Entre a Argentina e Portugal haverá algum paralelelismo?

(Júlio Marques Mota, 27/03/2024)

Entre a Argentina e Portugal haverá algum paralelelismo?  Penso que sim, a partir dos resultados eleitorais de 10 de março.

Retomo a série Democracias Minadas e com mais um artigo de Claudio Katz sobre a Argentina, este datado de fevereiro de 2024. Talvez seja uma obsessão minha, mas as analogias de Portugal com a Argentina parecem-me cada vez mais evidentes.

O degradante espetáculo de ontem na Assembleia da República será  um bom exemplo das forças contraditórias que estão subjacentes aos diferentes discursos e às ambições dos diversos partidos e de algumas das pessoas singularmente consideradas, como Francisco Assis, Medina e Eurico Brilhante Dias. O que se mostrou ontem é que o poder, com a viragem à direita feita com estas eleições, assenta numa coligação fraca, em poder e em capacidade política de ação no complicado contexto em que a AD se encontra. Um dia marcado pela agenda politica estipulada por um maestro na política, André Ventura. Os homens da AD pareciam galinhas a sentirem que a raposa está a chegar ao galinheiro. Mas para além da raposa, havia outros animais da floresta a assustar os homens da AD, representados pelas três figuras do PS citadas.

Lembram-se do movimento antigeringonça e de um almoço possível na Mealhada entre os militantes do PS que se opunham a essa geringonça, uma geringonça que teve como principal negociador Pedro Nuno Santos? Esses homens também estão no PS no assalto ao poder no interior do PS e a lógica que os move não será bem a lógica em que assenta a dinâmica criada por Pedro Nuno Santos. Nada disso, a sua lógica é outra. Enquanto a lógica de Pedro Nuno Santos será uma lógica no sentido de servir o bem público, mesmo que possa parecer uma lógica de poder individual, a lógica dos outros dois e até a de Santos Silva, é inversa, é uma lógica de poder individual, mesmo que pareça uma lógica de sentido de servir o bem público. Resistirá   Pedro Nuno Santos às pressões internas dos que se opõem à sua visão verdadeiramente progressista  ou cairá ele no marasmo político que se desenha? Penso na segunda hipótese e, lamentavelmente, esta está em linha com o paralelo do que aconteceu na Argentina

E face aos rapazes da AD o grande vencedor do dia e da noite de ontem é, para já, André Ventura – se houvesse acordo com a AD seria uma grande vitória sua, amarrando a AD à sua agenda política; se não houver acordo com o Chega, terá de haver acordo com o PS e temos André Ventura radiante a afirmar que PS e AD são todos a mesma coisa e que, portanto, a grande oposição ao sistema político no poder em Portugal seria ele, André Ventura.

Encostada a AD ao PS, numa espécie de Bloco Central camuflado, poderia ser assim a forma de funcionamento da atual legislatura, com as forças internas no PS a levarem este PARTIDO a deslizar alguma coisa mais para a direita, mais do que aquilo que lamentavelmente já  deslizou com on governo de Antóbio Costa. 

Porém, dada a difícil situação económica e social que se vive em Portugal, alargar-se-iam as contradições no interior desse Bloco Central disfarçado, no interior da AD e no interior do PS assim como entre a AD e o PS. Reduzir-se-ia ainda mais a sua eficácia governativa no sentido de dar resposta às necessidades da maioria da sua população, os esquecidos da democracia. A situação económica, política e social continuaria a degradar-se.

Voltaria a lógica austeritária, com bons ideólogos a defendê-la pela parte do PS, como aconteceu com Miterrand em 1983, pela parte da AD não vejo ninguém com nível e com coragem para a justificar e convencer a população da necessidade da austeridade como resposta à crise que se iria assim instalar. Neste retorno da austeridade contar-se-ia com o apoio das grandes Instituições como UE, BCE, FMI, Banco Mundial, Davos. Não foi Xavier Milei aplaudido pela Finança Internacional em Davos?  , 

Nesta sequência, o  Chega alargaria ainda mais a sua base de apoio com o enfraquecimento da AD, a base eleitoral do PS reduzir-se-ia ainda mais com as gentes de esquerda do PS, que as há e muitas, à  procura de outros poisos mais em linha com as suas aspirações situados à esquerda do PS. 

