Não, eu não tenho a menor vontade de acarinhar os votantes do Chega, sejam eles quantos forem. Quem deve ser acarinhado são os outros.
Despachado como pára-quedista para chefiar a lista da AD no Algarve, o vice-presidente do PSD, Miguel Pinto Luz, teve uma derrota tão previsível quanto humilhante, atrás do PS e do Chega. Talvez a pensar já na desforra a curto prazo, não perdeu tempo a namorar os eleitores do Chega, afirmando que eles têm de ser “acarinhados”. Mas, verdade seja dita, o instinto de compreensão e tolerância para com o milhão e cem mil eleitores do partido de André Ventura contagiou todos ou quase todos os que foram chamados a enfrentá-lo nas eleições de 10 de Março, começando logo por Pedro Nuno Santos. Era preciso, explicaram-nos, entender as razões da sua “revolta”, do seu justo desencanto com a política e o estado do país, de igual forma que a mesma compreensão, e até rendição, era necessária para com a revolta do braço armado do Chega — os polícias de camisas negras, a cantar o hino como patriotas de excepção e a ameaçar um motim público, todavia juntando à solidariedade óbvia de Ventura também a do Bloco de Esquerda ou de comentadores como Daniel Oliveira. Até parece que não perceberam o que têm pela frente: não se trata só de combater ideias “racistas e xenófobas”, como repetem preguiçosamente (e, como se viu, sem sucesso), mas de tentar deter uma onda galopante de demagogia desenfreada e populismo de taberna que tornará o país ingovernável e, por arrasto, a democracia indefesa.
Quando oiço os dirigentes políticos da democracia falarem do Chega, percebo até que ponto é restrita a liberdade de pensamento de quem faz da política a sua profissão e da necessidade de ganhar votos a sua sobrevivência. De quem, como Pinto Luz, precisa de namorar todos os eleitores, incluindo aqueles que os desprezam. Eles não podem dizer, nem sequer murmurando, aquilo que salta à vista, que é o inimigo a enfrentar: não André Ventura, que lançou a semente à terra e a rega e aduba inteligentemente, mas sim os que o seguem como a um Messias. Quem já viu desfilar na TV brasileira os inúmeros canais das Igrejas Evangélicas (que já têm também representantes na bancada parlamentar do Chega) não ignora as semelhanças: o problema não são os “sacerdotes” e “bispos” daquelas confrarias de bandidos da fé, mas sim o “rebanho” de descamisados sem causa, de alienados à mercê de aldrabões de feira.
O problema, meus caros senhores, não é André Ventura, o único verdadeiro dirigente da confraria: o problema é mesmo o povo, o povo do Chega.
Divido esse povo em duas categorias: os mal informados e os mal formados. Os mal formados são os tais racistas por doença mental, xenófobos por nacionalismo pacóvio e saudosistas do Estado Novo por conforto pessoal — são a minoria, os “intelectuais” do partido. Os mal informados, a grande maioria, são uma amálgama entre aqueles que, ignorando tudo sobre o estado do mundo, que confundem com as “verdades” que lhes debita o algoritmo das redes sociais a eles destinado, acham que Portugal só não é um país triunfante entre todos porque “eles”, os que nos governam, são corruptos e inimigos do povo; e, por outro lado, aqueles que sempre existiram e que representam o Portugal no seu pior: os maledicentes profissionais de café, os intriguistas, os invejosos, os frustrados, os falhados, os que nunca reconhecem o mérito alheio nem aceitam o mérito como critério na sua actividade — a grande coligação dos medíocres. Esses confundem democracia com prosperidade e preferem sempre o seu bem-estar pessoal à liberdade colectiva e individual. Esses — não todos, mas a maior parte — precisam que apareça alguém a dizer-lhes que o seu mal-estar nunca é culpa própria, mas “deles”, e que lhes explique que a frase de Kennedy deve ser lida ao contrário: “Pergunta o que o teu país pode fazer por ti.” Porque não se informam, ignoram tudo sobre a conjuntura internacional e pensam que só por mau governo e má vontade é que Portugal não é um oásis de prosperidade. Porque não pagam impostos nem se preocupam com a despesa ou a dívida do Estado, acreditam nos milagres económicos, tão evidentes e tão simples, que Ventura lhes propõe como alternativa. Porque não são livres, não se importam de viver na dependência e, porque não são sérios na sua forma de estar, não gostam de ver os imigrantes estrangeiros na “sua” terra, mesmo a fazer os trabalhos que eles não querem fazer e que o tal “sistema” que tanto odeiam os subsidia para não terem de fazer — ao contrário do que os seus pais e avós fizeram outrora, sem desfalecimento, durante a “prosperidade” do salazarismo, naquelas comunidades de emigrantes cujos descendentes agora, vá-se lá saber porquê, também deliram com o Chega, porque estão “revoltados”.
Revoltados? Revolta é uma coisa séria, isto não o é. Sim, há sobejas razões de revolta: uma globalização que ajudou os miseráveis mas desprotegeu os simplesmente fracos ou pobres; um capitalismo que desregulou o mercado, capitulando perante os grandes interesses e corporações; uma cultura woke levada ao extremo da idiotice que agride e afasta multidões de gente simples; uma geração de líderes sem rasgo nem coragem, com medo de dizer as verdades e de fazer opções claras — aliás, muito aterrorizados por um populismo que não sabem ou não querem enfrentar em campo aberto. Mas essa revolta, para ser séria, não pode alimentar-se da ignorância, da demagogia e do triunfo da mediocridade.
Não, eu não tenho a menor vontade de acarinhar os votantes do Chega, sejam eles quantos forem. Quem deve ser acarinhado são os outros: os que votam na democracia, os que acreditam na liberdade como primeiro valor da vida colectiva, os que não querem depender nem esperar por milagres ou embustes prometidos mas abrir caminho por si, pelo seu esforço, o seu trabalho, a sua criatividade, a sua contribuição para a sociedade. Os 80% que não votaram no Chega. Esses é que têm de ser acarinhados, apoiados, empurrados para cima, para que não fiquem apeados por falta de oportunidades, enquanto se gastam atenções e recursos com os inúteis sentados nos cafés a dizer mal do “sistema”, só porque desta vez descobriram as virtudes do sufrágio universal e lá se dignaram levantar o cu da cadeira e ir votar na alternativa do Dr. Ventura.
Não é um combate fácil, mas, sobretudo, tem de ser travado e tem de ser ganho — não dando tréguas na luta das ideias, no desmascaramento das mentiras e na exposição do embuste. E governando bem, governando a pensar no país e não no partido, privilegiando não quem mais exige mas quem mais retribui, não quem mais grita e tem mais palco mas quem mais produz, mais inova e mais arrisca. Acordando no que é essencial em cada momento e discordando no que é diferente, mas, acima de tudo, não tendo medo de contrapor sempre a verdade e os factos contra a demagogia e o facilitismo de dizer ao povo o que o povo quer ouvir e não o que o povo precisa de ouvir.
