Dicas para ir para a lama com um porco e sair de lá limpo

(Tiago Franco, in Facebook, 09/02/2024)

Não chegam os comentadores de serviço a levar o Chega, e a direita em geral, ao colo.

Não chega o tempo de antena dado a André Ventura há quase 5 anos.

Não basta que, repetidamente, os moderadores permitam a André Ventura que interrompa de forma contínua o opositor e até substitua o jornalista, fazendo ele próprio as perguntas.

Para além disso tudo, ainda conseguem terminar o debate com uma diferença de tempo de quase dois minutos a favor do pastor, não dando qualquer hipótese a Paulo Raimundo de rebater a mais pura demagogia usada no fim pelo Ventura.

Se quem é democrata, mesmo anti PCP primário, não percebe o problema nesta rampa de lançamento que a CS montou para o Chega, então, espero que aproveitem bem o que aí vem. E se tiverem tempo e paciência, vão ouvir as declarações do Pacheco nos Açores hoje. Um partido “antissistema” que ameaça mandar tudo ao chão se não for para o poder. É isto o Chega, não é outra coisa.

Dito isto, uma crítica para dentro. André Ventura meteu-se várias vezes a jeito e Raimundo não soube aproveitar. No PREC, nos impostos, na história da clandestinidade (que Paulo Raimundo lhe devia ter esfregado no focinho), na emigração, no favorecimento à banca, nos financiadores do Chega, na antiga profissão do Ventura, no SNS, nas sucessivas mudanças de posição do Chega, na destruição do estado social. Raimundo pareceu, em momentos diferentes, quase a perder o controlo emocional e, claramente, com pouca experiência para este tipo de debates. A linha é exatamente a mesma de Jerónimo com a agravante da gaguez mediática.

Por favor, não se encolham quando dizem que o PCP não defende a NATO ou advoga a saída do Euro. Expliquem porquê, apenas. Esta merda desta pergunta, que aparece há 15 anos, tem que estar mais do que na ponta da língua. Ser contra a NATO não e defeito, é medalha.

Quando Ventura acusa, novamente, o PCP de apoiar a Rússia, Paulo Raimundo tem que lhe cair em cima e explicar, em 5 segundos, que a Rússia é governada há 20 anos pela família política do Ventura, do Orbán, da Meloni, da Le Pen. Quem apoia a Rússia é o Ventura e o Centrão que lá foi vender vistos Gold, não é o PCP. Há 2 anos que se repete essa mentira. Não pode haver tremores na altura de a rebater.

Quando Ventura fala de 74, Raimundo tem que lhe gritar, sem pestanejar, que foi a morte de comunistas que permitiu que fascistas como o Ventura gozassem hoje da liberdade para dizer disparates. Quando Ventura fala em mortes, Raimundo tem que lhe dizer que quem escreveu o programa do Chega foi um antigo bombista.

Quando o jornalista pergunta se os imigrantes o incomodam e Ventura responde “claro que não”, Raimundo tem que lhe perguntar que, se não incomodam, porque coloca nas suas redes sociais, vídeos a criticar muçulmanos em oração no Martim Moniz? Não há problema nenhum de se repetir, em frente ao próprio, que André Ventura é racista e xenófobo. Ventura acha ótimo encher o Instaram de fotos dele a rezar em Fátima mas já fica escandalizado se vir um muçulmano virado para Meca numa rua de Lisboa.

Quando se fala em saúde ou educação, e Ventura ensaia o número do defensor dos pobres, é preciso perguntar-lhe o que mudou desde os tempos do primeiro programa, que falava em privatizar tudo. Ou até do segundo programa, aquelas inesquecíveis 9 páginas. É preciso explicar que Ventura mente, sempre. É preciso demonstrar que Ventura não tem ideologia, diz o que for preciso para ganhar votos mas que, no poder, seguirá apenas a agenda típica da extrema-direita.

Quando fala nas pensões de 200 euros que queria aumentar, deve-lhe ser perguntado como? Com os 15% flat no IRS que sugeria nas 9 páginas e que não passava de uma fuga aos impostos dos mais ricos? Ou com o dinheiro da corrupção que já todos lhe explicaram que não pode ser contabilizado como receita extraordinária? Ou com o dinheiro que ajudava os clientes a esconder nos paraísos fiscais?