Nestas movimentações, a AD e o CDS desapareceriam, a ala direita  PSD seria absorvida pelo Chega  enquanto a base de apoio conjunta de PS+AD reduzir-se-ia imensamente, e a esperança representada por Pedro Nuno Santos seria colocada no baú das coisas inúteis a guardar na história como o exemplo do que não se deve fazer e o mesmo aconteceria com Luís Montenegro .

O PS ao deslizar à direita e o PSD ao perder a sua ala direita ficariam cada vez mais iguais entre si e homens tipo Santos Silva, Brilhante Dias, Francisco Assis e algumas das figuras mais apresentáveis do PSD assumiriam depois os comandos do  Novo Bloco Político.  E André Ventura retomaria um dos slogans fundamentais em Javier Milei – eles são a casta, é contra ela que nós combatemos. E as equivalências com o que se passou na Argentina seriam imediatamente visíveis.

Este é um cenário possível, mas só será possível se a esquerda continuar a não querer perceber como é que dramaticamente se chegou até aqui. Perceber isso é, no entanto, apenas meio caminho andado para barrar o caminho aos Ventura deste mundo e do outro.

É preciso igualmente desencadear políticas que expliquem às pessoas e as convençam de que os caminhos a seguir não são os que lhes têm sido impostos, mas sim os caminhos que passam obrigatoriamente por MAIS e MELHOR ESTADO ASSIM COMO POR MAIS EMPENHO COLETIVO NA CONDUÇÃO DOS NOSSOS PRÓPRIOS DESTINOS. E aqui a responsabilidade maior será necessariamente das gentes do PS. Estarão os seus dirigentes – e em debates francamente abertos -, verdadeiramente disponíveis para em conjunto se desbloquearem as portas do futuro de Portugal?

Só assim se pode garantir que os Javier Milei deste mundo e do outro não se atravessarão no nosso caminho. Quanto aos  caminhos de Milei e das suas múltiplas contradições, aqui vos deixo, abaixo, mais um texto de Claudio Katz, o qual também irei publicar em breve no blog A Viagem dos Argonautas, no ambito da série Democracias Minadas.


Milei quer mudar o equilíbrio de forças subjugando os movimentos sociais

Entrevista a Claudio Katz – in Rébellion, 05-02-2024

Publicamos esta entrevista de Claudio Katz, economista, investigador e professor da Universidade de Buenos Aires, sobre a política do novo presidente argentino, Javier Milei, concedida a Rébellion em 5 de fevereiro de 2024. “Milei pretende introduzir na Argentina uma reforma laboral que precarizará o emprego e consolidará um modelo neoliberal, como no Chile, no Peru e na Colômbia”.

Rebellion: Em novembro e dezembro, escreveu que o projeto de Milei dependia da resistência popular. Como avalia a greve e a mobilização da CGT?

Claudio Katz: O impacto foi extraordinário, tanto pelo seu fortíssimo carácter como pelas suas repercussões políticas. A praça (em frente ao Parlamento) e os arredores encheram-se de uma multidão espontânea que complementou a presença sindical. Tratou-se de um protesto marcante 45 dias após o início do governo, em pleno período de férias e com tempo quente. A marcha foi organizada em conjunto com as assembleias regionais e contou com uma grande participação dos sectores da juventude, da comunidade e da cultura. Mais uma vez, quando o movimento operário organizado intervém, o seu poder é avassalador. Ele foi o protagonista das principais lutas populares.

Rebellion: A mobilização teve também um grande impacto internacional…

Claudio Katz: Sem dúvida que sim. Houve atos de solidariedade em frente às embaixadas de muitos países europeus e nas principais capitais da América Latina. Isto mostrou que está a tomar forma uma consciência global emergente contra a extrema-direita. Começamos a aperceber-nos de que, se Milei ganhar, Kast, Bolsonaro, Uribe ou Corina Machado na nossa região, e Trump, Le Pen ou Abascal no norte, ficarão mais fortes.

Se, por outro lado, conseguirmos parar Milei, a vaga mundial de reacionários sofrerá a sua primeira derrota nas ruas perante a resistência organizada. Enquanto o anarco-capitalismo procura o apoio internacional do FMI, dos banqueiros e dos grandes capitalistas, a luta dos trabalhadores argentinos está a gerar solidariedade a partir das pessoas de menores rendimentos em muitos cantos do planeta. Esta linha de fratura é muito promissora.

