Sê jovem e cala-te

(António Guerreiro, in Público, 26/04/2019)

Costa interrompido no seu discurso. Dá cá o microfone…

No início desta semana, enquanto discursava na festa de aniversário do PS, António Costa foi interrompido por vários indivíduos que se manifestaram contra a construção de um novo aeroporto no Montijo, lançaram aviões de papel na sala e exibiram um cartaz a dizer “Mais aviões? Só a brincar”. Um deles até tentou retirar o microfone ao primeiro-ministro para falar à plateia. A notícia deste acontecimento, em todos os jornais, tomou a categoria etária — que é hoje muito mais do que isso — para nomear os manifestantes. Ficámos assim a saber que se tratava de “jovens”, ou então de “jovens activistas”, e que um deles, retirado do palco pelos seguranças, era “um jovem de barbas” (uma descrição que poderia levar o leitor a pensar que era um indivíduo com o aspecto de um mujahidin, mas dessa hipótese eram as imagens que a televisão mostraram um categórico desmentido). Porquê a insistência na condição jovem destes cidadãos, como se isso assinalasse uma identidade e uma prática política? Ainda que de modo implícito e provavelmente nem sequer racionalizado, estas notícias, tal como foram redigidas, apontam para uma identificação das questões ecológicas e ambientais com a geração dos jovens. Nesse aspecto, mais do que uma diferença, há uma fractura geracional. E essa fractura é sugerida no comunicado deixado pelos “activistas” (uma nomeação que, como sabemos, serve para dizer que falta às suas acções a legitimidade de fundo que se reconhece nas acções políticas convencionais): “Lamentamos estragar a vossa festa, mas o rio Tejo, aqui ao lado, a nossa cidade e as futuras gerações nada têm para celebrar”. Os termos deste comunicado sintetizam bem um discurso político de tipo geracional que começou a emergir: enquanto os mais velhos, a geração instalada desde os anos 1980 (parte dela socializada politicamente ainda nos anos 1960/70), fazem a festa, os jovens a quem até lhes foi retirada a possibilidade de viver a ideia de “geração” pagam as contas da festança e levam com os detritos. Os jovens começam a ter uma consciência da finitude do mundo a que foi poupada a geração festiva dos Fat Pigs, como já são nomeados pelos jovens desclassificados que não podem nem sonhar que alguma vez beneficiarão de condições semelhantes.

Sem anular as desigualdades intergeracionais não se conseguirá prevenir a ruptura do compromisso intergeracional ou mesmo uma guerra de gerações. A favor dessa guerra contam alguns dados incendiários. Por exemplo, aqueles que mostram que nos países europeus o perigo da pobreza recai muito mais sobre as crianças e os jovens do que sobre os mais velhos.

A realidade anterior foi invertida: enquanto entre os anos 1970 e hoje a taxa de pobreza dos indivíduos com mais de 60 anos desceu para metade, os números da pobreza na faixa dos 20 aos 30 anos subiu para o dobro. O que será transmitido a esta geração, senão umas migalhas, desse Estado-providência fundado pela geração dos avós e consumido pela geração dos pais? Há hoje um forte sentimento de regressão geracional cuja manifestação mais visível é o adiamento do acesso à idade adulta e a conquista de autonomia que lhe está associada. Está em curso, mas ainda no início, uma política das gerações: o voto geracional já existe, como sabemos muito bem pelo Brexit, desde a eleição de Sarkozi (eleito pelos velhos) e de Obama (eleito pelos jovens). A fractura geracional ameaça ser tão poderosa nos seus efeitos como outros modos de conflitos sociais, tais como a divisão em classes e as discriminações racistas e sexistas. Mas há ainda uma outra inversão muito interessante, bem patente nesta nova consciência ecológica e na leitura dos sinais da finitude e da catástrofe: a transmissão é ascendente (dos filhos para os pais) e não descendente (dos pais para os filhos). A antropóloga americana Margaret Mead já tinha, em 1968, analisado este tipo de descontinuidades a que ela chamou “fossos geracionais”. Mas a sua análise não se referia, obviamente, a esta nova situação em que um “jovem de barbas” pode a qualquer momento querer subir ao palco e roubar o microfone — a palavra — do senhor primeiro-ministro muito bem barbeado.