Quando o tema é habitação lembrem-se que Ventura fazia parte dos defensores dos vistos Gold.

Sempre que Ventura disser num debate “e não nos acompanharam nessa proposta” digam, “nem nós nem ninguém uma vez que o grupo parlamentar do Chega teve 0 propostas aprovadas”.

Quando o tema são cortes, impostos e finanças em geral, lembrem-se que Ventura anunciou números (400 milhões) retirados à ideologia de género (no congresso do Chega) e mal saiu do palanque já tinha jornalistas a dizer que não existia tal tema e muto menos números. Ventura anuncia medidas ao calhas sem qualquer aplicação prática (como o iva da primeira habitação). Sempre que ele falar em ajudar os pobres, digam-lhe que em 2020 o programa do Chega para os Açores era cortar 50% do RSI. Expliquem que os imigrantes que ele tanto detesta, contribuem para Portugal 7x mais do que consomem. Digam-lhe, sem pestanejar, que ele repete, sem se rir, números e medidas sem sequer as confirmar, apenas para iludir os eleitores.

Quando Ventura fala em meter a banca a pagar as taxas de juro (algo que sempre votou contra, pelo que todos percebemos que é populismo básico), perguntem-lhe onde andava ele, quando Luís Filipe Vieira foi apertado na comissão do BES pelos calotes que todos pagámos e o Chega assobiou para o lado? Estaria ainda a lembrar os seus tempos de comentador na CMTV, em que seguia o guião ordenado por Vieira?

Quando Ventura fala nos apoios ao país A ou regime B, perguntem-lhe, já que apoia Milei, se concorda com a criminalização do direito à manifestação. E quando ele ficar entalado, insistam: como é que apoia as políticas de Milei e, em simultâneo, as manifestações dos polícias?

Ventura é isto. Não faz um debate sem mentir, sem dizer números ao calhas, sem contradizer as suas próprias posições. E fá-lo tantas vezes que, ao fim de 5 anos, não há desculpa para caírem sempre na mesma esparrela. Interrupções, demagogia e mentiras. Basta respirar fundo e, em cada um dos temas fazer as perguntas que escrevi acima. Depois é esperar que ele se enrole sozinho e não largar o osso, ou deixar mudar de tema, até ele responder.

É preferível até, ficar calado e apenas falar 2 minutos de debate, se for apenas isso que o jornalista permitir sem interrupções, mas usar esses dois minutos para mostrar os buracos onde Ventura se mete.

Quando Ventura falar em poder e responsabilidade, digam-lhe que num dia votou a mesma proposta de lei de 3 formas diferentes. Que armadilhou o governo dos Açores. Que andou 5 anos a dizer que era contra o sistema e as cunhas mas que, agora ameaça a constante instabilidade se não tiver pastas ministeriais. Fala em tachos mas assim que aumentou o grupo parlamentar meteu logo familiares de deputados como assessores e anda, nas sobras do PSD, a recrutar deputados que se recusam a largar a mama.

É repetir em cada debate o alinhamento que aí está e, num ápice, acaba-se o mito de ter que lutar na lama com um porco. Ele abre sempre, mas sempre, a carreira de tiro nos mesmos temas. A vida daquele homem está nas redes sociais. As contradições, os disparates e os absurdos estão, em grande parte, registados um pouco por toda a internet. Quão difícil pode ser desacreditá-lo entre aquilo que vende e aquilo que realmente é? Não fará mossa no seu eleitorado, pobre, que não tem dúvidas e acha mesmo que o caminho é votar em quem lhes vai tirar a escola e o SNS, mas fará a diferença no nosso eleitorado. O tal que percebe o que está em causa, que percebe as lutas passadas, que entende a importância do PCP na AR mas que espera, desde os tempos perdidos do João Amaral, que o PCP entre no século XXI.

Paulo Raimundo está a iniciar-se nestas lides, parece ser honesto e boa pessoa. Mas o PCP já tinha quadros experientes e com presença mediática, melhor preparados para estes tempos exigentes em que o partido procura recuperar votos. João Ferreira e João Oliveira, por exemplo.

Às vezes parece que temos todos um Schmidt em cada esquina e complicamos o que, à partida, seria simples e óbvio. Ainda assim, a minha vénia para ele por aceitar ir para a frente da batalha.