Rebellion: É possível ver o ativismo internacional de Milei no seu discurso em Davos?

Claudio Katz: Sim. Aí, repetiu os seus conhecidos elogios ao capitalismo, mas com a premissa absurda de que este sistema está a atravessar o seu momento de maior prosperidade. Esse diagnóstico inusitado foi feito no mesmo dia em que um relatório sobre desigualdade ilustrou o que aconteceu nos últimos quatro anos. Nesse período, a riqueza dos cinco homens mais ricos do planeta duplicou, à custa do empobrecimento de inúmeros outros.

Na sua apologia libertária, Milei rejeitou todas as formas de regulação estatal e negou a existência de falhas de mercado. Vive num mundo de fantasia, sem saber que o capitalismo não poderia funcionar um minuto sem o apoio do Estado. Também relançou a apresentação infantil do empresário como um benfeitor social, ignorando a exploração, a precariedade, o desemprego e o parasitismo dos financeiros.

A estas idealizações míticas da escola neoliberal austríaca, acrescentou dois complementos mais convencionais. Por um lado, a crítica reacionária ao feminismo e, em particular, ao aborto, para o exercício efetivo do princípio da liberdade individual que ele tanto valoriza. Por outro lado, voltou a negar as alterações climáticas, no meio das catástrofes provocadas pelas secas, inundações e degelos a que assistimos todos os dias. Ele não está a ignorar estas provas por ignorância, mas devido ao seu apoio egoísta às companhias petrolíferas. Alinhou-se com o negócio da poluição para privatizar a YPF (a empresa pública de petróleo da Argentina), favorecer o grupo Techint e entregar as jazidas de Vaca Muerta (um projeto para explorar gás de xisto).

Rebellion: Mas também lançou um exótico aviso contra a contaminação socialista das grandes instituições ocidentais…

Claudio Katz: Sim, parecia um lunático no discurso em que censurava os banqueiros por deixarem entrar a influência socialista nas suas reuniões. É absurdo supor que na Meca mundial do neoliberalismo e da livre iniciativa exista uma corrente de pensamento anti-capitalista. Mas, como de costume, Milei tem feito estas explosões porque está a ser contrariado. Neste caso, o seu descontentamento deve-se ao declínio da globalização e à consequente desvalorização do Fórum de Davos.

As figuras de relevo no passado já não participam nesta reunião. Esta deserção está em sintonia com o reforço da viragem para a intervenção reguladora do Estado nas economias centrais. As tarifas e as despesas públicas voltam a ser instrumentos na política económica, agora acompanhadas de subsídios às cadeias de abastecimento e de leis que favorecem a produção local de alta tecnologia. Milei está aborrecido com esta viragem neo-keynesiana em relação à sua ortodoxia globalista. É um neoliberal à moda antiga, ainda comprometido com o globalismo dos anos 90.

Rebellion: Mas ainda leal ao guião americano…

 Claudio Katz: Claro que sim. É essa a sua prioridade. Foi a Davos para apoiar a campanha de agressão dos Estados Unidos contra a China. A nova potência asiática já atingiu níveis de produtividade superiores aos do seu rival ocidental em inúmeros segmentos da atividade industrial. É por isso que participa neste fórum com propostas de comércio livre, com o objetivo de promover os seus negócios em detrimento dos Estados Unidos. Na sua exótica denúncia do socialismo, Milei apoiou o lóbi anti chinês do dirigente americano.

Está de tal modo ao serviço de Washington que não se importa que esta campanha afete o enorme comércio da Argentina com a China. Já retirou o país dos BRICS, está a fazer gestos de gratidão a Taiwan e está a pôr em risco o principal mercado de exportação do país. Nesta aventura, está a ultrapassar Bolsonaro, que tentou a mesma política de choque com Pequim.

Milei, por outro lado, ainda está à espera de uma recompensa financeira de Wall Street por tanta submissão ao Departamento de Estado. Não tem em conta que a China já fez várias advertências à Argentina. Exige o reembolso dos empréstimos swap e anunciou que poderá substituir a compra de soja e de carne por fornecedores do Brasil, da Austrália ou do Uruguai. Tal como aconteceu com o Conicet, a Arsat, as universidades públicas e a YPF (empresa pública de petróleo argentina), Milei pode destruir num só mês uma relação comercial com a China construída ao longo de várias décadas.

