O cancelamento como aniquilação do pensamento crítico e progressista

(Baltasar Garzón, in Público, 12/01/2026)

Imagem gerada por IA

Quase três anos depois, Boaventura de Sousa Santos continua publicamente cancelado no meio académico e social, sofrendo danos irreparáveis na sua vida profissional e pessoal.


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A violência de género causa grande dor à sociedade democrática. Acredita-se que o patriarcado continua vigente num sistema que historicamente concedeu autoridade, domínio e controlo ao homem. Normalizá-la e não agir contra a sua raiz, que não é outra senão a desigualdade estrutural do nosso sistema económico-social, é ser cúmplice. Compreender as suas múltiplas facetas, os espaços onde se reproduz e os seus efeitos, é uma obrigação.

O aumento da consciência e da investigação em Estudos de Género revelou que as agressões ocorrem nas mais diversas actividades, sobretudo quando existe uma relação de dependência entre o agressor e a vítima, sendo as estruturas e a falta de mecanismos de denúncia eficazes um terreno fértil que mantém a impunidade.

À medida que o silêncio foi quebrado, proliferaram denúncias que trouxeram essa realidade à tona e serviram para mudar leis e instituições. O movimento MeToo foi essencial para repensar os mecanismos que regiam esses espaços, mas ainda há muito a ser feito.

No entanto, como em toda a revolução, pode ter havido pessoas que, talvez alheias à dor de passar por situações de assédio e sob o pretexto de reivindicar a luta pelos direitos das mulheres, tenham ocultado outros interesses, algo que, longe de contribuir para quebrar os esquemas machistas, deu munição ao discurso antifeminista. A questão é: como podemos garantir que isso não aconteça?

Num momento em que a comunicação flui a uma velocidade vertiginosa, os efeitos negativos de uma informação pouco rigorosa ou de uma acusação incentivada pelas redes sociais podem significar a execução pública imediata do acusado e até mesmo a sua “morte civil”. Um dos maiores expoentes dessa penalização é o fenómeno do cancelamento público produzido, às vezes, pela inércia dos acontecimentos e outras vezes com a clara intenção de cercear a presunção de inocência. Quando essa dinâmica se instala, favorece-se a consolidação de um estado de suspeita que pode minar o Estado de direito.

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Há um caso que se destaca pela sua gravidade e por constituir um paradigma do que não deve acontecer, que afecta um dos mais prestigiados intelectuais progressistas contemporâneos, cujos ensinamentos contribuíram para o pensamento crítico e são um exemplo para aqueles que acreditamos que o direito deve ser o instrumento, juntamente com a ética e a moral, que rege a nossa convivência em busca de uma sociedade mais progressista, democrática, igualitária e solidária.

Refiro-me a Boaventura de Sousa Santos (B.S.S.), referência do progressismo e da esquerda intelectual do Sul Global, defensor dos direitos humanos, da igualdade e da justiça, dos povos originários e anti-imperialista consumado. Méritos que, no entanto, se transformaram em dardos envenenados à luz das acusações ferozes feitas contra ele em Abril de 2023.

Desde o início, o sociólogo, diante dessas denúncias infundadas, como posteriormente comprovou, colocou-se voluntariamente à disposição do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) e do Ministério Público para contribuir na investigação e provar a sua inocência. Num exercício de auto-reflexão, publicou um artigo no qual auto-avaliava o seu comportamento. Quando o li, verifiquei que aquele que era o sociólogo de referência para o progressismo admitia honestamente que o machismo é inerente a todos nós, algo que também partilho no sentido de que o homem, por sua própria linhagem ancestral, subestimou a mulher até que esta conseguiu confrontá-lo. Mas ele deixou claro que nunca havia cometido os graves actos dos quais é acusado, lançando uma reflexão e um legado em prol da luta feminista.

Quase três anos depois, Boaventura de Sousa Santos continua publicamente cancelado no meio académico e social, sofrendo danos irreparáveis na sua vida profissional e pessoal. Entidades como o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais ou o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza afastaram-no sem sequer o terem ouvido e sem abrir procedimentos internos, mas anunciando o seu cancelamento com comunicados públicos que encorajaram o julgamento mediático.

