Deixem o Rangel em paz

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 30/11/2021)

Quando Rangel assumiu a homossexualidade, escandalizaram-se com quem lembrou que ele, como político, nada fez pela igualdade e combate ao preconceito. Agora lamentam a homofobia que, alegam, o derrotou. Ainda acabam numa parada gay, querem ver?


Ao dar em setembro uma entrevista à SIC, ao programa confessional Alta Definição, e ao assumir a sua orientação sexual, o candidato derrotado à liderança do PSD afirmou, paradoxalmente, não crer que a orientação sexual de um político seja relevante para a sociedade, especificando: “Em Portugal não creio mesmo. E sinceramente não acho que seja uma coisa de agora, em que tudo é mais fácil. Acho que nos anos 80 ou 90 também não seria.”

Escrevi na altura sobre a entrevista de Rangel e estas espantosas declarações, lembrando, entre outras coisas, que além de em 2008 ter votado contra o acesso de casais de pessoas do mesmo sexo ao casamento civil, tinha entrado no PSD em 2005, diretamente para candidato a deputado (e daí para líder da bancada), numa campanha para as legislativas em que o seu partido usou a carta da homofobia contra o então líder do PS, José Sócrates – ou seja, numa altura em que só lhe pode ter ficado muito (dolorosamente?) claro que no PSD, pelo menos, se achava que a orientação sexual de um político era e devia ser, no mau sentido, “relevante para a sociedade”.

Relevante de certeza é lembrar estes factos porque Rangel, ao contrário do que o próprio e outros quiseram fazer crer, não se limitou a ficar, até 2021, calado sobre a sua orientação sexual – direito que obviamente tem – e a não fazer campanha pelos direitos dos homossexuais; foi agente e cúmplice da homofobia. Aliás, continua a exibir essa cumplicidade na citada entrevista, ao nunca usar sequer a palavra homofobia, apagando assim o sofrimento que esta causa, (lhe) causou e causará, e elidindo quer a sua própria história quer a do seu partido na promoção dessa mesma homofobia e portanto no infligir desse sofrimento.

A esta cumplicidade – e desonestidade – de Rangel juntaram-se todos os que se indignaram contra quem como eu recordou este cadastro do político em matéria de direitos dos homossexuais, ou seja de direitos humanos. É pois particularmente irónico ver agora gente como o publisher do Observador, José Manuel Fernandes, que aquando da “revelação” defendeu que o assunto não lhe interessava nada – “Paulo Rangel é homossexual. Que tenho eu a ver com isso?– e que o social-democrata não tinha, sendo homossexual, qualquer obrigação de lutar contra o preconceito contra os homossexuais, a falar de “um elefante na sala” para explicar a derrota nas diretas do PSD.

Contristado, José Manuel Fernandes reconhece agora esse preconceito: “Conheço bem o país onde vivo.” E chega a acusar: “A esquerda que tanto se encarniçou contra Rangel não se deu conta de estar a ser um pouco reacionária.”

Portanto o JMF que diz que um político ser (e assumir-se) homossexual não interessa nada, que “o que interessa são as suas ideias”, de repente passou a achar que se esse político assume ser homossexual então “a esquerda” deixa de poder criticar as suas ideias?

Não é que o homem forte do Observador seja conhecido pelas suas análises acutilantes, mas mesmo para ele tais cambalhotas são risíveis. Tratando-se de alguém que se notabiliza, como aliás muitos dos apoiantes mais conhecidos de Rangel, pelo combate sem quartel ao que denomina de “politicamente correto”, e de um modo geral a tudo o que sejam medidas e discursos que visam combater preconceitos e tornar mais fácil a vida dos grupos historicamente discriminados, ei-lo de súbito a verberar essa discriminação – porque lhe serve para justificar aquilo que para ele é imperdoável e indigerível: a derrota de Rangel contra Rio.

O desespero e a confusão dos rangelistas é tão grande que chegam a garantir-nos (deparei-me com esta afirmação no Twitter, vinda de um jovem social-democrata) que a vitória de Rio é a vitória de “tudo o que há de mais conservador” – por causa da homossexualidade de Rangel, pois claro.

É como se Rui Rio fosse um expoente do conservadorismo; como se não tivesse por exemplo apoiado o direito à eutanásia, quer pelo voto quer assinando um manifesto (e chegando a ser ameaçado de processo disciplinar pelo partido, por ter dado liberdade de voto à bancada social-democrata na votação sobre a proposta de referendo na matéria), e não fosse um dos três únicos deputados social-democratas que votaram a favor do direito das mulheres a abortar em 1998, tendo depois, aquando do referendo de 2007, feito campanha pelo sim. E como se Rangel, para além de ser um notório conservador ele próprio (agora veio dizer que defende o casamento das pessoas do mesmo sexo desde 2010, mas ninguém deu por nada; nem sabemos sequer qual a sua posição sobre a adoção, que foi votada no parlamento em 2013 e 2015, com o PSD sempre contra), não tivesse consigo praticamente todos os nomes mais conservadores, em termos de costumes, do PSD, de Cavaco a Ferreira Leite, passando pelo Presidente da República – que como se sabe chegou à indignidade de lhe sinalizar o seu apoio recebendo-o em Belém enquanto em São Bento Rio chumbava o Orçamento de Estado.

