Um mundo entre a guerra e a moderação

(Stephen Sefton in globalresearch.ca, 08/01/2026), trad. Estátua)


O sequestro criminoso do companheiro Presidente Nicolás Maduro Moros e da companheira Primeira Combatente Cilia Flores ocorreu no aniversário do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, em 2020, por ordem de Donald Trump. A cada crime que cometem, o governo dos EUA e seus cúmplices europeus provam que não merecem negociações ou a oferta de paz. O ataque à Venezuela demonstra, da forma mais contundente possível, a maldade e a falsidade do sistema de governo dos EUA. O fato de uma ou outra figura política da classe dominante estadunidense ser presidente do país em nada altera sua odiosa essência fascista. Todos os governos estadunidenses promovem o militarismo criminoso como política externa, enquanto, internamente, promovem a riqueza corporativa em detrimento das legítimas aspirações de seu povo.


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O problema essencial para a maioria do mundo é a enorme vantagem desfrutada pelo coletivo criminoso do Ocidente em comparação com a vasta maioria dos governos mundiais que cumprem o direito internacional, promovem sinceramente a paz e buscam resolver divergências por meio do diálogo. A prática constante dos governos criminosos ocidentais, há décadas, tem sido fingir disposição para dialogar apenas para ganhar espaço, tempo e oportunidade para cometer mais uma agressão bárbara. Essa forma de operar ficou clara desde o fim da Guerra Fria e da guerra na antiga Jugoslávia. Posteriormente, foi aperfeiçoada por meio da fraude dos Acordos de Minsk sobre a Ucrânia e novamente durante as negociações com o Irão antes do ataque sionista e estadunidense em junho do ano passado. Agora, enquanto o presidente Maduro confiava no diálogo, os EUA atacaram a Venezuela para o sequestrar, juntamente com sua esposa, Cilia.

A agressão contra a Venezuela ocorre num contexto mais amplo de má-fé global por parte do governo dos EUA e seus aliados, na sua ofensiva contra a nova ordem internacional. É falsa a afirmação de que o governo de Donald Trump busca a paz na Ucrânia e está a afastar-se da Europa para concentrar a sua atenção na Ásia e na América Latina.

Agora, a CIA admite abertamente que apoia ataques terroristas com drones contra a população civil e as infraestruturas na Rússia. As forças americanas apoiam os ataques terroristas na Ucrânia com informações de inteligência e de satélite para direcionar os alvos. Com a aprovação do governo ucraniano, empresas americanas continuam a vender grandes quantidades de armamentos para países intermediários europeus com o propósito explícito de que sejam entregues à Ucrânia.

O vice-ministro da Defesa da Polônia, Cezary Tomczyk , anunciou recentemente que o governo dos EUA investirá US$ 500 milhões no desenvolvimento da infraestrutura das bases militares americanas no país. Isso faz parte de um plano para modernizar essas bases militares até 2035, com um investimento complementar do governo polaco de US$ 250 milhões por ano. Portanto, não há intenção por parte dos EUA de abandonar a sua postura militar agressiva na Europa contra a Rússia, nem o estacionamento de armas nucleares na região. Eles simplesmente exigirão que os povos europeus paguem o custo da presença militar americana. Além disso, a recente nomeação na Ucrânia do simpatizante nazi Kyrylo Budanov como vice do presidente de facto Volodymyr Zelensky prenuncia um aprofundamento da guerra suja contra a Rússia, visto que Budanov é um agente reconhecido da CIA com carreira militar nas forças especiais.

Não há limites para a falsidade e a duplicidade da classe dominante dos EUA e dos seus vassalos europeus, nos seus esforços para reverter o desenvolvimento de um mundo multipolar. Eles mentem aos seus povos e aos seus parceiros internacionais de tal forma que é impossível confiar até mesmo nos tratados e acordos mais solenes e formais. De facto, durante muitos anos, os governos dos EUA permitiram que terminassem todos os acordos sobre armamentos nucleares sem o menor esforço para negociar uma prorrogação. O chamado Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Novo TRAS), o único acordo bilateral de controlo de armas remanescente entre a Rússia e as autoridades americanas, expira em 5 de fevereiro deste ano. O presidente da Rússia declarou que sempre respeitará as disposições desse tratado se os seus homólogos americanos fizerem o mesmo. Não houve resposta do governo do presidente Trump e é improvável que haja.

