Combatendo o Sistema Epstein

(A l e x a n d r e D u g i n, in Multipolar Press, 21/03/2026, Trad. Estátua)

Alexander Dugin discute a necessidade da integração multipolar para combater a tirania tecnocrática ocidental.


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Se o novo capitalismo, segundo Kees van der Pijl, consiste em inteligência + mass media + TI, então o contra-capitalismo e a contra-hegemonia devem ser algo simétrico: a integração de um novo nível de inteligência com os mass media e o setor de TI. O termo chave aqui é “integração”. Quando esses três componentes são isolados, eles são limitados por esse mesmo isolamento. O novo capitalismo exige não apenas a sua adição, mas a sua multiplicação. É por isso que a CIA/FBI de hoje, os mass media  americanos modernos e as startups contemporâneas do Vale do Silício (Palantir, Musk, e a “República Tecnológica” de Karp) estão fortemente integradas umas nas outras. As redes de Epstein eram, na verdade, um dos módulos dessa integração.

Isso não se limita aos Estados Unidos. Inclui também a Mossad e os Cinco Olhos. Trata-se da unificação dos serviços de inteligência de toda a civilização ocidental.

O mesmo se aplica aos meios de comunicação de massa. Eles estão fortemente integrados em todo o Ocidente e muitas vezes partilham os mesmos proprietários.

O setor de TI também. Embora existam, sem dúvida, certas fronteiras entre a Europa, a América e Israel, em algum nível todos eles trocam algoritmos tecnológicos.

Que conclusões se podem concluir de tudo isso? O capitalismo russo atual é imitativo, atrasado e fraco. Tudo o que há de bom nele não provém da imitação do capitalismo, mas da soberania e do talento do povo. O resto apenas restringe o nosso crescimento. Mesmo que desejássemos seguir o Ocidente, precisaríamos, em todo caso, de desenvolver um projeto de longo prazo para integrar essas três esferas: comunidades de inteligência, mídia e TI. Deve-se dar atenção especial às parcerias com outros Estados multipolares e com as suas respetivas tríades. Algo desse tipo certamente existe na China e funciona com bastante sucesso. Deve haver algo semelhante também no Irão e no Paquistão. Noutros centros do mundo multipolar, isso precisa de ser investigado. É improvável que algo significativo exista lá, mas deveria existir. O BRICS é precisamente a zona onde se pressupõem estratégias de integração em domínios-chave. E o que poderia ser mais significativo do que esses três domínios?

Se quisermos derrotar a hegemonia — e estamos em guerra com ela — precisamos entender como ela está estruturada hoje. A divulgação dos arquivos de Epstein faz mais do que revelar o caráter criminoso e extremamente perverso das elites dominantes do Ocidente contemporâneo, cuja natureza verdadeiramente satânica confirma até mesmo as hipóteses mais ousadas e perturbadoras dos teóricos da conspiração; ela também expõe certos mecanismos pelos quais diferentes esferas-chave das sociedades ocidentais estão fundidas numa única rede. Não é coincidência que os serviços de inteligência, a mídia e os magnatas das tecnologias de informação desempenhem um papel central nesse contexto. Uma figura-chave é o criador da Palantir, Peter Thiel, que atualmente realiza uma tourné mundial de palestras sobre o Anticristo e o (tecno-)Katechon, e que, de muitas maneiras, facilitou a chegada à Casa Branca de outro frequentador assíduo dos encontros de Epstein, Donald Trump.

Estamos a lidar com um novo capitalismo. É claro que finanças, recursos e mercados ainda existem dentro dele. Mas a ênfase já se deslocou para a virtualidade — controle, informação, a criação de mundos artificiais e a transição para a tecnosfera: IA, bots, robots, drones e a substituição do ser humano pelo pós-humano.

