Israel desmascarou o Ocidente

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 05/11/2023)

Somos todos Israel!

O Ocidente, entendido como a civilização europeia com a sua matriz filosófica na Grécia e a sua interpretação do mundo a partir do Novo Testamento da Bíblia, do cristianismo, viveu sempre numa contradição entre os valores que racionalmente erigiu como os seus e que apregoava — uma ética — e a sua prática, subordinada aos interesses.

O Ocidente, os seus pensadores e os seus povos, tiveram sempre a noção do pecado enquanto violação dos mandamentos. Os grandes pensadores do Ocidente promoveram o conhecimento do homem enquanto ser racional, mas também enquanto ser ético, que a racionalidade deve ser o alimento da “boa vontade”. A eleição da boa vontade, do bem fazer, como fundamento para os homens serem julgados marcou a rutura entre o cristianismo e o judaísmo.

O cristianismo é uma religião (e uma filosofia) de redenção. A redenção cristã é um resgate de uma situação de “fora da lei” (pecado original) que se salva se cumprir os valores pregados por Cristo. A redenção não faz parte da filosofia do judaísmo. No judaísmo não existe a ideia de que que o relacionamento entre Deus e os seus fiéis precise ser restaurado. Por isso mataram o Cristo que se apresentou na Palestina a afirmar que vinha à Terra restaurar a ligação entre os homens e Deus, propondo a Paz. A fronteira entre o Antigo e o Novo Testamento é a fronteira entre a Guerra e a Paz. O deus dos judeus é o deus dos direitos dos seus fiéis — o Povo Eleito e a Terra Prometida. Os seus fiéis têm direito a tudo e podem fazer tudo para o conseguir. O deus do cristianismo é o deus dos deveres. O conflito que existe há mais de mil anos entre judeus e cristãos assenta no antagonismo entre direitos e deveres.

A filosofia do ocidente pós-socrático funda-se no dever e na ética. Kant é considerado o filósofo do Dever na civilização ocidental. E os ocidentais aceitaram (embora não o tenham praticado) que todo homem, quando diante de uma situação que exija escolha, faz (ou deve fazer) a pergunta: o que devo fazer para bem conduzir minha ação? Está subjacente à pergunta a busca por uma regra de conduta capaz de fornecer meios ao arbítrio para que a escolha seja da melhor ação a praticar. Isso demonstra que o homem ocidental se orienta pela noção do dever e a resposta tem que provir dela. A noção de boa vontade, fundada no princípio do dever, é aquela que se apresenta como regra de conduta na sociedade ocidental.

As nossas ações individuais ou coletivas podem ser consideradas sob um duplo ponto de vista: ou de uma vontade conforme à razoabilidade, ou de um ponto de vista de imposição de uma vontade até onde as inclinações e os meios disponíveis permitirem, sem limites.

A ação de Israel desde a sua fundação a meados do século vinte tem sido um contínuo atentado aos princípios do cristianismo da civilização ocidental. O Ocidente do pós-segunda Guerra aceitou a corrupção dos seus princípios e ganhos civilizacionais por razões conhecidas: sentimento de culpa pela Inquisição e pelo Holocausto, por interesses estratégicos, financeiros, económicos. O Ocidente tinha duas opções para se relacionar com Israel, ou escolhia o ponto de vista moral do cristianismo — dos deveres — e impunha as suas regras; ou agia motivado pelo princípio do interesse de que a melhor ação é a que sacia o desejo, o principio da prevalência dos direitos.

Não deixa de ser chocante ouvir políticos ocidentais referir o Direito Internacional, ou o Direito Comum a propósito do longo conflito entre o Estado Israel e os palestinianos para negar os direitos dos palestinianos e defender os interesses dos israelitas em nome do direito!

A política de Israel na Palestina é muito fácil de decifrar: uma limpeza étnica de um território para ali constituir um Estado totalitário, no sentido em que apenas serão cidadãos com direitos os que tenham o mesmo Deus, que cumpram os mesmos rituais, que se submetam aos mesmos rabis, que considerem os mesmos inimigos, que estejam dispostos a cometer os mesmos crimes em nome do interesse do mesmo Estado do Povo Eleito.

