(José Neto, in comentários na Estátua de Sal, 25/10/2023)

Uma borboleta bate as asas em Pequim,
e gera-se uma tempestade em Central Park.
Esta simples frase que pretende sintetizar a Teoria do Caos serve perfeitamente para descrever sucintamente a sucessão de acontecimentos desencadeados pelo velho louco Joe Biden desde a sua eleição, e que em pouco tempo fizeram o mundo relativamente ordenado em que vivíamos entrar numa derrapagem irreversível rumo ao colapso total.
E convém aqui ressalvar que, se efetivamente essa ordem mundial que se encontrava estabelecida AB (Antes de Biden) não fosse na verdade uma ilusão de feira e estivesse realmente cimentada em alicerces sólidos e justos, se correspondesse de facto às legítimas aspirações dos povos do mundo global, ela não estaria agora a dissolver-se como farrapos de nuvens num céu de Verão.
Como na velha história para crianças, bastou que alguém gritasse aquilo que todos viam mas ninguém ousava admitir, que “o rei vai nu”. No mundo real esse relutante delator foi a Rússia de Putin. E não vem ao caso reconhecer que na verdade ele não teve outra opção. Só foi preciso que alguém com poder para fazer frente ao Império do ogre americano se perfilasse e fizesse cair a sua máscara de poderio invencível, conseguida às custas de pequenos países indefesos que ele destruiu sem piedade, para que múltiplas bolsas de resistência começassem a brotar em todos os continentes. Os oprimidos só precisavam de uma esperança.
Biden elaborou o plano de destruir a Rússia para vingar a derrota que esta lhe impusera na Síria, mas sem arriscar na empreitada os seus próprios exércitos, servindo-se da Ucrânia como alavanca e dos ucranianos como carne de canhão.
Na prossecução desse objetivo ele conseguiu arrastar a União Europeia, governada por políticos corruptos até à medula que durante décadas precisaram do apoio dos Estados Unidos para se manterem no poder e da estrutura da NATO para os proteger da ira dos seus próprios povos.
Sim, porque a NATO na verdade nunca teve o propósito de proteger o Ocidente coletivo de uma ameaça externa. Essa foi a verdadeira razão, quando Trump se lembrou de lançar a hipótese de acabar com esta organização, de se ter assistido a patéticas manifestações de um pânico generalizado entre os prostitutos disfarçados de “comentadores” que infestam os estúdios de televisão e os miseráveis pasquins nacionais, mas não só.
Eles não precisavam de se ter preocupado. O Estado Profundo americano nunca permitiria que Trump encerrasse a NATO porque ela é o mecanismo que assegura o controlo da Europa pelos Estados Unidos e a sua manutenção efetiva como colónia americana.
Bem, hoje já é possível concluir que o projeto longamente acalentado e cuidadosamente preparado da Hegemonia, para destruir a economia russa com base em sanções selvagens e numa derrota militar, demolir a estrutura política desse grande país e dividi-lo em pequenos estados pseudoindependentes governados por oportunistas corruptos desejosos de se submeter ao Império e lhe vender as suas riquezas minerais ao preço da chuva, e depois partir daí para uma guerra total para submeter militarmente a China, o seu verdadeiro grande rival mundial, falhou rotundamente.
Verificou-se que para já as elites europeias lacaias do Império Americano não tiveram grande sucesso nos seus muito afincados mas atabalhoados esforços para destruir a economia russa em ordem aos desejos do seu suserano. Antes a tornaram mais forte, equilibrada e autossuficiente. Mas em compensação fizeram um excelente trabalho de destruição das suas próprias economias.
Os resultados deste descalabro ainda irão fazer-se sentir inevitavelmente em território americano, dada a interpenetração das duas grandes economias neoliberais, mas levará o seu tempo. A grande crise americana, claramente latente mas ainda mascarada por uma demente utilização da “impressora virtual”, irá agudizar-se à medida que o dólar vier a perder progressivamente a sua influência nos mercados mundiais, como é o objetivo último assumido do movimento dos BRICS11+ dinamizado pala China.
