A guerra é uma extorsão… 

(Editorial Strategic Culture Foundation, in Resistir, 13/08/2023)

Os fabricantes de armas ocidentais estão a abrir garrafas de champanhe por causa do recorde de vendas, com um total de receitas de 400 mil milhões de dólares no ano passado. De acordo com informações dos media, no fim deste ano,esse valor recorde será ultrapassado em mais US$50 mil milhões…


Continuar a ler o artigo em: A guerra é uma extorsão… As indústrias de armamento dos EUA e da NATO registam um recorde de vendas de US$400 mil milhões com a guerra proxy contra a Rússia


A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.

Tudo ao contrário!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 12/01/2023)

Oito anos de construções fortificadas, túneis, bunkers e depósitos de armamento sem fim, dois meses de reposicionamento de reservas e perdas humanas militares, eis que tudo começa, finalmente, a colapsar. As perdas humanas situam-se na casa das dezenas de milhares de jovens, menos jovens, nacionais e estrangeiros, eis que aconteceu o inevitável. O comediante que é presidente, nos seus vídeos diários a partir de um qualquer bunker ou numa qualquer mansão resistiu sempre a fazer o que o oponente faz quando considera que o esforço é demasiado para o ganho: recuar para uma linha de defesa mais sólida, poupando homens e equipamento.

A narrativa oficial, partilhada vezes sem fim, ecoando “as vitórias mais importantes desde a Segunda Grande Guerra”, para o lado doméstico, não será despicienda, para a decisão de lutar até ao último homem. Afinal, qualquer decisão, de dar por perdida uma importante cadeia defensiva, implica uma inversão total na narrativa propagada pela imprensa corporativa do Atlântico Norte. Há que preparar primeiro o público, seguidor implacável de tais narrativas. Dizer-lhe a verdade, não é uma opção, pois tal significaria dizer efectivamente o contrário do que se tem dito, nomeadamente quanto ao desfecho inevitável do conflito.

Esta é mais uma guerra usada como ciclo de acumulação capitalista, facto bem patente na importância destes últimos 9 anos de sanções para a inversão da tendência no mercado mundial de armamento, que colocava os dois indirectos contendores em competição directa e com números muito próximos. Só que tal situação como que se inverteu, sendo hoje os EUA, o incontestável líder da venda mundial de armamento, com cerca de 2/3 a mais em valor de vendas do que o seu maior concorrente directo (a FR).

Não quer dizer que vendam mais quantidade…Vendem sobretudo mais caro. Os dados ao dispor são elucidativos sobre o uso da guerra e do complexo militar industrial enquanto instrumento do ciclo de acumulação capitalista, ou, ao contrário, enquanto instrumento que tem como objectivo fundamental a defesa nacional.

O “Global Fire Power 2023” que estabelece o “Fire Power Index”, coloca os EUA em primeiro com 0,0712, a Federação Russa (FR) com 0,0714 e a China (RPC) com 0,0722. Ou seja, os dois primeiros surgem empatados e o terceiro está muito próximo. O 4.º lugar, da India, já está muito mais longe, com 0,1025. O que é que isto nos diz sobre o papel de cada exército?

A primeira questão que salta à vista é, como é que um país que gasta 800 mil milhões de dólares em orçamento militar (e não integramos aqui o “dark money” das secretas, nem toda a investigação paga através de programas federais que também vai para fins militares), tem praticamente o mesmo poder de fogo que um país que gasta 65 mil milhões de dólares e pouco mais do que outro que gasta 290 mil milhões de dólares?

A resposta está em vários vectores: 1.º o complexo militar industrial norte americano é privado, logo, visa prosseguir o lucro, o enriquecimento de uma elite e a concentração de riqueza, sendo o estado um instrumento dessa acumulação; 2.º os outros dois têm um complexo militar industrial essencialmente público – não exclusivamente -, principalmente nas áreas mais sensíveis, não se destinando a mais do que cumprir o seu papel público, ou seja, garantir uma defesa nacional eficaz e capaz de defender a soberania do país.

