O Deus de Frei Bento

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/06/2015)

         Daniel Oliveira

                    Daniel Oliveira

António Marujo, antigo jornalista do “Público” e um dos que, na imprensa portuguesa, mais nos pode ensinar sobre os labirintos da Igreja Católica, fez-me um convite que me atirava para bem longe da minha “zona de conforto”: apresentar o terceiro volume de 23 anos de crónicas de Frei Bento Domingues. Apesar de andar, recentemente, a ser convidado para muitas coisas relacionadas com a Igreja Católica, o mundo em que me movo e movi toda a vida está, pelo menos aparentemente, bem distante da realidade de que fala, no seu livro, Frei Bento Domingues.

A enorme erudição de Frei Bento permite, graças ao seu talento, vários níveis de leitura. Mas temo que apenas o primeiro, mais básico, me seja acessível. Digamos que o efeito que a sua escrita tem em mim será, quanto muito, aquele que ele diz ser a função da filosofia: “ajudar as pessoas a serem menos alegremente estúpidas”. Habituado a dar aqui respostas, tive, na leitura de “O Bom Humor de Deus”, de me relacionar quase exclusivamente com dúvidas angustiantes. E é natural. Como escreveu Alçada Batista, citado no livro, “as religiões andam necessariamente à volta de perguntas sem resposta e das fomes que não encontram alimento”.

Fora da minha zona de conforto, decidi, na apresentação, fazer um exercício. Um exercício que, na prática, percebi depois, era capaz de funcionar melhor por escrito. Ainda assim, socorri-me dele na Igreja do Convento de São Domingos, onde vive Frei Bento, perante muitas dezenas de admiradores do teólogo, todos muito mais conhecedores do mistério da fé do que eu. O exercício foi usar, apropriar-me, abusar de citações do livro para falar da minha relação com Deus e com a religião. E isso apenas é possível pela generosidade de Frei Bento Domingues: ao contrário do que é comum num homem do clero, fala, muito habitualmente, dos não-crentes. E fá-lo com um respeito muito pouco comum. Sem uma pinga de soberba ou condescendência. Porque cada um sabe como explicar, à sua maneira, o absurdo da vida.

Sou ateu. Ao contrário de muitos ateus, Deus não morreu em mim. Ele nunca existiu. Sou de uma família sem grandes antecedentes religiosos e sobretudo com poucos antecedentes católicos (há exceções). Isso deu-me uma relação distendida e pouco conflituosa com o fenómeno religioso e, com o tempo, uma facilidade em entender-me com cristãos empenhados. Não tenho contas a ajustar. Usando uma expressão de frei Bento, como farei de cada vez que lerem qualquer coisa que neste texto vos pareça interessante (ou que esteja entre aspas), não sou um “cura da laicidade”. Isso valeu-me, aliás, alguma incompreensão dos ateus mais militantes quando critiquei, de forma áspera, José Saramago, aquando do lançamento de “Caim”, pelas suas declarações pouco sofisticadas sobre a Bíblia e o fenómeno religioso. Acho, como achava T. S. Eliot, que “sem cristianismo não teria havido nem sequer um Voltaire ou um Nietzsche”.

O que me tem levado a opor de forma bem vocal às tentativas de laicos radicais, por vezes aliados a católicos fundamentalistas, de proibir mesquitas, minaretes e sinais exteriores de religiosidade muçulmana não é, ao contrário do que alguns pensam, qualquer simpatia especial pelo Islão. É, para além do respeito pelo pluralismo religioso e cultural, uma ideia mais geral e que poucos ateus compreendem: eu não quero um mundo sem religião. Mais do que isso: apesar de ateu, temo pelo que seria um mundo sem religião. E reconheço, como lamenta Frei Bento Domingues, que há uma tentativa de retirar a religião da rua. Do Islão mas também do Cristianismo. Assim como há tentativas de tirar a política da rua, a cidadania da rua, a festa da rua. De tirar todos os fenómenos comunitários da rua, confinando as pessoas ao seu asfixiante individualismo. Na rua, tolera-se o comércio. Tudo o resto é tratado como incompreensível e anacrónico.

E é por viver nesta cultura, que recusa a todas as formas de organização comunitária e que põe todas elas, dos partidos aos sindicatos, das coletividades às igrejas, em crise, que me parece que a laicidade radical é hoje, ela sim, anacrónica. Felizmente, na Europa, “já se consumou o processo de emancipação da política em relação à religião” e, fora um ou outro pormenor jurídico, isso deixou de ser uma questão politicamente relevante.

Para além desta relação relativamente pacifica em relação às organizações religiosas, não sou um “ateu da indiferença”. Não sou “um homem indiferente a Deus”. Se para esses “talvez Deus não exista, mas isso não tem importância; seja como for, também não sentimos a sua falta”, eu estou convicto que Deus não existe e isso tem imensa importância porque sinto a sua falta.