Cito e subscrevo aquilo que Francisco Mendes da Silva escreveu no “Público” há 15 dias: “O tal povo ‘esquecido’ que vota em Ventura é muito mais ouvido do que se pensa. Determina muito mais do que se julga as prioridades mediáticas do país.” Isto é um facto, e a imprensa também tem muitas responsabilidades no assunto. Esta nossa doentia tendência para dar sempre mais voz e mais importância a quem mais berra ou desfila pelas ruas a cantar o hino tem como contrapartida o esquecimento de todos os outros. E os outros são os 80% que não votaram no Chega ou os 50% que pagam IRS. Só num país desnorteado é que a prioridade são aqueles e não estes. Olhemos para cima e para a frente, não para trás ou para baixo. Deixem que o diga com todas as letras: aquela senhora que eu vi na televisão a dizer que ela, a filha e a neta desta vez tinham decidido ir votar e todas tinham votado no Chega, para “ver se as coisas melhoram”, não me inspira compreensão alguma — apenas desprezo. Vai fazer 50 anos que a senhora só podia votar em eleições de fantochada e aposto que não estava melhor na vida.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Os partidos democráticos e fundadores da democracia só podem combater o populismo de André Ventura e reverter o crescimento exponencial do seu partido se fizerem uma introspeção e deixarem de apontar o dedo a André Ventura, ao Chega e aos seus eleitores.
Não foi o 25 de Abril que falhou, quem falhou foi uma série de políticos que sobrepuseram os seus interesses pessoais aos interesses do país e não olharam a meios para atingir os fins.
Desde logo, o 25 de Abril deu-nos a liberdade e não a libertinagem e a própria liberdade tem limites porque, como se costuma dizer, a nossa liberdade termina onde começa a dos outros. E uma das principais conquistas de Abril foi a liberdade de pensamento e de expressão.
Essa liberdade, que nos foi concedida pelo 25 de Abril e que demorou imenso a conquistar com o sacrifício de muitos, alguns dos quais pagaram com a própria vida a sua defesa, no que aos direitos políticos diz respeito, teve como objetivo principal permitir aos responsáveis políticos defenderem livremente as suas ideias e as suas propostas, sem qualquer censura e/ou perseguição.
Nos primeiros anos pós 25 de Abril, assim sucedeu e tivemos políticos, independentemente das suas convicções, que foram verdadeiros estadistas, tais como, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, e a ordem é arbitrária.
Esses políticos sempre agiram, de acordo com as suas convicções, em prol do bem comum, ou seja, em prol do bem-estar e da qualidade de vida da população.
No entanto, a partir de determinada altura, a política passou a ser apelativa para muitos que viram nela uma forma fácil de ganhar dinheiro, sem grande esforço e trabalho.
Assim, a política deixou de ser a nobre arte de governar o país e as autarquias e passou a ser a nobre arte de alguns se governarem. Daí o crescimento da corrupção e do nepotismo.
Na verdade, pessoas sem escrúpulos, sem vergonha, sem carácter, sem princípios e sem valores começaram a espalhar-se, qual gangrena, por vários órgãos do poder.
Por isso, o descrédito na política e na generalidade dos políticos passou a ser uma realidade para grande parte da população, que se afastou, por completo, o que levou a grandes índices de abstenção nos diversos actos eleitorais.
Todos sabemos que o descontentamento crescente da população propicia o caldo fértil para alguns navegarem a onda do populismo.
André Ventura, é um desses populistas, que fez parte do PSD por largos anos e que foi candidato desse partido em atos eleitorais, mas que fala como se nunca tivesse feito parte do sistema e diz aquilo que a generalidade da população quer ouvir.
André Ventura promete tudo e mais alguma coisa, porque sabe que nunca será confrontado com a inexequibilidade das suas propostas. É possível prometer tudo a todos, mas não é possível cumprir essas promessas porque as receitas do Orçamento do Estado são limitadas.
André Ventura tem consciência disso mesmo, mas como sabe que o seu eleitorado só se aperceberia da inexequibilidade das suas propostas se um dia o Chega fosse Governo e tivesse que passar das palavras à ação, vai prometendo tudo e mais alguma coisa a todos e vai prometendo aumentar a despesa pública e, simultaneamente, diminuir as receitas públicas, visto que promete descer os impostos.
A generalidade do eleitorado do Chega não se apercebe da incongruência e da impossibilidade prática de aumentar substancialmente a despesa pública e, em simultâneo, descer significativamente os impostos.
Seria o mesmo que achar possível uma família gastar muito mais, ou seja, fazer muito mais despesas, mas diminuindo consideravelmente o seu rendimento. Se isso sucedesse, essa família, gastando muito mais com um muito menor rendimento, ficaria, obviamente, endividada.
Mas André Ventura, para além de prometer tudo a todos, também é aquele que defende uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, numa primeira fase, defendeu o fim do SNS e da escola pública, mas, numa segunda fase, já se arvora no grande defensor do SNS e da escola pública.
Portanto, André Ventura tem um discurso que vai adaptando, sem qualquer pingo de vergonha, às circunstâncias e aos destinatários, em função do que estes querem ouvir, surfando a onda do descontentamento e do populismo.
É isto que tem de ser denunciado pelos partidos democráticos, nomeadamente, aqueles que estiveram na génese da democracia, e não o apontar o dedo ao eleitorado do Chega, porque, como afirmou, e muito bem, Pedro Nuno Santos, não há um milhão de portugueses xenófobos e racistas.
Na minha opinião, a generalidade dos eleitores do Chega são pessoas descontentes com as práticas inaceitáveis acima enunciadas, que são transversais a todos os partidos. Daí a necessidade de esses partidos fazerem uma introspeção para analisar o que está errado e corrigirem-no, em vez de optarem por apontar o dedo ao eleitorado do Chega, acusando-o de tudo e mais alguma coisa.Na verdade, essa atuação só irá fazer crescer, ainda mais, o descontentamento e, consequentemente, a base eleitoral do Chega. Como diz o provérbio: “Apanham-se mais moscas com mel do que com fel”.
Os partidos democráticos, nomeadamente, aqueles que estiveram na génese da democracia não podem ter assuntos tabus e não podem deixar de abordar certas temáticas, por mais inconvenientes que elas possam ser. Por exemplo: defender o controlo da imigração, não é ser xenófobo. Conceder mais direitos aos nacionais do que aos imigrantes não é ser xenófobo. Não pactuar com a ideologia de género, não é ser homofóbico. Defender os interesses nacionais e não ser totalmente subserviente a Bruxelas não é ser extremista e radical. Defender uma Europa forte e unida e não subserviente aos interesses políticos, económicos e militares dos EUA, não é ser pró-russo e antieuropeísta.