A posição do CES foi ainda mais vergonhosa. A instituição que o professor fundou, mas com a qual mantinha uma ligação parcial no momento dos supostos factos, anunciou a criação de uma Comissão Independente em paralelo à auto-suspensão de B.S.S., decisão que ele considerou necessária para facilitar a investigação. O relatório dessa comissão, embora indicasse “a existência de padrões de conduta de abuso de poder e assédio”, não mencionava nomes específicos nem crimes penais. Não foi conclusivo e acrescentava que “as versões apresentadas por vários denunciantes e vários acusados eram, em muitas situações, incompatíveis entre si, o que tornava impraticável avaliar as provas”.

Meses depois, a única consequência foi a demissão de B.S.S após intensa pressão por parte da direcção do CES. Nenhuma nova acção ou processo. Se esses padrões de comportamento abusivo existiam, por que não houve mais acções para combatê-los? A prioridade era realmente zelar pelo bem-estar e pela protecção das suas investigadoras ou eliminar um elemento incómodo, aproveitando a conjuntura?

Seja como for, o sociólogo português não teve outra saída senão recorrer à justiça como único método para aceder a um processo contraditório. No entanto, este também não está a ser um caminho fácil. Após a paralisação da acção civil de protecção da sua honra e a ignorância de muitas provas da sua defesa, teve de desistir e recorrer à via penal, que espera que lhe dê razão.

Escrevo sobre este caso porque acredito que devemos reflectir sobre a legitimidade dos processos de lapidação mediática, dado o seu carácter punitivo, emocionalmente devastador e incompatível com os valores de justiça e igualdade, com o risco adicional de que ocorram num contexto em que os discursos antifeministas estão a ser encorajados por forças reaccionárias e de extrema-direita.

Como defensores de um progressismo humanista, devemos trabalhar para melhorar a resolução das denúncias e para que, sem nunca pôr em causa a luta feminista, sejam respeitados os princípios que regem o Estado de direito, que passam por garantir a presunção de inocência, as garantias do devido processo, a contradição, a igualdade de armas, a transparência, a imparcialidade e a independência judiciais. Sem dúvida, ainda há reformas a serem feitas para que as mulheres vítimas possam sentir-se livres para recorrer à justiça e às instituições, sem serem julgadas ou sofrer consequências; e, igualmente, para que a justiça leve a sério situações como a descrita acima e seja tão ponderada quanto contundente, tão exaustiva quanto ágil na sua resolução, com uma análise minuciosa, sem se deixar levar por interesses mediáticos que apenas agravam os danos às denunciantes e aos denunciados.

Deve ficar clara a necessidade de uma reflexão profunda: se partimos do princípio de que uma sociedade democrática só pode ser construída a partir do respeito pelos direitos humanos, nunca se deve permitir o linchamento mediático paralelo ao julgamento processual, porque implica a própria deslegitimação deste último e o silenciamento no espaço público de vozes críticas e divergentes do “dogma oficial”, como a de Boaventura de Sousa Santos, que foi julgado, cancelado e condenado, sem direito à mais elementar defesa.

Alerta M.S.T.: Trump ataca os Açores dia 24

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/01/2026)

“Tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito”, concluiu Trump


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Graças ao meu amigo Arnaldo (nome fictício e apelido omitido por razões de segurança) e aos seus extraordinários talentos informáticos, foi-me possível, por intermédio do acesso que obteve às comunicações classificadas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, assistir à reunião secreta ocorrida em Mar-a-Lago anteontem — em directo e a partir de Lisboa, tal como o próprio embaixador assistiu. É dessa reunião, histórica do ponto de vista português, que aqui dou conta, num resumo do essencial.