Esta diferença é primordial, pois o primeiro faz armas para vender, nomeadamente e como dizem muitos especialistas, produzindo “brinquedos” de luxo, muito sofisticados e complexos, e por isso muito caros, quer no acto de compra, quer na manutenção, formação e exigências técnicas do pessoal, quer quando em combate, normalmente muito dados a avarias. Ao contrário, os outros dois contendores tentam produzir o mais barato possível, produtos eficazes, eficientes e com durabilidade. O facto de se tratarem, em grande parte, de empresas públicas, permite comprar a preço de custo e mesmo quando se tratam de empresas privadas, o preço que exigem está condicionado por um mercado dominado pelo sector empresarial público, cujas dinâmicas de acumulação são controladas pelo Estado, na defesa do que entende como interesse nacional. A isto, os EUA, chamam de “falta de liberdade económica”. Dos mais ricos, claro!

A estes dois vectores poderemos ainda adicionar outras variáveis que não deixarão de ter grande importância: qualquer uma das economias do 2.º e 3.º classificados são menos financeirizadas e, nesse sentido, menos especulativas, principalmente em sectores estratégicos, o que se reflecte em preços mais baixos e num menor peso do sector rentista sobre a indústria. Depois ambos os países têm um potencial industrial instalado muito grande, o que permite a produção nacional quase exclusiva, com cadeias de produção quase totalmente em moeda nacional e por isso muito pouco vulneráveis a ataques especulativos ou a disrupções de outro tipo (no caso da federação russa, ainda tem a vantagem de ter acesso a todas as matérias primas no seu próprio território). Por fim, e entroncando no tópico anterior, ambos os países têm contas de capital fechadas (pelo menos em parte, sendo que a FR tem vindo a fechar com as sanções e a RPC só abre em determinadas áreas e com muitos limites), o que permite estabelecer cadeias de produção de alto valor acrescentado, mas de baixo custo comparativo, quando avaliado, nominalmente, em dólares. As vantagens que aqui constatamos em matéria de defesa são também visíveis noutros domínios como por exemplo a investigação espacial, a ferrovia e a banca. Só assim se suportam sanções em catadupa (caso da FR), só assim é possível usar o potencial acumulado para um desenvolvimento mais rápido do país (como no caso da RPC).

Venham de lá agora os defensores do neoliberalismo e da “abertura” dos mercados, defender que os países defendem melhor a sua soberania dessa forma, e não através das medidas protecionistas atrás referidas. Não fossem essas medidas e as duas economias em causa já estariam absolutamente arrasadas, quer por sanções, quer por ataques especulativos e os seus povos na mais absoluta indigência, de que tanto lhes custou sair. Não é por acaso que as duas grandes reivindicações dos EUA quanto às mudanças na RPC estão relacionadas com a privatização do seu imenso (cerca de 30% da propriedade do país) sector público empresarial (principalmente a banca) e com a abertura total das contas de capital. Não é por acaso, também, que os EUA acusaram a FR de valorizar a sua moeda através do controlo de capitais. Eis porque razão a Casa Branca diz ser necessária uma “mudança de regime”. Este não interessa à “sua” democracia, dificulta a entrada de cavalos de tróia.

Mas se este constitui um dos mais importantes factores em disputa, um outro, o energético, já deu frutos, pelo menos no curto prazo. De acordo com a Bloomberg, os EUA tornaram-se, em 2022, o maior produtor mundial de gás. Tudo à custa da transição da compra europeia, da FR para os EUA. Se, para os EUA, esta “oportunidade” (como referiu Blinken) foi fantástica, para a Europa, deixa à mostra toda a sua fragilidade, política, económica e cultural. Para se ter uma ideia do custo que tem o “desacoplamento” da FR e “acoplamento” nos EUA, em matéria de dependência energética, basta ver os dados relativos à balança comercial em Novembro de 2022, período em que estes países se dedicaram a encher as suas reservas de gás natural e outros combustíveis.

