASOQUISTAS

Passos Coelho

                           Passos Coelho

A coligação PSD/CDS apresentou as grandes linhas do seu programa eleitoral. E o que vimos? Mal feito, sem chama, sem coerência, mais do mesmo e zero de esperança para o futuro. Manutenção da pobreza e da austeridade, dos cortes de salários e de pensões. Tudo embrulhado na demagogia do embuste e da política do faz de conta. Até aqui nada de surpreendente.

O mais surpreendente, contudo, não é isso. Passos Coelho gaba-se de ser previsível. Ou seja: Passos não quer mudar coisa nenhuma em relação ao que fez durante quatro anos. Acha que a politica que seguiu foi boa para o País e que os portugueses não devem esperar nada de diferente.

O mais surpreendente é Passos Coelho achar que tais medidas são excelentes, que empobrecer é ótimo, que passar fome é o fim último da existência humana, que não ter emprego e dignidade e não haver perspetivas de futuro para os jovens e as crianças deste País é um imperativo nacional a prosseguir.Se isto não fosse deprimente, seria, no mínimo, bizarro e patético.

E quando se refere a quem quer alterar tal rumo e tais politicas, limita-se a dizer que tais desideratos são geradores de imprevisibilidade e que vem aí o caos e o inferno. Ora, não há mudanças sem riscos. Como se vê nas empresas que crescem e se expandem: não há crescimento sem investimento e não há investimento sem riscos. E falar de riscos é falar de imprevisibilidade. Ou seja, com Passos e o seu programa, fica claro que não haverá investimentos, logo não haverá crescimento, logo o País continuará a definhar enquanto ele vai vendendo o pouco que ainda resta, de preferência em saldos burlescos.

Os comentadores, mesmo aqueles alinhados à Direita, ficaram estarrecidos. Não se ganham os votos dos eleitores dizendo-lhes que serão mortos à fome depois de colocarem o voto na urna. Não se ganham eleições dizendo aos eleitores que, se acham que estão mal, estão errados e devem mudar de ideias porque o candidato a Primeiro-Ministro acha que eles estão bem e assim devem permanecer. Não se ganham eleições dizendo aos eleitores que os seus salários são elevados e devem ser cortados quando eles chegam a meio do mês de carteira vazia. Não se ganham eleições dizendo aos reformados que as suas pensões ainda vão ser mais baixas que o que são.

Mas Passos Coelho está alucinado, acha-se imbuído de um espírito messiânico, e julga que os portugueses são masoquistas.
Ele acha que os portugueses são temerosos, que tem medo do escuro, que adoram o látego da austeridade e que tem orgasmos esgazeados quando a dor e o sofrimento os atacam.

Não, Passos Coelho. Você é um ignorante. Sobretudo da História. Você não passava nos exames que o seu ministro Crato anda a impor às crianças do secundário. Os portugueses deram “novos mundos ao mundo”, foram mar fora, passaram as Tormentas, enfrentaram Mostrengos, superstições, tornados e marés.

Parafraseando Fernando Pessoa ( não sei se sabe quem foi, Dr. Passos), “Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.”.

É que, mais que passar além da dor que o sr. tem imposto sadicamente ao País, os portugueses vão querer passar além do pesadelo que tem sido a sua governação e o seu discurso de pastor de seita.

Emigre, e saia da sua zona de conforto. Faça aquilo que, em tempos, recomendou aos milhares de jovens deste País.

Acredite que ficaremos todos mais aliviados.

Estátua de Sal, 04/06/2015

O Deus de Frei Bento

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/06/2015)

         Daniel Oliveira

                    Daniel Oliveira

António Marujo, antigo jornalista do “Público” e um dos que, na imprensa portuguesa, mais nos pode ensinar sobre os labirintos da Igreja Católica, fez-me um convite que me atirava para bem longe da minha “zona de conforto”: apresentar o terceiro volume de 23 anos de crónicas de Frei Bento Domingues. Apesar de andar, recentemente, a ser convidado para muitas coisas relacionadas com a Igreja Católica, o mundo em que me movo e movi toda a vida está, pelo menos aparentemente, bem distante da realidade de que fala, no seu livro, Frei Bento Domingues.

