(Vicente Ferreira, in Blog Ladrões de Bicicletas, 18/03/2024)
Uma semana depois das eleições legislativas, este título pode parecer estranho. Embora ainda faltem contar os votos dos emigrantes, com a derrota do PS e o aumento da votação da direita, tudo indica que teremos um governo liderado pelo PSD e apoiado pela IL e pelo CH…
(Paul Craig Roberts, in PaulCraigRoberts.org, 18/03/2024, Trad. Estátua de Sal)
(Não, este artigo não é escrito por nenhum espião de leste ao serviço de Putin, mas por alguém que conhece por dentro e por fora todos os meandros da política americana, tendo mesmo feito parte do governo dos EUA, sob a presidência de Ronald Reagan. Sobre a superioridade da “democracia” americana, estamos pois conversados.
Estátua de Sal, 18/03/2024)
Com uma afluência às urnas de 75%, 87% dos eleitores votaram em Putin. Não, a eleição não foi falseada. Os americanos estão tão habituados a que as suas eleições sejam manipuladas que pensam que as eleições de todos os outros países também o são. A puta da comunicação social americana começou imediatamente a entoar o cântico necessário: “uma eleição suspeita”. É claro que as eleições americanas nunca são suspeitas, nem mesmo quando, a coberto da escuridão, os totais de votos são subitamente invertidos.
A afluência às urnas é elevada na Rússia porque Putin, tal como Ronald Reagan e ao contrário de Biden, é um líder que se concentra na unificação do país. De uma perspetiva nacional russa, há pouco ou nada a discordar de Putin.
O seu recente discurso ao povo russo mostra a sua preocupação, bem como as medidas activas que está a implementar para apoiar as famílias e os soldados. É raro um país ter um líder que não esteja a tentar sobreviver no cargo ou a usá-lo para seu benefício pessoal.
Não há esperança para as relações entre os EUA e a Rússia. O orçamento e o poder do complexo militar/segurança dos EUA, um poderoso lobby que engloba a indústria de armamento, o Congresso eleito por contribuições de campanha, a CIA e o FBI, dependem de ter um inimigo. A Rússia é o inimigo de eleição. Os americanos foram treinados durante décadas de Guerra Fria para a existência de uma “ameaça russa”.
Outra razão é que a política externa dos EUA no Médio Oriente é controlada pelo lobby de Israel, que só perde em poder para o complexo militar/segurança dos EUA e que muitas vezes está unido com ele. Os interesses de Israel no Médio Oriente são completamente diferentes dos interesses da Rússia. O interesse de Israel é a destruição do Irão, o que abriria caminho para os “jihadistas” da CIA entrarem na Federação Russa e nas antigas províncias da Ásia Central da União Soviética. Em vez de uma Ucrânia, haveria muitas.
Putin fundamenta-se no conceito de bem e do mal. Ele está a aprender que, contra o Ocidente, ele enfrenta o mal. A Igreja russa também vê as coisas dessa forma e apoia-o.
Alguns russos ainda são influenciados pela propaganda americana da “Voz da América” e da “Rádio Europa Livre” do tempo da Guerra Fria do século XX. Mas, como demonstram a anterior falta de apoio político a Alexei Navalny e a ausência de apoio aos adversários de Putin, o povo russo compreende que enfrenta uma ameaça do Império de Washington, cuja resposta exige unidade nacional.
Entretanto, nos EUA, os Democratas e as corporações têm as fronteiras escancaradas para substituir os trabalhadores americanos de custo mais elevado e os votantes no Partdo Republicano. A unidade na América e em todo o mundo ocidental foi destruída pela política de identidade (NT). No mundo ocidental, nenhum governo representa a base étnica do país. Os governos representam apenas os interesses da elite dominante. Trump tentou mudar isso, e vimos o que lhe aconteceu.
(Nota do tradutor): A política de identidade é uma política baseada numa identidade específica, como a raça, a nacionalidade, a religião, o género, a orientação sexual, a origem social, a casta ou a classe social.
(Whale project, in Estátua de Sal, 16/03/2024, revisão da Estátua)
(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Miguel Castelo Branco, sobre o envio de 100 milhões de euros para a Ucrânia, (ver aqui). Pela sua atualidade resolvi dar-lhe destaque.
Estátua de Sal, 17/03/2024)
Se as eleições tivessem sido em Março, ou em Abril de 2022, tinha sido pior ainda.
O Bloco de Esquerda, após a Guerra do Iraque, tratou de arrepiar caminho e engolir todas as narrativas do Natostão.
Foi assim na campanha de destruição da Líbia, foi assim na Síria, foi assim, até com a justificação que usaram para o ato meio tresloucado do Trump, ao assassinar o General iraniano Qasem Soleimani. Afinal de contas, diziam os bloquistas, o homem não tinha feito nada pela democracia. Presumo que isso justificaria alguém ser assassinado. A esse título, metade da população mundial poderia ser morta.
Na guerra da Ucrânia trataram de manifestar, desde a primeira hora, a solidariedade sem reservas aos pobres ucranianos e a condenação total da Rússia.
Foi assim que conseguiram evitar os ataques cerrados dos comentadeiros a soldo da hierarquia e manter o seu eleitorado. Afinal, não vem mal ao mundo num partido que defende os pobrezinhos e uns salários mais decentes, mas não toca nas grandes narrativas dominantes.