A reunião foi convocada para as 5 da tarde, dando tempo ao Presidente para terminar os 18 buracos do campo de golfe de que é proprietário, oferecido pela Arábia Saudita, e a tempo de o libertar para o jantar dos membros do clube Trump em Mar-a-Lago, os quais pagam uma fortuna de jóia e mensalidade do clube, além de uns dois mil euros por cada jantar com Trump, normalmente realizados duas vezes por mês. Tudo em troca da possibilidade de terem uns três minutos de conversa com o Presidente, aproveitados para exporem rapidamente um problema que enfrentam nos seus negócios e, a um sinal de Trump, entregarem um papel com os dados da situação à chefe de gabinete deste.

A reunião de anteontem foi convocada para o Salão Versalhes de Mar-a-Lago, decorado em tons dourados, vermelhos e púrpura, mas com colunas dóricas de mármore rosa em cada canto do aposento, nas quais se enroscavam serpentes de prata e lápis-lazúli. Estavam presentes, além do anfitrião, o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Dan Caine, o director da CIA, John Ratcliffe, a chefe de gabinete, Susie Wiles, e o genro e parceiro de negócios de Trump, Jared Kushner. À distância e a partir de Lisboa, como já disse, estava o embaixador recém-nomea­do John Joseph Arrigo, descrito na página da embaixada como um “líder visionário, empresário de sucesso e defensor dedicado da comunidade”. Da sua biografia consta ter nascido na mesma Florida adoptada por Trump, ter um “diploma de associado em Administração de Empresas”, passado por um Palm Beach College, ter explorado um negócio de automóveis durante 30 anos e, segundo a embaixada, ter vindo para Portugal “acompanhado da mulher Megan e do cão ‘Hank’”. Difícil era pedirmos mais.

Foi Marco Rubio quem abriu a reu­nião, expondo brevemente toda a situação.

— Estamos aqui reunidos, por iniciativa do Presidente, para analisarmos a oportunidade e os benefícios, ou possíveis danos, de levarmos para a frente a denominada Operação Ananás.

— Lembre-me, Marco, o que é a Operação Ananás? — atalhou Trump, que parecia vagamente alhea­do, ainda irritado por ter falhado o birdie no buraco 10.

— Falámos disso depois da Venezuela, senhor Presidente… É a tomada das ilhas dos Açores.

— Aquelas ilhas ao largo da costa de África? — volveu Trump.

— Não, estas são ilhas portuguesas no Atlântico Norte.

— Espere aí, Marco. — Trump estava agora mais desperto. — É aquela ilha do meu amigo Cristiano Ronaldo?

— Não, não — interveio Jared Kushner. — Essa é outra ilha mais a sul.

— Ah, bom — suspirou Trump. — E vamos seguir o “método Venezuela”? Primeiro atacamos os petroleiros deles no alto mar?

— Eles não têm petroleiros, senhor Presidente — meteu-se o almirante do ar, Dan Caine.

— Não têm petroleiros?

— Não têm petróleo…

— Ah, então o que têm? Terras raras, ouro?

— Não — Rubio voltou à conversa —, não têm terras raras e ouro só nas reservas do Banco de Portugal.

— Então porque vamos lá?

Trump estava a começar a irritar-se com o assunto.

— Porque — retomou Marco Rubio, cheio de cautela — uma das ilhas dos Açores tem uma base aérea que já foi nossa e onde hoje dispomos de facilidades, mas a pedido. É muito útil para atacarmos no Médio Oriente… o Irão, por exemplo… e para apoiar Israel.

Neste ponto, Marco Rubio dirigiu um olhar disfarçado a Jared Kushner, que inclinou a cabeça, incentivando-o.

— E que — retomou ele — poderão ser-nos também muito úteis em caso da Operação Gronelândia.

Trump inclinou-se para trás na poltrona, finalmente interessado.

— Ah, estou a ver! E essa operação ocupar-nos-ia muitas forças e muito tempo?

— Nada, senhor Presidente. — Pete Hegseth interveio, sorrindo. — Meia dúzia de aviões a aterrarem na tal base, uma companhia Delta e numa hora tínhamos o assunto resolvido.

— E qual seria o pretexto diplomático para tomarmos conta dessas ilhas? Tráfico de droga?