Há um longo trabalho que deve ser feito para reconquistar os insatisfeitos, os indignados e os revoltados, em defesa da democracia e do sistema democrático, e isso faz-se no plano das ideias e não no plano dos ataques pessoais. Faz-se demonstrando que, a nível das propostas e da sua exequibilidade, André Ventura tem uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma; não se faz apelidando-o de fascista, xenófobo e racista.
(Mihguel Carvalho e João Maio Pinto, in Público, 25/02/2024)
Não foi o Ventura que fez o Chega. Foi o demérito de outros, sobretudo PS e PSD – Miguel Luís
(Não se pode combater aquilo que se desconhece. É por isso que publico este texto. Resultado de louvável investigação jornalistica, diz-nos muito sobre o fenómeno Chega. Há por lá grandes interesses económicos, aristocratas, saudosistas do antigamente, perigosos aficionados do fascismo e da xenofobia, mas também muita gente trabalhadora descontente, enganada pelas promessas “bem-aventuradas” do Ventura.
Estátua de Sal, 25/02/2024)
A direita radical populista atrai a simpatia de várias camadas da sociedade, da aristocracia ao povo de esquerda. Retrato inédito do partido que mais sobe nas sondagens face às legislativas de 2022.
Eram 11h39 de 12 de Abril de 2021 quando a mensagem caiu no endereço electrónico do Chega. Dizia assim: “Gostaria de encontrar informação sobre a maneira como poderemos apoiar financeiramente o vosso partido, sem nos tornarmos militantes.”
O pedido fora remetido pela “assistente do senhor Alain Bonte”, a partir do email de uma sociedade de investimentos imobiliários (SEII), com “empresa-mãe” registada no Luxemburgo e sede em Alcabideche, no mesmo local onde o cônsul honorário da Roménia no Estoril gere o posto diplomático e grande parte dos seus negócios.
Francês de origem, cidadão português e comendador agraciado pelo Estado romeno, o presidente da Fundação Bonte divide os principais investimentos nacionais e internacionais pelo imobiliário, indústria farmacêutica, seguros e informática (sobretudo na área dos jogos digitais). Em Bucareste, entre outros edifícios, uma das empresas controla uma área equivalente a dois campos de futebol em espaços comerciais de rua, destinados a arrendamento.
Mecenas, filantropo, coleccionador de arte, Alain Bonte tem entre os parceiros de negócios e gestores de confiança António Beja (cônsul honorário da Moldávia) e Catia Rădulescu, das mulheres mais poderosas da Roménia, segundo a Forbes. A esta revista, em 2014, a jurista “derreteu-se” em elogios ao “investidor de elite, com formação nas grandes escolas europeias”.
Captura de ecrã de um vídeo publicado pela Bonte Foundation, de Alain Bonte. O empresário de origem francesa mostrava a sua colecção de arte moderna romena no Palácio Nacional da Ajuda, em Junho de 2016
No núcleo duro do empresário cabe ainda a mulher, e também sócia, Isabel Maia D’Aguiar, filha do falecido produtor e realizador francês Ayres d’Aguiar, de origens açorianas. Estão juntos na vida e nos negócios. Passem eles por Lisboa, Bucareste, Estocolmo ou Sliema (Malta).
A 1 de Junho de 2021, pouco mais de um mês após o envio do email ao Chega pela assistente do marido, Isabel transferiu 10 mil euros para uma conta do partido, atestam os extractos depositados na Entidade de Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) do Tribunal Constitucional. O PÚBLICO solicitou por escrito aos gestores da SEII informações sobre as motivações do apoio financeiro à direita radical populista, mas não obteve resposta.
Contra as elites, venham as elites
“Quem manda é o povo e não as elites que nos governam.” A frase de André Ventura, qual mantra, serve para todas as estações e eleições desde que o Chega foi fundado, em Abril de 2019. Mas certas elites empresariais e financeiras não fizeram caso disso, nem o apoio e simpatia pelo Chega nessas áreas é novidade. Já a dimensão e variedade, talvez.
Os donativos oficiais de membros dos clãs Mello e Champalimaud, de João Bravo (líder na venda de armas e equipamento militar ao Estado), de Miguel Costa Félix (imobiliário e turismo), e de Jorge Ortigão Costa (grupo Sogepoc) superavam, pelo menos até meados de 2022, 40 mil euros. No mesmo período, Salvador Posser de Andrade (Coporgest, imobiliário, antigo vice-presidente do Chega), a família Pedrosa (grupo Barraqueiro) e o empresário de transportes José Paulo Duarte, transferiram perto de 19 mil euros.
Outro financiador (5000 euros) foi o advogado portuense Miguel Sequeira Campos, ex-CDS. Associado a negócios imobiliários, ainda se tentou chegar a ele através de amigos da defunta colectividade Os Mija na Escada. Muitos telefonemas depois, entrou em cena Francisco Pacheco de Amorim, da Pares By Construmed, que, segundo a página oficial, gere mais de 100 milhões de euros em património imobiliário e é líder no mercado de arrendamento. “O doutor Miguel é nosso advogado há mais de 28 anos”, confirmou o mandatário do Chega para as legislativas e irmão do mais mediático Pacheco de Amorim: Diogo, deputado e dirigente. Miguel Sequeira Campos, entretanto, justificou ao PÚBLICO o donativo: “Fi-lo por me identificar com o conservadorismo do partido na eutanásia, no aborto e na segurança interna.”
O advogado Miguel Sequeira Campos é um dos financiadores do Chega
Às receitas do Chega não falta pedigree contra-revolucionário.
E nem sequer é necessário atender ao breve currículo de Diogo Pacheco de Amorim na ala política do MDLP (movimento da chamada rede bombista de extrema-direita no pós-revolução; o tribunal condenou alguns dos operacionais responsáveis pelo extenso rol de crimes e mortes, mas os alegados mandantes ou financiadores nunca foram julgados), chefiada, entre outros, pelo tio Fernando Pacheco de Amorim.
O empresário e gestor Miguel Sommer Champalimaud (10 mil euros) esteve implicado na tentativa de golpe spinolista da “maioria silenciosa”, a 28 de Setembro de 1974. Francisco Van Uden (100 euros), monárquico na linha de sucessão ao trono e ex-comando com carreira na área imobiliária, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), braço da rede terrorista citada. “Luta contra o comunismo” na versão dele. “Ajudámos o chamado levantamento popular do ‘Verão Quente’ de 75, em que houve assaltos às sedes dos partidos comunistas e de extrema-esquerda”, concretizou, ao semanário Sol.
A aristocracia também quis embalar o novo rebento político, logo à nascença. Vai daí, juntaram-se esforços em certas famílias.
Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia (imobiliário, turismo e restauração, citado no escândalo Paradise Papers), Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa (instituições financeiras e empresariais), e Eduardo Guedes Mendia, quarto conde e terceiro marquês de Mendia (ex-Portucale, ex-Grupo Espírito Santo, gestor e administrador), sinalizaram a sua simpatia pelo Chega, com contribuições oficiais de pouco mais de 1000 euros no total.
