Na “União” Europeia, há uns mais iguais do que outros

(Baptista Bastos, in Jornal de Negocios, 22/07/2016)

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Baptista Bastos

Portugal precisa da “União” Europeia, ou é a “União” Europeia que precisa de Portugal? A questão terá de começar a ser posta, sob o risco de continuarmos a ser tratados como minorcas ou subalternos.


Interpretando os factos com o rigor exigido pela sua própria natureza, chegamos à conclusão de que Portugal não tem sido tratado como igual pelos senhores que mandam na “União” Europeia, em especial pelo ministro Schäuble. Como comparação, recordamos a efusiva simpatia demonstrada por Vítor Gaspar, antigo ministro do PSD, prometendo-lhe a condescendência da Alemanha, ante qualquer problema que surgisse em Portugal. Não admira, portanto, que Maria Luís Albuquerque tenha dito que, fosse ela ainda ministra, nenhuma destas ameaças de agora existiriam.

Nestas últimas três semanas, as aflições acentuaram-se com a perspectiva de o nosso país ser punido com sanções terríveis, como castigo por não ter cumprido umas regras, na verdade transgredidas pelo governo anterior. Não vale a pena lembrar o afã com que membros do PSD e do CDS, sempre tão pressurosos em zurzir o Governo de António Costa, se têm demonstrado em criticar as ameaças de sanções. Eles lá sabem porquê…

Esta situação não pode continuar. Não é, apenas, um Governo que Bruxelas quer ferir. Esta exasperação ideológica atinge o povo português no seu todo, pelas características e pela dimensão da estratégia. Portugal precisa da “União” Europeia, ou é a “União” Europeia que precisa de Portugal? A questão terá de começar a ser posta, sob o risco de continuarmos a ser tratados como minorcas ou subalternos. Parafraseando um dito famoso de Jorge Sampaio, há mais vida para além do factor económico. E andamos já fartos dos numerosos programas de televisão, sobretudo os de uma estação que já foi viva e actuante, repletos de números, equações, cifras e cifrões, frequentemente perigosos por ameaçadores, além de unilaterais nos propósitos. Depois, os “comentadores” são sempre os mesmos ou da mesma laia.

Há dias, quando esteve em Portugal por escassas horas, François Hollande afirmou que a “União” Europeia estava repleta de regras, exigências e normas, e que se tornava necessário reformular o projecto. Hollande pertence ao directório deste “condomínio” económico-financeiro, tal como Angela Merkel, mas quem manda é a senhora, porta-voz e activa participante de uma hegemonia perigosíssima porque cada vez mais dominadora e tirânica.

Pessoalmente, já o disse em voz alta e por escrito, não quero ser alemão. Sou legatário de uma cultura soberana, sempre oposta aos alardes vitoriosos de uma nação dada è beligerância. Mas nada tenho que ver, e até combato as tendências de supremacia de uma clique, que tem conduzido aquele país a guerras e a terríveis afrontas à Humanidade.

Não tenho visto, da parte de António Costa e de outros membros deste Governo, os salamaleques, a subalternidade untuosa tanto de Sócrates como de Passos Coelho, em volta de Merkel a que, frequentemente, em tempos recentes, nos habituámos. O tratamento de igual para igual faz parte das relações entre Estados. Ou devia fazer.

Na "União" Europeia, há uns mais iguais do que outros

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(Baptista Bastos, in Jornal de Negocios, 22/07/2016)

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Baptista Bastos

Portugal precisa da “União” Europeia, ou é a “União” Europeia que precisa de Portugal? A questão terá de começar a ser posta, sob o risco de continuarmos a ser tratados como minorcas ou subalternos.


Interpretando os factos com o rigor exigido pela sua própria natureza, chegamos à conclusão de que Portugal não tem sido tratado como igual pelos senhores que mandam na “União” Europeia, em especial pelo ministro Schäuble. Como comparação, recordamos a efusiva simpatia demonstrada por Vítor Gaspar, antigo ministro do PSD, prometendo-lhe a condescendência da Alemanha, ante qualquer problema que surgisse em Portugal. Não admira, portanto, que Maria Luís Albuquerque tenha dito que, fosse ela ainda ministra, nenhuma destas ameaças de agora existiriam.
Nestas últimas três semanas, as aflições acentuaram-se com a perspectiva de o nosso país ser punido com sanções terríveis, como castigo por não ter cumprido umas regras, na verdade transgredidas pelo governo anterior. Não vale a pena lembrar o afã com que membros do PSD e do CDS, sempre tão pressurosos em zurzir o Governo de António Costa, se têm demonstrado em criticar as ameaças de sanções. Eles lá sabem porquê…
Esta situação não pode continuar. Não é, apenas, um Governo que Bruxelas quer ferir. Esta exasperação ideológica atinge o povo português no seu todo, pelas características e pela dimensão da estratégia. Portugal precisa da “União” Europeia, ou é a “União” Europeia que precisa de Portugal? A questão terá de começar a ser posta, sob o risco de continuarmos a ser tratados como minorcas ou subalternos. Parafraseando um dito famoso de Jorge Sampaio, há mais vida para além do factor económico. E andamos já fartos dos numerosos programas de televisão, sobretudo os de uma estação que já foi viva e actuante, repletos de números, equações, cifras e cifrões, frequentemente perigosos por ameaçadores, além de unilaterais nos propósitos. Depois, os “comentadores” são sempre os mesmos ou da mesma laia.
Há dias, quando esteve em Portugal por escassas horas, François Hollande afirmou que a “União” Europeia estava repleta de regras, exigências e normas, e que se tornava necessário reformular o projecto. Hollande pertence ao directório deste “condomínio” económico-financeiro, tal como Angela Merkel, mas quem manda é a senhora, porta-voz e activa participante de uma hegemonia perigosíssima porque cada vez mais dominadora e tirânica.
Pessoalmente, já o disse em voz alta e por escrito, não quero ser alemão. Sou legatário de uma cultura soberana, sempre oposta aos alardes vitoriosos de uma nação dada è beligerância. Mas nada tenho que ver, e até combato as tendências de supremacia de uma clique, que tem conduzido aquele país a guerras e a terríveis afrontas à Humanidade.
Não tenho visto, da parte de António Costa e de outros membros deste Governo, os salamaleques, a subalternidade untuosa tanto de Sócrates como de Passos Coelho, em volta de Merkel a que, frequentemente, em tempos recentes, nos habituámos. O tratamento de igual para igual faz parte das relações entre Estados. Ou devia fazer.

