(Júlio Marques Mota, 27/03/2024)

Entre a Argentina e Portugal haverá algum paralelelismo? Penso que sim, a partir dos resultados eleitorais de 10 de março.
Retomo a série Democracias Minadas e com mais um artigo de Claudio Katz sobre a Argentina, este datado de fevereiro de 2024. Talvez seja uma obsessão minha, mas as analogias de Portugal com a Argentina parecem-me cada vez mais evidentes.
O degradante espetáculo de ontem na Assembleia da República será um bom exemplo das forças contraditórias que estão subjacentes aos diferentes discursos e às ambições dos diversos partidos e de algumas das pessoas singularmente consideradas, como Francisco Assis, Medina e Eurico Brilhante Dias. O que se mostrou ontem é que o poder, com a viragem à direita feita com estas eleições, assenta numa coligação fraca, em poder e em capacidade política de ação no complicado contexto em que a AD se encontra. Um dia marcado pela agenda politica estipulada por um maestro na política, André Ventura. Os homens da AD pareciam galinhas a sentirem que a raposa está a chegar ao galinheiro. Mas para além da raposa, havia outros animais da floresta a assustar os homens da AD, representados pelas três figuras do PS citadas.
Lembram-se do movimento antigeringonça e de um almoço possível na Mealhada entre os militantes do PS que se opunham a essa geringonça, uma geringonça que teve como principal negociador Pedro Nuno Santos? Esses homens também estão no PS no assalto ao poder no interior do PS e a lógica que os move não será bem a lógica em que assenta a dinâmica criada por Pedro Nuno Santos. Nada disso, a sua lógica é outra. Enquanto a lógica de Pedro Nuno Santos será uma lógica no sentido de servir o bem público, mesmo que possa parecer uma lógica de poder individual, a lógica dos outros dois e até a de Santos Silva, é inversa, é uma lógica de poder individual, mesmo que pareça uma lógica de sentido de servir o bem público. Resistirá Pedro Nuno Santos às pressões internas dos que se opõem à sua visão verdadeiramente progressista ou cairá ele no marasmo político que se desenha? Penso na segunda hipótese e, lamentavelmente, esta está em linha com o paralelo do que aconteceu na Argentina
E face aos rapazes da AD o grande vencedor do dia e da noite de ontem é, para já, André Ventura – se houvesse acordo com a AD seria uma grande vitória sua, amarrando a AD à sua agenda política; se não houver acordo com o Chega, terá de haver acordo com o PS e temos André Ventura radiante a afirmar que PS e AD são todos a mesma coisa e que, portanto, a grande oposição ao sistema político no poder em Portugal seria ele, André Ventura.
Encostada a AD ao PS, numa espécie de Bloco Central camuflado, poderia ser assim a forma de funcionamento da atual legislatura, com as forças internas no PS a levarem este PARTIDO a deslizar alguma coisa mais para a direita, mais do que aquilo que lamentavelmente já deslizou com on governo de Antóbio Costa.
Porém, dada a difícil situação económica e social que se vive em Portugal, alargar-se-iam as contradições no interior desse Bloco Central disfarçado, no interior da AD e no interior do PS assim como entre a AD e o PS. Reduzir-se-ia ainda mais a sua eficácia governativa no sentido de dar resposta às necessidades da maioria da sua população, os esquecidos da democracia. A situação económica, política e social continuaria a degradar-se.
Voltaria a lógica austeritária, com bons ideólogos a defendê-la pela parte do PS, como aconteceu com Miterrand em 1983, pela parte da AD não vejo ninguém com nível e com coragem para a justificar e convencer a população da necessidade da austeridade como resposta à crise que se iria assim instalar. Neste retorno da austeridade contar-se-ia com o apoio das grandes Instituições como UE, BCE, FMI, Banco Mundial, Davos. Não foi Xavier Milei aplaudido pela Finança Internacional em Davos? ,
Nesta sequência, o Chega alargaria ainda mais a sua base de apoio com o enfraquecimento da AD, a base eleitoral do PS reduzir-se-ia ainda mais com as gentes de esquerda do PS, que as há e muitas, à procura de outros poisos mais em linha com as suas aspirações situados à esquerda do PS.