José Cunha Coutinho, barão de Nossa Senhora da Oliveira, foi outro. Médico, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, o antigo candidato do PPV (Portugal Pró Vida), partido que se fundiu com o Chega, foi investido Cavaleiro da Ordem de São Silvestre pelo Vaticano, graças às “contribuições notáveis à sociedade” e “serviços relevantes” prestados à Igreja. Nas redes sociais, partilhou, entre outras, a fotografia de André Ventura tirada na catedral de Almudena. Junto à estátua de Josemaria Escrivá, o líder do Chega rezou pelo fundador do Opus Deis e “agradeceu” os 12 deputados eleitos de 2022.
O PÚBLICO tentou também falar, sem sucesso, com Luís Lancastre Lima Raposo, dos órgãos sociais do Grupo Reditus (tecnologias de informação e serviços de outsourcing). Entre Janeiro e Junho de 2021, este elemento do conselho fiscal transferiu 3600 euros para a conta do Chega.
“Queria vê-lo mais homenzinho…”
A estreia de André Ventura no Parlamento, em finais de 2019, suscitou curiosidade nestes ramos sociais, abastados e proeminentes, de moldura conservadora.
O ponto alto foi um jantar no restaurante Montes Claros, em Monsanto, a 5 de Fevereiro de 2020, já o líder do Chega era candidato a Belém.
O evento fora idealizado para personalidades influentes que, no entanto, queriam discrição. O advogado Jorge de Abreu dinamizou contactos, deu dinheiro (3008 euros em 2019 e 2020) e o partido assegurou que não haveria jornalistas por perto. Para uns, era também a oportunidade de ouvir e conhecer Ventura em carne e osso, à razão de 65 euros por comensal, e com direito a levar para casa, por mais 50 euros, o livro-programa do líder, O Dia em que Disse Chega.
A lista de presenças no jantar registou, entre outros, os nomes de José Morais Cabral (ex-CDS, fundador da CIP e ligado a negócios farmacêuticos), João Talone (sexto visconde de Ribamar, gestor e ex-CEO da EDP), Cristina e Teresa Roque (herdeiras do falecido banqueiro Horácio Roque, do BANIF) e de André Luiz Gomes (advogado de Joe Berardo e arguido no processo em que se investigam suspeitas de crimes em créditos da Caixa Geral de Depósitos). Tal não significou que ficassem “clientes” de Ventura e do partido. “Apoiante, eu?! Não, credo!”, reagiu Rita Salgado ao PÚBLICO, pelo telefone. “Fui ao jantar por curiosidade. Paguei e vim embora. Nunca votei nem votarei Chega”, garante a empresária do ramo alimentar ligada ao movimento ultracatólico Schoenstatt.
João Talone, gestor e ex-CEO da EDP, foi um dos participantes num jantar com André Ventura no restaurante Montes Claros, em Monsanto, a 5 de Fevereiro de 2020. Rui Gaudêncio (arquivo)
O médico João Almeida e Castro, presidente da IPSS Ser + (prevenção e combate à sida), vinculado ao imobiliário de luxo e dirigente do Porsche Club 356 de Portugal, também esteve no Chega nesta fase inicial do partido, mas, apesar das insistências do PÚBLICO, não quis explicar se a relação se mantém.
O gabinete de estudos, dirigido pelo deputado Gabriel Mithá, foi o passo seguinte. Na Primavera de 2021, a ideia era atrair a “inteligência” de direita para a elaboração do futuro programa eleitoral que, com a inesperada queda do Governo PS em finais desse ano, foi necessário apressar.
“Fiz parte do grupo de trabalho da Justiça com a condição de não revelarem o meu nome, pois não quero essas ligações nem tenho vocação política, mas já percebi que isso não foi respeitado…”, começou por desabafar Aida Franco Nogueira ao telemóvel. A jurista, filha do antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, “talvez” vote no Chega. “Mas só se o doutor Ventura moderar a linguagem”, avisa. “A política são ideias discutidas com elevação. ‘Prostituta política’ e ‘idiota útil’ não são expressões dignas de alguém que já demonstrou alguma coragem”.
A advogada notou a ausência do tema Defesa nos debates televisivos. “Faltam investimentos, a imagem das instituições militares é vergonhosa. Não quero nem desejo aconselhar o doutor Ventura, mas, se o fizesse, dir-lhe-ia para bater à porta de Nuno Rogeiro.” Aida Franco Nogueira reclama ainda controlo apertado à imigração — “as nações são como as nossas casas, só deve entrar quem a gente quer” — e, enquanto católica praticante, admite desconforto com as lutas pela identidade de género. “Enfim, é uma minoria”, reage. “As pessoas são o que quiserem e devem ser bem tratadas. Mas algumas opções talvez derivem de problemas físicos ou distúrbios psicológicos. Quanto a exibicionismos, mudanças de sexo e aulas de educação sexual para crianças, santa paciência!”
Aida Franco Nogueira (ao centro) em Setembro de 2018, durante uma cerimónia de evocação do centenário do nascimento do seu pai, o embaixador Franco Nogueira, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar. Nuno Ferreira Santos (arquivo)
Embora separada pela ideologia, premissas e objectivos, a jurista assume certa atracção por trincheiras opostas. “Concordo muitas vezes com as posições do PCP. É um partido patriota”. Até ao dia das eleições, Aida Franco Nogueira espera, pois, que Ventura… cresça. “Queria vê-lo mais homenzinho. Tudo pode ser dito com elevação. Até o maior insulto.”
De direita, conservador e católico, Frederico Pais, 38 anos, prefere a versão mais ponderada do líder, mas aceita que estique a corda: “Caso contrário, não é falado. O Chega não está cá há 50 anos, precisa de criar ruído”, refere ao PÚBLICO este ex-JSD, militante 650 do Chega.
Fundador do portal Alerta Emprego e da Betting Connections, consultora sediada em Sliema (Malta) e empresa líder no recrutamento para a indústria de jogos e apostas online, Frederico “fez-se” na coligação Basta!, nas europeias de 2019, a estreia do Chega. Desde logo, rejeita estereótipos: “Fui expulso do colégio, andei numa escola pública e era o único branco da turma. Tenho amigos desse tempo.” Quando Ventura acicatou a etnia cigana, escreveu à direcção a criticar o discurso, no qual não se revê. No dia 10 de Março, depositará o voto no partido que “junta o senhor do café ao dono do banco” e ao qual confia o combate à pedofilia e aos violadores… Mas devagar. “O Chega é o Ventura: não tem quadros nem equipa. Prefiro-o na oposição, a fazer barulho. Se não votasse no Chega, votava na CDU. Os gajos do PCP são incorruptíveis.”