O apoio do Ocidente a esta política, com a hipócrita proposta dos dois estados — uma monstruosa falácia — que foi acompanhada com o discurso do “direito de defesa de Israel”, um estado ocupante a defender-se do ocupado! — deu ânimo a Israel para uma longa série de massacres e de crimes, de que o ataque a Gaza é o mais recente e o mais desumano episódio.

Mas, a desumanidade da ação de Israel na Palestina conduz a uma conclusão que cada um de nós, os do ocidente, como nos qualificou Camões, responderá de acordo com as suas convicções. O evidente é que o Estado de Israel, criado pelo Ocidente, impôs aos cristãos o Velho Testamento , impôs a sua religião de direito à violência. O Antigo Testamento contém mais de seis mil passagens que falam explicitamente sobre nações, reis ou indivíduos que atacam, destroem e matam.

Deuteronômio: “Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem-lhe primeiro uma proposta de paz. Se os seus habitantes aceitarem e abrirem as suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Mas se eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o Senhor, o seu Deus, a entregar em vossas mãos, matem ao fio da espada todos os homens que nela houver. Mas as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade, será de vocês; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos dados pelo Senhor, o seu Deus.

Já seria uma derrota civilizacional o Ocidente aceitar esta barbárie, que podia ser a descrição do que está a acontecer em Gaza, mas ela está associada à derrota do Estado Liberal que foi erigido na Europa à custa de tantos sacrifícios e sangue, da civilização associada aos direitos cívicos e políticos, à separação da religião do Estado, à revolução francesa, às modernas repúblicas.

O apoio “incondicional” a Israel é o apoio a um estado totalitário que tem os mesmos fundamentos dos estados islâmicos. Os políticos ocidentais, os intelectuais do sistema, os seus propagandistas estão a promover uma ordem e um tipo de sociedade de violência, de negação da liberdade, de sujeição clerical, uma sociedade “talibânica”, que não se distingue da sociedade talmúdica ou corânica. Apoiar Israel é uma regressão política e civilizacional. Avanço seria integrar Israel no grupo dos estados laicos e igualitários, promover o fim do duplo apartheid, religioso e étnico. Racista, em suma.

Das três religiões do “Livro” apenas o cristianismo separou a religião do Estado, essa separação foi o interruptor que permitiu ao Ocidente tornar-se simultaneamente a sociedade tecnologicamente mais avançada do planeta, socialmente mas igualitária e politicamente mais diversificada. É desta civilização que estamos abdicar.

É esta assunção de derrota civilizacional que está em causa com o apoio a Israel, que a seguir a Gaza irá atacar a Cisjordânia, até reinventar e impor um fantasioso grande Israel! 

É assim que vocês tratarão todas as cidades distantes que não pertencem às nações vizinhas de vocês… (imagem da tomada de Jericó)


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O que é o HAMAS? (Parte I)

(José Catarino Soares, 06/11/2023)

Desfile das brigadas Izz al-Din al-Qassam em Gaza.

1. Caracterização

O HAMAS (aqui, e só desta vez, escrito em maiúsculas para lembrar que é o acrónimo árabe para “Movimento de Resistência Islâmica”) é um partido nacionalista, islamista (do ramo sunita), jihadista, teocrático, da Palestina. O seu lema resume bem o seu ideário:

«Alá é o nosso alvo, o Profeta é nosso modelo, o Corão é a nossa constituição, a Jihad é o nosso caminho e morrer por amor a Alá é o nosso desejo supremo» (artigo 8.º da Carta de Princípios do Hamas).

Fica claro, presumo, que a emancipação dos palestinianos nunca poderá ser alcançada pondo este lema em prática.

2. Composição

O Hamas tem três ramos distintos e autónomos: uma entidade caritativa (que estabeleceu e gere uma extensa rede de hospitais, escolas, jardins-de-infância, orfanatos, bibliotecas, clubes juvenis e outros serviços sociais), criada em 1973; uma entidade política (que governa a Faixa de Gaza desde 2006, administrativamente auxiliado pela Autoridade Nacional Palestiniana [1]), criada em 1987; e uma entidade militar (as brigadas Izz al-Din al-Qassam), criada em 1991.

3. O Hamas e a luta armada

Convém saber que a própria ONU reconhece, desde 3 de Dezembro de 1982, através da resolução 37/43 da sua 90.ª assembleia geral, a legitimidade de o povo palestiniano recorrer à luta armada para conquistar o seu direito à autodeterminação. As brigadas Izz al-Din al-Qassam são a maneira como o Hamas interpreta e dá corpo a essa luta armada.