Advertisements

Será que a Vinci quer mesmo Montijo?

(Dieter Dellinger, 12/01/2019)

montijo

Foto: Aeroporto Humberto Delgado como quer a Vinci.

Quem vai fazer o estudo de impacto ambiental é a própria Vinci (ANA) que já fez um que foi chumbado.

Um amigo que é administrador da ANA disse-me que a Vinci está preocupada em ressarcir-se dos 3 mil milhões de euros investidos no monopólio das concessões aeroportuárias em Portugal, até porque tem um “cashflow” muito baixo da ordem dos 200 milhões de euros e está a investir muito no aeroporto Sá Carneiro, cuja capacidade atual é equivalente à que iria ter o aeroporto de Montijo. Além disso, as ações da Vinci SA caíram 15,87% no ano passado.

António Costa disse que se o estudo de impacto ambiental for chumbado não haverá aeroporto complementar em Montijo nem Plano B. Na verdade, o PSD amarrou a Pátria à Vinci por 50 anos, pelo que ninguém de fora pode assumir o compromisso de investir num aeroporto novo.

A meu ver, a Vinci quer apenas alargar o Aeroporto Humberto Delgado para chegar dos atuais 29 milhões de passageiros aos quase 40 milhões com utilização durante a madrugada que é algo que a CML não quer.

A Vinci não quer investir mais de mil milhões de euros em Montijo e o Estado não está para isso.

Contudo, um aeroporto em Montijo aumentará os lucros do grupo Vinci que é proprietário de 40% do monopólio Lusoponte das duas travessias do Tejo, principalmente da Ponte Vasco da Gama que foi construída para mais de 130 mil carros por dia e ronda atualmente metade desse número.

O PSD fez contratos inimagináveis com a Vinci e a Ascendi francesa das autoestradas que detém 41% da Lusoponte. Assim, a Lusoponte só é responsável pelo piso dos tabuleiros e não pelas infraestruturas, mas mete ao bolso todo o valor das portagens. Sérgio Monteiro do PSD até contratualizou com as duas francesas da Lusoponte que o Estado se encarregaria de cobrir qualquer alteração dos impostos a pagar pela Lusoponte como o IRC e IVA.

É curioso como o Aníbal deu a construção da Ponte Vasco da Gama a uma empresa inglesa de vão de escada pertença da sua amiga Thatcher e do marido e que foi acusada pelos tablóides de ser um escritório de comissões corruptas a receber, encaixar e pagar aos clientes de material de guerra inglês e de grandes contratos.

Logo que ganhou o concurso, essa empresa fechou as portas depois de passar a construção a um consórcio em que a Vinci Highways SAS detinha a direção da obra e escolha dos construtores especializados e acabou por ser a segunda maior acionista das duas pontes sobre o Tejo.

A Vinci gostaria que o segundo aeroporto fosse feito como a Ponte Vasco da Gama que custou o equivalente a 897 milhões de euros, dos quais 319 milhões vieram do Fundo de Coesão da União Europeia, 299 milhões de um empréstimo do Banco Europeu de Investimentos e 50 milhões deveriam ter origem nas receitas da Ponte 25 de Abril que há muitos anos passou dos 40 milhões por ano sem encargos.

Enfim, a generosidade do Aníbal Silva não tinha limites.

 

ANA Aeroportos processada em Bruxelas por lucros excessivos

(In Expresso Diário, 04/10/2018)

(Mais um roubo aos portugueses, e a todos quantos usam os nossos aeroportos, perpetrado pelo governo pafioso que vendeu Portugal por dez réis de mel coado. Porque será que os actos da direita só são “condenados” no estrangeiro – e por estrangeiros -, e cá dentro não se passa nunca nada? Dá que pensar, e dou alvíssaras a quem saiba e esclareça cabalmente as razões. 🙂

Comentário da Estátua, 04/10/2018)


Associações internacionais de aviação apresentam queixa na Direção-Geral da Concorrência da União Europeia por causa do contrato de concessão a privados da ANA Aeroportos, confirmou o Expresso. As taxas são excessivas, dizem, responsabilizando o governo de Passos Coelho e a troika por “más decisões”…


Continuar a ler aqui: Expresso | ANA Aeroportos processada em Bruxelas por lucros excessivos