Carlos Alberto Damas, ex-funcionário do BES e biógrafo da família Espírito Santo, lembra-se bem do tempo do PCP papão, “muralha de aço” do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. “Hoje a muralha de aço é o Chega, mas contra o socialismo”, afirma o historiador. Damas filiou-se logo de início no partido de Ventura e aí se manteve até 2022. Nesses anos, e dada a sua especialidade, ofereceu os seus serviços à distrital de Lisboa para organizar arquivos e, talvez, iniciar a construção da memória do partido. “Pensei que o Chega quereria uma espécie de museu”. Acabou a falar sozinho, desapontado. Carlos Alberto Damas assume-se “defensor dos animais, antitouradas e antilatifundiário”. No dia 10, o Chega ainda contará com ele. “Para mim, será um voto de protesto”, explica ao PÚBLICO. “Depois voltarei ao PAN, que é, na verdade, onde me sentia bem.”
O Texas pode ser aqui
Entre apaniguados, o líder do Chega é também idolatrado à conta de certos saudosismos por resolver. Casos de devoção a um passado mitificado e a narrativas excludentes com grande ignição nas redes sociais.
Luís Aguiar de Matos, engenheiro, criador de cavalos e antigo vice-presidente do Sporting na direcção de Sousa Cintra (1989-1991), partilha nas redes sociais fotografias e referências a Salazar, “honesto dirigente”. Em 2021, votou Chega por, entre outras razões, querer “um sistema de saúde livre da patética ideologia de esquerda, privilegiando os doentes, dando resposta eficiente em vez de tratar de abortos, drogados, bêbados e pessoas que querem mudar de sexo”. Nesse ano deu ao partido, com a mulher, 1500 euros. Por estes dias, anda sobressaltado. “Os imigrantes só são necessários para fazer trabalhos que nós não quisermos. Não sou segregacionista, mas não podemos arriscar meter cá gente sem valia humana”, justifica. Independentemente do tipo de trabalho, segundo revelou em Dezembro do ano passado o Observatório das Migrações, “sem os imigrantes, alguns sectores económicos entrariam em colapso” em Portugal. Quando se pergunta a Aguiar de Matos se defenderia o mesmo para os milhares de portugueses que emigraram durante a ditadura, responde: “Não. Mas nesse tempo não havia atentados terroristas.”
André Ventura e Luís Aguiar de Matos
Luís Delgado e Silva, engenheiro, 71 anos, viveu em 13 países diferentes, incluindo EUA, Nigéria e Irão, antes de regressar a Portugal em 2008 e de se candidatar nas listas do Chega à Câmara de Loulé em 2021.
Lá fora, tirou a pinta a vários modelos de governo e concluiu: “O sinónimo de socialismo é mediocridade.” Foi gerente de operações na Schlumberger, líder mundial em serviços petrolíferos, e dirige a secção portuguesa da Society of Petroleum Engineers, associação profissional sem fins lucrativos cujos membros estão ligados à exploração e produção de energias. Se pudesse, Delgado e Silva importava o seu modelo de governação preferido: o estado norte-americano do Texas. “É seguro, com uma qualidade de vida incrível. Quando lá vivi nunca fechava a porta de casa”, diz. As estatísticas anuais do FBI desmentem esta percepção: em 2022, a taxa de criminalidade violenta no Texas estava acima da média nacional; os crimes de ódio têm, na maioria, motivações raciais e são dirigidos a minorias étnicas e sexuais.
Para Delgado e Silva, “o país ainda não recuperou da golpada do 25 de Abril”. Insiste: “Foi uma fantochada. O resultado está à vista. Uma democracia com 90% de analfabetos não faz sentido”. Segundo o último Censos (2021), não chegam a 300 mil aqueles que não sabem ler nem escrever.
Convenção Nacional do Chega em Viana do Castelo, no dia 14 Janeiro. Nelson Garrido
Enquanto isso, o coronel de infantaria aposentado Cordeiro Simões, anda extasiado, nas redes sociais, com “a onda que vai varrer a ideologia socialista e comunista”, graças ao “esclarecedor” e “educado” Ventura. Pelo meio, reforça a admiração por Salazar, com ilustrações e partilhas. Noutros locais da Internet elogia Queipo de Llano, responsável por assassinatos em massa e peça-chave da revolta militar que instaurou a ditadura franquista em Espanha.
O coronel comandou um batalhão em Timor, esteve no Comando da Força Conjunta Aliada da NATO e foi conselheiro da embaixada portuguesa em Viena. Nas autárquicas de 2017, integrou um movimento independente em Pombal. Cordeiro Simões não fala com jornalistas. Aliás, criticou o trabalho dos repórteres em Timor-Leste, em 2000, num trabalho académico: a maior parte, disse, “não tinha formação básica”. Ele, sim, soube “reconhecer e destrinçar quem andava preocupado em contar histórias e quem andava a beber gin tónico em Díli.” Ao pedido de entrevista do PÚBLICO justificou, por WhatsApp, a recusa: “Não faltarão pessoas que apreciem a chiqueira política.”
Por vezes nem é preciso. A montra está nas redes sociais.
Sargento pára-quedista aposentado, artista plástico, Cândido de Oliveira adoptou o pseudónimo literário Cândido Arouca para escrever romances com títulos como O Amor não pára p’ra jantar. Integrou as listas do movimento Nós Cidadãos nas legislativas de 2015, encabeçou a lista do Chega à Câmara de Aveiro (2021), é dirigente distrital e conselheiro nacional. A propósito dos ordenados da classe política, escreveu, no seu Facebook: “Só o cano frio da espingarda encostado à testa é capaz de impor algum respeito.”
Já Amílcar Ferreira investe na área petrolífera, imobiliária, agrícola e turística. Candidato à Câmara de Leiria em 2021, publica fotografias abundantes de Salazar nas redes sociais, a par de informações falsas e xenófobas a partir de vídeos do Martim Moniz. “Uma retrete a céu aberto”, escreve.
Portugal adentro, o Chega deve muito da sua influência e do seu já razoável músculo eleitoral ao facto de, nos primeiros anos, ter desbravado caminho em terras onde há muito não iam políticos em campanha.
Sucederam-se almoços, jantares, arruadas e pequenos comícios. “Há quem entenda que devíamos ser um partido de queques, das elites, que devíamos ser os mesmos de sempre. Nós somos a voz do Portugal esquecido”, proclamou Ventura, na convenção de Santarém (2023).
Qual íman, o líder atraiu geografias negligenciadas e narrativas do ressentimento, do abandono e da marginalização. Onde o Estado falhou, nas políticas públicas e no acesso a bens, assistência e serviços, deram frutos as incursões do Chega fora das grandes zonas urbanas, semeadas quando a direita radical populista ainda gatinhava.