Rebellion: Será que se trata de uma mera cedência aos Estados Unidos ou de uma nova estratégia global para a extrema-direita?

Claudio Katz: São as duas coisas. Milei tem uma grande afinidade com Netanyahu, porque são as duas figuras centrais da nova viragem internacional da extrema-direita. Com as suas práticas atrozes, favorecem a passagem da retórica à ação.

O massacre em Gaza ordenado por Netanyahu e a destruição da economia argentina promovida por Milei diferem da gestão convencional de Bolsonaro ou do primeiro Trump e estão na linha de Orban e Meloni. As duas figuras reacionárias do momento apoiam ações draconianas para reorganizar a geopolítica, seguindo a contraofensiva imperial lançada pelos Estados Unidos para recuperar posições no mundo.

No Médio Oriente, trata-se de incendiar a relação da China com a Arábia Saudita e os consequentes progressos na desdolarização da economia mundial. Na América Latina, significa retomar a restauração conservadora com maior virulência para abafar a frágil emergência de um novo ciclo progressista. Milei faz parte da estratégia de Trump para um novo mandato a partir da Casa Branca.

Rebellion: Esta linha de ação aproxima Milei do fascismo?

Claudio Katz: Não é a palavra certa para descrever o seu projeto. Milei pretende introduzir uma reforma laboral na Argentina para precarizar o emprego e consolidar um modelo neoliberal semelhante ao desenvolvido no Chile, Peru e Colômbia. Para atingir este objetivo, precisa de alterar a relação de forças, vergando os sindicatos, os movimentos sociais e as organizações democráticas. Trata-se de um objetivo thatcheriano, baseado no desmantelamento das poderosas organizações populares do país. Procura resolver um conflito social emblemático a favor das classes dominantes, como aconteceu com a greve dos mineiros ingleses em 1984.

Milei está rodeado de grupos fascistas, mas o seu projeto não é fascista. Não tem a intenção imediata de forjar um regime tirânico, com o recurso ao terror contra as organizações populares. Este modelo reacionário surge geralmente em tempos de perigo revolucionário. De momento, o libertário procura subjugar os trabalhadores com o apoio da classe dominante e dos meios de comunicação social.

Os poderosos perdoam-lhe tudo para que ele possa concretizar o seu ajustamento Não dizem nada sobre os erros de um dirigente que gasta dinheiro público a renovar a sua casa para acolher os seus cães, que perde o seu tempo em debates delirantes nas redes sociais com contas falsas ou que processa o condutor que atropelou um cão.

Os proprietários da Argentina olham para o outro lado, à espera que o seu plano de guerra contra o povo funcione. Comercialmente, há muito em jogo em detrimento da maioria da população. A demolição das pensões e a venda do Fundo de Garantia, por exemplo, reabrem a possibilidade de reintroduzir a vigarice dos AFJP (o fundo de pensões do Estado). O restabelecimento do imposto sobre o rendimento para os mais ricos financia o branqueamento de capitais e o novo perdão para os grandes evasores fiscais.

Rebellion: Mas será que não gera oposição com a sua gestão errática e imprevisível?

Claudio Katz: Sim, é verdade. Todos os dias intervém com uma certa improvisação, reagindo caoticamente às contrariedades que encontra. Ficou muito afetado pelo êxito da greve e, com a sua fúria habitual, demitiu funcionários públicos e ministros. O seu grande projeto é a remodelação regressiva do país, através do Decreto de Necessidade e Emergência e da Lei Omnibus (uma lei que teve a sua primeira aprovação, com artigos como a privatização de bens do Estado e a restrição dos direitos dos manifestantes). Trata-se de duas iniciativas inconstitucionais que visam levar a cabo uma gigantesca pilhagem.

Mas ele encontra a mesma limitação que obrigou Bolsonaro em 2019 a negociar as suas medidas com muitos legisladores ou governadores, concedendo benefícios em troca de votos. Nessas negociações, metade de seu projeto já foi podado, e ele conseguiria aprová-lo em geral, mas cortando completamente iniciativas específicas. Ele conta com o apoio do PRO (Partido Republicano), da UCR (Partido Social Democrata) e da Coligação Federal para conseguir realizar o ataque aos direitos populares, mas esse apoio não se estende à gestão dos negócios. Há uma diferença entre o objetivo comum de destruir os sindicatos e os movimentos sociais e a questão de saber quem beneficia com as privatizações e a desregulamentação.