Nestas movimentações, a AD e o CDS desapareceriam, a ala direita PSD seria absorvida pelo Chega enquanto a base de apoio conjunta de PS+AD reduzir-se-ia imensamente, e a esperança representada por Pedro Nuno Santos seria colocada no baú das coisas inúteis a guardar na história como o exemplo do que não se deve fazer e o mesmo aconteceria com Luís Montenegro .
O PS ao deslizar à direita e o PSD ao perder a sua ala direita ficariam cada vez mais iguais entre si e homens tipo Santos Silva, Brilhante Dias, Francisco Assis e algumas das figuras mais apresentáveis do PSD assumiriam depois os comandos do Novo Bloco Político. E André Ventura retomaria um dos slogans fundamentais em Javier Milei – eles são a casta, é contra ela que nós combatemos. E as equivalências com o que se passou na Argentina seriam imediatamente visíveis.
Este é um cenário possível, mas só será possível se a esquerda continuar a não querer perceber como é que dramaticamente se chegou até aqui. Perceber isso é, no entanto, apenas meio caminho andado para barrar o caminho aos Ventura deste mundo e do outro.
É preciso igualmente desencadear políticas que expliquem às pessoas e as convençam de que os caminhos a seguir não são os que lhes têm sido impostos, mas sim os caminhos que passam obrigatoriamente por MAIS e MELHOR ESTADO ASSIM COMO POR MAIS EMPENHO COLETIVO NA CONDUÇÃO DOS NOSSOS PRÓPRIOS DESTINOS. E aqui a responsabilidade maior será necessariamente das gentes do PS. Estarão os seus dirigentes – e em debates francamente abertos -, verdadeiramente disponíveis para em conjunto se desbloquearem as portas do futuro de Portugal?
Só assim se pode garantir que os Javier Milei deste mundo e do outro não se atravessarão no nosso caminho. Quanto aos caminhos de Milei e das suas múltiplas contradições, aqui vos deixo, abaixo, mais um texto de Claudio Katz, o qual também irei publicar em breve no blog A Viagem dos Argonautas, no ambito da série Democracias Minadas.
Milei quer mudar o equilíbrio de forças subjugando os movimentos sociais
Entrevista a Claudio Katz – in Rébellion, 05-02-2024
Publicamos esta entrevista de Claudio Katz, economista, investigador e professor da Universidade de Buenos Aires, sobre a política do novo presidente argentino, Javier Milei, concedida a Rébellion em 5 de fevereiro de 2024. “Milei pretende introduzir na Argentina uma reforma laboral que precarizará o emprego e consolidará um modelo neoliberal, como no Chile, no Peru e na Colômbia”.
Rebellion: Em novembro e dezembro, escreveu que o projeto de Milei dependia da resistência popular. Como avalia a greve e a mobilização da CGT?
Claudio Katz: O impacto foi extraordinário, tanto pelo seu fortíssimo carácter como pelas suas repercussões políticas. A praça (em frente ao Parlamento) e os arredores encheram-se de uma multidão espontânea que complementou a presença sindical. Tratou-se de um protesto marcante 45 dias após o início do governo, em pleno período de férias e com tempo quente. A marcha foi organizada em conjunto com as assembleias regionais e contou com uma grande participação dos sectores da juventude, da comunidade e da cultura. Mais uma vez, quando o movimento operário organizado intervém, o seu poder é avassalador. Ele foi o protagonista das principais lutas populares.
Rebellion: A mobilização teve também um grande impacto internacional…
Claudio Katz: Sem dúvida que sim. Houve atos de solidariedade em frente às embaixadas de muitos países europeus e nas principais capitais da América Latina. Isto mostrou que está a tomar forma uma consciência global emergente contra a extrema-direita. Começamos a aperceber-nos de que, se Milei ganhar, Kast, Bolsonaro, Uribe ou Corina Machado na nossa região, e Trump, Le Pen ou Abascal no norte, ficarão mais fortes.
Se, por outro lado, conseguirmos parar Milei, a vaga mundial de reacionários sofrerá a sua primeira derrota nas ruas perante a resistência organizada. Enquanto o anarco-capitalismo procura o apoio internacional do FMI, dos banqueiros e dos grandes capitalistas, a luta dos trabalhadores argentinos está a gerar solidariedade a partir das pessoas de menores rendimentos em muitos cantos do planeta. Esta linha de fratura é muito promissora.
Rebellion: É possível ver o ativismo internacional de Milei no seu discurso em Davos?