EU NÃO QUERO UM MUNDO SEM RELIGIÃO. MAIS DO QUE ISSO: APESAR DE ATEU, TEMO PELO QUE SERIA UM MUNDO SEM RELIGIÃO

É provável que esta relação um pouco mais angustiada com Deus tenha resultado da descoberta, universal mas no meu caso tardia, da mortalidade. Nem eu me livro da pergunta: “e se a morte fosse a última palavra, a pessoa humana estava a evoluir para o nada”? E a pergunta que nos interpela logo depois: “Quem é esse animal que a natureza produziu e que não pode ser compreendido a partir da natureza?” Enfim, descobri tardiamente as perguntas das crianças e, ao contrário das crianças, não tinha respostas mais ou menos apaziguadoras para receber.

Recordo-me de uma missa a que assisti, antes do funeral de um amigo. Estava especialmente disponível, por esses dias, para uma transcendência que me apaziguasse o espírito. Infelizmente (ou felizmente), o padre era dos que vê “Deus como fuga do mundo”. Era como se precisasse “de um outro mundo para ajustar contas com este”. A mim não me fazia precisão, já que o que queria era ficar mais tempo neste, que me parece, olhando para os prós e os contras, bastante bom para estar.

Mas nas reflexões de Frei Bento quase encontro o Deus que preciso. Um “absoluto que não chego a explicar”. Aquilo a que Régis Debray chamou do “Outro”, tratando esse “outro” como poesia e que, falando na primeira pessoa, se apresentou assim: “Um mito que diz a verdade. E a verdade é que vocês não sabem passar sem um poema, um sonho coletivo, uma faísca de outras paragens, se querem viver e não apenas sobreviver.” O pastor dinamarquês Thorkild Grosboll que, numa entrevista que lhe custou a carreira clerical, resumiu assim a crença que me calhava bem: “Deus é ‘A’ questão, uma fantástica questão que uma pessoa pode aplicar à sua própria vida.”

Para o pastor, a história de Cristo “é uma história que explica, embora de uma forma envelhecida, a minha condição de ser humano e transmite uma mensagem sem a qual não se pode passar.” Talvez Umberto Eco tenha explicado de uma forma mais comovente a riqueza do cristianismo: “Se eu fosse um viajante chegado de longínquas galáxias, perante uma espécie que soube propor a si própria um tal modelo de vida, não poderia deixar de admirar tanta energia teogónica e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, remida só pelo facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto seja verdade.”

Um Deus assim tão abstrato, este desejo que também não posso deixar de admirar e um pouco mais de contacto com a bondade bem humorada de Frei Bento Domingues talvez chegassem para me converter. Acontece que é ele mesmo que arrefece, com toda a razão, o meu ímpeto: “Não adianta amputar o cristianismo da dimensão religiosa da fé e reduzi-lo a um humanismo. A sua secularização integral seria um desastre.” Fui assim obrigado a explicar à assistência que não estava preparado para entrar no seu rebanho. Eles aceitaram sem qualquer recriminação.

Mas num rebanho inspirado pela bondade inteligente (sempre tão rara) de Frei Bento Domingues estarei com toda a facilidade. Na “teologia em fragmentos”, que nos deixa todos os domingos no “Público”, em que acaba sempre por falar do que é essencial, em vez do pêndulo corpo/alma, mundo/transcendência, vida/morte, Frei Bento opta pelo tear, que no movimento de um lado para o outro vai unindo as partes. E é esta capacidade que lhe permite renegar sem pruridos e medos o dogmatismo e afastar de si “um Deus infinitamente ofendido a exigir reparação infinita”. Sabendo que “nem tudo é santo nas religiões”, a abertura de espírito não lhe deve ser leve. Como diz sobre um outro teólogo, “os caçadores de heresias estarão sempre incomodados com o seu modo descontraído de procurar o que se perdeu e de abrir o futuro sem o desenhar”. Andei por igrejas laicas e percebo do que fala.

Perdida a possibilidade de experimentar um Deus que não pode ser apenas “A” questão, sobra um outro lado relevante desta conversa: o papel da religião nas escolhas éticas que fazemos. No fundo, a razão pela qual escrevi, no início deste texto, que não queria viver num mundo sem religião. Sobre este tema, Frei Bento divide connosco, numa série de textos a que deu o título “Em que crê quem não crês”, um debate entre o cardeal de Milão Carlo Maria Martini e Umberto Eco, na revista “Liberal”.

Os libertários não me perdoarão, mas acho que o espaço de entendimento com católicos coerentes é, neste momento, mais interessante do que o espaço de entendimento com qualquer liberal radical

O diálogo resumido é este. Carlo Maria Martini: “Que outra coisa poderá fundamentar a dignidade humana senão o facto de cada um ser uma pessoa aberta a algo mais alto e maior do que ela própria.” Umberto Eco: “Como nos ensinam as mais laicas ciências humanas, é o outro, o seu olhar, que nos define e nos forma.” Martini: “dar a própria vida sem reconhecer um Deus pessoal (…) não pode estar ligado a nenhum princípio mutável”. E aqui eu começo a vacilar, pronto para dar razão ao cardeal. A limitação de uma ética fundada apenas em valores humanistas é que dificilmente podemos dar a vida por ela, porque nada pode haver acima da vida. A não ser que fosse Deus. Umberto Eco resolve bem o problema: “A ética laica ou religiosa deve fixar os olhos nos santos, laicos ou crentes. Descobre que não deve fazer aos outros aquilo que não deseja que façam a si perante o olhar do outro.” Ou seja, a religião mais não faz do que exprimir uma ética natural, que nos é imposta pelo olhar do outro. Aquela que, como escreveu Mark Twain, nos diz para tentarmos “viver de tal modo que, quando morrermos, até o homem da agência funerária lamente a nossa morte”.

