Os paladinos da guerra perfeita

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 18/05/2024)

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Não cessa de me surpreender a indiferença dos nossos eleitos políticos, do Governo e da oposição, mergulhados em trivialidades, perante a questão existencial da paz e da guerra. A maior ameaça à nossa existência coletiva reside no silêncio e cumplicidade de quem nos governa e representa, perante aqueles, ao nosso lado, que alimentam o rastilho aceso à espera de explodir em todo o Velho Continente. O atentado contra Robert Fico – PM eslovaco e uma voz dissidente no consenso belicista da NATO -, ou a repetição na Geórgia dos protestos ao estilo de Kiev em 2013, são sintomas da catástrofe em marcha.

A Rússia domina o campo de batalha. Contudo, como sempre escrevi, num conflito em que estão envolvidas quatro potências nucleares, a paz só poderá nascer do primado da política sobre as armas. Em cima da mesa deveria estar a necessidade de travar a escalada, cessar os combates, e assinar tréguas duradouras.

Contudo, do lado ocidental prevalece um desordenado belicismo. Na Suíça vai realizar-se, sem a Rússia, uma provocação disfarçada de Conferência de Paz. Os EUA conseguiram desbloquear um novo e enorme empréstimo. Mais armas vêm a caminho. A “ambiguidade estratégica” de Macron parece traduzir-se no envio de efetivos da Legião Estrangeira para a frente ucraniana. Há dias, num lapsus linguae, o general norte-americano Bryan Fenton confirmou a presença de tropas especiais britânicas no campo de batalha. Cameron, encorajou Kiev a usar os mísseis britânicos contra alvos no interior da Rússia. Na Alemanha, o chanceler Scholz parece ser o único obstáculo ao recuperar da incendiária ideia de Zelensky, que colocaria a NATO a fechar o espaço aéreo ucraniano. No dia 13, falando para jovens, Jens Stoltenberg, SG da NATO, condicionou, num exercício de chantagem cruel, o apoio do Ocidente à reconstrução da Ucrânia, à exigência de este país “prevalecer” sobre a Rússia.

Em síntese, os aliados portugueses da NATO, têm como política a intensificação da guerra. Será que o PR, o PM e a AR não compreendem a loucura onde isto nos irá conduzir? A Ucrânia está a ser destruída, desde fevereiro de 2022, porque os EUA e a UE pensaram que a Rússia fazia bluff quando advertia que Kiev na NATO era uma linha vermelha. Se essa lição não foi aprendida e, em vez da diplomacia, insistirmos em guerrear a Rússia diretamente, não tenho dúvidas de que 2024 poderá ser o último ano da vida de muitos nós.

Portugal podia e deveria ser uma voz de moderação dentro da NATO. O que nos resta de soberania alimenta-se da capacidade de não cortarmos laços com um mundo, que fomos pioneiros a construir. O Governo e o Parlamento portugueses não têm nada a dizer sobre esta estulta estratégia da NATO? Apoiamos uma via de ação que, a ter sucesso, poderá fazer do nosso país um dos alvos mais prováveis de um ataque (não teríamos, ao contrário de Paris e Londres, meios de retaliação)? Será que a nossa democracia, nascida da coragem dos militares, irá perecer pela cobardia do poder civil?

Talvez fosse bom meditar nas palavras do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que em 2016 acabou com a longa Guerra Civil que opunha o Estado às FARC. Reagindo às críticas dos que o acusavam de não levar a julgamento os líderes dos guerrilheiros, ele afirmou:

“A paz perfeita não existe, porque a paz perfeita implica a justiça perfeita e a justiça perfeita torna impossível a paz. É uma paz imperfeita, mas sempre é melhor uma paz imperfeita que uma guerra perfeita.”

Robert Fico: O “canário na mina” – A metanarrativa europeia está a levar-nos ao desastre

(Por Alastair Crooke in Reseau International, 21/05/2024, Trad. Estátua de Sal)

(Não é estranho que os líderes políticos, que se opõem às narrativas do Ocidente na Ucrânia e/ou em Gaza, estejam a sofrer atentados ou a ter acidentes funestos? Foi na Eslováquia, foi agora no Irão… Coincidências?! Quem virá a seguir? O procurador do Tribunal Penal Internacional? Pelo menos já foi ameaçado. (Ver aqui).