Assim, estas brigadas empregam tácticas de guerrilha (TG) para combater as forças armadas e policiais de Israel, o Estado ocupante e opressor dos palestinianos. Todavia, empregam também tácticas terroristas (TT) contra a população civil israelita, o que constitui uma interpretação abusiva da resolução 37/43.

As TG incluem missões de reconhecimento especial; acções de sabotagem, destruição ou remoção de obstáculos; emboscadas; ataques com morteiros, foguetes, mísseis e drones; surtidas, operações de busca, resgate e salvamento — todas elas dirigidas, regra geral, contra alvos militares e policiais. As TT incluem (tt.1) ataques suicidas, cujo êxito, depende, necessariamente, da morte do(s) agente(s) atacante(s) (e.g. homens-bomba); (tt.2) missões quase suicidas, nas quais os perpetradores podem ou não morrer pelas suas próprias mãos (e.g. sequestro de um avião ou de um navio); (tt.3) colocação furtiva de diferentes tipos de engenhos explosivos improvisados em locais frequentados ou utilizados por muita gente (e.g., centros comerciais, esplanadas, autocarros, aviões), (tt.4) acções terroristas com alvos altamente remuneradores [na lógica do terrorismo [2]] (e.g., assassinatos selectivos; rapto, sequestro e troca de reféns) — todas elas dirigidas, regra geral, contra elementos, grupos e organizações da sociedade civil.

4. Divergências na caracterização do Hamas

O sistema mediático dominante de comunicação social do “Ocidente alargado” (SMDCSOA para abreviar) faz vista grossa sobre a estrutura tripartida do Hamas. Armado com esta análise vesga, faz questão de nos repetir todos os dias que o Hamas é, tão-somente, uma organização terrorista — o que já vimos ser um erro, mesmo se reduzíssemos o Hamas apenas às brigadas Izz al-Din al-Qassam.  Além disso, apresenta essa caracterização defeituosa como se ela fosse universalmente aceite. Mas isso também não é verdade.

Não há unanimidade entre os Estados que fazem parte da ONU sobre a caracterização do Hamas. Por exemplo, Israel, EUA, UE (Portugal inclusive), Canadá e Japão consideram o Hamas uma organização terrorista. Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Egipto consideram terrorista apenas o braço armado do Hamas: as brigadas Izz al-Din al-Qassam. Rússia, China, Turquia, Irão, Brasil, África do Sul e Noruega não consideram o Hamas (nem o seu braço armado) uma organização terrorista.

Para alguns comentadores do SMDCSOA, tanto os governantes dos países pertencentes aos dois últimos grupos, como os cidadãos dos países pertencentes ao primeiro grupo que compartilham a posição desses governantes neste particular, são “idiotas úteis do Hamas” [3].

5. Falhas analíticas

Pode discutir-se a razão de ser destas discrepâncias sobre a caracterização do Hamas, que são parcimoniosamente noticiadas pelo SMDCSOA. A meu ver, estão todas ligadas a duas falhas analíticas:

(i) a falha em reconhecer que o Hamas é semelhante a uma hidra com três cabeças. Se uma for cortada (as brigadas Izz al-Din al-Qassam, por exemplo), as outras duas não desapareceriam como por encanto, porque dispõem de uma forte base social de apoio: a resistência do povo palestiniano à opressão multiforme e sufocante do Estado de Israel.

(ii) a falha em distinguir TG e TT e em reconhecer que o Hamas, através do seu braço armado, emprega ambas.

Seja como for, o SMDCSOA nunca ou raramente nos dirá três coisas essenciais (ver secções 6, 7 e 9), sem as quais não é possível compreender a actuação do Hamas, incluindo o seu ataque em 7 de Outubro de 2023 (ver secção 8).

[continua]


Notas e Referências

[1] O Hamas governa a Faixa de Gaza com a ajuda da ANP (dirigida pela Al-Fatha, organização bem mais antiga e rival do Hamas) que co-financia e co-administra os serviços de saúde e de educação da Faixa de Gaza. Este facto é raramente mencionado nas análises sobre o Hamas e sobre Gaza. 