A fracassada investida americana na Eurásia veio gerar ondas de choque que rapidamente se espalharam pelo mundo. A Rússia na verdade foi salva, nos primeiros tempos da guerra, pelos seus mais próximos aliados, a China, a Índia, o Irão e os países da OPEP, que impediram o colapso económico do colosso, mas a necessidade de evitar o próprio isolamento levou-a a estender laços de cooperação ao maior número possível de países, nomeadamente os africanos, recuperando assim a velha vocação da URSS que tinha sido esquecida. A reestruturação da Wagner e a recuperação desta força de elite privada para os objetivos geoestratégicos do Estado Russo insere-se nesta nova tendência.
E os franceses são as primeiras vítimas colaterais deste desenvolvimento ao serem positivamente enxotados das colónias africanas que mantinham pela surra através da manutenção no poder de governos corruptos traidores. Os ingleses provavelmente também não perdem pela demora.
Ao destapar as fragilidades da máquina de guerra ocidental e fazer desaparecer o mito da sua invencibilidade e capacidade de intervenção global na Ucrânia, a Rússia abriu caminho para o surgimento de movimentos patrióticos diversos que se encontravam adormecidos em diversas partes do mundo. É neste contexto que deve ser analisada a recente ofensiva do Hamas contra Israel. Ela é apenas mais uma tempestade virtual gerada pelas ações dementes do velho Biden. A Resistência palestiniana de Gaza estava à espera desta oportunidade e não é por acaso que a ofensiva começou a ser preparada há cerca de um ano, isto é, depois da intervenção russa na Ucrânia.
Sabemos que a colonização violenta da Palestina foi levada a cabo pelos ingleses e americanos em 1948 com o objetivo de satisfazer objetivos geoestratégicos destes países colocando um enclave ocidental no Médio Oriente. Mas ela teve também a cumplicidade da URSS de Estaline. Mais tarde os soviéticos pareceram ter compreendido que tinham ajudado a criar um monstro, mas era tarde.
A URSS permitiu e facilitou a partida para Israel de muitos judeus, que nunca tinham sido perseguidos na Rússia mas acreditaram no sonho da recriação de uma pátria judaica. Como muitas vezes acontece, esse foi um sonho lindo que com o tempo acabou por virar pesadelo.
Hoje, cerca de 30% da população de Israel é de ascendência russa e metade deles usam ainda o russo como língua principal. Têm familiares e negócios em território russo e em território israelita e não me parece que de uma maneira geral eles sejam muito próximos da causa palestiniana. O dinheiro circula abundantemente entre os dois estados e isso gera prosperidade mútua. Os serviços de Inteligência de Israel e da Rússia colaboram assiduamente no combate ao radicalismo islâmico, que constitui uma preocupação para os dois países. A Rússia permite, contrariando os seus próprios serviços militares, o bombardeamento de posições do Hezbollah, do Irão e do próprio Governo local na Síria, traindo desta forma os seus próprios aliados. Putin é assumidamente amigo pessoal de Netanyahu, o que faz dele um declarado sionista.
Bem, este estado de coisas era perfeitamente natural quando a Rússia se esforçava infantilmente por criar laços de cooperação e amizade com a União Europeia e Putin ainda acalentava o seu sonho lindo e estúpido de aproximar a Europa da Rússia dando aos europeus a energia barata que lhes permitia preservar artificialmente o seu nível de vida. Esse erro crasso de análise levou-o a seguir por mais de vinte anos um percurso político completamente errado. Ele devia ter tirado corretas ilações das incontáveis provocações que a Rússia foi recebendo, às custas dos seus aliados, dos seus artistas, dos seus desportistas, etc.
Bem, ao provocar uma irremediável rotura entre a Rússia e a Europa, Biden conseguiu finalmente colocar Putin no caminho certo. A Rússia foi obrigada a redirecionar a sua economia e a sua solidariedade institucional para a Ásia e para os países do Sul Global. O facto de ela ser hoje um país líder do movimento BRICS11+ é completamente incompatível com a sua proximidade ao regime colonialista de Israel. Os seus novos aliados no Oriente Médio nunca lhe perdoariam e a Rússia agora precisa deles para sobreviver.
Por mais de um ano, o Hamas preparou, em segredo uma ofensiva contra Israel para alcançar seis objetivos:
1. Demonstrar quão inferior é o exército israelita, quão vulnerável, quão incompetente é a sua inteligência sobre o mundo árabe. Isto foi conseguido através do ataque inicial de 7 de Outubro.
