O q u e n ã o s e p o d e d i z e r n e m e s c r e v e r

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 04/10/2024)

(Em tempos idos a Dona Clara era visita assídua da Estátua de Sal. Depois foi perdendo gaz e brilho, vieram as guerras, veio ao de cima o seu “americanismo” meio blasé, pelo que o último texto que dela publicámos (ver aqui) é de 22/06/2022. Só que, a Dona Clara sempre foi grande escriba e, confesso, este texto surpreendeu-me pela positiva. É quase caso para dizer que duma pequena toca pode sair um grande coelho, tal a atualidade, a coragem mesmo de ir contra a corrente dos prosélitos comentadores, a qualidade acutilante da escrita.

Pelo que só me resta publicar a Dona Clara e dar-lhe os parabéns por esta pedrada no charco do conformismo opinativo que grassa na comunicação social. Quanto mais não seja, ela demonstra ter os “textículos” que muitos não tem.

Só mais uma nota. Sabem a razão pela qual publiquei o título deste artigo com espaços entre as letras? Porque sem espaços o Facebook recusava-se a aceitar a partilha do texto! Censura, sofisticada, sim. Náo querem que esta opinião iconoclasta seja muito divulgada. Com espaços driblou-se o algoritmo… 🙂

Estátua de Sal, 05/10/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Existe uma pressão contemporânea nos media liberais para dizer sempre duas coisas, no mais perfeito exemplo de maniqueísmo moral que caracteriza a disponibilidade permanente das boas intenções em detrimento da realidade e da verdade.

O primeiro postulado, que nunca pode ser desmentido pelos factos, é o da vitória da Ucrânia. Não interessa que nada, mesmo nada, aponte para a vitória numa guerra que não é ganha com armamento sofisticado e sim nas trincheiras, palmo a palmo, disputando terreno à custa de cadáveres dos soldados. E a Rússia não se importa de sacrificar homens e de continuar a avançar, embora se possa concluir que a superioridade tecnológica e eletrónica da Rússia não tenha sido prejudicada pela enxurrada de armamento americano, mísseis e drones europeus. Sem a América, a NATO é um fantasma e os propulsores desta guerra insana que devia e podia ter sido evitada declarando ab initio a neutralidade da Ucrânia e deixando a diplomacia fazer o seu trabalho, são muitas vezes, mesmo ingenuamente, agentes dos lóbis das armas. E terão à sua espera empregos, think tanks, bolsas, viagens e outras benesses quando deixarem os lugares políticos e de poder que ocupam. Espiem o futuro de Stoltenberg. Se querem um lóbi mais poderoso que o das petrolíferas, da petroquímica, das farmacêuticas e das drogas, é este. Armas e quem as fabrica e vende, quem as exporta, quem enriquece à custa e às costas da miséria alheia.

A Ucrânia foi o terreno ideal para experimentar novos armamentos sem arriscar um soldado, sob o halo sagrado das boas intenções e da liberdade. Nos Estados Unidos, a Boeing ganhou e ganha tanto dinheiro com o negócio do armamento que se preparava para deixar o negócio da aviação, sendo forçada pelo Governo a recuar. Entretanto, a Boeing descurou toda a parte da aeronáutica civil e os aviões saíram da fábrica sem condições de segurança, descurados os procedimentos habituais. Centenas de mortos em dois desastres aéreos, com o 737 MAX, denúncias, embustes. E, mais grave ainda, os dois whistleblowers que denunciaram as falhas de segurança dentro da Boeing morreram um a seguir ao outro, em misteriosas e súbitas circunstâncias. Eliminados.

Saiba mais aqui

 

Quando está em jogo a segurança militar americana e o mundo secreto que jaz por baixo de tanta generosidade na venda e distribuição de armas para guerras alheias, vale tudo. Nenhum jornalismo se dedicou a investigar estas mortes, ou acabaria a intenção numa valeta. No que respeita a armas, nada, ninguém, mexe uma palha para fazer perguntas e saber mais. Demasiado perigoso, secreto e impublicável. O tráfico de armas na guerra da Ucrânia, com atores como a Sérvia servindo a dois amos, com os gangues do costume, é um segredo bem guardado. E bem pago.