Os EUA retiraram-se dos acordos de limitação de armas nucleares porque as suas forças armadas e a sua base industrial, com ou sem os seus aliados da NATO, não são mais capazes de prevalecer numa guerra convencional contra a Rússia ou a China, e provavelmente nem contra o Irão. Essa realidade significa que, ao perder uma guerra convencional direta contra essas potências, as elites dirigentes dos EUA e os seus aliados, incluindo Israel, recorrerão à guerra nuclear, pois estão tão insanos que preferem destruir o mundo inteiro a aceitar a perda do sua antiga dominação e poder. É evidente que a Rússia não respondeu às ações agressivas dos países da NATO, liderados pelo governo dos EUA, contra o seu território porque fazê-lo, muito provavelmente, levaria a uma espiral de escalada que só terminaria com uma troca de ataques com armas nucleares.

Intimamente ligado a esse desejo de evitar uma guerra nuclear está o imperativo de a Rússia respeitar os interesses e opiniões de outros países e manter a paz mundial, apesar de todas as provocações inimigas e da grande pressão da opinião pública dentro da própria Rússia. Para o governo russo, o apoio da China, da Índia e de outros países como o Brasil, a África do Sul, os países da ASEAN e os países árabes tem sido de grande importância económica e diplomática desde o início das medidas coercivas unilaterais extremas aplicadas pelo Ocidente em 2014 e intensificadas em 2022. O governo dos EUA e seus aliados têm sido implacavelmente oportunistas e cínicos ao se aproveitarem dessa realidade para realizar agressões que, noutras circunstâncias, a Rússia teria punido severamente.

O mesmo se aplica ao caso da China em relação ao apoio flagrante do Ocidente ao governo rebelde da província chinesa de Taiwan. China, Índia e Rússia são países que, na história contemporânea, promoveram a paz, evitaram provocações e buscaram resolver as suas disputas por meio de negociações, com o devido reconhecimento do direito internacional. Este é um ponto que as declarações da Organização de Cooperação de Xangai e do grupo BRICS+ sempre enfatizam. A sua posição contrasta fortemente com a invocação coletiva, pelo Ocidente, da sua fórmula espúria de uma “ordem baseada em regras”, que nunca é definida pela simples razão de que as regras são inventadas e alteradas a todo instante, ao sabor dos caprichos das elites governativas dos EUA. O exemplo mais claro do seu oportunismo cínico e sádico é o apoio ao genocídio sionista do povo palestiniano.

Essa realidade também fica evidente na violação, por países ocidentais que praticam pirataria, do princípio da livre navegação contra navios com cargas diversas, principalmente petroleiros, provenientes da Rússia, China e Irão. Em resposta aos ataques a navios mercantes que transportavam carga russa, o governo russo recomendou que essas embarcações navegassem sob a bandeira russa e não sob a de terceiros países, o que poderia oferecer alguma proteção contra apreensões arbitrárias por parte das guardas costeiras das nações ocidentais. No início de dezembro, o presidente Vladimir Putin também alertou que o seu país poderia responder às agressões contra navios russos, supostamente cometidas pela Ucrânia, com ataques a navios de países que apoiam militarmente a Ucrânia.

No final de dezembro, a guarda costeira chinesa intensificou o patrulhamento das suas águas territoriais ao redor de Taiwan. Relata-se que, durante essa operação, a China confiscou um navio de uma empresa taiwanesa que transportava mísseis Himars americanos para Taiwan. Em 25 de dezembro, o Irão apreendeu um petroleiro estrangeiro, acusado de transportar cerca de 25.000 barris de combustível contrabandeado. Essa ação seguiu-se à apreensão de outra embarcação em circunstâncias semelhantes em novembro passado. Resta, portanto, observar como se desenvolverá a resposta da Rússia, da China e do Irão aos ataques e tentativas de apreensão contra navios comerciais que transportam cargas dos seus países.

Esta questão assume agora uma importância especialmente elevada no Caribe, no contexto da tentativa dos EUA imporem um bloqueio marítimo contra a Venezuela. De facto, a ofensiva contra a Venezuela é apenas um dos vários teatros de agressão promovidos pelo Ocidente coletivo, desde o genocídio do povo palestiniano e a agressão contra o Irão, até à guerra da NATO na Ucrânia e às provocações deliberadas contra a China. O governo dos EUA ordenou que os governos subservientes no Japão, na Coreia do Sul e nas Filipinas aumentassem os seus gastos militares e a sua postura ofensiva para hostilizar a China. Diante da agressão desesperada das elites fascistas ocidentais e dos seus ataques terroristas, a Rússia, a China e o Irão têm mantido uma extraordinária contenção na sua política externa.