Devemos levar em conta essa profunda mutação do capitalismo e formular-lhe uma resposta eficaz. Fingir ignorância não basta. É inútil opor-se à nova etapa simplesmente repetindo os mesmos passos da anterior. O vetor de movimento deve mudar, sem deixar de lado a compreensão clara de onde nos encontramos agora. A contra-hegemonia deve ser vanguardista. A integração de serviços de inteligência soberanos, mídia soberana e um setor de TI soberano é uma medida que se apresenta como necessária.

Fonte aqui.


“As pessoas não percebem bem a magnitude”: Mundo enfrenta maior ameaça energética da História

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 21/03/2026)


O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE) advertiu hoje que o mundo enfrenta a maior ameaça energética da História devido à guerra no Irão, e avisou que pode levar seis meses para restabelecer os fluxos de petróleo e gás do golfo Pérsico.


Numa entrevista ao Financial Times (FT) publicada esta sexta-feira, o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou que os políticos e os mercados subestimam a magnitude da interrupção nos fluxos energéticos, dado que aproximadamente um quinto das reservas está paralisado na região.

“Algumas instalações levarão seis meses para estarem operacionais, outras muito mais”, acrescentou.

“As pessoas entendem que isso representa um grande desafio, mas não tenho a certeza de que se compreenda bem a magnitude e as consequências da situação”, destacou Birol, e acrescentou que a crise também afetou o fornecimento mundial de fertilizantes para culturasprodutos petroquímicos para plásticos, roupas e manufatura.

“Trata-se de matérias-primas vitais para a economia global”, afirmou Birol.

As declarações de Birol ocorrem numa altura em que o preço do petróleo Brent superou os 110 dólares por barril depois dos ataques com mísseis desta semana contra centros energéticos vitais, como o campo de gás South Pars do Irão e o complexo Ras Laffan do Qatar.

Na semana passada, a AIE anunciou a libertação de 400 milhões de barris de petróleo e produtos refinados das reservas mundiais para aliviar a escassez global, o que, segundo Birol, representa apenas 20% das reservas.

“A medida mais importante é a retoma do trânsito pelo estreito de Ormuz”, afirmou. Também apontou que a crise energética pode desencadear mudanças políticas nos governos de todo o mundo, e comparou a situação com as crises do petróleo de 1973 e 1979.

// Lusa

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Até ao último kilowatt

(João Gomes, in Facebook, 21/03/2026)


A Europa aproxima-se, mais uma vez, de um ponto de ruptura – não por falta de aviso, mas por excesso de convicção. Um ano depois, a contradição que já então se desenhava transformou-se numa realidade mais dura: uma crise energética iminente, catalisada pela instabilidade no Médio Oriente e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, expôs aquilo que durante demasiado tempo foi negado – a fragilidade estrutural da política energética europeia.

O que outrora era um paradoxo tornou-se agora um impasse. A União Europeia, que construiu a sua narrativa política em torno de sanções à Rússia após a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, encontra-se hoje numa posição em que os próprios fundamentos dessa estratégia são postos em causa – não apenas por analistas ou cidadãos, mas pelos próprios aliados. A administração de Trump, cuja política externa contribuiu para a atual instabilidade no Golfo, admite agora aquilo que durante anos foi implicitamente reconhecido mas nunca assumido: o petróleo russo poderá ser necessário para reequilibrar o sistema energético global.

Este reconhecimento, vindo de Washington, contrasta de forma gritante com a posição do Conselho Europeu, que continua a insistir numa linha política rígida, aparentemente impermeável à evolução dos factos no terreno. A recusa em flexibilizar a abordagem energética face à Rússia não surge já como um ato de coerência estratégica, mas como um exercício de inércia política – ou, mais gravemente, de negação. E a realidade não desaparece com discursos.

