Disparo de um Himar, de fabrico norte-americano, por forças ucranianas.
EUA, União Europeia e NATO temem que parte das armas desapareça e sejam vendidas para grupos criminosos ou apareçam nas mãos de terroristas neonazis fora da Ucrânia.
Uma das poucas pessoas que eu me habituei a admirar sem desilusão na política portuguesa — António Ramalho Eanes, de seu nome — disse uma vez, quando era Presidente da República, que Portugal era um país eternamente adiado. Passaram-se alguns 40 anos, ele continua alerta, e o país continua adiado. Não por falta de dinheiro, de oportunidades, de avisos, de experiências, de estudos, de comissões, de organismos e funcionários, de Estado e de impostos. Porquê, então?
Porque é que tantos incêndios e tantos milhares de hectares ardidos depois continuamos a viver todos os Verões com o terror dos incêndios, roubando-nos o prazer de umas férias tranquilas, quase nos fazendo sentir culpados por gozar um dia de praia ou uma noite de luar? Porque é que, depois de tantos milhões gastos a satisfazer todas as reivindicações dos bombeiros e a comprar o material de combate mais sofisticado que existe, os aviões estão quase todos parados há anos por falta de peças ou por disputas contratuais, os eucaliptos e pinheiros bravos continuam a ser plantados sem controlo em zonas de risco, os incendiários são soltos sistematicamente e os bombeiros são remunerados pelas horas gastas a combater fogos em vez de o serem pelos fogos que não ocorreram? — sinal de que teriam passado o ano inteiro a prevenir os incêndios no terreno e não apenas a combatê-los na época deles.
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Porque é que, após tantos estudos incontestados sobre o avanço inexorável da seca no Sul da Europa, ainda temos uma ministra da Agricultura que defende e subsidia as culturas intensivas e exóticas bêbadas de água e predadoras dos solos e que ainda há meses apresentava, ufana, um Plano de Regadio 2030 em que propunha duplicar a área de rega do Alqueva com a mesmíssima água, para satisfazer a sede de lucro instantâneo dos industriais agrícolas estrangeiros? Será louca? Será ignorante?
Porque é que, depois de décadas a perorar sobre os danos irreversíveis do excesso de construção turística, sobre zonas sensíveis da orla costeira, sobre um crescimento desordenado e feito sem ter em conta a capacidade de resposta dos recursos naturais, tudo continua exactamente na mesma, com a impassível filosofia de “constrói-se agora e depois logo se vê” — como é exemplo último a outrora maravilhosa praia de Benagil, no Algarve, hoje um verdadeiro pesadelo, em terra, na areia e no mar e, mesmo assim, ainda ameaçada com mais 2000 camas a construir na falésia! São loucos? Não, são criminosos, verdadeiros delinquentes penais. E porque é que, perante este panorama de pura ganância e corrupção, não pomos fim a isto com uma simples alteração legislativa, deixando de financiar as Câmaras através do IMI para que não seja beneficiado em receitas quem mais construção autoriza?
E porque é que, com o mais baixo índice de natalidade de toda a Europa (logo, provavelmente, do mundo), fruto de uma geração que não quer fazer filhos — uns por justificadas razões, outros por simples egoísmo —, não adoptamos verdadeiras políticas de prémios à paternidade, a começar por majorar as pensões de reforma em função dos filhos que se teve e se sustentou durante a vida útil?
E porque é que, olhando para os pornográficos números de absentismo de professores, médicos do SNS ou outros funcionários do Estado, não os remuneramos em função da sua assiduidade ao trabalho, declarem-se eles doentes terminais ou não?
E porque é que continuamos a manter centenas de organismos públicos, muitos dos quais ninguém sabe para que servem e funcionando em autofagia administrativa (ou seja, para se sustentarem apenas a si próprios), sem coragem para fazer um levantamento sério de todos eles e encerrar os que nada adiantam?
E porque é que não acabamos com o grosso dos benefícios fiscais, inúteis e sem justificação válida, a começar pelas fundações — mas cuja liquidação ou fim de isenções fiscais não seja precedida por um estudo tão pouco sério como aquele feito no tempo do Governo de Passos Coelho, que conseguiu concluir que a fundação mais útil ao país era a Fundação Social-Democrata da Madeira e a que mais benefícios indevidos tinha era a Fundação Calouste Gulbenkian?