Claudio Katz: Sim. Aí, repetiu os seus conhecidos elogios ao capitalismo, mas com a premissa absurda de que este sistema está a atravessar o seu momento de maior prosperidade. Esse diagnóstico inusitado foi feito no mesmo dia em que um relatório sobre desigualdade ilustrou o que aconteceu nos últimos quatro anos. Nesse período, a riqueza dos cinco homens mais ricos do planeta duplicou, à custa do empobrecimento de inúmeros outros.
Na sua apologia libertária, Milei rejeitou todas as formas de regulação estatal e negou a existência de falhas de mercado. Vive num mundo de fantasia, sem saber que o capitalismo não poderia funcionar um minuto sem o apoio do Estado. Também relançou a apresentação infantil do empresário como um benfeitor social, ignorando a exploração, a precariedade, o desemprego e o parasitismo dos financeiros.
A estas idealizações míticas da escola neoliberal austríaca, acrescentou dois complementos mais convencionais. Por um lado, a crítica reacionária ao feminismo e, em particular, ao aborto, para o exercício efetivo do princípio da liberdade individual que ele tanto valoriza. Por outro lado, voltou a negar as alterações climáticas, no meio das catástrofes provocadas pelas secas, inundações e degelos a que assistimos todos os dias. Ele não está a ignorar estas provas por ignorância, mas devido ao seu apoio egoísta às companhias petrolíferas. Alinhou-se com o negócio da poluição para privatizar a YPF (a empresa pública de petróleo da Argentina), favorecer o grupo Techint e entregar as jazidas de Vaca Muerta (um projeto para explorar gás de xisto).
Rebellion: Mas também lançou um exótico aviso contra a contaminação socialista das grandes instituições ocidentais…
Claudio Katz: Sim, parecia um lunático no discurso em que censurava os banqueiros por deixarem entrar a influência socialista nas suas reuniões. É absurdo supor que na Meca mundial do neoliberalismo e da livre iniciativa exista uma corrente de pensamento anti-capitalista. Mas, como de costume, Milei tem feito estas explosões porque está a ser contrariado. Neste caso, o seu descontentamento deve-se ao declínio da globalização e à consequente desvalorização do Fórum de Davos.
As figuras de relevo no passado já não participam nesta reunião. Esta deserção está em sintonia com o reforço da viragem para a intervenção reguladora do Estado nas economias centrais. As tarifas e as despesas públicas voltam a ser instrumentos na política económica, agora acompanhadas de subsídios às cadeias de abastecimento e de leis que favorecem a produção local de alta tecnologia. Milei está aborrecido com esta viragem neo-keynesiana em relação à sua ortodoxia globalista. É um neoliberal à moda antiga, ainda comprometido com o globalismo dos anos 90.
Rebellion: Mas ainda leal ao guião americano…
Claudio Katz: Claro que sim. É essa a sua prioridade. Foi a Davos para apoiar a campanha de agressão dos Estados Unidos contra a China. A nova potência asiática já atingiu níveis de produtividade superiores aos do seu rival ocidental em inúmeros segmentos da atividade industrial. É por isso que participa neste fórum com propostas de comércio livre, com o objetivo de promover os seus negócios em detrimento dos Estados Unidos. Na sua exótica denúncia do socialismo, Milei apoiou o lóbi anti chinês do dirigente americano.
Está de tal modo ao serviço de Washington que não se importa que esta campanha afete o enorme comércio da Argentina com a China. Já retirou o país dos BRICS, está a fazer gestos de gratidão a Taiwan e está a pôr em risco o principal mercado de exportação do país. Nesta aventura, está a ultrapassar Bolsonaro, que tentou a mesma política de choque com Pequim.
Milei, por outro lado, ainda está à espera de uma recompensa financeira de Wall Street por tanta submissão ao Departamento de Estado. Não tem em conta que a China já fez várias advertências à Argentina. Exige o reembolso dos empréstimos swap e anunciou que poderá substituir a compra de soja e de carne por fornecedores do Brasil, da Austrália ou do Uruguai. Tal como aconteceu com o Conicet, a Arsat, as universidades públicas e a YPF (empresa pública de petróleo argentina), Milei pode destruir num só mês uma relação comercial com a China construída ao longo de várias décadas.