Estátua de Sal, 21/05/2024)


A Eslováquia está profundamente polarizada: Há uma fação fortemente pró-UE, que desprezou particularmente a oposição de longa data do primeiro-ministro às políticas ocidentais para a Ucrânia.



O primeiro-ministro Robert Fico foi atingido por quatro balas disparadas à queima-roupa durante uma tentativa de assassinato na semana passada. Após cinco horas de intervenção cirúrgica, Fico não está mais em risco, mas o seu estado é considerado grave.

A polícia teria acusado um poeta e escritor de 71 anos de tentativa de homicídio (um perfil incomum para um atacante do tipo “lobo solitário”).

“ Na conferência de imprensa que se seguiu ao ataque”, relata o Politico, “Šutaj Eštok, o ministro do Interior, apelou ao fim da linguagem violenta e dos ataques às redes sociais que definiram a política eslovaca durante a era Fico. “Quero apelar ao público, aos jornalistas e a todos os políticos para que parem de espalhar o ódio”, disse ele. “Estamos à beira de uma guerra civil .”

Um deputado do partido de Fico gritou à oposição no Parlamento que Fico está “hoje a lutar pela sua vida por causa do seu ódio”. Enquanto o vice-presidente do parlamento, Andrej Danko, líder do Partido Nacional Eslovaco, de extrema-direita, desafiou a oposição : “Estão satisfeitos? »

A Eslováquia está profundamente polarizada: há uma fação fortemente pró-UE, que desprezou particularmente a oposição de longa data do primeiro-ministro às políticas ocidentais para a Ucrânia (Fico foi primeiro-ministro durante 11 dos últimos 18 anos).

No entanto, a reação à tentativa de assassinato em algumas partes da Europa foi pouco simpática e, em várias ocasiões, quase critica das tentativas de desculpabilização. No entanto, mesmo dentro desta corrente, é aceite que a campanha contra Fico foi “tóxica”. Foi acusado de ser pró-russo, pró-Putin e de dificultar o apoio à Ucrânia.

Na Europa, o apoio à Ucrânia tornou-se o preço de admissão a qualquer conversa em Bruxelas. É também o preço de entrada para a prossecução de qualquer política na UE, como Orbán e Meloni aprenderam. Isto não é racional, assemelha-se antes a uma psicose de massas que afecta as elites, que começam a desesperar por verem o seu projeto de uma “Europa geopolítica” ruir e os seus erros de julgamento político e económico tornarem-se óbvios, à medida que a Europa desliza para uma crise social e económica demasiado previsível.

Isto não é de todo “racional”, mas estas elites compreendem que Putin e a Rússia podem ser usados como símbolo do “outro” autocrático e sombrio na conceção Straussiana (Leão) – segundo a qual o “inimigo”, de uma forma particularmente intensa, é alguém diferente e estrangeiro, pelo que o conflito contra “ele” é possível, ou mesmo obrigatório (pela sua própria natureza).

Além disso, a própria dinâmica de reconhecimento e destruição do adversário torna-se um elemento crucial da identidade nacional ou, neste caso, da identidade do “Estado” transnacional da UE: “A democracia contra os autocratas”.

Esta formulação de um inimigo existencial tão diabólico e estranho implica que a comunicação e as relações devem ser consideradas inimagináveis. Ouvir o outro lado é ultrapassar os limites de um comportamento cívico aceitável.

 O meme “Putin/Xi são ditadores” foi concebido precisamente para acabar com a liberdade de expressão aqui no Ocidente. O seu objetivo é assustar os críticos da elite e legitimar a punição daqueles que se “associam” ao inimigo.

 Na Europa, a Rússia é o principal objeto de ódio; nos Estados Unidos, o antissemitismo assume o comando, enquanto a Rússia, a China e o Irão são agrupados como partilhando uma malignidade comum num eixo do mal.

Em última análise, esta abordagem tende a materializar um sobre investimento maciço numa única narrativa autorizada e, quando esta se desmorona (como aconteceu hoje), não há saída. Perseverar é a única opção (mesmo quando esta linha de ação é considerada irracional).

Infelizmente, este pode tornar-se o caminho demasiado previsível para o desastre. Começa lentamente: encorajar a Ucrânia a pedir tropas, enviar “formadores” militares, depois um pequeno destacamento de tropas uniformizadas, etc. Depois, mais rapidamente, quando os líderes se apercebem de que os seus pressupostos básicos estavam errados.