— Bem, isso é difícil. — O director da CIA entrou na conversa pela primeira vez. — Portugal importa muita droga vinda do Brasil e da Colômbia, em rota para a Europa…

— Estou a ver, esses bandidos comunistas do Lula e do colombiano, exportando droga e marginais para a decadente Europa — entusiasmou-se Trump. — Então, temos aí o pretexto necessário!

— Bem, senhor Presidente — insistiu cautelosamente Ratcliffe. — Mas a droga não passa pelos Açores, mas bem mais a sul.

— OK, mas podemos sempre castigar Portugal por servir de porta de entrada de droga na Europa, ou não?

— Mas aí não poderíamos invocar a segurança nacional…

— Invocamos a segurança da NATO, a Europa é NATO.

Como sempre, Trump simplificava as coisas mais complexas, uma das qualidades que os seus seguidores mais apreciavam.

— Bem, mas eles também são membros da NATO — lembrou Marco Rubio.

— Hum… — Trump não se dava por vencido. — Essa tal base e as ilhas que vamos ocupar não servem para controlar o tráfico de droga no Atlântico?

— Podiam servir se eles tivessem aviões e navios adequados para essas missões — esclareceu Pete Hegseth.

— E não têm?

— Não, aviões não podemos reclamar, porque, depois dos F-16, preparam-se para nos comprar os F-35, que não servem para isso, mas são nossos, da Lockheed…

— E navios?

— Navios também não. Vão agora gastar 6 ou 7 mil milhões de dólares a comprar três fragatas aos italianos, que também não servem para essas missões.

— Aos italianos? — espantou-se Trump. — Mas alguém se lembra de comprar fragatas aos italianos?

— Lembrou-se o ministro da Defesa deles, este aqui na imagem — e Pete Hegseth apontou para uma fotografia de Nuno Melo, que aparecia no ecrã gigante colocado no Salão Versalhes.

— Um seu admirador, senhor Presidente — interveio, desde Lisboa, o embaixador visionário.

— Hum… — Trump contemplava, interessado, a fotografia de Melo. — O senhor embaixador informe-se como é que ele trata o cabelo, pois parece-me muito bem.

— Mas então o método do seu amigo Ronaldo não está a funcionar? — interrompeu, com um sorriso cúmplice, Jared, o genro.

— Está, mas não se perde nada em experimentar outros. Bom, adiante: então, o ministro da Defesa é meu admirador. E os outros, o Presidente, o primeiro-ministro, o ministro dos Estrangeiros? O que acha, senhor embaixador, vai haver grande barulho?

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— Não creio, senhor Presidente. Portugal não é a Espanha, que costuma ter ideias próprias. Além disso, o Presidente deles está de saída, porque vai haver eleições no dia 18; o PM vai dizer umas banalidades sobre a indestrutível amizade entre Portugal e os Estados Unidos, e o ministro dos Estrangeiros, que classificou de “benigna” a nossa operação em Caracas, vai ficar a analisar o assunto, mas sem precipitações.

— Há eleições dia 18? — interessou-se Trump. — E concorre algum candidato com as ideias MAGA?

— Sim. — O embaixador Arrigo, defensor dedicado da comunidade, estava radiante com o seu inesperado protagonismo. — Concorre um que as sondagens dizem que vai ganhar à primeira volta, mas não tem hipóteses à segunda.

— E é mesmo um homem MAGA?

— Completamente. E outro seu admirador… Chama-se Ventura.

— Até o convidámos para o banquete da sua posse, senhor Presidente — informou o secretário de Estado. — Mas não teve lugar lá dentro e ficou no jardim.

— E o que diz esse tal Ventura?

— O mesmo que o senhor — retomou o embaixador e ex-empresário de sucesso como vendedor de automóveis na Florida. — É a favor da pena de morte e contra os imigrantes e os ciganos.

— Ciganos? Quem são esses?

— São os índios deles — esclareceu o embaixador.

— Ah! — Trump estava agora completamente decidido. — Esse tal Ventura parece-me um tipo mesmo às direitas! E, então, ganha na primeira volta, dia 18, mas perde na segunda?

— É essa também a informação que temos — completou o director da CIA.