A enorme erudição de Frei Bento permite, graças ao seu talento, vários níveis de leitura. Mas temo que apenas o primeiro, mais básico, me seja acessível. Digamos que o efeito que a sua escrita tem em mim será, quanto muito, aquele que ele diz ser a função da filosofia: “ajudar as pessoas a serem menos alegremente estúpidas”. Habituado a dar aqui respostas, tive, na leitura de “O Bom Humor de Deus”, de me relacionar quase exclusivamente com dúvidas angustiantes. E é natural. Como escreveu Alçada Batista, citado no livro, “as religiões andam necessariamente à volta de perguntas sem resposta e das fomes que não encontram alimento”.

Fora da minha zona de conforto, decidi, na apresentação, fazer um exercício. Um exercício que, na prática, percebi depois, era capaz de funcionar melhor por escrito. Ainda assim, socorri-me dele na Igreja do Convento de São Domingos, onde vive Frei Bento, perante muitas dezenas de admiradores do teólogo, todos muito mais conhecedores do mistério da fé do que eu. O exercício foi usar, apropriar-me, abusar de citações do livro para falar da minha relação com Deus e com a religião. E isso apenas é possível pela generosidade de Frei Bento Domingues: ao contrário do que é comum num homem do clero, fala, muito habitualmente, dos não-crentes. E fá-lo com um respeito muito pouco comum. Sem uma pinga de soberba ou condescendência. Porque cada um sabe como explicar, à sua maneira, o absurdo da vida.

Sou ateu. Ao contrário de muitos ateus, Deus não morreu em mim. Ele nunca existiu. Sou de uma família sem grandes antecedentes religiosos e sobretudo com poucos antecedentes católicos (há exceções). Isso deu-me uma relação distendida e pouco conflituosa com o fenómeno religioso e, com o tempo, uma facilidade em entender-me com cristãos empenhados. Não tenho contas a ajustar. Usando uma expressão de frei Bento, como farei de cada vez que lerem qualquer coisa que neste texto vos pareça interessante (ou que esteja entre aspas), não sou um “cura da laicidade”. Isso valeu-me, aliás, alguma incompreensão dos ateus mais militantes quando critiquei, de forma áspera, José Saramago, aquando do lançamento de “Caim”, pelas suas declarações pouco sofisticadas sobre a Bíblia e o fenómeno religioso. Acho, como achava T. S. Eliot, que “sem cristianismo não teria havido nem sequer um Voltaire ou um Nietzsche”.

O que me tem levado a opor de forma bem vocal às tentativas de laicos radicais, por vezes aliados a católicos fundamentalistas, de proibir mesquitas, minaretes e sinais exteriores de religiosidade muçulmana não é, ao contrário do que alguns pensam, qualquer simpatia especial pelo Islão. É, para além do respeito pelo pluralismo religioso e cultural, uma ideia mais geral e que poucos ateus compreendem: eu não quero um mundo sem religião. Mais do que isso: apesar de ateu, temo pelo que seria um mundo sem religião. E reconheço, como lamenta Frei Bento Domingues, que há uma tentativa de retirar a religião da rua. Do Islão mas também do Cristianismo. Assim como há tentativas de tirar a política da rua, a cidadania da rua, a festa da rua. De tirar todos os fenómenos comunitários da rua, confinando as pessoas ao seu asfixiante individualismo. Na rua, tolera-se o comércio. Tudo o resto é tratado como incompreensível e anacrónico.

E é por viver nesta cultura, que recusa a todas as formas de organização comunitária e que põe todas elas, dos partidos aos sindicatos, das coletividades às igrejas, em crise, que me parece que a laicidade radical é hoje, ela sim, anacrónica. Felizmente, na Europa, “já se consumou o processo de emancipação da política em relação à religião” e, fora um ou outro pormenor jurídico, isso deixou de ser uma questão politicamente relevante.

Para além desta relação relativamente pacifica em relação às organizações religiosas, não sou um “ateu da indiferença”. Não sou “um homem indiferente a Deus”. Se para esses “talvez Deus não exista, mas isso não tem importância; seja como for, também não sentimos a sua falta”, eu estou convicto que Deus não existe e isso tem imensa importância porque sinto a sua falta.