Ora, o que o Partido Comunista disse acabou por não ser muito diferente do que disse o Papa Francisco, quando referiu que, talvez a guerra não tivesse acontecido, se a NATO não andasse a ladrar às portas da Rússia. E tratou de ressalvar que em nada se identifica com o regime oligárquico de Putin, mas que era preciso reconhecer que havia forças sinistras na Ucrânia – nomeadamente nazis -, e que um país como a Rússia – que muitas vidas perdeu para o nazismo -, devia sentir-se ameaçado, já que a NATO tudo fez para que a guerra acontecesse. Em nenhum momento o PCP deu qualquer apoio expresso ou tácito à invasão russa, apenas disse que a dita não nasceu do nada, mas sim de um processo de provocação que começou, pelo menos em 2014.
Claro que, como esse partido é uma verdadeira pedra no sapato da oligarquia que nos faz perder direitos todos os dias, a nossa comunicação social, detida pelos nossos oligarcas, tratou logo de arregimentar os comentadeiros para fazer a colagem e criar a identidade, comunistas = putinistas. E, tal era tanto a verdade e ficava provada, pelo facto do Partido Comunista Russo ter apoiado a invasão. A sério, houve quem dissesse isso.
O que não deixa de ser caricato. A invasão russa foi-nos vendida como um ato solitário e tresloucado de um homem que se sabia à beira da morte por cancro, e queria, de algum modo, ficar na História. Mas depois já os comunistas portugueses deviam pagar porque os comunistas russos tinham apoiado a suposta decisão tresloucada e solitária de Putin. Aí, já não era suposto, até terem tido medo de serem mortos por aquele temível envenenador.
Ora, no caso dos comunistas russos, e de todos os outros partidos com assento na Duma, em Fevereiro de 2022 toda a gente sabia que haveria uma grande invasão ao Donbass. Dirigentes banderistas prometiam o massacre de pelo menos um milhão de pessoas e a expulsão das restantes para a Rússia.
E, desde 16 de Fevereiro de 2022, a coisa estava bem encaminhada. A artilharia começou a atacar forte e feio e as explosões chegaram a ser reportadas pelos nossos media como festejos com fogo-de-artifício, pelo facto de Putin finalmente ter reconhecido a independência daquelas regiões da Ucrânia.
A verdade é que nenhum partido russo – por muito amante da paz que fosse, ou se afirmasse -, queria ter às costas o ónus da morte de um milhão de pessoas, violações, torturas, expulsão dos sobreviventes e todas as malfeitorias provocadas pelo modo de atuação já demonstrado pelos bandeiristas. Seria um saldo mortal para qualquer partido, e até para Putin, que talvez enfrentasse aí a revolta popular e militar, que nós tentamos instilar com as sanções.
Eu queria ver o que faria o garnisé cantante Macron, o cara de pão ralo do Scholz, ou até a senhora de cabelo lambido Van der Pfizer, se se vissem ante a possibilidade de enfrentar, em tempo curto, um pelotão de fuzilamento ou o fundo da Sibéria. Talvez tratassem de renunciar e deixar a outro o pepino.
Por cá, o PCP foi logo vilipendiado e mais ainda quando, no 25 de Abril, os deputados comunistas não quiseram engolir o sapo de ouvir o que o liberticida Zelensky – que por lá, na Ucrânia, atacava os comunistas com a fúria dos nazis -, tinha a dizer na nossa casa da democracia. Justamente no dia em que festejávamos a queda de um regime, semelhante ao que ele instituiu na Ucrânia, já antes da invasão russa. Esta, deu lhe o mote para avançar mais ainda, ilegalizando tantos partidos – ao que consta, doze -, mas já antes opositores desapareciam, eram assassinados em plena rua, tinham de fugir para a Rússia ou iam malhar com os ossos na cadeia. Cadeias, que são muito más para a saúde e, onde as mortes são tantas, que é preciso cremarem os mortos.
Pois foi este traste que os deputados bloquistas ficaram a ouvir, enquanto os deputados comunistas trataram de se poupar da azia de ficar a ouvir o carrasco dos comunistas ucranianos. Mas, aos bloquistas, não fez nenhuma mossa o destino dos esquerdistas ucranianos. Já para não falar de outras minorias para eles tão queridas.
São escolhas e, temos de concluir que em termos de ganhos eleitorais, a escolha bloquista, desde a destruição da Líbia, é a mais acertada. Esta escolha contribuiu, em muito, para os comunistas serem mais uma vez os maus da fita, só faltou o comem criancinhas.
Assim, até tivemos um fascista ucraniano a pedir, em direto na televisão, a ilegalização do PCP e a perguntar como é que era possível ainda haver em Portugal um partido comunista, sem que ninguém, mesmo à esquerda, o mandasse para a senhora mal comportada que o desovou. Nas rodas de bêbados, de onde certamente saíram muitos dos votos do Chega, ouviam-se, desde pedidos da tal ilegalização, até à deportação para a Rússia de todo aquele que fosse militante comunista. Em frente a algumas sedes do PCP foram colocados verdadeiros altares em homenagem às vítimas da guerra na Ucrânia, na Ucrânia ocidental, bem entendido, as paredes pintadas com slogans de todo o tipo. E, como se viu, a campanha resultou em pleno. Claro que alguma coisa falhou na campanha comunista, que nunca conseguiu desconstruir esta narrativa aldrabona e nefasta.
Mas se o PCP ainda teve alguma votação foi mesmo porque as pessoas começam a estar fartas da Ucrânia. Sonharam com uma guerra rápida e agora veem- se perante um conflito que ninguém arrisca dizer como acabará. Estão fartas de perder dinheiro e direitos porque é preciso ajudar a Ucrânia. Não fosse isso e, talvez, tivessem tido o mesmo destino que o CDS teve nas eleições de 2022.
Destino que os comentadeiros continuam a vaticinar: “Ainda não foi desta que corremos os comunas do Parlamento, mas para a próxima é que é”. A ver vamos, como diz o cego.