Os dados fornecidos pela Golden Sachs dizem que, para a França, o ultimo novembro foi o mais negativo dos últimos 20 anos, em matéria de défice comercial (- 15%). A Suécia, tal como a França, também teve o pior novembro dos últimos 20 anos, um dos únicos 5 que em 20, tiveram deficit, sendo o deste ano muito superior ao do ano passado, que já era negativo e reflectia a “grande” decisão de Úrsula em se passar a comprar o gás “on the spot” ao invés de celebrar contratos de longa duração (já estava em preparação o “desacoplamento”), como seria aconselhável. A Alemanha, mantendo-se em terreno positivo, teve, mesmo assim, o seu pior novembro dos últimos 18 anos. Em matéria de produção industrial química e farmacêutica (que exigem gás), está em queda livre, baixando para níveis muito inferiores a 2010, em plena crise do subprime. O preço elevadíssimo do gás americano torna inviável a produção e, por outro lado, a falta de gás, devido ao encerramento e destruição do Nord Stream pelos seus “aliados”, leva a que tenha de se optar entre a produção industrial por um lado, e a manutenção das reservas estratégicas de gás, por outro, tão necessárias ao aquecimento em pleno inverno. A Alemanha tem optado pelo encerramento e deslocalização de empresas. Umas para a RPC, outras para os EUA, que até tem um competitivo sector farmacêutico (nada é por acaso).

O Japão também está numa situação complicada, também com o pior novembro dos últimos 20 anos. Por essa razão não será alheia a decisão de voltar a comprar petróleo à FR, nomeadamente voltando ao projeto Sahkalin e não cumprindo o teto de preço que havia antes, no G7, “contribuído”  para fixar. Esta decisão certamente não deixará os seus mestres atlantistas muito contentes.

Assim, a conclusão de um dos economistas da Golden Sachs que divulgou estes dados é esta: “os campeões mundiais da exportação já deixaram de o ser”. Eis no que dá prescindir da soberania nacional e deixar os “aliados” passarem a tomar as decisões que a cada um cabem.

A total sujeição dos países do G7 e EU aos ditames da NATO, organização criada para os arregimentar, confundindo-se hoje com a própria União Europeia; a aplicação cega de todas as sanções e orientações económicas e financeiras; a falta de mecanismos de protecção dos respectivos mercados internos… Não deixam de ter o efeito a que estamos a assistir, que havia sido previsto por tanta gente silenciada ao longo deste tempo. Como devem detestar ter razão.

E enquanto todos mantêm tal abertura, o “aliado” atlântico adopta medidas proteccionistas que visam precisamente captar o que de melhor a indústria dos seus “amigos” ainda tiver para dar.

Depois disto e do anunciado – manobra de diversão para os desaires militares recentes – pela cúpula da União Europeia, só falta ver o nosso Primeiro-ministro, Presidente e demais direitas e esquerdas atlantistas virem defender a entrada rápida da Ucrânia, da Geórgia, e da Moldávia na União Europeia… Tudo por solidariedade, claro! Quero ver depois quando esta gente, que tanta empresa tem que vive dos fundos comunitários, deixar de os receber… De certeza que vão encontrar culpados onde não existem. Afinal essa é a sua praxis!

Querem mudanças, querem mesmo? É fazer tudo ao contrário do que estes dizem!


A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.

A Falácia dos 2% para a Defesa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 05/06/2022)

Quando um dirigente político apresenta a necessidade de aumentar as despesas militares para os 2% do PIB está a considerar-nos implicitamente 98% estúpidos por acreditarmos neles.

Os Estados Unidos, o secretário-geral da NATO e os ministros da Defesa da NATO têm estado a apresentar como necessidade essencial de defesa dos países da NATO contra a ameaça russa um valor mínimo de 2% do PIB de cada estado para despesas ditas com a defesa.

É uma falácia — O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente incoerente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega.