2. Demonstrar o plano israelita de limpeza étnica de Gaza, o genocídio contra os árabes e a incorporação de todos os territórios ocupados por Israel num único estado sionista teocrático.
3. Resistir ao esperado contra-ataque israelita durante tempo suficiente para ativar as forças do Hezbollah na frente norte do Líbano; Forças sírias e iranianas na frente oriental do Golã; e os palestinos da Cisjordânia, incluindo os palestinos jordanianos; os alvos deste último serão as bases aéreas e terrestres blindadas dos EUA na Jordânia.
5. Obrigar os xeiques vacilantes a resistirem à pressão dos EUA; limitar o fornecimento de petróleo e gás aos mercados inimigos; impedir que bases terrestres regionais e permissões de trânsito aéreo sejam ativadas em apoio a Israel.
6. Por último, envolver as potências nucleares amigas – Rússia, China – para dissuadir e, se necessário, combater as forças dos EUA na região e a ameaça de Israel de disparar as suas armas nucleares.
Até agora parece estar tudo a correr bem.
Os EUA nunca aceitarão perder o seu enclave na região porque isso representaria para eles uma derrota estratégica fatal. Eles enviaram dois porta-aviões para o local, equipados com cerca de 750 mísseis Tomahawk capazes de atingir grande parte do território russo. Por essa razão os russos equiparam vários MiG-31 com mísseis Kinzhal capazes de destruir num ápice os porta-aviões americanos e puseram-nos em prevenção total. Eles avisaram os americanos desse facto e acrescentaram que isso “não é uma ameaça”. Segundo o analista John Elmer, “em russo”, quando se diz que alguma coisa não é uma ameaça, isso quer dizer que é mesmo.
A frota russa baseada em Tartous, na Síria, está no mar. No momento, há possivelmente muito mais navios chineses da 44ª Força-Tarefa de Escolta Naval no Golfo Pérsico com capacidades anti superfície, antissubmarino e de mísseis antiaéreos de destroyer Tipo-052D e fragata Tipo-054. A importância desta barreira chinesa para dissuadir um ataque de mísseis e aviões EUA-Israel ao Irão tem sido ignorada pela Imprensa internacional.
As potências posicionam as suas peças no tabuleiro.
Segundo disse em tempos Yasser Arafat, durante uma visita ao Iraque de Saddam, Israel tem 240 ogivas nucleares apontadas para as principais capitais do mundo árabe. Israel é hoje governado por uma seita de fanáticos religiosos que em nada ficam a dever aos fundamentalistas islâmicos do ISIS. Se chegar o momento em que uma derrota militar dentro das suas próprias fronteiras se torne inevitável com ou sem ajuda americana, o que acham que vai acontecer? O que teria feito Hitler no final da II Guerra Mundial se tivesse uma arma assim? E o Imperador Hirohito do Japão?
Provavelmente, como Putin deu a entender recentemente no seu discurso do Clube Valdai, ainda que num contexto diferenciado, assim que o primeiro míssil nuclear israelita for detetado no ar Israel será reduzida a um monte de cinzas radioativas, incinerando judeus e palestinos para evitar um mal maior. Então, é melhor que os EUA tenham realmente um verdadeiro controlo sobre as forças armadas israelitas. O histórico dos americanos com as forças paramilitares que eles próprios criaram não é muito animador.
Se Biden, a velha borboleta louca, não tivesse batido as suas asinhas na Ucrânia, esta tempestade que assola o Médio Oriente, e que poderá muito bem ditar o fim do Estado de Israel, não teria acontecido, pelo menos neste momento. E o mundo não estaria perante mais uma porta de entrada para o apocalipse nuclear, talvez até muito mais perigosa e iminente do que aquela que foi aberta em solo ucraniano e que os russos parecem ter controlado.
A Teoria do Caos em toda a sua glória.
P.S. 1: Informação de apoio, na interessante análise do conceituado jornalista John Elmer aqui.
P.S. 2: Desculpem lá. Eu fico sempre um bocadinho apocalíptico quando o Benfica perde o jogo.
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