Rebellion: Será que se trata de uma mera cedência aos Estados Unidos ou de uma nova estratégia global para a extrema-direita?
Claudio Katz: São as duas coisas. Milei tem uma grande afinidade com Netanyahu, porque são as duas figuras centrais da nova viragem internacional da extrema-direita. Com as suas práticas atrozes, favorecem a passagem da retórica à ação.
O massacre em Gaza ordenado por Netanyahu e a destruição da economia argentina promovida por Milei diferem da gestão convencional de Bolsonaro ou do primeiro Trump e estão na linha de Orban e Meloni. As duas figuras reacionárias do momento apoiam ações draconianas para reorganizar a geopolítica, seguindo a contraofensiva imperial lançada pelos Estados Unidos para recuperar posições no mundo.
No Médio Oriente, trata-se de incendiar a relação da China com a Arábia Saudita e os consequentes progressos na desdolarização da economia mundial. Na América Latina, significa retomar a restauração conservadora com maior virulência para abafar a frágil emergência de um novo ciclo progressista. Milei faz parte da estratégia de Trump para um novo mandato a partir da Casa Branca.
Rebellion: Esta linha de ação aproxima Milei do fascismo?
Claudio Katz: Não é a palavra certa para descrever o seu projeto. Milei pretende introduzir uma reforma laboral na Argentina para precarizar o emprego e consolidar um modelo neoliberal semelhante ao desenvolvido no Chile, Peru e Colômbia. Para atingir este objetivo, precisa de alterar a relação de forças, vergando os sindicatos, os movimentos sociais e as organizações democráticas. Trata-se de um objetivo thatcheriano, baseado no desmantelamento das poderosas organizações populares do país. Procura resolver um conflito social emblemático a favor das classes dominantes, como aconteceu com a greve dos mineiros ingleses em 1984.
Milei está rodeado de grupos fascistas, mas o seu projeto não é fascista. Não tem a intenção imediata de forjar um regime tirânico, com o recurso ao terror contra as organizações populares. Este modelo reacionário surge geralmente em tempos de perigo revolucionário. De momento, o libertário procura subjugar os trabalhadores com o apoio da classe dominante e dos meios de comunicação social.
Os poderosos perdoam-lhe tudo para que ele possa concretizar o seu ajustamento Não dizem nada sobre os erros de um dirigente que gasta dinheiro público a renovar a sua casa para acolher os seus cães, que perde o seu tempo em debates delirantes nas redes sociais com contas falsas ou que processa o condutor que atropelou um cão.
Os proprietários da Argentina olham para o outro lado, à espera que o seu plano de guerra contra o povo funcione. Comercialmente, há muito em jogo em detrimento da maioria da população. A demolição das pensões e a venda do Fundo de Garantia, por exemplo, reabrem a possibilidade de reintroduzir a vigarice dos AFJP (o fundo de pensões do Estado). O restabelecimento do imposto sobre o rendimento para os mais ricos financia o branqueamento de capitais e o novo perdão para os grandes evasores fiscais.
Rebellion: Mas será que não gera oposição com a sua gestão errática e imprevisível?
Claudio Katz: Sim, é verdade. Todos os dias intervém com uma certa improvisação, reagindo caoticamente às contrariedades que encontra. Ficou muito afetado pelo êxito da greve e, com a sua fúria habitual, demitiu funcionários públicos e ministros. O seu grande projeto é a remodelação regressiva do país, através do Decreto de Necessidade e Emergência e da Lei Omnibus (uma lei que teve a sua primeira aprovação, com artigos como a privatização de bens do Estado e a restrição dos direitos dos manifestantes). Trata-se de duas iniciativas inconstitucionais que visam levar a cabo uma gigantesca pilhagem.
Mas ele encontra a mesma limitação que obrigou Bolsonaro em 2019 a negociar as suas medidas com muitos legisladores ou governadores, concedendo benefícios em troca de votos. Nessas negociações, metade de seu projeto já foi podado, e ele conseguiria aprová-lo em geral, mas cortando completamente iniciativas específicas. Ele conta com o apoio do PRO (Partido Republicano), da UCR (Partido Social Democrata) e da Coligação Federal para conseguir realizar o ataque aos direitos populares, mas esse apoio não se estende à gestão dos negócios. Há uma diferença entre o objetivo comum de destruir os sindicatos e os movimentos sociais e a questão de saber quem beneficia com as privatizações e a desregulamentação.