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Geração Ronaldo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/01/2024)

Uma das possíveis formas de emprateleirar gerações — de “fazer” História — é recorrendo à taxionomia, a ciência que se ocupa da organização de grupos de seres vivos com base nas suas semelhanças e diferenças.

A taxionomia histórica tem recorrido a uma classificação dos seres humanos por gerações: geração dos babyboomers, os do pós Segunda Guerra, e depois há para todos os gostos: geração X, Y, Z, alfa, millennialwoke, de 70, aqui em Portugal até a ‘geração rasca’. Eu tenho a minha tabela privativa, que inclui a geração da ‘cena’ — termo que integra a novilíngua, revelador da diminuição drástica do vocabulário destas novas espécies geracionais, que acabarão a falar com os polegares nos ecrãs tácteis, prevejo, sem qualquer drama — dos alunos, ou de um aluno ou de frequentador ou frequentadores da Universidade Católica que agarrou ou agarraram num jornalista do jornal Expresso e o retiraram preso por braços e pernas da sala onde o doutor André Ventura, chefe do partido Chega, ia proferir uma conferência sobre a sua visão do mundo.

A ‘cena’ motivou várias reações, todas virtuosas. Os meninos da Católica tinham todo o direito de ouvir o doutor Ventura em confissão privada, os jornalistas devem preocupar-se com outras coisas. Houve quem criticasse os meninos desta geração: eles não têm valores e não respeitam a democracia, nem a transparência. E porque não convidaram os chefes do partido comunista, ou do Bloco de Esquerda? Ou alguém que tivesse a ideia de que apenas o trabalho produz riqueza, de que o sucesso não é ser senhor doutor ou engenheiro, ou CEO, ou ter um diploma de Mestre em Negócios — um MBA — Master of Business Administration — uma ferramenta vendida em propinas pelas Business Schools, escolas especializadas em áreas de negócio e gestão, em sacar umas verbas do Estado para criar uma start up, ou um unicórnio que morrerá como as alforrecas à beira mar, deixando um carro de topo de gama ao jovem de sucesso.

A ‘cena’ dos jovens futuros doutores da Católica, do doutor Ventura e do jornalista do Expresso não surge do nada. A filosofia do Ocidente valoriza o ‘devir’ através de uma lógica que nega o ‘Nada’. Nega o ‘Nada’, tomado e reconhecido enquanto abcesso encrustado nos processos de secularização e racionalização da história ocidental. A negação do nada foi resolvida com a invenção de um Criador e uma narrativa, a do Génesis, que faz do Criador uma personagem, um ser existente, Deus. Este Criador arranjou um emprego temporário, terá sido o primeiro trabalhador precário, e durante seis dias criou o universo do qual se tornou um CEO bárbaro, moderno, que esteve a ponto de eliminar as suas criaturas com um dilúvio, e a quem impôs um drástico regulamento, em forma de tábuas de dez mandamentos, entregues a um delegado, Moisés, no Monte Sinai, que começa por exigir que as suas criaturas amem o seu criador acima da todas as coisas e apenas a ele!

É esta a conceção do mundo — a ideologia — da Universidade Católica, dos seus mestres e alunos e, logicamente, dos convidados a formá-los. É significativo que ninguém entre os docentes da Universidade Católica tenha informado a atual geração de alunos da existência de uma antiga organização que se chamou Juventude Universitária Católica, a JUC, um organismo da Ação Católica, que juntamente com a Juventude Operária Católica, a JOC, e a Juventude Escolar Católica, a JEC, transmitiam aos jovens, além da fé num ente metafísico, juiz e acolhedor de hóspedes eternos num paraíso, valores terrenos de solidariedade e de justiça social . Os atuais jovens universitários da Católica trocaram a JUC pelo Chega! O tempora o mores — “ó tempos! ó costumes!” Cícero, Catilinárias.

Uma das causas apontadas para ‘cena’ da Católica — Ventura — Jornalista — remete para a sociologia, para a origem social dos alunos, crias de famílias abastadas, ou pelo menos dispostas a investir na educação dos filhos para eles virem a pertencer à elite que “saca fundos e manda nos negócios” e tem no doutor Ventura um exemplo vivo e encarnado do sucesso. André Ventura é um São Paulo para a comunidade dos alumni da Católica, alguém que se converteu às virtudes do sucesso, que renegou as origens e se apresenta como um fanático da nova religião. O Chega é uma moda entre a juventude, que tanto integra os suburbanos de epiderme tatuada, os dos jeans rasgados, como os rostos pálidos de blazer e calça creme. Por detrás encontram-se velhas raposas que salivam ao apreciarem estes jovens candidatos a Faustos, a vender a alma a troco de promessas de riqueza.