[2] A lógica do terrorismo consiste em planear e realizar com êxito acções violentas que causem medo intenso ou espalhem medo intenso na população que apoia os seus inimigos políticos e em conseguir fazê-lo de uma forma altamente remuneradora — isto é, que potencie ao máximo, nessa população, o efeito de terror resultante dos danos físicos causados às suas vítimas imediatas (que podem ser desproporcionalmente diminutos relativamente à grande intensidade e abrangência do terror que geram).

[3] Ver, por exemplo, Jorge Almeida Fernandes (doravante JAF, para abreviar), “Os idiotas úteis do Hamas.” (O Estado da Coisas. Público 3 de Novembro de 2023). Para este comentador, «As vítimas palestinianas dos bombardeamentos [de Israel] são de uma natureza muito diferente das vítimas do Hamas». Porquê? Porque (P1) umas vítimas, argumenta JAF, as vítimas de Israel, são o resultado de «efeitos colaterais» dos bombardeamentos; ao passo que (P2) as outras, as vítimas do Hamas, são o resultado de «assassínios planeados». Assim, deduz-se que, para este comentador, os governantes e militares de Israel não cometem crimes de guerra nem crimes contra a humanidade, só os dirigentes e combatentes do Hamas o fazem.  O conceito de “efeitos colaterais” de JAF é, como se vê, muito elástico porque inclui, por exemplo, os 72 funcionários da United Nations Relief and Works Agency (UNRWA), uma agência humanitária da ONU, e as 3.648 crianças e menores vítimas mortais dos bombardeamentos israelitas em Gaza desde 8 de Outubro de 2023.

Mas só não vê quem não quer que estes bombardeamentos são «assassínios planeados» em grande escala e a grande distância, assassínios por atacado — mas que podem também tomar uma forma mais personalizada, como acontece amiúde. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, declarou a propósito de um dos mais recentes desta última espécie: «Estou horrorizado com o ataque em Gaza [de 3 de Novembro] contra uma caravana de ambulâncias à porta do hospital Al Shifa. As imagens de corpos espalhados na rua em frente ao hospital são angustiantes», disse, acrescentando: «Há quase um mês que os civis em Gaza, incluindo crianças e mulheres, estão sitiados, não recebem ajuda, são mortos e bombardeados fora das suas casas». (“Israel admits airstrike on ambulance near hospital that witnesses say killed and wounded dozens.”CNN, November 4, 2023). Presumo que Guterres, será, para JAF, um dos «idiotas úteis do Hamas». É uma conclusão que faz sentido, se admitirmos as suas premissas, (P1) e (P2). Todavia, para entendermos o qualificativo de “idiota útil” que JAF emprega na sua análise do conflito israelo-palestiniano, faz também todo o sentido aplicar a JAF a distinção que ele faz da natureza das vítimas palestinianas de Israel e das vítimas israelitas do Hamas, mas sem aceitar (como ele pretende) que umas valem menos do que as outras quando as contamos. Se o fizermos, chegamos à conclusão de que JAF se coloca do lado do contendor mais poderoso, mais mortífero e mais impiedoso — ou seja, para empregar a sua própria terminologia, que ele se assume como “um idiota útil de Israel”; quiçá (presumo) com muita honra e orgulho de o ser.


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A Solução Final de Israel para os palestinianos

(Chris Hedges, in The Chris Hedges Report, 03/11/2023, trad. Estátua de Sal)

Quando extremistas judeus, sionistas fanáticos, fanáticos religiosos, ultranacionalistas e criptofascistas no estado de apartheid de Israel dizem que querem varrer Gaza da face da terra, acreditem neles.


Cobri o nascimento do fascismo judeu em Israel. Reportei sobre o extremista Meir Kahane , que foi impedido de concorrer a um cargo público e cujo Partido Kach foi proibido em 1994 e declarado uma organização terrorista por Israel e pelos Estados Unidos. Participei em comícios políticos realizados por Benjamin Netanyahu, que recebeu generosos fundos da direita norte-americana, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que estava a negociar um acordo de paz com os palestinianos. Os apoiadores de Netanyahu gritavam “Morte a Rabin”. Eles queimaram uma efígie de Rabin vestido com uniforme nazi. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado de Rabin.

O primeiro-ministro Rabin foi assassinado em 4 de novembro de 1995 por um judeu fanático. A viúva de Rabin, Lehea, culpou Netanyahu e os seus apoiantes pelo assassinato do seu marido.