Putin não está a fazer bluff… Quando as tropas europeias voltarem em caixões, nessa altura, será que vão recuar ou será que o medo de parecerem fracos os levará a fazer coisas estúpidas?

O Presidente da Finlândia é apenas um exemplo dos que seguem a “linha” obrigatória: “A Ucrânia tem de ganhar esta guerra… aconteça o que acontecer”. “Está a enfrentar um agressor poderoso, que está a violar todas as regras da guerra”.

É claro que a resposta racional é: “E depois?”. Estará o presidente finlandês a propor seriamente que a Europa se mobilize para atacar a Rússia? Será que Sua Excelência não nota que a Ucrânia está em desvantagem em relação à Rússia e que a NATO também está? Que a Ucrânia não pode “ganhar”?

Deveremos então considerar a explosão do presidente como uma mera “história”, o que significa que não deve ser levada a sério? É impossível para a UE encarar uma guerra contra a Rússia. A proposta é absurda.

É verdade, mas o facto é que a linguagem das camadas dirigentes da Europa está hoje impregnada de fervor pelo militarismo e pela guerra (“preparar o recrutamento”; avançar para “uma UE geopolítica orientada para a defesa e a segurança”, etc.).

Fonte aqui.


Sebastião Maria vai para Bruxelas

(Fernando Campos, In o Sítio dos Desenhos,27/04/2024)

Ele é um menino-prodígio. Um superdotado. Um predestinado. Loquaz e petulante, insidioso como um Rasputine e armado em espertinho como um alho (como um Marcelo em ponto pequenino).  Sebastião Maria Reis Bugalho assume-se como de direitacatólico e conservador. Dizem dele, embevecidos (enfim, no seu meio) que é uma espécie de “novo Paulo Portas” – talvez um pouco menos sagaz, mas muito mais heterossexual.

Também oriundo de boas famíliasSebastião Maria frequentou desde muito cedo os mais exclusivos colégios privados. Mas não dava trabalho nenhum aos professores pois não era preciso ensinar-se-lhe nada – ele levava sempre a lição estudada de casa. Um menino de sua mãe.

E não faltou à catequese – cursou ciência política, na madrassa da Católica e, dizem, ainda mantém estudos, no isqueté.

Betinho, muito lavadinho e penteadinho, ainda a cheirar a cueiros e pó de talco, fez a primeira comunhão debutando no jornal i “focando-se na cobertura noticiosa do partido CDS. Subsequentemente foi convidado a assinar uma coluna de opinião. Pouco antes de abandonar a carreira jornalística, publica uma peça acerca da futura lista de candidatos do CDS às eleições de legislativas de 2019, lista essa que ele mais tarde integrou”..

Como não foi eleito, regressou ao “jornalismo”. Decerto para “a comunhão solene”. Era um regalo vê-lo então, a analisar, a fazer conjeturas e elucubrar cenários e assim. Sim, porque Sebastião Maria fez-se comentador, e analista. Na televisão, claro. Em Carnaxide. Sempre que ele aparecia na pantalha, lavadinho e penteadinho como um acólito, enchia-se-me logo a casa toda de um insuportável fedor a sacristia (aquele odor a velho, assado e azedo, com notas de velhacaria e vício recalcado e final acentuado a naftalina) que nunca se dissipava sem que eu incinerasse um lancero da Cohibapor lo menos.

Mas agora vai abandonar, de novo, o “jornalismo”. Desta vez é a confirmação, a unção do santo crisma. Depois de ter assinado uma reluzente (de brilhante) exegese da estratégia eleitoral da AD, O jovem Sebastião Maria foi imediatamente convidado por Luís Montenegro para encabeçar a lista de candidatos a deputados ao parlamento europeu (o que terá causado o amuo, e consequente desistência despeitada, de Rui Moreira, um coirão político muito mais experimentado, dado há muito como o titular absoluto do lugar).

O que quer dizer que Sebastião Maria já está eleito. Ou, como o diz o povo, em linguagem conventual, “são favas contadas”.

O povo de direita, católico e conservador gosta deles assim betinhos, airosos e fresquinhos – mas com ressaibo intenso, e prolongado, a antigamente.

Fonte aqui.