— Nesse caso, é claro como água. — Donald J. Trump sorriu, uma vez mais reconhecendo em si mesmo as qualidades que o tinham elevado a dono do mundo. — Deixamos o tipo ganhar dia 18 e depois atacamos os Açores dia 24, que calha a um sábado. Não havendo então condições para realizar uma segunda volta, os Estados Unidos vão reconhecer esse gajo como Presidente legítimo de Portugal, e você, Marco, vai trabalhar para que outros países o reconheçam também. A seguir faremos com o novo Presidente deles um tratado de amizade e cooperação, que nos concede os Açores em troca da nossa protecção na luta contra a droga, a imigração e os… como se chamam eles?

— Os ciganos? — arriscou o embaixador.

— Esses — rematou Trump. — Então, tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui, em Mar-a-Lago, uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Xi e Putin: da promessa multipolar à prática seletiva da soberania

(Por Ilhéus, in Diálogos do Sul, 09/01/2026)


A análise das posturas da China e da Rússia em relação à Venezuela e à Palestina revela que a multipolaridade não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou em responsabilidade compartilhada.


A conjuntura internacional contemporânea evidencia, de forma cada vez mais nítida, a primazia do interesse estratégico sobre qualquer noção consistente de ordem normativa global. A reação limitada da Rússia e da China diante das ações unilaterais conduzidas pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump — incluindo intervenções diretas, coerções extraterritoriais e a ruptura explícita de princípios de soberania — não pode ser compreendida como simples omissão. Trata-se do resultado de um cálculo racional fundamentado na lógica do sistema internacional. Portanto, diz respeito menos a uma suposta incapacidade e mais a uma escolha estratégica. Isso mesmo.

A análise desses comportamentos revela um traço estrutural do mundo atual. A coexistência de múltiplos centros de poder (EUA, China e Rússia) não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou, ainda, em responsabilidade compartilhada. Ao contrário, frequentemente produz uma fragmentação da resposta internacional, na qual cada potência avalia os acontecimentos externos à luz de seus próprios interesses imediatos, priorizando estabilidade interna, projeção regional e, logicamente, as vantagens econômicas. 

Cálculo estratégico

A questão palestina ilustra, de forma emblemática, essa dinâmica de omissão seletiva. Apesar de décadas de violações reiteradas do direito internacional humanitário por Tel Aviv, das resoluções ignoradas e de um histórico contínuo de assimetria de poder, as grandes potências mantêm uma postura que oscila entre o silêncio estratégico e a retórica inócua. Como principal aliado de Israel, os EUA exercem um papel ativo na neutralização de mecanismos internacionais de responsabilização, utilizando seu poder para impedir sanções efetivas ou intervenções multilaterais. Essa posição inviabiliza soluções estruturais e legitima a perpetuação do massacre sob a lógica da exceção permanente.

Rússia e China, embora adotem um discurso formalmente favorável à causa palestina e à solução de dois Estados, reproduzem, na prática, uma postura de baixo engajamento. Suas manifestações em fóruns internacionais raramente se traduzem em ações concretas capazes de alterar o equilíbrio de forças. Esse modo de agir decorre, em grande medida, da avaliação de que a questão palestina não constitui um interesse estratégico central, mas trata-se de um tema útil para fins retóricos, especialmente na crítica à hegemonia estadunidense. Assim, a defesa do direito internacional aparece como instrumento discursivo, e não como compromisso político efetivo. 

Essa omissão revela que a proteção de populações vulnerabilizadas e a aplicação consistente das normas internacionais permanecem condicionadas à conveniência das grandes potências. A Palestina, nesse sentido, torna-se um território em disputa, um símbolo da falência do chamado multilateralismo contemporâneo. A incapacidade — ou falta de disposição — por parte da China e da Rússia em assumir responsabilidades efetivas nesse conflito evidencia que a multipolaridade atual não corrige as assimetrias do sistema internacional, mas apenas redistribui o poder de ignorá-las.