Chega, íman do abandono
Segundo um estudo dos investigadores Pedro Magalhães (ICS) e João Cancela (Nova) — Negligência Política e Apoio à Direita Radical: O caso do Portugal rural — mais do que as divergências económicas e culturais entre zonas urbanas e rurais, é o despovoamento que estará a contribuir para a ascensão do Chega em territórios de província. Um apoio impulsionado pela percepção rural de que partidos e políticos tradicionais se preocupam mais com a população urbana e os seus interesses.
A estratégia pulveriza barreiras mentais e ideológicas.
Acção de campanha do Chega em Viseu, em Janeiro de 2022 Adriano Miranda (arquivo)
Nos dias úteis, Paulo Gila Martins percorre cerca de 30 quilómetros entre Borba e Vila Viçosa ou o Alandroal para deixar as duas filhas na escola, trabalhar e regressar ao final da jornada a Santiago Rio de Moinhos.
No papel, é lavador de veículos. Na prática, pinta, arranja jardins, trata de animais. Doente dos intestinos, os biscates quase não lhe dão para os gastos. A mãe sofre do coração, a pensão de reforma não chega a 200 euros. A esposa ganha o ordenado mínimo.
Paulo queixa-se da falta de transportes — “aqui passa um autocarro de manhã e ao final da tarde por causa das escolas, nada mais” —, de ausência de investimentos — “não há um centro de mercadorias” —, de empregos — “quem quer trabalhar num supermercado?”.
Em 2017, candidatou-se à freguesia nas listas da CDU. “Mas nunca fui comunista”, atalha. “Votei sempre PS, menos dessa vez. Foi pelas pessoas.”
Depois aderiu ao Chega. “Deixei de pagar as quotas, estou a cortar nas despesas, mas o meu voto vai para o Ventura”, garante. “Anda meio mundo a roubar e outro meio a ver.” E desabafa: “Vêm para aqui imigrantes ganhar 500 euros e roubar empregos.”
Para “aqui” é… Borba?, perguntámos.
“Não, aqui não há imigrantes. Digo pelo que vejo na televisão e vou lendo. Paquistaneses e isso… Eles, coitados, vêm para trabalhar, mas estar aqui sem fazer nada e a gente a pagar, não.” O certo é que em 2022, os imigrantes em Portugal foram responsáveis por um saldo positivo de 1604,2 milhões de euros da Segurança Social. Por outro lado, os estrangeiros contribuíram com 1861 milhões de euros para a Segurança Social e beneficiaram de cerca de 257 milhões. No total, os estrangeiros representaram 13,5% dos contribuintes do sistema.
Ainda assim, de revolta em revolta, Paulo chegou ao voto de protesto. “Calhou ser o Ventura, podia ser outro.” Dia 10 de Março será fiel à opção dos últimos anos. “É preciso mudar algo, mas oxalá o Chega não seja Governo. O partido tem certas coisas que não me agradam…”
Se isto não é o povo…
Das cidades médias à margem sul de Lisboa, Ventura também atraiu curiosos, desencantados e divorciados de outras forças políticas. E dinheiro, diga-se.
A família do empresário da construção Silvério Baeta, de Leiria, transferiu mais de 3000 euros para o partido nos primeiros anos.
Carina Ascenso Francisco, escritora de livros infantis, volta a entrar na lista de candidatos a deputados pelo distrito. Fundou uma editora, percorre escolas e bibliotecas, quer resgatar “valores da família” e de uma sociedade “mais equilibrada”. No Chega já foi conselheira nacional. “Somos muitas mulheres no partido, mas a maioria ainda não tem uma vida que as liberte para a actividade política.” Até 2021, Carina tinha dado quase 1400 euros ao Chega.
Convite para a apresentação de um livro de Carina Ascenso Francisco
Em Benavente, o gestor e empresário agrícola José Alves Inácio, não assume as simpatias políticas, apesar do donativo de 500 euros ao partido. “Dei em nome do meu filho, o militante é ele”, explicou ao PÚBLICO. O dono da Herdade de Porto Seixo viu ruir um negócio badalado: a exploração de cannabis para fins medicinais na sua propriedade, pela VF 1883 Pharmaceuticals. “Eram apenas meus rendeiros, não sou investidor. Devem-me seis rendas.” A empresa prometia 600 postos de trabalho, mas faliu antes de começar e deixou oito milhões de dívidas. Por estas e por outras, José Alves Inácio não é de direita nem de esquerda. “Sou a direito!”, assume. “Gosto de gente séria, não me interessam as cores. Se o PCP diz coisas certas, também aplaudo.”
Aplaudir comunistas foi o que fez Miguel Luís no Barreiro, antigo bastião operário, desde a infância. O supervisor de videovigilância orgulha-se da herança familiar de luta política, mas vai votar no Chega e pede ao PÚBLICO para trocar o nome nesta investigação. “É para não me caírem em cima”, justifica. “O meu avô paterno esteve preso, a minha avó queimava os Avante! para a PIDE não descobrir e quase todos os meus parentes e amigos são da CDU. Sou um benfiquista no meio de sportinguistas”, ironiza.
Ex-guarda-redes profissional de futebol, Miguel Luís desperta às seis da manhã para deixar os dois filhos na escola e desaguar na outra margem, em Alcântara Mar, às oito. Procurou um T2 para morar, mas resignou-se à antiga casa dos avós, os preços eram incomportáveis. “Tenho amigos com mais de 40 anos que vivem em casa dos pais ou continuam juntos sem se amarem por não terem dinheiro para fazer vidas separadas. Enfim, não vivemos, sobrevivemos…”
Quotidianos sem horizontes abriram a auto-estrada da revolta.
“Não foi o Ventura que fez o Chega”, explica. “Foi o demérito dos outros, sobretudo PS e PSD.”
No ano passado ainda cedeu à tradição: votou CDU. Mas a vontade de enviar outro “recado” nas urnas ganhou força. “As pessoas perderam qualidade de vida, recebem o ordenado mínimo e, enquanto fazem contas no supermercado, passam outras com marisco, fios de ouro ao pescoço e BMW à porta. Não sou racista nem xenófobo, tenho família africana, a emigração faz parte da história da família. Como é que eu posso ser fascista, de extrema-direita? Longe de mim! Mas o que conta é o dia-a-dia, o que os olhos vêem. Para isso não há respostas.”
Paulo Gila Martins: “É preciso mudar algo, mas oxalá o Chega não seja Governo. O partido tem certas coisas que não me agradam…” DR
A penetração do Chega em bastiões tradicionais da esquerda, sobretudo no Alentejo ou na área metropolitana de Lisboa, é um facto que as mais recentes eleições reforçaram. Mas a retórica da direita radical populista não fez apenas isso: converteu almas desavindas.
“As ideias que queremos no Governo são as do Chega”, assume Rui Senra, chefe de produção têxtil, ao PÚBLICO. O também locutor de rádio, candidato do MRPP à Câmara de Barcelos (2013) e pelo distrito de Braga nas legislativas (2015 e 2019), está confortável com a decisão. “Não é uma mudança radical. Os dois partidos defendem o povo. E se nunca fui marxista-leninista, também agora não sou de extrema-direita.”