Só falta ver um dos mais notórios apoiantes de Rangel, o ex-deputado, ex-chefe de gabinete de Passos e atual dinamizador do nada nadinha conservador movimento Nascidos a 5 de julho Miguel Morgado a lamentar o preconceito homofóbico contra Rangel. O Miguel Morgado do “deixem as crianças em paz” que em 2019 rasgou as vestes face à notícia de que uma associação de jovens LGBT tinha ido a uma escola pública fazer uma palestra, a miúdos de 11 anos para tal autorizados pelos pais, sobre igualdade em matéria de orientação sexual, e depois assinou um pedido de fiscalização da constitucionalidade do diploma da identidade de género. Caros: se quiserem queixar-se de homofobia, olhem aí o espelho.


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Estamos literariamente tramados!

(José Gabriel, 26/11/2021)

Estamos tramados! Olhai senhoras e senhores; vós, que gostais de ver a língua portuguesa – ou qualquer outra de qualquer literatura a que conseguis chegar – brilhar, que admirais como ela vive e voa nas mais diversas figuras de estilo. Vós, que apreciais a ironia, qua sabeis saborear uma boa metáfora, que ousais uma hipérbole, uma elipse, um paradoxo e todos aqueles recursos com os quais nos animamos e ilustramos uns aos outros e, sobretudo, com os quais habitamos os textos dos nossos escritores favoritos, estamos ameaçados, se não de extinção, pelo menos de um cerco cada vez mais apertado. Esquecei a vossa sensibilidade, pendurai a vossa inteligência, que os polícias da escrita e sanguessugas do espírito estão aí em força. Purificai, pois, a língua e a literatura, ou sereis purificados por outrem.

Já não falo em Bolsonaro que quer exterminar os livros que se lêem nas escolas, não só porque os considera “lixo” por padecerem “dessa historiazinha da ideologia”, mas porque “são um montão de amontoado de muita coisa escrita”.

Mas que dizer do civilizado Canadá, onde comissões escolares proíbem que nos livros figurem palavras como “índio” e “esquimó” e fazem queimas de livros tão perigosos e subversivos como os que ostentam personagens como Asterix, Tintin, Pocahontas, e Lucky Luke? Claro que como os purificadores são pessoas de bem, as cinzas dessas queimas são usadas para adubar árvores (não estou a inventar).

Hong Kong e a China em geral procedem a uma limpeza de manuais e livros estrangeiros – alguns de autores tão perigosos como Homero e Sharespeare – que podem ameaçar a segurança nacional ou corromper “com literacias de outras nações” o espírito delicado dos seus jovens. O Reino Unido, não se ficando para trás, baniu das suas escolas todos os livros que promovam o fim do capitalismo.

Pelo Brasil, os censores literários vêm de todos os lados. E é ver académicas questionar livros de Eça de Queirós – o Eça leva sempre. Serão “Os Maias” racistas? – perguntam. E mais: nesse romance, Eça “desumaniza “as suas personagens femininas, comparando-as com animais e plantas, numa torpe prática literária animista. De modo que já sabeis: nem personificar nem animalizar. Não mais direis que aquela ginasta tem a flexibilidade de um junco, que aqueloutra é rápida como uma gazela nas pistas, voa como uma águia no triplo salto ou é uma leoa no judo. Logo alguém vos repreenderá por diminuir as personagens animalizando-as, e outro alguém vos acusará de ofensa aos animais personificando-os. Com os inquisidores, não há saída.

E pelas Américas do Norte? Aí, é um fartote. Pobre Mark Twain, que vê o seu “As Aventuras de Huckleberry Finn” reescrito e expurgado das palavras consideradas inconvenientes, como, por exemplo, “negro” (nigger) e índio (injun) agora substituídas por “slave” e “indian”, consideradas mais convenientes. E, como sabemos, nem Harper Lee o excelente “Mataram a Cotovia” se salvaram, sendo considerada uma obra muito problemática, onde ocorre 40 vezes a palavra “nigger” e, além disso, dá demasiada importância à personagem do “salvador branco”. Branco, vejam bem!

E as personagens? Que fazer delas? Como poremos a falar o patife escravocrata, o latifundiário dos campos de algodão, quando se referir aos seus…bem…escravos (com vossa licença). Já estou a imaginá-lo a falar ao povo:

“Os meus afro-americanos e afro-americanas colaboradores e colaboradoras, de minha propriedade à face da lei e de Deus, que trato com paternal desvelo, tanto são recompensados nas raríssimas ocasiões em que o merecem, como pedagogicamente punidos – com muita pena minha, doí-me mais a mim que a eles – num encontro dialéctico entre o chicote e as suas costas, sendo o castigo mediado pelo meu caucasiano capataz…” – e por aí fora.