Nesse contexto, a violação da soberania venezuelana e a captura de suas lideranças políticas tornam-se eventos secundários no cálculo estratégico de atores globais cuja atenção está voltada para disputas consideradas mais centrais à sua segurança e influência. A atenção desses atores permanece direcionada a disputas consideradas centrais à sua segurança nacional, à manutenção de zonas de influência e à preservação de vantagens econômicas e militares — fato que contribui para a normalização de práticas que, em outros contextos, seriam amplamente combatidas.

A Rússia, inserida em um cenário de prolongada tensão militar, sanções econômicas persistentes e disputas territoriais concentradas em seu entorno estratégico imediato, tende a hierarquizar os conflitos internacionais segundo critérios de relevância geopolítica e retorno estratégico. Para Moscou, regiões consideradas periféricas — como a América Latina — ocupam um lugar secundário em sua agenda de segurança nacional, sendo frequentemente avaliadas mais por seu potencial simbólico e discursivo do que por sua capacidade de produzir ganhos concretos em termos militares, econômicos ou políticos. Nesse sentido, conflitos nessas áreas são instrumentalizados, sobretudo, como elementos de retórica diplomática — e não como arenas prioritárias de intervenção efetiva.

Manutenção da flexibilidade geopolítica

Embora o governo russo recorra, com frequência, ao discurso da legalidade internacional, da soberania estatal e da não intervenção como fundamentos de sua política externa, tal postura revela-se seletiva e contingente. Esses princípios são mobilizados principalmente quando convergem com seus interesses estratégicos, ou quando podem ser utilizados para questionar a legitimidade de ações ocidentais, em especial dos Estados Unidos e de seus aliados. Contudo, Moscou não demonstra disposição consistente para defender tais normas de maneira universal, uma vez que a consolidação de uma ordem internacional rigidamente baseada em regras poderia limitar sua própria margem de manobra em conflitos nos quais busca afirmar zonas de influência ou justificar ações unilaterais.

Além disso, uma resposta mais contundente à atuação de Donald Trump na Venezuela implicaria riscos significativos para a Rússia. Envolver-se diretamente em um confronto com os EUA em um terreno distante de seus interesses vitais significaria dispersar recursos já comprometidos em frentes consideradas prioritárias (como a Ucrânia), além de potencialmente ampliar o isolamento econômico e diplomático imposto por sanções internacionais. Essa atitude poderia implicar também a narrativa estratégica russa de resistência ao expansionismo ocidental, porque deslocaria o foco de seus próprios conflitos para uma disputa indireta que pouco contribuiria para seus objetivos centrais.

Dessa forma, a contenção de Trump não se apresenta como uma prioridade estratégica para Vladimir Putin — de fato (falando-se pragmaticamente), seria um risco desnecessário dentro de um cálculo racional de custos e benefícios. Ao optar por uma postura de condenação apenas retórica, sem tradução em ações concretas, a Rússia preserva sua capacidade de crítica ao unilateralismo estadunidense, ao mesmo tempo em que evita compromissos que poderiam enfraquecer sua posição em áreas consideradas mais relevantes. Trata-se, portanto, de uma estratégia de “gerenciamento do sistema internacional”, na qual a defesa de princípios normativos cede espaço à preservação de interesses nacionais e à manutenção da flexibilidade geopolítica.

A China, por sua vez, opera conforme uma racionalidade ainda mais pragmática. Sua política externa privilegia previsibilidade, estabilidade econômica e preservação de fluxos comerciais globais. A paciência — poderíamos dizer assim — tem o protagonismo. A confrontação direta com os EUA, especialmente em cenários que não afetam diretamente seus interesses vitais, é sistematicamente evitada. Ainda que Pequim reafirme, em fóruns multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU), o princípio da não-intervenção e da soberania estatal, sua atuação concreta demonstra que tais princípios funcionam mais como instrumentos discursivos do que como fundamentos inegociáveis de ação política.