Em 2013, Fernando Choupina, cabeça-de-lista do BE à Câmara de Macedo de Cavaleiros ainda escrevia, em letras grandes, no seu Facebook: “Fora com os partidos de direita.” O professor de Matemática já se candidatara pelo PSD à freguesia de Carrapatas. Agora as suas redes sociais são “amigas” da página oficial do Chega e das intervenções mais inflamadas de Ventura.
Fernando Choupinha quando militava pelo Bloco de Esquerda
Na carruagem da direita radical populista, há também quem se prepare para sair após a próxima “estação”. É o caso de Pedro Bento, feirante, sempre atrelado a reboques de farturas ou máquinas de pipocas. Militante 201 do Chega, autarca em Camarate, reconhece as suas limitações. “Tenho o 7.º ano, não sou um bom orador.” Nas legislativas ainda dará o voto a Ventura. “Depois, saio”, garante. “Não concordo que ele decida tudo. O partido que prometeu serve outros interesses, não tem ligação ao povo.”
Já o caso de Margarida Menezes não passa de um equívoco, segundo ela.
A fundadora do Clube das Virgens, ex-concorrente da Casa dos Segredos e negacionista, ficou com o “selo” Chega quando, em 2021, contrariou, nas redes sociais, a vacina contra a covid-19, e defendeu o “grande” André Ventura. “Bem-haja pela coragem de enfrentar a escuridão. És luz!”, escreveu. Agora explica: “Trabalhava no Infarmed e ele estacionava o carro junto ao pavilhão quando ia às reuniões dos políticos por causa da covid. Conversávamos e as pessoas juntaram dois mais dois…”
Margarida, hoje conhecida pelo projecto infantil Maggy – A Fada dos Sonhos, admite ter escrito um texto de apoio ao Chega nas redes sociais e transferido um simbólico contributo para o partido. “Um amigo meu do Barreiro, ligado ao imobiliário, desafiou-me: ‘Vens para o partido para arranjarmos contactos na política a ver se a gente depois se safa a vender casas.’ Mas, na verdade, sou abstencionista”, assume.
Margarida Menezes enquanto “Maggy”
Como se faz um “exército”
O cruzamento de fontes abertas e documentação interna do Chega revela com nitidez outra “fotografia” da militância e do seu eleitorado: dezenas de filiados fazem, há anos, por vezes décadas, o caminho das pedras para alcançar um emprego público, sem sucesso. Batem a todas as portas, candidatam-se a lugares nas autarquias (para serralheiros ou cantoneiros, por exemplo), nos hospitais, escolas, ao SEF, às polícias, perto ou longe de casa. Muitas vezes não têm habilitações para a função a que se candidatam, “chumbam” ou faltam na avaliação psicológica, nas provas de aptidão cultural ou de conhecimentos. Alguns relataram as suas histórias de vida na TVI. Acreditam, como diz André Ventura, que o “sistema” não os favorece, está viciado e sempre a favor dos “mesmos”. Recusaram, porém, narrar ao PÚBLICO esses altos e baixos da existência por terem mudado de vida, não quererem assumir a militância no Chega ou até pelo facto de já não pertencerem ao partido.
Não é o caso de Rute Cirne, do Algarve, proprietária de um stand de automóveis em Albufeira, militante do Chega e delegada eleita ao terceiro congresso do partido (Coimbra, 2021).
Em Janeiro de 2022, quando já vendia carros (a empresa é de 2000) queixou-se no programa Linha Aberta, da SIC, de viver com os três filhos numa casa da autarquia sem condições pela qual paga 330 euros. Na ocasião, lamentou as paredes dos quartos e estrados dos colchões cheios de fungos, as roupas e sapatos estragados. Em actas das assembleias municipais ficaram registados os apoios públicos face às suas dificuldades económicas: um subsídio de arrendamento de 175 euros (2016); uma casa com renda convencionada (2021). Trabalhou no Lidl para pagar contas. “Fui sempre uma revoltada.” E mais fica quando sai à rua. “Não sou racista, mas às vezes, confesso, roço um bocadinho…” E porquê? “Isto está cheio de imigrantes, andam em bando, recebem subsídios para tudo”, queixa-se. “Por isso, tudo aquilo que o Ventura diz faz sentido. Se pudesse, casava com aquele homem!” Na realidade, Portugal não está entre os países europeus com maior número de estrangeiros (são cerca de 750 mil, 7,5% da população). Pelo contrário: de acordo com o mais recente relatório anual do Observatório das Migrações, divulgado em Dezembro de 2023, Portugal está no 18.º lugar entre os 27 países da União Europeia com mais imigrantes.
Mas o “exército” do Chega é também feito de pessoas como Rute.
De casais como Maria Gomes e António Nunes, com negócios na área do audiovisual. Eram da Igreja Maná e estiveram para acompanhar o “apóstolo” Jorge Tadeu ao congresso do Chega em Coimbra, para o qual o fundador da igreja neopentecostal foi convidado, mas, à última hora, não apareceu.
Ou ainda de imigrantes brasileiros como o enfermeiro Thiago Moreno que, em 2019, em Coimbra, tentou agredir com ovos o ex-deputado federal brasileiro Jean Wyllys (PT) e que foi vencedor do Big Brother Brasil. Antigo candidato a vereador em Maraçatuba (São Paulo) pelo Partido da Mobilização Nacional (PMN), de centro-direita, Thiago foi presidente municipal do PT. É português desde 2022 e promove o culto evangélico e o investimento em acções nas suas redes sociais. Além de Ventura, claro.
Outro “soldado” é Rui Mendes, ex-árbitro de futebol e vendedor imobiliário em Marco de Canaveses. A carta que escreveu ao ex-presidente da Liga de Clubes, Valentim Loureiro, a denunciar uma alegada tentativa de aliciamento para falsear um jogo resultou no mais mediático escândalo de corrupção desportiva. “Quem aguentou o Apito Dourado pode bem ser do Chega”, graceja. Rui já foi presidente de uma junta de freguesia pelo PSD, andou pelo CDS e só lamenta ver Ventura tão sozinho. “Os bons valores estão escondidos, mas vão aparecer na hora certa”, confia.
Na verdade, não escasseiam áreas onde o Chega arregimentou forças para as batalhas que se avizinham. “Esta entrevista acaba aqui!”, reagiu, ríspido, Paulo de Carvalho, presidente do Sindicato Independente dos Técnicos Auxiliares de Saúde, quando o PÚBLICO quis ouvi-lo sobre a filiação no Chega. “Uma coisa é perguntar-me enquanto cidadão, outra é pôr em causa a minha independência perante mais de 34 mil associados”. E desligou.