As empresas que disputam esta fatia do bolo têm porta-vozes diferentes no Congresso. É por isso que a direita convencional está a tentar limitar os poderes delegados ao Executivo. Dá carta-branca para reprimir os protestos sociais, mas procura apropriar-se de uma parte da reforma fiscal em curso. O libertário não conseguiu fazer passar estes conflitos no Parlamento e a sua autoridade política foi enfraquecida por uma série interminável de negociações com a direita conciliadora. Se conseguir chegar a um acordo na Câmara dos Deputados, terá ainda de passar pelo Senado, enquanto os tribunais já estão a emitir decisões que limitam a sua ação.

Rebellion: O que é que Milei vai fazer se estes obstáculos persistirem?

Claudio Katz: Tudo indica que está a planear uma aventura referendária. Pode ser agora ou um pouco mais tarde. Está a pensar em convocar um referendo com o pretexto de que o Congresso não o deixa governar. Assim, retomaria a campanha contra a “casta” em que baseou o seu sucesso eleitoral. Para ele, este recurso é o pontapé de saída para o regime político autoritário que pretende construir. A reforma eleitoral – já rejeitada pelo Congresso – apoiou este modelo ao definir a atividade eleitoral e ao privatizar a política, fragmentando o mapa eleitoral em numerosos círculos eleitorais.

O principal problema do Milei é a falta de uma base política própria. É aí que reside a grande diferença entre Milei, Bolsonaro, Trump ou Kast. Milei não tem esse apoio e até agora não foi capaz de o criar. Não conseguiu criar um movimento reacionário anti greve, nem repetir as marchas de direita da era Macri ou as manifestações regressivas da pandemia contra o progressismo.

Está também a considerar a opção repressiva que Bullrich menciona todos os dias, com multas multimilionárias aos sindicatos, restrições ao direito de reunião e provocações contra manifestantes. A presença da polícia nas ruas intensifica-se e Milei procura um pretexto para autorizar a intervenção das forças armadas na segurança interna. Nesta ótica, purgou o alto comando e colocou à sua frente um homem com ligações estreitas ao Pentágono. Mas, mesmo neste domínio, não obteve resultados.

 O grande teste é o protocolo contra as barragens policiais para impedir manifestações, que tem sido ultrapassado vezes sem conta até à data. O fiasco da polícia que prendeu aleatoriamente manifestantes em frente ao Congresso confirma este fracasso. Penso que, neste domínio, a disputa com o protesto popular ativo e corajoso vai continuar.

Rebellion: A situação económica não será igualmente decisiva?

Claudio Katz: Sem dúvida. Milei procura baixar os salários e empobrecer a maioria da população, a fim de estabilizar a moeda reduzindo a inflação através de uma recessão induzida. Cortando as despesas públicas, contraindo o consumo interno e fazendo cair o nível de atividade, espera conseguir controlar a inflação e acabar com a espiral inflacionista Isto já aconteceu várias vezes no passado.

É o ajustamento ortodoxo em curso, que tende a gerar uma queda do PIB superior à registada no ano passado. Milei aposta na organização da frente monetária com a chegada de dólares provenientes da colheita recorde, das exportações de hidrocarbonetos e da redução das importações. O seu objetivo é recriar, com a aprovação do FMI, uma situação semelhante à dos anos 90, com Menem. Neste contexto, forjará a sua base política de direita.

Rebellion: E será esta repetição viável?

Claudio Katz: Não sabemos, mas lembremos que Menem conseguiu sobreviver ao desastre inflacionista desde o seu início e por muito tempo e Milei está apenas a começar a seguir essa trajetória. O Riojano podia contar com o justicialismo, os governadores e a burocracia sindical. O seu emulador não tem esse apoio e, para continuar na corrida, terá de passar pelo teste imediato de um trimestre tumultuoso. Se tiver de voltar a desvalorizar em março ou abril, enfrentará uma crise grave.