Nesse contexto, o pragmatismo estratégico adotado pela Rússia e também pela China produz efeitos diretos sobre a credibilidade e a coesão do Brics enquanto bloco. Embora o agrupamento tenha sido concebido como um espaço de articulação entre potências emergentes — com potencial para contrabalançar a hegemonia ocidental e defender uma ordem internacional mais multipolar —, sua atuação concreta revela limitações estruturais profundas. A ausência de respostas coordenadas diante de crises que envolvem diretamente a soberania de um de seus parceiros estratégicos evidencia que o Brics opera mais como uma plataforma de convergência econômica e simbólica do que como um ator político coeso.

Lógica seletiva

Os comportamentos de Moscou e de Pequim reforçam essa fragilidade. Ao priorizarem seus interesses nacionais imediatos (e evitarem custos elevados em nome de uma ação coletiva), ambos sinalizam que o compromisso com o bloco é condicionado e, sobretudo,  utilitarista. As diretrizes que orientam suas políticas externas, embora racionais a partir do ponto de vista estatal, enfraquecem a capacidade de o Brics se afirmar como alternativa realmente efetiva ao poder do Ocidente. Sem mecanismos objetivos de solidariedade política, de defesa mútua ou de ação coordenada em crises internacionais — como a que ocorre neste momento após a invasão da Venezuela pelos EUA — o bloco permanece limitado a declarações genéricas e à cooperação seletiva.

Ademais, essa postura revela uma assimetria interna que compromete a legitimidade do Brics como projeto de governança global. Rússia e China — enquanto potências com maior capacidade material — tendem a utilizar o bloco como instrumento complementar de suas próprias ambições, e não como espaço de construção de posições comuns fortalecedoras do Norte Global. Essa dinâmica gera desconfiança entre os demais membros, ao tempo em que reduz o potencial do Brics de atuar como fórum capaz de defender (de forma consistente) princípios como soberania, não-intervenção e reforma das instituições internacionais.

Assim, o pragmatismo russo e chinês, ao evitar confrontos diretos e custos elevados, contribui paradoxalmente para esvaziar o discurso político do Brics. O bloco permanece relevante no campo econômico e financeiro, mas incapaz de transformar afinidades retóricas em ação coletiva concreta (uma grande pena!). Essa limitação, além de  enfraquecer sua projeção internacional, expõe a grande dificuldade de construir uma alternativa sistêmica em um ambiente internacional ainda fortemente marcado pela lógica do poder, da hierarquia e do interesse nacional.

Diante desse quadro, Donald Trump avança. Sua política externa — marcada pelo unilateralismo e pela instrumentalização da força — encontra um ambiente internacional permissivo, no qual a retaliação efetiva é substituída por comunicados oficiais e apelos diplomáticos. Desse modo, o sistema internacional deixa de funcionar como um mecanismo de contenção e é convertido em espaço de administração de danos, no qual violações são toleradas desde que não ameacem diretamente os interesses centrais dos demais atores hegemônicos.

O caso venezuelano, portanto, evidencia a substituição do direito internacional por uma lógica seletiva de poder, a partir da qual normas são aplicadas ou suspensas, conforme a posição relativa dos Estados envolvidos. Ao não interromperem a escalada estadunidense, a Rússia e a China protegem seus próprios interesses imediatos, ao tempo em que reforçam uma estrutura internacional em que a força se sobrepõe à legalidade (apesar de seus discursos).

Muitos e muitas poderão me adjetivar de “excessivamente pessimista”. A ausência de perspectivas mais promissoras não decorre de uma postura cética gratuita da minha parte, mas da observação recorrente dos padrões que estruturam o sistema internacional contemporâneo. Não vislumbro (no horizonte imediato) o surgimento de mecanismos capazes de reverter esse quadro. Vejo a consolidação de uma ordem internacional marcada pela normalização da exceção, pela relativização do direito e pela crescente tolerância à violação de princípios fundamentais. Essa ausência de “luz no fim do túnel”, portanto,  não é uma conclusão emocional, mas uma constatação (racional) diante de um sistema que tem demonstrado notável capacidade de reproduzir suas próprias assimetrias.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

(*) Leia também “Traição? Aliança com EUA? Desmontando a operação psicológica de Trump e as falácias anti-chavistas“, aqui

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