E porque é que não conseguimos assentar numa política laboral (será assim tão difícil?) que consiga simultaneamente castigar os maus empresários e os profissionais do subsídio de desemprego e incentivar os empresários que inovam, arriscam e não fazem batota e os trabalhadores que gostam de trabalhar? E não ter o Estado em cima de uns e outros a sugar qualquer tentativa de progredir fazendo mais e melhor?
Estes são apenas alguns pontos em que Portugal continua eternamente adiado. Onde andamos eternamente à roda, sem querer ver a saída ou sem coragem para entrar por ela adentro. Não falo sequer de uma reflexão estratégica que o país nunca fez a sério, embora se gaste dinheiro em inúmeras conferências e simpósios sobre o tema. De que vamos viver no futuro próximo e no futuro médio? Que recursos naturais temos, durante quanto tempo e que proveito podemos tirar deles? Em que sectores poderemos ser competitivos sem comprometer a sustentabilidade a todos os níveis? Que exportações deveremos apoiar e que importações poderemos substituir com proveito por produção própria? Que reformas são verdadeiramente inadiáveis, o que pretendemos alcançar com elas, quanto nos custarão e quanto tempo será necessário para as tornar efectivas? Que obras públicas são urgentes e quais são dispensáveis? Como poderemos legislar, em todos os domínios e em todos os sectores, para incentivar e premiar a competência, o mérito, a competitividade leal e o investimento produtivo? Como poderemos libertarmo-nos do peso castrador das corporações em todas as áreas da política e da economia? Que limites deveremos fixar ao endividamento do Estado, à tributação fiscal, individual e colectiva e à receita fiscal global do Estado em percentagem do PIB?
Quando será que nos libertaremos desta fatalidade de tudo o que pode correr mal correr sempre mal? De quando nos anunciam uma onda de calor já sabermos que o país vai começar a arder? Que quando o ano escolar começa sabermos que os professores vão faltar? Que quanto mais dinheiro se investe na saúde pública mais serviços deixam de funcionar?
Que quanto mais se acorre aos bancos e se jura que tudo será reembolsado aos contribuintes mais certo é que nada será devolvido e tudo será justificado com perdas contingentes inevitáveis, mesmo quando, à vista de todos, se vende por 20% do valor a um amigo desconhecido que depois revende por 200%? Que quanto mais nos prometem que a última ajuda europeia será mesmo a última e para utilizar de forma exemplar tudo se repete como antes e o dinheiro acaba nos mesmos e nos mesmos negócios, sem controlo nem efeito multiplicador? Que quando o Estado assina contratos com grandes interesses privados acaba sempre aldrabado e quando litiga acaba vencido? E que quando vemos um monstro a erguer-se sobre uma falésia à beira-mar ou um campo de abacates a ser plantado em zona de Reserva Agrícola ou Ecológica e nos perguntamos como é possível isto acontecer ainda hoje, a resposta é a mesma de sempre: “Direitos adquiridos.”
Porque é que, então, nunca mais chega o dia em que adquirimos o direito a um país justo, transparente e funcional?
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de José Goulão ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.
Estátua de Sal, 14/07/2022)
Depois de 10 dias de acalmia, a Rússia começou hoje em força a libertação da República de Donetsk. No mapa do Defense Politics Asia, notam-se muitas explosões na linha da frente (algo verificado num certo satélite da NASA que observa os fogos na Europa). Nota-se que muitas são concentradas como era de esperar na área por libertar da República de Donetsk, mas há também muitas na fronteira de Kherson, o que implica a destruição da tentativa de contra-ataque tão anunciada pela Ucrânia.
Olhando para os recentes textos no blog Moon Of Alabama e no blog Donbass (Erwan Castel), e para os recentes vídeos do The New Atlas (Brian Berletic) e do Military Summary, percebe-se que o impacto dos HIMARS com mísseis de até 80 Km de alcance “apenas” obrigou a Rússia a fazer ligeiras mudanças na forma como armazena as munições atrás das suas linhas (estavam em média a 50 Km da frente, agora ou ficam 40 Km mais longe, ou mais espalhadas em armazéns mais pequenos). Mas o sentido da Operação Militar Especial continua na mesma: derrota total da Ucrânia, apenas faltando saber se falta mais mês ou menos mês.
Segundo o rapaz que faz o Military Summary, fala-se que o líder da Sérvia terá comentado que as intenções da Rússia para este Verão são estas: primeiro a linha de Severks (já lá estão) a Bakhmut, depois a linha de Slaviansk a Kramatorks, a seguir a libertação total de toda a área da República de Donetsk, e nesse momento a apresentação de uma proposta ao Ocidente, provavelmente na linha do que o Kremlin já tinha proposto, com toda a justiça e bom senso, em Dezembro, mas que os NeoCon/belicistas dos EUA e seus idiotas/vassalos da NATO rejeitaram. Se voltarem a rejeitar, o rumor é que então a Rússia estará a ponderar o fim da Operação Militar Especial, e passar para uma Guerra de facto, com mobilização de tropas, e meios mais pesados e menos cirúrgicos.