A perspetiva de uma nova grande desvalorização do peso já é visível na escalada dos preços, neutralizando os efeitos da Mega desvalorização de dezembro. Além disso, o círculo vicioso da recessão, que faz baixar as receitas e aumenta o défice orçamental, é bem visível, anulando todos os efeitos dos cortes decididos pelo Governo.

Estas incoerências intensificam os conflitos entre os três grandes sectores capitalistas do país. Milei e o seu ministro da Economia Caputo representam o capital financeiro e estão a levar a economia à falência para garantir o pagamento aos credores. Exploram o povo, mas se este confisco não for suficiente, estão dispostos a exigir pagamentos aos outros dois grupos de poder. Um sector é a agroindústria, que beneficiou muito com a desvalorização, mas que agora resiste a contribuir para a retenção na fonte exigida pelo governo. O outro segmento de industriais está de acordo com a reforma laboral prometida por Milei, mas é afetado pela abertura do comércio e pela redução das vantagens fiscais nas províncias.

Rebellion: Então, que cenários estão na calha?

Claudio Katz: As alternativas dependem do resultado da agressão contra o povo. Todos os antecessores de Milei conseguiram impor a sua agenda durante algum tempo, sem nunca conseguirem remodelar a economia neoliberal ou estabilizar um governo de direita. A diferença entre Videla, Menem e Macri foi a duração em que conseguiram preservar os seus modelos.

A última experiência foi a mais curta, e esta brevidade poderá repetir-se se a atual batalha popular for tão bem sucedida como a reforma das pensões de 2017. Milei espera evitar esta frustração aumentando a parada com a opção da dolarização, e os grupos de poder estão a observar atentamente a sua gestão, avaliando se continuam a apoiá-lo ou se estão a preparar uma substituição com o tandem Villaroel-Macri (antigo presidente de direita de 2015 a 2019). Tudo dependerá do resultado da batalha social que está a ser travada nas ruas, e o que acontecer com a lei omnibus dará a primeira indicação deste confronto.

Rebellion: Notou alguma mudança na resistência popular?

Claudio Katz: A dimensão e a diversidade da manifestação da CGT (Confederação Geral do Trabalho) indicam que existe uma certa consciência da intensidade da luta em curso. Muitos participantes nesta manifestação sublinharam que “ainda agora começou” e outros apelaram a que a luta continue até Milei ser derrotado. Em alguns bairros, as assembleias e as panelas reapareceram com uma certa reminiscência de 2001, e um elemento-chave foi o encerramento de uma ação pública com um discurso de uma mãe da Praça de maio. Esta centralidade dos direitos humanos será decisiva na batalha atual.

Também considero interessante a abertura da direção da CGT, que se reuniu com deputados da FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) e convidou para a tribuna a maioria dos organizadores da Manifestação. Não querem repetir a rejeição da sua cumplicidade passada, a sua inação durante a era Macri ou a sua cegueira perante a erupção de movimentos sociais.

Seja como for, a continuidade de um plano de luta continua em suspenso, pois é evidente que a greve não é suficiente para travar Milei. Nas manifestações, os trabalhadores são convidados a unirem-se contra aqueles que não estão satisfeitos com esta convergência. Esta instrução exprime uma vontade profunda de redobrar a luta, com a organização sindical à cabeça de uma frente que derrotará a austeridade.

Também considero significativa a radicalização que começa a fazer-se sentir entre os sectores que esperam ocupar as ruas até à queda do governo. O cineasta Aristarain tornou isso explícito. Por último, gostaria de aprofundar o significado da palavra de ordem “A Pátria não se vende”, adotada por muitos dos participantes na manifestação. Nesta reivindicação, a Pátria é a Arsat (uma empresa pública de satélites), o Conicet (uma organização dedicada à promoção da ciência) e os salários. É uma forma de desafiar o neoliberalismo, sublinhando que “não estou à venda”, porque “não sou uma mercadoria”. O significado subjacente é uma variante do patriotismo progressista.