Netanyahu, que se tornou primeiro-ministro em 1996, passou a sua carreira política a apoiar extremistas judeus, incluindo Avigdor Lieberman , Gideon Sa’ar , Naftali Bennett e Ayelet Shaked . Seu pai, Benzion – que trabalhou como assistente do pioneiro sionista Vladimir Jabotinsky, a quem Benito Mussolini se referiu como “um bom fascista” – era líder do Partido Herut que apelou ao Estado judeu para tomar todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos que formaram o Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut numa declaração publicada no The New York Times como um “partido político intimamente semelhante na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos nazis e fascistas. ”

Sempre houve uma tendência de fascismo judaico dentro do projeto sionista. Agora ela assumiu o controle do Estado israelense.

“A esquerda já não é capaz de superar o ultranacionalismo tóxico que evoluiu aqui”, advertiu Zeev Sternhell, um sobrevivente do Holocausto e a principal autoridade de Israel no fascismo, avisou em 2018, “o tipo de fascismo cuja estirpe europeia quase eliminou a maioria do povo judeu”.  Sternhell acrescentou: “[Vemos] não apenas um crescente fascismo israelita, mas também um racismo semelhante ao nazismo nas suas fases iniciais”.

A decisão de destruir Gaza tem sido o sonho dos criptofascistas de Israel, herdeiros do movimento de Kahane. Estes extremistas judeus, que constituem o governo de coligação no poder, estão a orquestrar o genocídio em Gaza, onde centenas de palestinianos morrem diariamente. Eles defendem a iconografia e a linguagem do seu fascismo local. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas do sangue e da terra. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amonitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Os inimigos – geralmente muçulmanos – prestes a serem extintos são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação que aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico compreendem. Milhões de muçulmanos e cristãos, incluindo aqueles com cidadania israelita, serão expurgados.

Um documento de 10 páginas vazado do Ministério da Inteligência de Israel, datado de 13 de outubro de 2023, recomenda a transferência forçada e permanente dos 2,3 milhões de residentes palestinos da Faixa de Gaza para a Península do Sinai, no Egito.

É um grave erro não levar a sério os apelos horripilantes à erradicação generalizada e à limpeza étnica dos palestinianos. Esta retórica não é hiperbólica. É uma prescrição literal. Netanyahu, num tweet, posteriormente removido, descreveu a batalha com o Hamas como uma “luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva”.

Estes fanáticos judeus começaram a sua versão da solução final para o problema palestiniano. Eles lançaram 12 mil toneladas de explosivos em Gaza nas primeiras duas semanas de ataque para destruir pelo menos 45 por cento das unidades habitacionais de Gaza, de acordo com o escritório humanitário da ONU. Eles não têm intenção de serem parados, nem mesmo por Washington.

“Tornou-se evidente para as autoridades dos EUA que os líderes israelitas acreditavam que as baixas civis em massa eram um preço aceitável na campanha militar”, informou o The New York Times .

“Em conversas privadas com homólogos americanos, as autoridades israelitas referiram-se à forma como os Estados Unidos e outras potências aliadas recorreram a bombardeamentos devastadores na Alemanha e no Japão durante a Segunda Guerra Mundial – incluindo o lançamento das duas ogivas atómicas em Hiroshima e Nagasaki – para tentar derrotar esses países ”, continuou o jornal.

O objectivo é um Israel “puro”, limpo da contaminação palestiniana. Gaza vai tornar-se um deserto. Os palestinianos em Gaza serão mortos ou forçados a viver em campos de refugiados ao longo da fronteira com o Egipto. A redenção messiânica terá lugar quando os palestinianos forem expulsos. Os extremistas judeus pedem que a mesquita de Al-Aqsa – o terceiro santuário mais sagrado para os muçulmanos, construído sobre as ruínas do Segundo Templo judaico, que foi destruído em 70 d.C. pelo exército romano – seja demolida. A mesquita será substituída por um “Terceiro” templo judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, a que os fanáticos chamam “Judéia e Samaria”, será formalmente anexada por Israel. Israel, governado pelas leis religiosas impostas pelos partidos ultra-ortodoxos Shas e Judaísmo da Torá Unida, será uma versão judaica do Irão.