Os dados já antes eram claros. A Europa nunca deixou verdadeiramente de depender da energia russa. Mesmo no auge das sanções, países como França, Espanha e Bélgica continuaram a importar volumes significativos de gás, evidenciando que a retórica política e a realidade económica seguiam caminhos divergentes. Essa divergência não só persiste como se agravou. A tentativa de substituir rapidamente o fornecimento russo por gás natural liquefeito de outros mercados revelou-se: mais cara, logisticamente complexa e insuficiente para cobrir necessidades industriais e domésticas

As energias renováveis, embora essenciais no longo prazo, não conseguiram – nem poderiam – preencher o vazio no curto prazo. O resultado é uma Europa energeticamente vulnerável, exposta a choques externos e dependente de cadeias de abastecimento instáveis.

Sanções, guerra e desgaste interno

Ao mesmo tempo, a União Europeia mantém um nível elevado de apoio financeiro e militar à Ucrânia, prolongando o envolvimento indireto num conflito cuja resolução permanece bloqueada. A guerra, longe de uma solução rápida, transformou-se num desgaste prolongado – humano, económico e político.

A insistência numa solução exclusivamente baseada no confronto ignora um dado essencial: a Ucrânia não demonstra capacidade clara para recuperar os territórios ocupados e uma vitória decisiva no terreno é-lhe impossível – mesmo com mais investimentos europeus. Já a Rússia parece confortável com a lentidão do conflito, e não tem pressa. Joga com a profundidade estratégica e recursos energéticos vastos, e não depende da Europa para sobreviver. Já a Europa, como agora se evidencia, não dispõe de alternativas energéticas suficientemente robustas para sustentar uma rutura prolongada e gasta fortunas a alimentar um regime comprovadamente corrupto. Este desequilíbrio é estrutural – e, até agora, foi politicamente subestimado.

A ilusão da coerência estratégica?

A posição europeia tem sido apresentada como moralmente coerente: sancionar a Rússia, apoiar a Ucrânia, reduzir dependências. No entanto, na prática, essa coerência revela fissuras profundas: sanciona-se, mas continua-se a importar energia e suprimentos russos, condena-se, mas mantém-se a dependência, financia-se a guerra, mas não se investe com igual intensidade na resolução diplomática. Esta “fuga para a frente” política, já evidente há um ano, tornou-se hoje insustentável. O custo não é apenas financeiro – é sistémico e afeta: competitividade industrial, custo de vida dos cidadãos, estabilidade social e política.

Até ao último kilowatt?

O que está agora em causa não é apenas uma escolha energética – é uma escolha civilizacional sobre prioridades políticas erradas. Persistir numa estratégia que ignora a interdependência energética e rejeita canais diplomáticos efetivos pode conduzir a Europa a um cenário de racionamento, recessão e erosão do seu próprio modelo social. Não por falta de recursos globais, mas por incapacidade de os integrar numa política pragmática.

A alternativa não exige capitulação política, mas sim realismo estratégico:

– reconhecer limites da autonomia energética no curto prazo;

– reabrir canais diplomáticos eficazes;

– dissociar, quando necessário, segurança energética de alinhamentos ideológicos absolutos.

A proposta – outrora considerada controversa – de soluções políticas intermédias para os territórios em disputa, com garantias internacionais para todas as partes, permanece uma via possível. Não perfeita, mas potencialmente estabilizadora e com o respeito pelo que, afinal, gerou esta guerra: a segurança preterida pela Federação Russa quanto á questão da NATO. Afinal, se o próprio Trump dá indícios de abandonar a “cobarde Europa”, porque é que os dirigentes europeus confiam na NATO?

A Europa encontra-se, hoje, mais próxima de uma crise energética severa do que em qualquer momento recente. E fá-lo não apenas por fatores externos, mas por escolhas internas. A insistência numa política que combina sanções incompletas, dependência energética e ausência de diplomacia efetiva está a conduzir o continente a um ponto crítico.

A questão já não é apenas geopolítica. É concreta, quotidiana, mensurável: até quando poderá a Europa sustentar-se – política, militar e economicamente – até ao último kilowatt?

Estão á espera que falte a luz?

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