Conforme explicou o Ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, no seu discurso de fim de ano,

“Diante de um mundo turbulento onde a paz está ameaçada, a China tem atuado como uma âncora para a estabilidade. À medida que transformações sem precedentes se aceleram, as relações internacionais estão a ser remodeladas no meio da turbulência e os riscos de conflito ou confronto entre as principais potências estão claramente a aumentar. A China, como uma potência fundamental e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, permanece comprometida com a manutenção da paz mundial.”

Em maio deste ano, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, também destacou o compromisso da Rússia, da China e da Índia com a paz mundial e explicou o problema fundamental da nova ordem das relações internacionais:

“Se levarmos a sério a garantia da estabilidade no sistema de relações internacionais, devemos perceber que muito depende de o Ocidente renunciar aos esforços para impor os seus princípios destrutivos e a sua ideologia ilegítima, de modo a começar a respeitar de boa-fé os princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas.”

Enquanto a China e a Rússia afirmam a importância de defender a ONU e cumprir o direito internacional, o Ocidente, coletivamente, age com crescente criminalidade desesperada para bloquear o desenvolvimento de uma nova ordem mundial. Contra aliados estratégicos da Rússia e da China, como a Venezuela e o Irão, recorre à guerra declarada. Enquanto as grandes potências do mundo em desenvolvimento tentam encontrar a melhor maneira de agir neste novo contexto internacional de extrema agressão dos EUA, os países do mundo em desenvolvimento não têm outra alternativa senão unir-se em defesa da paz.

Conforme foi declarado pelo nosso governo, aqui na Nicarágua:

“Como irmãos e irmãs desta nossa corajosa e nobre América e Caribe, unimo-nos ao clamor do mundo inteiro e, em profunda indignação, afirmamos que continuaremos a lutar para que o Direito Internacional e a Soberania prevaleçam. A paz foi profundamente ferida e, como Família Humana, Comunidade das Nações, Povos do Mundo, todos nós exigimos que ela seja restabelecida como um reflexo absoluto da dignidade dos povos do mundo. Acompanhamos de todo o coração o apelo da Vice-Presidente da Venezuela, Companheira Delcy Rodríguez, para defender a Verdade, a Justiça e a Vida, e exigimos a libertação imediata do Presidente, Companheiro Nicolás Maduro, e da Companheira Cilia Flores.”


Este artigo foi originalmente publicado em Tortilla con Sal e traduzido do espanhol.

Stephen Sefton,  renomado autor e analista político radicado no norte da Nicarágua, está ativamente envolvido em trabalhos de desenvolvimento comunitário com foco em educação e saúde. Ele é pesquisador associado do Centro de Pesquisa sobre Globalização (CRG).

Fonte aqui

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Trump e Pump: outro atoleiro petrolífero

(David Schultz. in CounterPunch.org, 07/01/2026), trad. Estátua)

Cleptocracia, capitalismo de compadrio, imperialismo, colonialismo, política do carbono ou política ao estilo Kissinger. Chame-lhe o que quiser. Mas o semi-golpe de Trump na Venezuela é mais um exemplo da política retrógrada da administração Trump, e está destinado a arrastar os EUA para mais um atoleiro, que lembra o Iraque, o Afeganistão e talvez até o Vietname

Há um ditado que diz que os Estados estão sempre preparados para lutar a última guerra. As visões incoerentes de Trump sobre os EUA sempre foram retrógradas, portanto, tornar a América grande novamente sempre foi retrógrado, olhar para os EUA através de óculos cor-de-rosa, vendo uma época em que os EUA dominavam o mundo.

No entanto, como Karl Marx observou uma vez em O 18 Brumário, a primeira vez que a história se repete é uma tragédia, a segunda vez é uma farsa. O que está a acontecer na Venezuela encaixa-se perfeitamente nessa segunda categoria. Não é apenas repetição, mas repetição desprovida de seriedade estratégica. O que resta é um espetáculo disfarçado de arte de governar.

Desde o início, ficou claro que a Venezuela nunca teve a ver com drogas. A Estratégia de Segurança Nacional 2025 do governo Trump deixou isso claro. Em vez de se concentrar em narcóticos, governança ou questões humanitárias, ela ressuscitou uma visão explicitamente imperialista de domínio do hemisfério. A Venezuela foi enquadrada como um problema de controlo, não de aplicação da lei.