Como chegámos aqui? Acredito que os alunos da Católica que convidaram o doutor Ventura para lhes iluminar o presente e o futuro nunca tenham ouvido falar de Paraménides, um filósofo grego que muito pensou sobre o Ser e o não ser. Perguntava o grego: Seria possível que coisa nenhuma viesse a ser alguma coisa? Pensar o nada é também pensar o Ser e pensar o Ser é também pensar o devir! Os alumni da Católica estão preocupados com o seu devir e o doutor Ventura e os seus “chegas” também (com o deles, claro).

Percebê-los exige perceber que o devir de cada um dos atores da ‘cena’ da Católica e do Chega não inclui o devir da sociedade. Eles, os ‘chega de carne tenra’ ou os ‘chega de coiro duro”, os ‘chega lingrinhas’ e os ‘chega barrigudos’ comportam-se como os marinheiros holandeses perante os “dodó”, as aves gigantes da família dos pombos, existentes nas ilhas de Maurício, no Índico, e que por não terem inimigos naturais não fugiam dos homens; estes, sem outras preocupações que não fosse alimentarem-se de boa carne obtida com facilidade, mataram-nos até extinguirem a espécie em menos de cem anos. Ou como os habitantes da Ilha da Páscoa, que destruíram todas as árvores para esculpirem deuses que lhes trouxessem chuva e boas colheitas, até a ilha se tornar inabitável. As propostas dos movimentos populistas como o Chega são deste tipo e têm esta sofisticação de raciocínio: a redução ao ‘Nada’ produz riqueza e boa vida aos que a souberem aproveitar. O vale entre os rios Tigre e Eufrates já foi fértil — o crescente fértil — a sua redução ao nada que é hoje o deserto teve por filosofia o sucesso imediato da exploração sem cuidar do devir, do futuro. Esta ideologia do ‘Nada’ teve uma aplicação próxima de nós com a política de Bolsonaro para a desflorestação da Amazónia! É ao ‘Nada’ onde o Chega quer chegar e é essa a ideologia do neoliberalismo que constitui a doutrina da Católica. Os novos dirigentes ocidentais, saídos de madrassas como a Católica e integrados em seitas como o Chega ou a Opus Dei conduzirão Portugal e o Ocidente segundo estes princípios. É fácil adivinhar o futuro.

Quanto aos ‘velhos chega’ sabemos de onde vêm, como sabemos de onde vieram os legionários do Estado Novo, não há qualquer novidade nem surpresa, nem necessidade de estudos muito aprofundados. Mas quanto aos jovens, aos que frequentam as universidades, em particular as juventudes das minorias privilegiadas. Que geração é esta? De onde vem? Os médicos, gente da ciência sobre os interiores dos seres, afirmam que somos o que comemos (e também o que bebemos, vamos lá). O que comeu e bebeu esta geração? Da experiência de contactos com ela, comeu maioritariamente hambúrgueres e bebeu colas. Eu fui cinco vezes a restaurantes da cadeia McDonald — sei que foram cinco e recordo os locais e as circunstâncias de dilema que me levaram a eles: ou um McDonald e uma cola ou nada! Ora, o nada no estômago é uma realidade e não uma questão metafísica.

O que mais me impressionou nos ditos restaurantes — há de outras marcas — nem foi o cheiro, nem a gordura a escorrer, nem a molhanga, nem a necessidade de abrir a boca como um hipopótamo para enfiar o nariz naquela bola de encher barrigas e nádegas e esvaziar cérebros, de aumentar os números da roupa até ao 5XL e a linguagem a umas trinta palavras, mas uma figura — um género de manequim em plástico colorido chamado Ronaldo — o palhaço Ronaldo, à porta e junto aos balcões. O palhaço Ronaldo representava nos ditos restaurantes o que a figura da Última Ceia representa nos lares católicos, ou uma natureza morta a reproduzir um pão entre os menos religiosos, ou até, em restaurantes mais rústicos, a decoração composta por enxadas, foices, até a canga de um animal que puxou arados. Imagens de uma realidade: comer resulta do trabalho, resulta da transformação dos produtos da terra em alimentos à custa do esforço humano. Comer é uma partilha. Ora, esta geração de jovens fãs do Chega, come abençoada por um palhaço com o nome de Ronaldo e come sozinha a comida retirada de um pacote ou embrulhada num papel!