É uma falácia assente em pressupostos falsos a vários títulos. A invasão da Ucrânia pela Rússia demonstrou que as Forças Armadas Russas têm tido grandes dificuldades em atingir os seus objetivos na Ucrânia, sejam esses objetivos a ocupação do país, a derrota das forças armadas ucranianas, ou até a ocupação de uma faixa de 20% do território (Donbass e margens do mares de Azov e Negro).

O potencial relativo de combate (grosso modo) entre a Rússia e a Ucrânia consta do Quadro 1.

Apesar de as forças armadas ucranianas terem sido organizadas e treinadas pelos Estados Unidos e outros países da NATO como uma força de ordem interna de suporte a um regime favorável (a oligarquia que gerou Zelenski) e, no limite das suas capacidades, como força de provocação à Rússia no Donbass, apesar da organização do terreno no Donbass e nas periferias de aglomerados populacionais e sobre os eixos principais ser de média resistência (trincheiras escavadas e campos de minas), apesar da não existência de grandes obstáculos naturais (o terreno é plano), o facto é que as forças russas têm tido grande dificuldade em ocupar e vencer umas forças com os meios das ucranianas, sendo estas apoiadas pela NATO com as suas capacidades de Comando, Controlo e Informação. As forças russas, no seu avanço de leste para ocidente, não chegaram sequer ao rio Dniepre!

Os países da NATO conseguiram meios para deter a Rússia utilizando as forças ucranianas, sem empenharem em combate nenhuma das suas unidades terrestres, aéreas ou navais. A NATO tem à retaguarda da Ucrânia todo o seu potencial intacto — um potencial significativo e superior ao russo, mesmo sem contar com os Estados Unidos e o Canadá! Quadro 2

O aparelho militar dos países europeus da NATO tem custado aos contribuintes cerca de 1,5 do PIB e tem sido suficiente. Quadro 3

Assim: se 1,5% do PIB empregue em despesas com armamento têm sido suficientes para deter a “ameaça russa” no leste da Ucrânia, numa faixa de 120 quilómetros de largura, que necessidade existe de gastar mais meio por cento para obter o mesmo resultado?

Alguém em Bruxelas, seja na sede da NATO, seja na sede da UE, um daqueles milhares de funcionários, já se deu ao trabalho de analisar a relação de custo-eficácia das despesas militares? Se a intenção do aumento das despesas com armamento for derrotar a Rússia no seu território, então os 2% de aumentam não chegam, como se conclui da invasão da Ucrânia, onde a Rússia não consegue avança e instalar-se. Quanto às tentativas de a Europa Ocidental invadir a Rússia, existem na história duas más experiencias: a de Napoleão e a de Hitler. Os 2% do PIB europeu são suficientes para ensaiar uma nova aventura de ir até Moscovo?

A proposta de aumento das despesas militares para os 2% não é necessária para defender a Europa da Rússia e é insuficiente para a Europa derrotar a Rússia. Os políticos europeus estão a ludibriar os cidadãos. Os únicos que lucrarão com o aumento serão os fabricantes de armamento, em particular os do complexo militar norte-americano.

Os cidadãos europeus deviam perguntar aos políticos como justificam o aumento de despesas militares! É que o dinheiro “pode” fazer falta para necessidades reais, para ameaças reais resultantes de desastres ambientais, de pandemias, de envelhecimento da população, de empobrecimento, de migrações, de fome…

Quando um dirigente político apresenta a necessidade de aumentar as despesas militares dos europeus para os 2% do PIB está a considerar-nos (aos europeus) implicitamente que 98% estúpidos porque apenas com esse grau de lerdice se acredita neles.

Estes dados são públicos e retirados da Revista The Military Balance 2021 — do The International Institute for Strategic Studies, do Reino Unido, que os dirigentes políticos deviam conhecer, assim como os artistas civis convidados para animarem as sessões de espiritismo sobre a guerra na Ucrânia promovidas pelas televisões.

O link onde pode ser encontrar toda a informação é: https://hostnezt.com/cssfiles/currentaffairs/The%20Military%20Balance%202021.pdf


Quadro 3

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.