EU NÃO QUERO UM MUNDO SEM RELIGIÃO. MAIS DO QUE ISSO: APESAR DE ATEU, TEMO PELO QUE SERIA UM MUNDO SEM RELIGIÃO

É provável que esta relação um pouco mais angustiada com Deus tenha resultado da descoberta, universal mas no meu caso tardia, da mortalidade. Nem eu me livro da pergunta: “e se a morte fosse a última palavra, a pessoa humana estava a evoluir para o nada”? E a pergunta que nos interpela logo depois: “Quem é esse animal que a natureza produziu e que não pode ser compreendido a partir da natureza?” Enfim, descobri tardiamente as perguntas das crianças e, ao contrário das crianças, não tinha respostas mais ou menos apaziguadoras para receber.

Recordo-me de uma missa a que assisti, antes do funeral de um amigo. Estava especialmente disponível, por esses dias, para uma transcendência que me apaziguasse o espírito. Infelizmente (ou felizmente), o padre era dos que vê “Deus como fuga do mundo”. Era como se precisasse “de um outro mundo para ajustar contas com este”. A mim não me fazia precisão, já que o que queria era ficar mais tempo neste, que me parece, olhando para os prós e os contras, bastante bom para estar.

Mas nas reflexões de Frei Bento quase encontro o Deus que preciso. Um “absoluto que não chego a explicar”. Aquilo a que Régis Debray chamou do “Outro”, tratando esse “outro” como poesia e que, falando na primeira pessoa, se apresentou assim: “Um mito que diz a verdade. E a verdade é que vocês não sabem passar sem um poema, um sonho coletivo, uma faísca de outras paragens, se querem viver e não apenas sobreviver.” O pastor dinamarquês Thorkild Grosboll que, numa entrevista que lhe custou a carreira clerical, resumiu assim a crença que me calhava bem: “Deus é ‘A’ questão, uma fantástica questão que uma pessoa pode aplicar à sua própria vida.”

Para o pastor, a história de Cristo “é uma história que explica, embora de uma forma envelhecida, a minha condição de ser humano e transmite uma mensagem sem a qual não se pode passar.” Talvez Umberto Eco tenha explicado de uma forma mais comovente a riqueza do cristianismo: “Se eu fosse um viajante chegado de longínquas galáxias, perante uma espécie que soube propor a si própria um tal modelo de vida, não poderia deixar de admirar tanta energia teogónica e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, remida só pelo facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto seja verdade.”

Um Deus assim tão abstrato, este desejo que também não posso deixar de admirar e um pouco mais de contacto com a bondade bem humorada de Frei Bento Domingues talvez chegassem para me converter. Acontece que é ele mesmo que arrefece, com toda a razão, o meu ímpeto: “Não adianta amputar o cristianismo da dimensão religiosa da fé e reduzi-lo a um humanismo. A sua secularização integral seria um desastre.” Fui assim obrigado a explicar à assistência que não estava preparado para entrar no seu rebanho. Eles aceitaram sem qualquer recriminação.

Mas num rebanho inspirado pela bondade inteligente (sempre tão rara) de Frei Bento Domingues estarei com toda a facilidade. Na “teologia em fragmentos”, que nos deixa todos os domingos no “Público”, em que acaba sempre por falar do que é essencial, em vez do pêndulo corpo/alma, mundo/transcendência, vida/morte, Frei Bento opta pelo tear, que no movimento de um lado para o outro vai unindo as partes. E é esta capacidade que lhe permite renegar sem pruridos e medos o dogmatismo e afastar de si “um Deus infinitamente ofendido a exigir reparação infinita”. Sabendo que “nem tudo é santo nas religiões”, a abertura de espírito não lhe deve ser leve. Como diz sobre um outro teólogo, “os caçadores de heresias estarão sempre incomodados com o seu modo descontraído de procurar o que se perdeu e de abrir o futuro sem o desenhar”. Andei por igrejas laicas e percebo do que fala.

Perdida a possibilidade de experimentar um Deus que não pode ser apenas “A” questão, sobra um outro lado relevante desta conversa: o papel da religião nas escolhas éticas que fazemos. No fundo, a razão pela qual escrevi, no início deste texto, que não queria viver num mundo sem religião. Sobre este tema, Frei Bento divide connosco, numa série de textos a que deu o título “Em que crê quem não crês”, um debate entre o cardeal de Milão Carlo Maria Martini e Umberto Eco, na revista “Liberal”.