Por sua vez, Zelensky, um comediante com uma frase bem escrita, por outrem, precisou de armas e não de uma boleia (para fugir), foi erigido numa figura tutelar do século XXI, construído pela propaganda ocidental com a argamassa das estátuas. Zelensky goes to Hollywood. Um Churchill, nem mais, segundo as piedades gerais bolçadas nos múltiplos ecrãs das televisões. Alguns americanos não toldados, sobretudo da CIA, que nunca confiaram em Zelensky nem na bravura pessoal protegida pelo bunker e a entourage de oportunistas, incluindo a senhora que tinha 12 Range Rovers, provavelmente já purgada nas sucessivas purgas de Kiev, sabem que vai ser difícil livrarem-se dele. O grande jornalista de investigação Seymour Hersh tem relatado algumas destas dúvidas impronunciáveis nos media e foi logo acusado de ser um agente de Moscovo. Nada mais grotesco.

A Europa sabe, mas persiste nos erros do costume, enfronhada numa decadência civilizacional. A União Europeia atravessa a crise mais grave desde a criação e finge que está tudo bem, enquanto a extrema-direita galopa na vitória.

Os europeus, com a sua qualidade de vida diminuída, a sua capacidade financeira diminuída, legando ao futuro e aos jovens uma dívida impagável, que é o que Bruxelas tem feito, enquanto a demografia se aproxima da extinção, começam a ter uma certeza. A imigração não é a salvação, e a imigração descontrolada fará dos países europeus e do seu cimento social, político, religioso e económico, uma irrelevância. Outras etnias, credos, fundamentalismos e convicções, mais sólidos pela religião ou os costumes mesmo quando primitivos e tribais, acabariam por comandar a Europa num futuro não longínquo, e o que restaria seria um depósito de velhos sem terem para onde ir. A distopia europeia, que Michel Houellebecq pintou com negras cores. Com esta retórica, não custa perceber a extrema-direita a ganhar eleições.

Se os jovens não têm direito a uma casa e a constituírem uma família, sendo a habitação a mais grave crise da Europa, e se estrangeiros milionários têm direito a regimes fiscais de benefício, do Reino Unido e da Itália à Grécia, Espanha e Portugal, enquanto se pede aos autóctones que paguem o futuro e a doença e o envelhecimento da população, juntamente com os imigrantes, que esperança é oferecida pelos chefes políticos e suas perorações? E se, ainda por cima, pedem aos europeus que paguem uma guerra perdida em nome da supremacia ocidental, não espanta que os resultados sejam o que são. E nem vale a pena falar da emergência climática, posta de lado.

Ouvir militares bolçarem as vantagens de um serviço militar para “os jovens”, para os fortificar e endurecer, é um escândalo. Em Portugal, país de brandos costumes sem autoridade, ouvir o chefe militar da Marinha, o novo almirante das nossas fantasias musculadas, perorar sobre política interna, candidaturas a Belém, e bons usos do militarismo compulsivo, só poderia ter um resultado. Despedir imediatamente o almirante do posto que ocupa, por transgressão das regras dos militares, manter o bico calado em questões civilistas e políticas. Agora ninguém segura o almirante, e os jornalistas entretêm-se com sondagens para a presidência que o dão como favorito ou intrigam que o atual Presidente o odeia. É o grau zero da autoridade num país ingovernável por esta razão, ninguém manda, mandam todos ao sabor do dia e dos dichotes políticos do dia. Numa fantasia em que eu, moi, exatamente, fosse primeira-ministra, o almirante tinha 24 horas para se demitir ou ser demitido. Na imortal frase de Durão Barroso a um dos seus ministros, se a memória não me falha. E obrigada pelas vacinas, já teve a Grã-Cruz.

É claríssimo que a Europa não pode simultaneamente armar a Ucrânia e manter um módico de Estado social, ou nem uma coisa nem outra. E Zelensky, nas andanças pelo mundo, agora patéticas em vez de triunfais, está disposto a dizer tudo e o seu contrário para se manter à tona.