As empresas que disputam esta fatia do bolo têm porta-vozes diferentes no Congresso. É por isso que a direita convencional está a tentar limitar os poderes delegados ao Executivo. Dá carta-branca para reprimir os protestos sociais, mas procura apropriar-se de uma parte da reforma fiscal em curso. O libertário não conseguiu fazer passar estes conflitos no Parlamento e a sua autoridade política foi enfraquecida por uma série interminável de negociações com a direita conciliadora. Se conseguir chegar a um acordo na Câmara dos Deputados, terá ainda de passar pelo Senado, enquanto os tribunais já estão a emitir decisões que limitam a sua ação.
Rebellion: O que é que Milei vai fazer se estes obstáculos persistirem?
Claudio Katz: Tudo indica que está a planear uma aventura referendária. Pode ser agora ou um pouco mais tarde. Está a pensar em convocar um referendo com o pretexto de que o Congresso não o deixa governar. Assim, retomaria a campanha contra a “casta” em que baseou o seu sucesso eleitoral. Para ele, este recurso é o pontapé de saída para o regime político autoritário que pretende construir. A reforma eleitoral – já rejeitada pelo Congresso – apoiou este modelo ao definir a atividade eleitoral e ao privatizar a política, fragmentando o mapa eleitoral em numerosos círculos eleitorais.
O principal problema do Milei é a falta de uma base política própria. É aí que reside a grande diferença entre Milei, Bolsonaro, Trump ou Kast. Milei não tem esse apoio e até agora não foi capaz de o criar. Não conseguiu criar um movimento reacionário anti greve, nem repetir as marchas de direita da era Macri ou as manifestações regressivas da pandemia contra o progressismo.
Está também a considerar a opção repressiva que Bullrich menciona todos os dias, com multas multimilionárias aos sindicatos, restrições ao direito de reunião e provocações contra manifestantes. A presença da polícia nas ruas intensifica-se e Milei procura um pretexto para autorizar a intervenção das forças armadas na segurança interna. Nesta ótica, purgou o alto comando e colocou à sua frente um homem com ligações estreitas ao Pentágono. Mas, mesmo neste domínio, não obteve resultados.
O grande teste é o protocolo contra as barragens policiais para impedir manifestações, que tem sido ultrapassado vezes sem conta até à data. O fiasco da polícia que prendeu aleatoriamente manifestantes em frente ao Congresso confirma este fracasso. Penso que, neste domínio, a disputa com o protesto popular ativo e corajoso vai continuar.
Rebellion: A situação económica não será igualmente decisiva?
Claudio Katz: Sem dúvida. Milei procura baixar os salários e empobrecer a maioria da população, a fim de estabilizar a moeda reduzindo a inflação através de uma recessão induzida. Cortando as despesas públicas, contraindo o consumo interno e fazendo cair o nível de atividade, espera conseguir controlar a inflação e acabar com a espiral inflacionista Isto já aconteceu várias vezes no passado.
É o ajustamento ortodoxo em curso, que tende a gerar uma queda do PIB superior à registada no ano passado. Milei aposta na organização da frente monetária com a chegada de dólares provenientes da colheita recorde, das exportações de hidrocarbonetos e da redução das importações. O seu objetivo é recriar, com a aprovação do FMI, uma situação semelhante à dos anos 90, com Menem. Neste contexto, forjará a sua base política de direita.
Rebellion: E será esta repetição viável?
Claudio Katz: Não sabemos, mas lembremos que Menem conseguiu sobreviver ao desastre inflacionista desde o seu início e por muito tempo e Milei está apenas a começar a seguir essa trajetória. O Riojano podia contar com o justicialismo, os governadores e a burocracia sindical. O seu emulador não tem esse apoio e, para continuar na corrida, terá de passar pelo teste imediato de um trimestre tumultuoso. Se tiver de voltar a desvalorizar em março ou abril, enfrentará uma crise grave.
A perspetiva de uma nova grande desvalorização do peso já é visível na escalada dos preços, neutralizando os efeitos da Mega desvalorização de dezembro. Além disso, o círculo vicioso da recessão, que faz baixar as receitas e aumenta o défice orçamental, é bem visível, anulando todos os efeitos dos cortes decididos pelo Governo.