Os libertários não me perdoarão, mas acho que o espaço de entendimento com católicos coerentes é, neste momento, mais interessante do que o espaço de entendimento com qualquer liberal radical

O diálogo resumido é este. Carlo Maria Martini: “Que outra coisa poderá fundamentar a dignidade humana senão o facto de cada um ser uma pessoa aberta a algo mais alto e maior do que ela própria.” Umberto Eco: “Como nos ensinam as mais laicas ciências humanas, é o outro, o seu olhar, que nos define e nos forma.” Martini: “dar a própria vida sem reconhecer um Deus pessoal (…) não pode estar ligado a nenhum princípio mutável”. E aqui eu começo a vacilar, pronto para dar razão ao cardeal. A limitação de uma ética fundada apenas em valores humanistas é que dificilmente podemos dar a vida por ela, porque nada pode haver acima da vida. A não ser que fosse Deus. Umberto Eco resolve bem o problema: “A ética laica ou religiosa deve fixar os olhos nos santos, laicos ou crentes. Descobre que não deve fazer aos outros aquilo que não deseja que façam a si perante o olhar do outro.” Ou seja, a religião mais não faz do que exprimir uma ética natural, que nos é imposta pelo olhar do outro. Aquela que, como escreveu Mark Twain, nos diz para tentarmos “viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte”.

Pondo-me em paz com Deus sem me converter e em paz com a ética sem ser religioso, tenho outro encontro com Frei Bento quando ele, católico, fala da religião e das Igrejas e eu, humanista pós-marxista, penso na política e nas organizações que sustentam a ação coletiva. Com alguma liberdade, percebo que Frei Bento sofre, como eu sofro, com uma certa onda “new age” que domina o tempo em que vivemos, em que se instala “a confusão de tudo com tudo em nome da harmonia universal”. Um tempo em que, havendo um regresso da religião, ela corresponde a uma “religiosidade difusa”, ao prazer egocêntrico da fé, uma “busca de si mesmo”, sem qualquer sentido de comunidade, apenas para consumo individual.

É o “triunfo da religião sem Deus e sem Igreja, a adesão a crenças cada vez menos messiânicas.” Frei Bento fala-nos de um crise que, na realidade, atravessa todas as grandes narrativas. As religiosas, mas também as políticas. Interessa apenas o aqui e agora, no desespero individual da total falta de sentido para a vida. As grandes narrativas, com as suas crenças messiânicas, “não existem para descrever nem o passado nem o presente nem o futuro, mas para não se acomodarem à injustiça, para não desistir da paz, para não deixar caminho ao terror”. Para ter horizonte que justifique a caminhada. É neste tempo, em que tudo o que era sólido se dissolveu no ar, que “o evangelho da fraternidade precisa da instituição para que a sua energia não se dissolva.” Assim como as propostas políticas e sociais precisam de organizações que lhes deem consistência.

Vou avançando no livro e vai ficando mais claro o que tenho intuído crescentemente na última década: que há muito mais a aproximar-me de um católico com preocupações sociais – esqueçamos os que ignoram tudo o que é essencial na mensagem cristã e vivem obcecados com o castigo e o moralismo – do que de um liberal mais radical. Em relação ao segundo, terei em comum alguma agenda libertária relativa aos direitos humanos individuais. Mas quase tudo o resto, no tempo histórico que vivemos, me afasta dele.

O vice-reitor da Universidade Católica de Lovaina lançou um apelo ao diálogo “entre os que acreditam no céu e os que acreditam na terra”. De forma um pouco menos poética e em sentido crítico, António Barreto acusava a esquerda nacional de querer “a junção entre a esquerda e a religião, entre o socialismo e o catolicismo, entre o Estado-providência e o pensamento social da Igreja.” Revejo-me nesta possibilidade. Os libertários não me perdoarão, mas acho que o espaço de entendimento com católicos coerentes é, neste momento, mais interessante do que o espaço de entendimento com qualquer liberal radical. E em Frei Bento Domingues fica claríssimo onde esse encontro se faz.

A resposta está Livro do Ato dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles. Com muito vigor, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E todos eles tinham grande aceitação. Não havia entre eles indigente algum, pois os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; e distribuíam-se a cada um segundo a sua necessidade.” Onde é que eu já ouvi isto?