Rebellion: Em suma, parece que estamos a regressar na Argentina às crises e aos seus desenvolvimentos vertiginosos

Claudio Katz: Sim, tudo se acelera de novo e começa a desenrolar-se em pleno verão. A impressão inicial de uma trégua até março-abril dissipou-se, porque a audácia com que Milei está a agir é evidente. Esta é a sua principal caraterística e o resto é secundário. O facto de improvisar ou de ter um plano é secundário, comparado com o seu comportamento reacionário determinado, muito semelhante ao de Thatcher, Fujimori ou Ieltsin. Os poderosos estão a apoiá-lo para esta posição e o povo deve responder com a mesma determinação. A moeda foi lançada ao ar, e ganhará quem mostrar maior determinação.

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Milei em Davos: Divórcio litigioso com a realidade

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture, 20/01/2024)

Ao pé de Milei, os fascistas europeus dos anos 30 e os latino-americanos dos anos 70 e 80 eram uns visionários intelectualizados

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Aos betos da IL  e ao povo neoliberal que não sabe que o é!

(Hugo Dionísio, in CanalFactual, 11/12/2023)

Como se esperava, Milei veio com a teoria do choque. Quem não a conhece? Quem não a esperaria? Talvez os betos da IL e demais liberais. A técnica desta gente é sempre a mesma: “Agora é que é”; “primeiro vai doer muito, mas depois vai sarar”… Para todos descobrirmos, uma e outra vez, que o “Agora” quer dizer “para sempre” e o “depois vai sarar” quer dizer “amputação”. Como charlatanice que é, para o pobre enganar, enquanto o rico mais rico fica, só resta continuar a enganar… Uma e outra vez! Como o bruxo com a sua bola de cristal. Só que desta, o bruxo usa fatinho azul, camisinha branca e cabelinho lambido.

A teoria do choque é a teoria mais praticada nos últimos 60 anos, com menos resultados obtidos. É como a terra prometida de Israel; para eles, o céu, para os outros um inferno. O liberalismo e a teoria do choque nem no papel funcionam. O que é grave e demonstra a charlatanice, em que consiste. Ainda parece que estou a ouvir Portas (ex-governante do CDS da direita cristã e reacionária) dizer que Bolsonaro só poderia acertar… Também ouvi dizer o mesmo de Milei… Dos mesmos de sempre… Daqueles que os ricos contratam para serem apresentados aos pobres comos eus salvadores.

Imaginem um cientista fazer a mesma experiência todos os dias, sempre da mesma forma, à espera de resultados diferentes! Os liberais prometem sempre o paraíso, mas ele só chega para os 10% mais ricos… Invariavelmente. Para os outros, um inferno sem fim!

Agora que sabemos vir aí borrasca da grossa para o povo argentino, quer ver o que vêm dizer os betos da IL e os liberais do costume, quando tudo começar a dar para o torto. Para começar, um deles, já veio dizer que não é neoliberal. Só me resta dizer: coitado, quer governar um país e nós sabemos melhor o que ele é, do que ele próprio.

Vai uma lição rápida: o liberalismo, como doutrina económica, surgiu no século XVIII, em pleno iluminismo. Foi muito moderno, há 300 anos! O que nos apresentam como moderno, é a coisa mais bafienta que podemos imaginar! Pior que isto só a salvação das almas e a inquisição. Que era a teoria da pilhagem, quando ainda não se chamava teoria do choque.

Para os betos que criticam o PCP de ultrapassado… Como teoria económica e social, o Marxismo é muito mais moderno (século XIX) e, falando de modelo orgânico partidário, o partido de novo tipo idealizado por Lenine, é o mais moderno de todos. Os partidos “liberais” adoptam todos uma estrutura orgânica, com pelo menos 300 anos, se não quisermos ir à Roma da República ou à Grécia de Sócrates.

À data, perante o advento dos ideais de libertação (na revolução francesa), os fisiocratas (os que consideram deverem ser os proprietários a governar) foram obrigados a encontrar uma forma mais suave de dizer: a burguesia tem de ter acesso livre ao dinheiro e à riqueza. A forma encontrada foi o liberalismo, cruzando-o com o laicismo, os direitos individuais e a “democracia” liberal.

De lá para cá, nunca o liberalismo funcionou para os pobres. Como doutrina de exploração, elevou a base material e deu gás ao capitalismo, contudo, nunca libertou os pobres da pobreza. Os países mais liberais, são também os que mais miséria têm. Vejam-se os EUA, Colômbia, Inglaterra… Quanto mais liberalismo, menos estado, quanto menos estado, menos capacidade de redistribuir riqueza produzida com o trabalho. É assim. Quanto mais pesa o estado na economia, melhor para os pobres, desde que o estado seja bem governado, claro.