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Flores para Algernon

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/07/2016)

Autor

Pacheco Pereira

Dr. Strauss says I shud rite down what I think and evrey thing that happins to me …

He said now sit down Charlie we are not thru yet. Then I dont remember so good but he wantid me to say what was in the ink. ….

(Daniel Keyes, Flowers for Algernon)


Hoje espera-se que eu escreva sobre o atentado de Nice. Ontem sobre as sanções. Anteontem sobre Durão Barroso ou o “Brexit”. Antes foi o dia do espasmo patriótico, o retorno à unidade orgânica da pátria, a realização do mito do unanimismo, o fim das divisões perversas no altar da selecção. Todos de cachecol, Marcelo, Costa, Jerónimo, os bloquistas, o CDS, os artistas menores do PSD, porque o maior mantém a compostura de Primeiro-ministro no exílio. Traz a bandeirinha à lapela e a zanga com o destino que lhe deu a geringonça no bolso.

Nos vinte dias anteriores era futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. Num dia, no meio do futebol, alguma coisa sobre os atentados na Turquia. Antes dos dias do futebol havia os dias do meio-futebol, ou dos preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol, preliminares do futebol. Havia um Deus revelado nestes dias e chamava-se Ronaldo. Acabaram os canais noticiosos, todo o cabo é desporto, todos unidos, todos iguais. Acabaram as notícias, e os locutores que agora se chamam pivot pedem desculpa por ainda terem que falar de coisas menores, o Daesh, Trump, Clinton, o Deutsche Bank, os curdos, a Síria. Já não me lembro. Como é que me posso lembrar se foi tudo há tanto tempo e durou tão pouco tempo?

Antes? Também já não me lembro. A Caixa Geral de Depósitos associada às peripécias da Comissão de Inquérito? Talvez. Talvez os colégios de amarelo. Onde estão? Lá muito atrás um sussurro sobre os refugiados, ou melhor sobre os cadáveres dos refugiados. E estamos a chegar a uma outro campeonato, o de cá. E outra vez futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol, futebol. Futebol sob a forma de intrigas, declarações tonitruantes, vinganças, relvado e o seu estado, pernas, joelhos e outras partes da anatomia inferior dos jogadores, treinos, treinos, chegada de autocarros, partida de hotéis, chegada dos exércitos das claques, declarações dos responsáveis da PSP, horas e horas e horas e horas e horas e horas de programas desportivos. Emissões especiais, conferências de imprensa dos treinadores, dos jogadores, dos dirigentes desportivos…

Já não me lembro. Mas havia uma voz. Uma voz acompanha tudo, 200 dias, 500 Declarações do Presidente da República, à média de mais de duas por dia. Dessas lembramo-nos de dez. As mais importantes? Quando se fazem 500 declarações nenhuma é importante. Talvez nos lembremos das mais engraçadas. Ou, melhor ainda, das imagens, que são sempre mais fortes do que as palavras. Agarro-me ao segundo critério para haver memória: há imagens, há notícia, seja uma coisa séria ou irrelevante. Não há imagens, não há notícia. Por isso toda a gente se mostra diante das câmaras. Mas o que fazem, o que dizem? Marcelo a dançar em Moçambique, talvez a mais relevante, mas também já não me lembro bem…

Cada vez mais para trás. Já não me lembro. Mas passaram apenas meia dúzia de meses? Já não me lembro. Houve eleições. Parece um outro mundo. Ganhou Passos Coelho e Portas. Fizeram governo? Já não me lembro, só sei que durou pouco. Caiu. Foi-se a avantesma, veio a geringonça. A Europa do PPE e os socialistas da corte de Merkel arrebitaram as orelhas. O quê? Os comunistas estão no poder em Portugal? E o Syriza local? Temos que tratar disso, voltar à austeridade, voltar ao respeitinho com os Grandes. O Plano B. Não devia já existir, estar em pleno vigor? Já não me lembro. Pensar faz-me mal à cabeça.

Leio jornais, vejo televisão, tenho cada vez menos memória e cada vez mais memória mediática, uma contradição entre os termos. Curta. Muito curta. Atafulhada de bola, casos da vida, acidentes, incidentes, nada. Dura um dia, quinze dias? Mais? Já não me lembro porque não é para lembrar, é para entreter, para distrair, para passar o tempo. Não sei. Sei cada vez menos. Devo estar doente. O meu cérebro está cada vez mais pequeno. Pequenino.

Já não me lembro. Coloquem flores na campa de Algernon