Rui Mendes, ex-árbitro de futebol e vendedor imobiliário em Marco de Canaveses. Jorge Miguel Gonçalves (arquivo)
Mário Vaz, profissional de seguros, delegado sindical na Lusitânia e dirigente do Sindicato Nacional dos Profissionais de Seguros e Afins (SINAPSA), não respondeu aos pedidos para conversar, apesar de ter sido delegado eleito por Vila Real à convenção do partido em Santarém (2023).
Mais conhecidos serão os apoios nas forças de segurança, entre guardas prisionais ou até mesmo nas hierarquias. Casos de Hélio Baiona, agente principal da PSP,
alvo de processo disciplinar por comentários racistas sobre um GNR cigano na página “Comunidade Chega”. Ou de Susana Moreira, directora-adjunta do Estabelecimento Prisional do Porto (EPP), candidata nas listas do Chega pelo Porto nas legislativas de 2022 e delegada às duas últimas convenções. Já o guarda prisional Ivo Sernadela, coordenador da concelhia de Santo Tirso do partido, é presidente da Associação Cultural Desportiva Recreativa dos Funcionários da mesma cadeia.
“A primeira reunião para se criar o Chega no Porto foi um susto!”, recorda ao PÚBLICO Joaquim Mesquita, dono de uma loja de roupa clássica na Foz. “Apareceram porteiros de discoteca, um senhor com ar de quem vinha de matar porcos no matadouro, extremistas, gente sem escola. Tínhamos vergonha. Hoje já há quadros, ninguém se esconde.”
O antigo militante número 100 — deixou de pagar quotas entretanto — exibe nas redes sociais uma fotografia com Santiago Abascal, líder do Vox, em Madrid. É o seu modelo. Em Espanha cultiva a afición, por cá é coordenador do grupo de aficionados tauromáquicos do norte. “O meu sonho é realizar uma tourada no antigo Palácio de Cristal, ainda hei-de falar com o meu amigo Rui Moreira sobre isso…” Para Ventura, projecta um futuro radioso. “Sou pai de três filhos e, no Carnaval, tivemos 24 miúdos numa festa lá em casa. Vinte deles disseram que iam votar no Chega.”
Extrema-direita: a barreira invisível?
Os mais recentes estudos (do centro de sondagens do ICS-ISCTE e o Retrato Digital de Portugal 2015-2023 do Observatório de Comunicação) mostram que os jovens entre os 18 e os 34 anos são os propulsores desta fase ascendente do partido, sobretudo graças a uma agressiva dinâmica digital protagonizada por André Ventura e pela deputada Rita Matias.
Mas algo mais se move.
A extrema-direita, nas versões violenta ou mais doutrinária, impulsiona dinâmicas de rua e nas redes sociais que ajudem a criar, nas correntes mais jovens da opinião pública, em zonas suburbanas e no território estudantil, um ambiente propício ao voto no Chega. O objectivo a longo prazo é contagiar o partido para a adopção de uma agenda política mais autoritária, nacionalista, nativista, racista, xenófoba e anti-“ideologia de género”. Publicamente, André Ventura rejeita estas abordagens e cumplicidades.
Há duas correntes em campo.
A primeira, subversiva, é protagonizada pelo Grupo 1143 do neonazi cadastrado Mário Machado (esteve preso por sete anos e foi condenado por crimes de roubo, sequestro, ameaça, coacção e posse ilegal de arma). Já em 2019, o promotor da recente manifestação contra a alegada “islamização da Europa” se referia ao Chega como um “Cavalo de Tróia” para a extrema-direita no Parlamento, incentivando os “nacionalistas” a ingressarem no partido (fizera o mesmo, no início do milénio, com os skinheads e o PNR). Gonçalo Aidos, então responsável pelos contactos internacionais do movimento neonazi Nova Ordem Social (NOS), foi dos que se aproximaram do Chega, tendo mesmo transferido, em 2020, um contributo simbólico para o partido. Ao que apurou o PÚBLICO junto de fontes policiais, a maioria das centenas de perfis associados a membros e simpatizantes do Grupo 1143 nas redes sociais apoia as causas do Chega.
A segunda corrente, doutrinária, coloca a ideologia extremista e as narrativas do ódio ao serviço da mobilização digital e da provocação às comunidades imigrantes. A série de vídeos propagandísticos de Afonso Gonçalves e do seu movimento Reconquista, intitulada A Grande Invasão (baseada na teoria conspirativa da substituição dos europeus brancos por outros povos), é filmada em diversos pontos do país e será transmitida até 10 de Março. Faz parte da estratégia da extrema-direita para abrir caminho ao reforço eleitoral do Chega nas legislativas. “O meu apoio a André Ventura, líder indisputado do Chega!”, escreveu Afonso Gonçalves, no Twitter, a propósito de uma polémica interna com um dirigente brasileiro candidato pelo Porto.
Momento da V Convenção Nacional do Chega em Santarém, com Ricardo Regalla, à esquerda, e Rui Paulo Sousa, ao centro, e José Pacheco, à direita. Paulo Pimenta (arquivo)
Em alguns movimentos (1143, Reconquista, Identidade e Futuro, entre outros), há antigos e actuais militantes do Chega (Luís Graça, ex-dirigente nacional, é um deles). Mesmo não existindo vínculos formais com a direcção do partido, estes activistas querem influenciar o rumo do partido, apresentando, de forma mais radical, alguns temas que o Chega já defende.
Se as narrativas, por vezes, se confundem, talvez isso se deva, em parte, a dois influencers do universo Chega.
Um é Gonçalo Sousa, candidato por Lisboa nas legislativas, habitué em eventos de juventude do partido e a mais relevante personagem das redes sociais de extrema-direita, a larga distância. O outro é Francisco Araújo, dirigente no Porto. Têm em comum a promoção do salazarismo, de visões supremacistas brancas, o revisionismo histórico e a reciclagem de teorias anti-semitas e conspirativas. Beneficiam ambos de amplo reconhecimento e lastro junto da direcção do partido, com Gonçalo Sousa à cabeça.
Conseguirá Ventura blindar o partido a estes movimentos, — como, de resto, proclama, apesar de ter ignorado as questões do PÚBLICO sobre o tema — ou cederá à tentação de absorvê-los quanto mais visibilidade e aceitação tiverem? “A lista de extremistas que, em tempos, se preparavam para entrar no partido e que entreguei em mão ao André tinha nomes ligados ao assassinato de Alcindo Monteiro. Era extrema-direita dura”, recorda ao PÚBLICO o antigo vice-presidente do Chega, Nuno Afonso, que se desfiliou e encabeça a coligação Alternativa 21 por Lisboa. “Já tinha suspeitas de que vagas de pessoas desse género podiam entrar, havia gajos da NOS, a extrema-direita a sério. Mas quando mostrei a lista ao André, a resposta foi: ‘Não faz mal, queremos os votos de toda a gente’”.