E a história prova também que o liberalismo económico é compatível com o fascismo. Pinochet e as ditaduras sul-americanas do século passado estão para a história humana da economia, como os campos de concentração nazis para a história política. Nunca o deveríamos repetir, não obstante, há sempre alguém que, por ganância, o prometa. Israel reergue o nazismo, Milei, a IL e os liberais do costume, reerguem as piores facetas de terrorismo económico. Sendo que, o nazismo e o sionismo também convivem com o terrorismo económico liberal. Israel é um exemplo disso mesmo, o único país da OCDE que consagra 6 dias semanais de trabalho e 45 horas de período normal de trabalho semanal.

A determinada altura, perante a falência teórica do liberalismo, surgiu o neoliberalismo (consenso de Washington). Sabendo-se, de ciência certa, que aquele liberalismo, idealizado por Adam Smith, de pequenas empresas e concorrência leal, era uma utopia, devido à tendência para a concentração da riqueza… Os neoliberais assumiram, frontalmente, a sua contenda: o estado é um inimigo pois usa dinheiro que poderia ser nosso! Com a queda da URSS já se podiam dar ao luxo de passar à fase seguinte do processo de exploração: a da pilhagem dos seus próprios povos e em ritmo acelerado.

A partir daí surgiram os Chicago Boys de Friedman e a teoria do choque económico. O liberalismo falhou? Não faz mal, damos-lhes com liberalismo a decuplicar. Os resultados são conhecidos no mundo inteiro. Ricos muito mais ricos, pobres ainda mais pobres, em qualidade e em quantidade. Não existe um único exemplo para ser apresentado, como exemplo de sucesso. Todos os exemplos de liberalismo, que os liberais e os superbetos da IL, utilizam, não passam de exemplos de economias liberais limitadas por estados providência (Holanda, países escandinavos…). Ora, das duas, qual é aquela que os superbetos não gostam? Vejam lá se os superbetos pegam em exemplos dos EUA, Colômbia, ou Chile de Pinochet, ou da Rússia de Ieltsin? Está quieto!

Não obstante, os betos da IL, não sei se por falta de estudo, de inteligência ou por viverem em circuito fechado – entre CEO’s, COO, CTO, CFO e outros C’s que só servem para se distinguirem e competirem selvaticamente uns com os outros, enquanto quem neles manda esfrega as mãos de contente, para, de forma tão fácil, lhes entregarem as suas vidas, em prol da sua riqueza – foram a correr dar os parabéns a Milei

Ou seja, foram a correr dar os parabéns a alguém que prometeu ainda mais inferno, quando há uma semana ganhou umas eleições a prometer o céu!

Claro que, com tal atitude, não apenas comprovaram a inexistente distância entre as doutrinas reaccionárias e o liberalismo que advogam, como demonstraram, também, o que pretendem, realmente, para o país que dizem querer governar.

 Milei não enganou ninguém. Trabalhar para o Fórum Económico Mundial é a chancela top do governante neoliberal. Se não o for, não trabalha lá. Ponto Final.

Mas Milei também foi dando muita informação sobe as suas pretensões económicas. Nada que assustasse os betos da IL. Todos sabemos que são filhos de Passos Coelho e companhia. Se na troika pudemos ter um cheirinho do que é a governação neoliberal, com Milei, provavelmente, depois de Chile, Brasil, Argentina, Rússia, e muitos outros, vamos voltar a presenciar ao vivo e a cores o terrorismo económico em prática: a teoria do choque!

Parece que já estou a ver o betos da IL e demais liberais da praça (que vão do PS/Livre ao Chega (nuances relativas aos costumes à parte)) a darem o dito pelo não dito e dizerem: a culpa não é de Milei, a culpa é de quem não o deixou trabalhar! Deles é que nunca é!

Como têm dinheiro, a comunicação social, as redes sociais e os comentadeiros da ordem, não obstante o logro, lá irão continuando a prometer o que não defendem e a defender o que nunca prometem, mas querem concretizar. No final, o rebanho neles continuará a votar e todos ficarão contentes, porque é a “democracia”.

Não fiquem, pois, em choque!

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