Esse documento exigia uma atualização da Doutrina Monroe, que alguns críticos rapidamente apelidaram de «Doutrina Donroe». A premissa era direta: os Estados Unidos deveriam dominar o hemisfério ocidental. A Europa seria deixada para a Europa, a Ásia para a Ásia e a África mal merecia menção. Isso não era realismo, mas sim nostalgia disfarçada de estratégia.

No entanto, a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 dificilmente era uma estratégia. Parecia um discurso de campanha travestido na forma de política externa. Oferecia slogans, não planos, e branding em vez de análise. A Venezuela parecia menos um estudo de caso e mais uma oportunidade de marketing.

O documento prenunciava o que logo ficou claro: a Venezuela nunca foi uma questão de drogas, mas de domínio. Esse domínio baseia-se numa memória histórica mais antiga, enraizada no início do século XX. Durante esse período, os Estados Unidos trataram grande parte da América do Sul como uma extensão económica das suas próprias necessidades industriais. O petróleo da Venezuela foi extraído, exportado e monetizado com pouca consideração pela soberania venezuelana.

O semi-golpe orquestrado por Trump é uma tentativa de recapturar essa era perdida. É uma tentativa de recuperar o petróleo que os Estados Unidos outrora tomaram abertamente e sem remorsos. A lógica é surpreendentemente familiar. Como foi dito uma vez durante os debates sobre o Canal do Panamá, o que foi roubado “de forma justa” deve ser mantido. Essa mesma lógica agora sustenta a política dos EUA em relação à Venezuela.

A decisão de Trump de acusar Nicolás Maduro de crimes relacionados com drogas é igualmente retrógrada. Ela faz lembrar a justificação do governo Bush para prender Manuel Noriega décadas antes. Em ambos os casos, as acusações criminais substituíram a legitimidade política. A aplicação da lei tornou-se uma fachada para a mudança de regime.

Essa política retrógrada também visa reviver a política do carbono num momento em que ela está a perder rapidamente a relevância. A trilogia de Daniel Yergin — The Prize, The Quest e The New Map — documenta como o século XX girou em torno do petróleo e do domínio energético. Mas a lógica económica que antes favorecia os combustíveis fósseis está a desgastar-se. A energia renovável não é mais especulativa; está cada vez mais barata, rápida e escalável.

A China compreende essa mudança e está a agir de acordo. Está a investir fortemente em energia solar, eólica, baterias e infraestrutura elétrica. Os Estados Unidos, por outro lado, sob Trump, procuraram dobrar a aposta no petróleo e no gás. A Venezuela torna-se, assim, um campo de batalha simbólico entre os regimes energéticos do passado e os do futuro.

Mesmo para os padrões de mudança de regime, esse esforço é estranhamente incompleto. Henry Kissinger, apesar de todas as suas falhas morais, pelo menos compreendeu como executar um golpe de forma decisiva. O Chile sob Allende é uma prova sombria dessa competência. O que Trump arquitetou, em vez disso, foi um semi-golpe, sem legitimidade e sem controlo.

Trump declarou que os Estados Unidos irão governar a Venezuela, mas não necessariamente de forma direta. Em vez disso, irão recorrer a sanções, embargos, pressão financeira e apreensão das receitas do petróleo. A oposição ao regime não foi trazida a terreiro, mas sim marginalizada. A vice-presidente de Maduro continua no cargo e há poucas evidências de que os militares tenham desertado.

O resultado é um impasse perigoso. Isso cria as condições para um conflito civil, em vez de uma transição política. À medida que a instabilidade cresce, o envolvimento dos EUA aprofundar-se-á por necessidade, e não por planeamento. A infraestrutura petrolífera precisará de proteção, e a proteção exigirá tropas.

Quando esse momento chegar, a justificação mudará. Será enquadrada como segurança, estabilidade ou necessidade humanitária. Mas o motivo subjacente permanecerá o mesmo. O controlo dos recursos será mais uma vez disfarçado como interesse nacional.

A fase final deste episódio provavelmente envolverá enriquecimento pessoal. Trump tem consistentemente confundido a linha divisória entre poder público e ganho privado. A Venezuela oferece outra oportunidade para branding e lucro. Isso é a repetição de como as elites americanas anteriores, incluindo os Rockefellers, beneficiaram do petróleo venezuelano há um século.

Bem-vindos à América de Trump e Pump. Quanto mais bombeamos, mais nos dizem que crescemos. É uma história antiga com um novo logótipo. E, como tantas vezes antes, é provável que termine mal.