Há o Ronaldo futebolista — mas não é desse, nem do seu exemplo que esta geração se alimenta ideologicamente. O Ronaldo futebolista fez-se à custa de esforço, de muito esforço para ser o mais rápido, o que salta mais alto, o que remata com mais força e precisão. O Ronaldo futebolista e o palhaço Ronaldo da McDonald são entidades antagónicas, apenas com o nome em comum. A geração da Católica é a geração Ronaldo palhaço. O doutor Ventura é o Ronaldo palhaço, o que diz à sua geração que os hambúrgueres são um alimento saudável, culinária de agrado geral, um negócio de sucesso, que as Colas são uma bebida regeneradora de órgãos vitais, que a seriedade no trabalho é para falhados — losers — ou para quem não consegue vender cabritos sem ter um rebanhoO palhaço Ronaldo dos hambúrgueres diz aos frutos da sua geração, aos fiéis do seu pastor Ventura o que eles querem ouvir: apanhem e abocanhem o que puderem, o mundo é dos que não pensam no devir.

A geração do Ronaldo palhaço, a que pertencem os da ‘cena’ que purgou o jornalista do Expresso do sermão do doutor Ventura na Católica é a do Nada. A geração para a qual nada que seja vantajoso para um indivíduo — ele próprio — possa causar angústia, desconforto ou problemas de consciência. A de que nada é impedido ao que consegue vender um palhaço que convence que a comida nasce atrás de uma máquina que exibe fotografias de comida e que fornece trocos. É a geração para a qual a relação de criação e destruição deve apenas estar subordinada ao lucro imediato. A geração Ronaldo tem como ícone nacional o doutor Ventura e como ícone mundial Donald Trump, com quem o palhaço Ronaldo tem semelhanças fisionómicas, aliás.

A geração Ronaldo acredita que é possível pensar e falar sobre o que, ao que tudo indica, não existe. Que assume como verdade afirmações que fazem sentido, mas não se referem a coisa alguma, como é o caso das ‘promessas’ do doutor Ventura. Vai acabar com a corrupção. Vai aumentar o ordenado mínimo. Vai fazer a banca pagar as rendas de casa. Vai tratar da saúde a todos os portugueses, os coxos vão começar a andar e os cegos a ver.

São afirmações tão verdadeiras como dizer que Sísifo, a figura da mitologia grega que subia e descia o monte carregando eternamente um barril de água se propôs afinal a subir ao monte Everest com uma caixa de refrigerantes ao dorso!

Todas estas afirmações fazem sentido, em geral. Possuem sujeito, verbo e estão gramaticalmente corretas. Todavia, qual é o seu grau de veracidade? Como pode uma afirmação ser verdadeira ou falsa se estamos a falar sobre coisas inexistentes? Como é suposto pensarmos sobre coisas que não existem no mundo real, mas que de alguma forma parecem existir nas nossas mentes, ou nas dos nossos pastores falantes? Para a geração Ronaldo e para Ventura, o seu guia, o Nada não existe. Tudo existe desde que seja afirmado. O púlpito, real ou virtual, é o local de criação de uma realidade: crê e salvar-te-ás! Ora o que faria um jornalista nessa sessão espirita sobre a transformação do nada num MBA? Rua! E só não foi merecidamente defenestrado por bondade ou porque as câmaras das TVs não estavam lá para transmitir o espetáculo que promove audiências.

Parte da razão pela qual conseguimos pensar, falar ou até imaginar coisas que não existem, é a linguagem. As palavras permitem-nos perceber conceitos e ideias, mesmo que estas não correspondam a nada, mesmo numa realidade empírica. O doutor Ventura, como Donald Trump, é mestre da linguagem que fornece um argumento sobre o que as audiências devem julgar como possível ou não. Quando falam de objetivos não realizáveis ou de realidades não existentes, colocam os fiéis a acreditar em mundos imaginários, mundos que podem ferir critérios verificáveis de realidade e verdade, mas que passam a existir nas suas mentes.