Pondo-me em paz com Deus sem me converter e em paz com a ética sem ser religioso, tenho outro encontro com Frei Bento quando ele, católico, fala da religião e das Igrejas e eu, humanista pós-marxista, penso na política e nas organizações que sustentam a ação coletiva. Com alguma liberdade, percebo que Frei Bento sofre, como eu sofro, com uma certa onda “new age” que domina o tempo em que vivemos, em que se instala “a confusão de tudo com tudo em nome da harmonia universal”. Um tempo em que, havendo um regresso da religião, ela corresponde a uma “religiosidade difusa”, ao prazer egocêntrico da fé, uma “busca de si mesmo”, sem qualquer sentido de comunidade, apenas para consumo individual.

É o “triunfo da religião sem Deus e sem Igreja, a adesão a crenças cada vez menos messiânicas.” Frei Bento fala-nos de um crise que, na realidade, atravessa todas as grandes narrativas. As religiosas, mas também as políticas. Interessa apenas o aqui e agora, no desespero individual da total falta de sentido para a vida. As grandes narrativas, com as suas crenças messiânicas, “não existem para descrever nem o passado nem o presente nem o futuro, mas para não se acomodarem à injustiça, para não desistir da paz, para não deixar caminho ao terror”. Para ter horizonte que justifique a caminhada. É neste tempo, em que tudo o que era sólido se dissolveu no ar, que “o evangelho da fraternidade precisa da instituição para que a sua energia não se dissolva.” Assim como as propostas políticas e sociais precisam de organizações que lhes deem consistência.

Vou avançando no livro e vai ficando mais claro o que tenho intuído crescentemente na última década: que há muito mais a aproximar-me de um católico com preocupações sociais – esqueçamos os que ignoram tudo o que é essencial na mensagem cristã e vivem obcecados com o castigo e o moralismo – do que de um liberal mais radical. Em relação ao segundo, terei em comum alguma agenda libertária relativa aos direitos humanos individuais. Mas quase tudo o resto, no tempo histórico que vivemos, me afasta dele.

O vice-reitor da Universidade Católica de Lovaina lançou um apelo ao diálogo “entre os que acreditam no céu e os que acreditam na terra”. De forma um pouco menos poética e em sentido crítico, António Barreto acusava a esquerda nacional de querer “a junção entre a esquerda e a religião, entre o socialismo e o catolicismo, entre o Estado-providência e o pensamento social da Igreja.” Revejo-me nesta possibilidade. Os libertários não me perdoarão, mas acho que o espaço de entendimento com católicos coerentes é, neste momento, mais interessante do que o espaço de entendimento com qualquer liberal radical. E em Frei Bento Domingues fica claríssimo onde esse encontro se faz.

A resposta está Livro do Ato dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles. Com muito vigor, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E todos eles tinham grande aceitação. Não havia entre eles indigente algum, pois os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; e distribuíam-se a cada um segundo a sua necessidade.” Onde é que eu já ouvi isto?

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3 pensamentos sobre “O Deus de Frei Bento

  1. Vejo que para si instantes há em que não basta “0uvir o astrónomo sabedor.” Logo é possivel que goste deste poema de Walt Whitman, para cuja tradução peço a sua benevolência.:

    Quando ouvi o astrónomo sabedor,
    Quando os factos, os números, eram ordenados perante mim em colunas;
    Quando me eram mostrados os gráficos e os esquemas para os somar, dividir e medir;
    Quando sentado ouvi o astrónomo dissertar com o agrado de todos na sala de conferencias;
    Inexplicavelmente senti-me mal e cansado.
    Até que levantando-me deslizei sózinho para fora, vagueando
    No místico ar húmido da noite e de vez em quando,
    Em perfeito silencio, levantei os olhos para as estrelas.

    WHEN I HEARD THE LEARN’D ASTRONOMER

    When I heard the learn’d astronomer,
    When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
    When I was shown the charts and diagrams, to add, divide, and measure them,
    When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
    How soon unaccountable I became tired and sick,
    Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
    In the mystical moist night-air, and from time to time,
    Look’d up in perfect silence at the stars

    Walt Whitman (1819-1892)

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    • A tradução está boa e não é necessária qualquer benevolência. E tem razão, por vezes, o “astrónomo” não chega. Aliás, por muito que avancemos, nunca irá chegar. A vida perderia grande parte do seu interesse. Nunca seremos Deuses. Pelo menos à dimensão com que n(os) criámos. Saudações. E eu cá continuo. À procura. Qual Diógenes.

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