Estas incoerências intensificam os conflitos entre os três grandes sectores capitalistas do país. Milei e o seu ministro da Economia Caputo representam o capital financeiro e estão a levar a economia à falência para garantir o pagamento aos credores. Exploram o povo, mas se este confisco não for suficiente, estão dispostos a exigir pagamentos aos outros dois grupos de poder. Um sector é a agroindústria, que beneficiou muito com a desvalorização, mas que agora resiste a contribuir para a retenção na fonte exigida pelo governo. O outro segmento de industriais está de acordo com a reforma laboral prometida por Milei, mas é afetado pela abertura do comércio e pela redução das vantagens fiscais nas províncias.
Rebellion: Então, que cenários estão na calha?
Claudio Katz: As alternativas dependem do resultado da agressão contra o povo. Todos os antecessores de Milei conseguiram impor a sua agenda durante algum tempo, sem nunca conseguirem remodelar a economia neoliberal ou estabilizar um governo de direita. A diferença entre Videla, Menem e Macri foi a duração em que conseguiram preservar os seus modelos.
A última experiência foi a mais curta, e esta brevidade poderá repetir-se se a atual batalha popular for tão bem sucedida como a reforma das pensões de 2017. Milei espera evitar esta frustração aumentando a parada com a opção da dolarização, e os grupos de poder estão a observar atentamente a sua gestão, avaliando se continuam a apoiá-lo ou se estão a preparar uma substituição com o tandem Villaroel-Macri (antigo presidente de direita de 2015 a 2019). Tudo dependerá do resultado da batalha social que está a ser travada nas ruas, e o que acontecer com a lei omnibus dará a primeira indicação deste confronto.
Rebellion: Notou alguma mudança na resistência popular?
Claudio Katz: A dimensão e a diversidade da manifestação da CGT (Confederação Geral do Trabalho) indicam que existe uma certa consciência da intensidade da luta em curso. Muitos participantes nesta manifestação sublinharam que “ainda agora começou” e outros apelaram a que a luta continue até Milei ser derrotado. Em alguns bairros, as assembleias e as panelas reapareceram com uma certa reminiscência de 2001, e um elemento-chave foi o encerramento de uma ação pública com um discurso de uma mãe da Praça de maio. Esta centralidade dos direitos humanos será decisiva na batalha atual.
Também considero interessante a abertura da direção da CGT, que se reuniu com deputados da FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) e convidou para a tribuna a maioria dos organizadores da Manifestação. Não querem repetir a rejeição da sua cumplicidade passada, a sua inação durante a era Macri ou a sua cegueira perante a erupção de movimentos sociais.
Seja como for, a continuidade de um plano de luta continua em suspenso, pois é evidente que a greve não é suficiente para travar Milei. Nas manifestações, os trabalhadores são convidados a unirem-se contra aqueles que não estão satisfeitos com esta convergência. Esta instrução exprime uma vontade profunda de redobrar a luta, com a organização sindical à cabeça de uma frente que derrotará a austeridade.
Também considero significativa a radicalização que começa a fazer-se sentir entre os sectores que esperam ocupar as ruas até à queda do governo. O cineasta Aristarain tornou isso explícito. Por último, gostaria de aprofundar o significado da palavra de ordem “A Pátria não se vende”, adotada por muitos dos participantes na manifestação. Nesta reivindicação, a Pátria é a Arsat (uma empresa pública de satélites), o Conicet (uma organização dedicada à promoção da ciência) e os salários. É uma forma de desafiar o neoliberalismo, sublinhando que “não estou à venda”, porque “não sou uma mercadoria”. O significado subjacente é uma variante do patriotismo progressista.
Rebellion: Em suma, parece que estamos a regressar na Argentina às crises e aos seus desenvolvimentos vertiginosos
Claudio Katz: Sim, tudo se acelera de novo e começa a desenrolar-se em pleno verão. A impressão inicial de uma trégua até março-abril dissipou-se, porque a audácia com que Milei está a agir é evidente. Esta é a sua principal caraterística e o resto é secundário. O facto de improvisar ou de ter um plano é secundário, comparado com o seu comportamento reacionário determinado, muito semelhante ao de Thatcher, Fujimori ou Ieltsin. Os poderosos estão a apoiá-lo para esta posição e o povo deve responder com a mesma determinação. A moeda foi lançada ao ar, e ganhará quem mostrar maior determinação.
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.