A geração Ronaldo, que não é exclusiva da Universidade Católica, mas inclui muitos dos jovens formatados nos mitos do integrismo religioso, desde a Opus Dei aos movimentos evangélicos, de jovens que acreditam que o palhaço Ronaldo transforma arengas contra emigrantes em hambúrgueres e estes em maná de votos, mas não acredita que o futebolista Ronaldo possa marcar um golo sem bola, exige um VAR!


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A pregação de Santo André

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/01/2024)

Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem.


Não adianta insistir em chamar fascista a André Ventura: ele não é fascista. Eu sei o que é um fascista e não é o caso de Ventura. Quanto mais não seja, porque lhe falta substrato intelectual para isso, senão também convicções. Fascistas — ou, pelo menos, saudosistas do Estado Novo — são, sim, muitos dos seus seguidores, aquele povo imenso de que já aqui falei, que em 24 de Abril de 1974 vivia perfeitamente instalado e obediente com a situação e uma semana depois estava nas ruas a jurar que o povo unido nunca mais seria vencido e todos eles eram, afinal, uma vasta maioria silenciosa de socialistas e comunistas de várias espécies. Nunca, de facto, desapareceram, apenas não encontraram representação à altura desde então — e devemos isso à direita democrática, nomeadamente ao CDS. Mas se querem saber onde é que eles estão, o que pensam e o que desejam para o país, se têm saudades do cheiro abjecto de um fascista português, basta ler os comentários dos leitores do “Observador”: está lá tudo, estão lá todos, em todo o seu inconfundível esplendor. Mas a esquerda, igualmente instalada nos seus dogmas, acha que para travar o Chega basta chamar-lhe fascista e logo acrescentar os dois outros inevitáveis adjectivos do mantra: racista e xenófobo. E depois sentam-se, à espera de que as palavras bastem. É como o combate à seca no Algarve: só quando a água está na iminência de faltar nas torneiras é que percebem que o problema não se resolve só com discursos, relatórios e estudos sucessivos.

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O crescimento contínuo do Chega é, obviamente, obra de um homem só, pois à roda dele não existe nada nem ninguém, apenas uma plateia de rostos sem expressão ou alguns com a inconfundível marca da inveja dos medíocres estampada na cara, quando não mesmo indisfarçáveis sinais de perturbações mentais por tratar. Se algum dia aquela gente chegar ao poder, o espectáculo será assustador e o resultado uma espécie de solução final. Mas isso — que é a fraqueza de uma coisa a que dificilmente se pode chamar um partido — tem de ser levado a crédito de André Ventura, um verdadeiro case study da ciência política. Sozinho, ele inventou o Chega, conseguiu tornar-se notícia explorando sabiamente a volúpia cega da comunicação social por tudo o que cheira a dissidência, aguentou depois dois anos como deputado único, fazendo barulho por quatro ou cinco, daí crescendo para um grupo parlamentar, mas continuando na prática como deputado e voz única do partido, indo a todas e todos os dias e transformando o átrio da Assembleia da República (onde estão as televisões) na sede do partido. Primeiro que tudo, isto: trabalho, um trabalho infatigável — no plenário, nas comissões, junto das câmaras e microfones do átrio ou em baixo das escadarias, ao pé dos manifestantes da PSP ou outros cujas causas apadrinha.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Depois, as causas. Por falta de convicção ou por simples instinto político, André Ventura sabia que não podia recuar ao credo do Estado Novo “Deus, Pátria, Família”. Por muito que quisesse atrair os saudosistas desse “viver habitualmente”, os tempos mudaram. Deus não é hoje questão política entre nós, e Ventura até nem gosta do Papa Francisco e do espírito do Vaticano II; a pátria não está em causa, a menos que se queira discutir a UE e pôr em causa os preciosos milhões que nos envia, o que não seria aconselhável, e a família é hoje uma noção jurídica e factual muito difusa. Havia que encontrar novas estratégias de abordagem ao reaccionarismo profundo de uma larga franja de portugueses e Ventura começou por encontrá-la na questão dos ciganos. Apostou, e bem, que iria escavar apoio popular e a hostilidade histriónica do pensamento politicamente correcto. A questão dos ciganos é uma questão complicada e difícil de resolver: entre eles, há muito boa gente e gente trabalhadora, mas muitos não se integram por si, não se deixam integrar e poucos querem integrá-los. À luz do Estado de direito, temos obrigação de o fazer, mas também temos obrigação de o fazer segundo as regras do Estado de direito, e não segundo as deles. Isto não se resolve com simples enunciados anti-racistas, mas com um trabalho persistente e delicado junto das comunidades, no terreno. Sabendo como a solução é difícil e complexa e como do outro lado só lhe opunham a facilidade dogmática, Ventura seguiu também o caminho da facilidade inversa, encontrando terreno fértil: não por acaso, o Chega obteve os seus primeiros grandes resultados eleitorais, roubando votos ao PCP e à esquerda, nos círculos do Alentejo e do Algarve, onde existem grandes comunidades ciganas. Isso deveria ter servido de lição e de alerta para a tal esquerda sapiente, mas ela achou-se num patamar acima da necessidade de ter de aprender qualquer coisa com Ventura. Nada disso ajudou a resolver o problema, como é óbvio, mas o Chega ganhou um trampolim para penetrar no lúmpen popular onde se alimentam todas as demagogias. Daí até Ventura extravasar o seu discurso para todos os imigrantes estrangeiros de pé-descalço foi um pequeno passo, alimentado num estendal de mentiras despudoradas e de desprezo absoluto pelos números reais. Mas, quando lá chegou, já tinha feito caminho sufi­ciente para que os seus seguidores se preocupassem apenas com o discurso e não com os factos.