David Schultz é professor de ciências políticas na Universidade de Hamline. É autor de Presidential Swing States: Why Only Ten Matter.

Fonte aqui

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A Nova Ordem (de Hitler a Trump)

(Manuel Loff, in Público, 07/01/2026)


A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer.


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Perguntada anteontem se a UE entendia que o ataque militar dos EUA à Venezuela foi “uma intervenção, uma invasão, um ato de agressão, um golpe externo?”, a porta-voz da Comissão Europeia recusou-se a discutir a “terminologia” dos acontecimentos, e criticar ou condenar Trump. “Não creio que isso seja relevante” (PÚBLICO, 6/1/2026 ). O tom foi o mesmo entre os governos da UE, desde o chanceler alemão (para quem a questão legal é “complexa”) até Paulo Rangel, que não só encontra “intenções benignas” em Trump, como, jurista que é, precisava ainda assim de falar com “os seus “homólogos na Europa e os EUA, no sentido de ter uma visão mais completa da situação” para poder definir o ataque à luz do Direito Internacional.

É coerente que Israel, campeão das violações de direitos humanos e da legalidade internacional, tenha “felicitado” Trump “pela sua decisão” e “aplaudido as forças militares estadunidenses que levaram a cabo uma operação impecável” (a expressão é a mesma que tem usado a oposição antichavista e os seus vários porta-vozes em Portugal). A ele juntaram-se Milei, Zelensky e Corina Machado; era inevitável. Mas é patético que Rangel, para quem Portugal “valoriza sempre a legalidade internacional e a Carta das Nações Unidas”, não consiga perceber o que percebeu Guterres e os governos dos maiores países da América Latina ou o de Espanha: que se trata de uma violação descarada de toda a legalidade internacional. E que este é, depois da impunidade israelita na Palestina, um dos atos fundadores da Nova Ordem trumpista. Hitler quase conseguiu impor uma na II Guerra Mundial. Foi o que se viu.

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Mas voltemos à questão da “terminologia”. Regularmente insultados por toda a pandilha MAGA, que os neoliberais que dominam quase todos os governos europeus, em grande parte dos casos de mãos dadas com neofascistas que se sentem vingados por Trump, manifestem tanta falta de vontade em chamar as coisas pelos nomes, quer face a este ato de guerra ilegal contra a Venezuela como em três anos de genocídio em Gaza, diz tudo do processo de degeneração política que o neoliberalismo tem significado desde há já meio século. Esse processo tem um nome: fascização.

Trump reproduz neste século o que Mussolini inaugurou na política de massas de há cem anos: uma “liderança desinibida” e narcísica como lhe chama Wendy Brown em Nihilistic Times (2023). Quando a justiça italiana acusou, em 1925, vários squadristi fascistas do assassinato de Matteotti, um dos deputados socialistas que ainda sobravam no Parlamento, Mussolini, já então à frente do Governo, vangloriou-se de ser o capo do partido dos assassinos e desafiou, mão na anca, quem o quisesse enfrentar: “Fui eu que quis que as coisas chegassem a este ponto extremo”. Chama-se a isto impunidade, e o fascismo é, nos anos 1920-45 como nos dias de hoje, a reivindicação da impunidade do mais forte para fazer valer uma supremacia que julga ter-lhe sido dada pela acumulação de riqueza, pela tradição, por Deus ou simplesmente pela sua capacidade real de desprezar os valores da igualdade e todas as regras da própria constitucionalidade liberal.

A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer. No sistema internacional, deveria ser a ONU e o TPI quem deveriam atuar. Que não o possam fazer agora, e que continuem a não poder fazê-lo no genocídio de Gaza, deve-se exclusivamente aos EUA e aos seus aliados europeus no Conselho de Segurança. E à desoladora cobardia política (e moral) dos dirigentes dos aliados dos EUA na NATO, esse bando de “chamberlains”, como lhes chamou Ana Sá Lopes neste jornal em referência ao estadista britânico que apaziguou Hitler até ele invadir a França em 1940. Já nem sequer é ironia que eles se possam encontrar muito brevemente na mesma posição de Maduro quando Trump mandar invadir a Gronelândia, convencido, como dizia ontem com razão um assessor de Trump, que “ninguém oporá resistência armada aos EUA”. Apostamos em como a primeira-ministra da Dinamarca vai engolir a sua tese de que esse dia seria o do “fim da NATO”?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990