É um pequeno passo para o controlo total de Israel sobre as terras palestinas. Os colonatos judaicos ilegais de Israel, as zonas militares restritas, as estradas fechadas e os complexos militares tomaram mais de 60 por cento da Cisjordânia, transformando cidades e aldeias palestinianas em guetos cercados. Existem mais de 65 leis que discriminam, directa ou indirectamente, os cidadãos palestinianos de Israel e aqueles que vivem nos territórios ocupados. A campanha de matança indiscriminada de palestinianos na Cisjordânia, muitos deles perpetrados por milícias judaicas desonestas, juntamente com a demolição de casas e escolas e a apreensão das restantes terras palestinianas, irá aumentar de forma exponencial. Mais de 133 palestinos foram mortos na Cisjordânia pelo exército israelita e por colonos judeus desde a incursão do Hamas em 7 de outubro e milhares de palestinos foram detidos pelos militares israelitas, espancados , humilhados e presos.

Israel, ao mesmo tempo, está a virar-se contra “traidores Judeus ” que se recusam a abraçar a visão demente dos fascistas Judeus no poder e que denunciam a horrível violência do Estado. Os inimigos familiares do fascismo – jornalistas, defensores dos direitos humanos, intelectuais, artistas, feministas, liberais, a esquerda, homossexuais e pacifistas – já estão a ser alvo de ataques. O judiciário, segundo planos apresentados por Netanyahu, será castrado. O debate público murchará. A sociedade civil e o Estado de direito deixarão de existir. Aqueles considerados “desleais” serão deportados .

Os fascistas não respeitam a santidade da vida. Os seres humanos, mesmo os de sua própria tribo, são dispensáveis para construir sua utopia desequilibrada. Os fanáticos no poder em Israel poderiam ter trocado os reféns detidos pelo Hamas pelos milhares de reféns palestinianos detidos nas prisões israelitas, razão pela qual os reféns israelitas foram apreendidos.

 E há provas de que nos combates caóticos que ocorreram quando os militantes do Hamas entraram em Israel, os militares israelitas decidiram visar não apenas os combatentes do Hamas, mas também os prisioneiros israelitas que os acompanhavam.

“Vários novos testemunhos de testemunhas israelitas do ataque surpresa do Hamas de 7 de Outubro ao sul de Israel acrescentam provas crescentes de que os militares israelitas mataram os seus próprios cidadãos enquanto lutavam para neutralizar os homens armados palestinianos”, escreve Max Blumenthal no The Grayzone .

Tuval Escapa, membro da equipe de segurança do Kibutz Be’eri, observa Blumenthal, criou uma linha direta para fazer a coordenação entre os residentes do kibutz e o exército israelita.

Escapa disse ao jornal israelita Haaretz que, à medida que o desespero começou a instalar-se, “os comandantes no terreno tomaram decisões difíceis – incluindo bombardear casas com os seus ocupantes, a fim de eliminar os terroristas juntamente com os reféns”.

O jornal noticiou que os comandantes israelitas foram “obrigados a solicitar um ataque aéreo” contra as suas próprias instalações dentro da passagem de Erez para Gaza “a fim de repelir os terroristas” que tinham tomado o controlo . Essa base abrigava oficiais e soldados da Administração Civil israelita.

Israel, em 1986, instituiu uma política militar chamada Directiva Aníbal , aparentemente nomeada em homenagem ao general cartaginês que se envenenou em vez de ser capturado pelos romanos, após a captura de dois soldados israelitas pelo Hezbollah. A directiva destina-se a evitar que as tropas israelitas caiam em mãos inimigas através do uso máximo da força, mesmo ao custo de matar os soldados e civis capturados.

A diretiva foi executada durante o ataque israelita a Gaza em 2014, conhecido como Operação Margem Protetora. Os combatentes do Hamas em 1 de agosto de 2014 capturaram um oficial israelita, o tenente Hadar Goldin. Em resposta, Israel lançou mais de 2.000 bombas, mísseis e projéteis na área onde estava detido. Goldin foi morto junto com mais de 100 civis palestinos. A diretiva foi supostamente rescindida em 2016.

Gaza é o começo. A Cisjordânia é a próxima .

Os israelitas que aplaudem o pesadelo palestiniano irão em breve enfrentar o seu próprio pesadelo.

Fonte aqui


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