André Ventura é perigoso porque reúne em si o pior que uma democracia pode produzir e consentir, de acordo com as suas próprias regras: é um brilhante tribuno e um demagogo desprovido de quaisquer escrúpulos. Como qualquer demagogo, dirige-se à crença dos ignorantes com a facilidade de uma D. Branca a vender esquemas Ponzi a velhinhas incautas.

O método, o mesmo de todos os vendedores de feira, é infalível: apresentar soluções simples para problemas complexos. Pôr a pensão mínima de reforma igual ao salário mínimo e financiar isso com dinheiros europeus ou lucros do “combate à corrupção”; dar a todas as forças de segurança um subsídio de risco equivalente aos operacionais da PJ e pagá-lo com a poupança feita no combate à “ideo­logia de género”; terminar com a subsidiodependência, mas, ao mesmo tempo, pagar promoções retroactivas a toda a Função Pública que o reclamar. Fica alguém de fora, alguém se opõe? Então, vamos ganhar as eleições e “limpar Portugal”.

Hoje, as maiores ameaças às democracias — salvo em casos extremos, como Trump, nos Estados Unidos — não são os fascistas nem os movimentos de extrema-direita: são os demagogos, os populistas à solta. Aos fascistas podemos sempre recordar-lhes o seu passado histórico de ignomínia, podemos recuperar as fotografias dos seus rostos e das suas vítimas, os seus discursos de ódio, as suas prisões, as perseguições, a censura dos adversários. Mas os demagogos não têm propriamente um historial registado, não há fotografias dos seus danos ou crimes, os seus rostos são simpáticos e os seus discursos atraentes, o seu poder resulta de voto do povo, e não de golpe, e a sua doutrina não se pode combater no campo da informação, porque está condenada a ser derrotada no da ignorância. Estar informado dá trabalho: é preciso ler jornais, ler livros, consultar estudos e estatísticas, ver museus, ouvir música, viajar, olhar, falar com outros, pensar. Sim, é um trabalho elitista. Ou um luxo, para quem acha que isso é um luxo. Mas, inversamente, também há quem pense que um luxo é não ter que se preocupar com isso. Salazar disse que os portugueses gozavam do luxo de apenas terem de se preocupar com o seu trabalho e a sua família, porque da política ocupava-se o Governo. Lembrei-me disso quando contemplava a assembleia de fiéis de Ventura no Congresso do Chega (a que um congressista, confundindo com o público, chamou “o púlpito”). Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem. Por vezes até parece que se dividem entre uma alcateia de lobos, que não quer ser governada por ninguém e extermina qualquer um que se atreva a tal, e um rebanho dócil de carneiros, que só pede um pastor que os leve diariamente do curral à pastagem e vice-versa. Mas one man, one vote: para decidir o nosso futuro comum, o voto destes vai valer tanto como o dos outros.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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