Não quero Putin na mesa das negociações de paz, a Ucrânia vai recuperar a Crimeia, quero Putin nas negociações de paz, a Ucrânia invadiu a Rússia (em meia dúzia de metros quadrados enquanto no Donbass perdia quilómetros), quero mais armas, mais dinheiro, mais isto e aquilo, e quero um encontro com Trump. No encontro com Trump, vimos claramente o oportunismo e a falta de convicções geradas no desespero. Não no desespero da derrota ucraniana, sacrificadas as vidas ucranianas para nada, no desespero da derrota pessoal de um chefe forjado na ilusão da potestade visionária.

Quantas purgas antidemocráticas em Kiev serão necessárias para o Ocidente se livrar de Zelensky e assinar um armistício, mesmo do tipo do das Coreias? E, sim, a Crimeia e o Donbass estão perdidos, e a Rússia reganhará um território onde se fala russo. Para salvar a Ucrânia, o que resta da Ucrânia, Zelensky e a sua coutada terão de sair ou sair da frente. Ou a região tornar-se-á um sorvedouro de dinheiro, e trará a morte da democracia europeia.

Nada atesta mais o viés das notícias do que o recrutamento de condenados nas prisões para a soldadesca. Quando Putin o fez, acolitado por Prigozhin, um bandido que a certa altura passava por “herói” na marcha de Moscovo e nas opiniões da treta, foi considerado o símbolo do “mal”. Quando Zelensky fez o mesmo, nem um pio se ouviu.

Esta guerra não pode ser ganha por nenhuma das partes. A vitória da Ucrânia foi preservar Kiev e o regime, a de Putin foi tomar o Donbass. Putin só pode ser derrubado pelos russos, e a paz certamente teria essa consequência, enquanto a guerra o engorda. Quanto a Biden, a política externa foi o maior desastre das últimas décadas. A fantasia de derrotar a Rússia é um velho sonho americano, com consequências que o mundo paga desde a Segunda Guerra Mundial.

A fantasia antiamericana, simétrica e igualmente perigosa e enviesada, é a da destruição de Israel 
para dar lugar a um Estado palestiniano do Jordão até ao mar. Sobre isto, o segundo postulado, escreverei na semana que vem, um ano depois de 7 de outubro de 2023.

Um livro indispensável e que fará data

(José Catarino Soares, in Facebook, 04/10/2024) 

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

É impossível compreender as duas guerras na Ucrânia ⎼ a primeira, que começou em 2 de Maio de 2014 e se prolongou até 24 de Fevereiro de 2022, e a segunda, que começou em 24 de Fevereiro de 2022 e que ainda continua ⎼ sem conhecer e compreender o golpe de Estado sangrento de 22 de Fevereiro de 2014, que derrubou inconstitucionalmente o presidente da Ucrânia livremente eleito, Viktor Ianukóvytch.

A pessoa que investigou meticulosamente a matança na praça Maidan, em Quieve, que precedeu imediatamente e alimentou esse golpe de Estado, chama-se Ivan Katchanovski. 

Ivan Katchanovski

Para os comentadores do sistema mediático dominante e oligarquizado de comunicação social do chamado “Ocidente alargado” (jornais e revistas de grande circulação; emissoras de rádio e estações de televisão de grande audiência; agências de comunicação estratégica; agências noticiosas globais [AP, AFP, Reuters, EFE]) este nome é quase tabu, pelo que é improvável que seja conhecido do grande público.

Porém, os leitores do meu livro “Dissipando a Névoa Artificial da Guerra — um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal” (Editora Primeiro Capítulo, Agosto 2023) sabem quem é, mais do que não seja porque o citei abundantemente, como merece. Pois bem, a grande notícia é que o professor Katchanovski acaba de publicar um livro indispensável e que fará data, culminando 10 anos de aturadas e escrupulosas investigações sobre o assunto que não deixaram nenhuma pedra por levantar. Mas Ivan Katchanovski fez mais: decidiu fazer uma campanha pública de angariação colectiva de fundos para tornar o seu livro acessível a todos os leitores interessados, seja qual for o seu poder de compra. O que se segue é a tradução das suas próprias palavras sobre essa campanha [o material entre parênteses rectos foi acrescentado por mim ao original]. Vejamos, então, o que nos diz:

«Estou a fazer angariação pública e colectiva de fundos [ingl. “crowdfunding”] para pagar a publicação, em acesso aberto, do meu livro, intitulado “The Maidan Massacre in Ukraine — the mass killing that changed the world” [A Matança de Maidan na Ucrânia — o morticínio que mudou o mundo.]. A edição electrónica de acesso livre deste livro, revisto por pares, acaba de ser publicada pela Palgrave Macmillan, uma marca da Springer Nature, uma das principais editoras académicas ocidentais (Ver aqui).

A publicação de acesso livre torna a edição electrónica deste livro gratuita para todos o lerem, descarregarem, compartilharem, traduzirem e republicarem, no todo ou em parte. Este facto também torna o livro sobre esta matança crucial na Ucrânia e no mundo acessível a um público muito mais vasto, em particular, àqueles que não podem pagar a edição de capa dura do livro ou que não têm acesso a bibliotecas universitárias. A edição de capa dura tinha um preço inicial de 139,99 dólares americanos (204,50 dólares canadianos) mais impostos. Mas o preço da edição de capa dura, cuja publicação ocorreu em 2 de Outubro de 2024, será reduzido pelo editor para cerca de 50 dólares depois de eu pagar a taxa de acesso livre.

A taxa de acesso livre que tem de ser paga ao editor no prazo de seis semanas após a publicação do livro é de $15.800 americanos ($21.272 canadianos) para todo o livro (Ver aqui).

Candidatei-me a uma bolsa de publicação da minha universidade no valor máximo de 2.500 dólares para cobrir uma parte da taxa de acesso livre.

[Até agora, 4 de Outubro de 2024, foram recolhidos 5.689 dólares canadianos de 99 doadores, para um objetivo de 18.772 dólares canadianos <12.553 euros>. Se quiser ser um doador e ajudar o professor Ivan Katchanovski a atingir este objetivo, clique aqui.

Como recompensa, os doadores podem obter gratuitamente a edição electrónica do meu livro ou comprar uma edição de capa dura do livro com um grande desconto de cerca de 90 dólares em relação ao preço original no sítio Web da Springer Nature ou nas principais livrarias, como a Amazon: (ver aqui e  aqui ).

Este livro baseia-se em mais de 10 anos de investigação, que financiei com o meu próprio dinheiro. Também renunciarei aos meus direitos de autor pelo livro de acesso livre.

Sou um cientista político ucraniano e canadiano especializado em política e conflitos na Ucrânia. Nasci na Ucrânia e obtive o meu doutoramento na Universidade George Mason, nos Estados Unidos. Dou aulas na Escola de Estudos Políticos da Universidade de Otava (Canadá). Anteriormente, ocupei vários cargos académicos na Universidade de Harvard, na Universidade Pública de Nova Iorque em Potsdam, na Universidade de Toronto e no Centro Kluge da Biblioteca do Congresso. As minhas publicações académicas incluem 5 livros, 2 livros a publicar, 20 artigos em revistas especializadas e 12 capítulos de livros. As minhas entrevistas, comentários e publicações apareceram em mais de 3.000 notícias nos meios de comunicação social em mais de 80 países».

A crueldade bíblica tomou o poder em Israel

(José Goulão, in AbrilAbril, 16/09/2024)

Itamar Ben-Gvir, Benny Gantz, Benjamin Netanyahu, Bezalel Smotrich

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Em numerosos comentários e opiniões que proliferam a propósito da situação actual nos territórios da Palestina conhecidos como Israel, sobretudo depois das grandes manifestações em curso contra o governo, existe a convicção de que o problema único é o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Isto é, uma vez que este se demita ou seja demitido, a crise ficará resolvida e tudo regressará à paz do senhor com a continuação da metódica limpeza étnica dos palestinianos.

Puro engano, piedosa ilusão. Nada voltará a ser como dantes no chamado «Estado judeu».

Ler artigo completo aqui