Depois, e aqui começo eu a especular, será a vez do Ocidente fazer a sua jogada: ou reconhece finalmente a legitimidade e justificações da Operação Militar Especial limitadíssima feita por um país ameaçado pela NATO e pelo exército vizinho cheio de naZionalistas, mas ainda com vontade de negociar a paz; ou coloca-se a jeito para a Rússia fazer o cheque-mate convencional (ainda sem armas nucleares), em que os objectivos da Rússia passam do Donbass para serem oficialmente toda a Novorússia e toda a área a leste do rio Dniepr, e em não ficará pedra sobre pedra no “Banderistão” (de Kiev a Lviv), que verá dezenas de milhões fugir para a Europa (em plena crise económica e cansaço disto tudo) e será uma terra que apenas servirá para a Rússia colocar as piores armas (nucleares incluídas) juntinho à fronteira da Polónia e companhia.
Eu, por saber tudo o que está em causa, sou neste momento favorável à operação Z, pois considero ser a única forma de salvar o povo do Donbass, fazer cair a ditadura naZionalista de Kiev, e garantir que o governo substituto assina mesmo de verdade um acordo de paz para cumprir.
Espero portanto que quando isso estiver concluído, o Ocidente tenha a decência suficiente para rejeitar a estupidez americana, ameaçar Kiev de isolamento caso não aceite a paz, e voltar a ter uma relação diplomática q.b. com a Rússia.
A alternativa é escalada atrás de escalada, e não coloco de parte que, se os maluquinhos dos EUA decidirem enviar mísseis com 300 Km de alcance para os HIMARS já presentes na Ucrânia, assistidos com as coordenadas GPS dos satélites americanos (o que noutros tempos e perante regimes menos pacientes, já teria levado a uma declaração de guerra directa), a Rússia possa até antecipar deixar de estar nesta posição de mero contra-ataque, quase passiva, e passar ao ataque, por exemplo destruindo os satélites americanos, e bombardeando as bases dos EUA na Síria.
Seria o princípio do fim…
Para já, em Agosto, veremos apenas os exercícios militares conjuntos da Rússia, China, e Irão, nos territórios aliados do chamado “quintal dos EUA”: as Caraíbas. O anfitrião será a Venezuela, e participarão mais 10 países. Que sirva de aviso. E que tenha o efeito equivalente à colocação de mísseis soviéticos em Cuba, ou seja, que nesse momento alguém com um cérebro funcional na Casa Branca perceba que está na hora de evitar algo pior. Algo só possível se os EUA deixarem de ser o pior e mais mortal regime do Mundo desde 1945 e começarem a desescalar.
O Mundo não aguenta que os EUA continuem a ser o que são. E à mesma conclusão chegaram o Pepe Escobar, o Carlos Matos Gomes, e o Luo Siyi, em 4 dos textos publicados entre 11 e 14 de Junho no blog Resistir. São de leitura obrigatória para quem quiser perceber este momento da história, e perceber que o que se passará a seguir em todo o Mundo, depende totalmente do que for decido na Casa Branca: PAZ duradoura, ou GUERRA Mundial.
É que agora, do outro lado, já não está um grupo de pastores de cabras isolados num monte no Afeganistão, apenas munidos das suas Kalashnikovs e alvos fáceis para os drones assassinos dos criminosos de guerra com fardas da NATO. Não! Agora, do outro lado, está a aliança militar e económica entre Rússia e China, e cada vez mais países do Mundo real, não-Ocidental, desejosos de se verem livres do Império a bem, mas se tiver que ser, cada vez mais preparados para o fazerem a mal.
Sim, mais do que nunca é preciso dar voz e ouvir quem defende a paz. Até lá, reservo-me a hipocrisia de ser momentaneamente pró-guerra até que o último naZionalista tenha sido derrotado, e todo o povo do Donbass (e arredores) esteja libertado e em segurança sob a proteção dos seus irmãos russos.
E ficarei a fazer figas para que um dia, mais cedo do que tarde, alguém faça também um favor destes aos povos Curdo, Iemenita, e Palestiniano. Pelo menos estes e, para citar Hugo Chávez, “por ahora”… O resto logo se vê.