É isto. Já tínhamos os terraplanistas, agora temos os linguaplanistas. Escondam os vossos livros nas versões originais, meus irmãos, que após o extermínio das palavras, dos sentidos, da criação, pode vir o dos próprios livros (e, ensina a História, o dos autores e, até, dos leitores). Bradbury já nos ensinou a temperatura: Fahrenheit 451.

Em verdade vos digo: estamos tramados.

(Texto motivado por um artigo publicado na revista Somos Livros (Bertrand) da autoria de Marisa Sousa.)


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Para o centro, direita volver

(Francisco Louçã, in Expresso, 30/11/2021)

E, pronto, Rui Rio arrasou as previsões, o aparelho e as conveniências do seu principal opositor externo, o primeiro-ministro. Fica assim definido o quadro das eleições de janeiro, com um PSD a procurar somar votos do centro por via da polarização à direita, com o PS a procurar votos de centro usando a guerra contra as esquerdas, que procuram impedir aquele salto para o bloco central, com o PAN a oferecer-se tanto ao PS quanto ao PSD e com o CDS a lutar pela sobrevivência face ao Chega, que insinua um convite a Telmo Correia. Tudo no seu lugar, mas ainda sobram algumas incógnitas.


No PS, algumas vozes reclamam vitória com a anunciada aproximação ao PSD e citam as suas próprias pretéritas declarações, que já teriam sugerido esse entendimento, esperando que ele agora se concretize com um passe orçamental. Há nisto uma forte dose de autointoxicação. O PS já seguiu este caminho e foi há pouco tempo: depois da sua maioria absoluta (2005-2009), virou-se para acordos com a direita, consagrados com os famosos PEC, até Passos Coelho anunciar, com um à vontade que fez escola, que já era “tempo de ir ao pote”.

O resultado não foi entusiasmante. Ora, se isso é, ainda assim, o passado que passou, uma atual reedição de um entendimento do mesmo tipo entre o PS e o PSD, a que se tem chamado bloco central informal, com sustentação parlamentar mas sem coligação de governo, sofre agora de um risco maior. O facto é que essa convergência não tem projeto para o país e, sendo consagrado depois de seis anos de um governo cansado, parece mesmo aquilo que é, uma exasperada estratégia de sobrevivência.

O seu único programa é o poder pelo poder, a carreira, e isso nem sequer é ocultado. Veja o caso da saúde: o Governo rompeu negociações com os partidos de esquerda por não aceitar carreiras profissionais em exclusividade no SNS, entre outros temas. Fica agora preso a uma escolha impossível, ou continuar a degradação do serviço de saúde (mais quatro anos?) ou comprar a proposta do PSD, a começar por entregar a medicina familiar ao sector privado, com o milhão de clientes a quem falta médico no centro de saúde.

Acresce que este bloco central informal, se será defendido como a “estabilidade” da corrida para o centro, acentua a divisão dentro do partido do Governo e, fracassando, como está escrito nas estrelas, sublinha a viabilidade e mesmo a inevitabilidade da alternativa de Pedro Nuno Santos. Assim, a incógnita do atual governo é que a política com que pretende vencer agora conduz à certeza da sua derrota posterior.

No PSD a incógnita é diversa. Parece até mais pequena. Rio concorre para perder em janeiro, mas ganhou tempo. Ao dar o PS os próximos orçamentos, estende os seus prazos e fica à espera do desgaste ou até da eventual saída de Costa antes do final do mandato para um cargo europeu, assunto sempre rodeado de palpitante intriga. Por só ter de gerir o tempo, a sua escolha é a trincheira e é aí que tem sempre conseguido o que pretende: por isso, deve escolher se deixa morrer o CDS, que dificilmente elegerá um só deputado, ou se salva Rodrigues dos Santos e assim o tenta usar como um tampão contra Ventura. Para o efeito da polarização contra o PS, essa coligação é inútil e, de tão incredível, até perniciosa, imagine-se os comícios com os líderes dos dois partidos, que só sublinhariam a artificialidade da operação. No entanto, Rio hesita entre reconhecer o inevitável ou tentar usar o CDS como uma espécie de PEV do PCP. Assim, a incógnita do PSD é sobre o efeito de perder agora para esperar ganhar depois.

O resultado destas duas incógnitas é uma deslocação da política portuguesa, com o PS a procurar entrincheirar-se no centro e num acordo orçamental com o PSD e com o PSD a disputar a polarização da direita para atrair votos do centro. Tudo isto é jogo. Não há aqui Portugal.

Não há investimento, não há emprego com salário, não há segurança para as pessoas, não há saúde. Não há uma ideia ou uma proposta, há uma flutuação continuista. Não há chama nem entusiasmo, há resignação. O que assim nos é proposto é que caminhemos, cantando e rindo, para o pântano.


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