A ofensiva americana ao GNL: a grande liquidação da Europa

(Heinz Steiner in Euro-synergies, 06/12/2024, Trad. da Estátua)

Dado que os preços do gás são mais elevados na Europa do que noutros mercados, as empresas energéticas americanas estão a concentrar os seus esforços no Velho Continente para vender o seu gás natural liquefeito (GNL). Em vez de gás barato entregue por gasoduto a partir da Rússia, a Europa recebe agora gás de xisto americano, entregue por navios-tanque de GNL a preços exorbitantes.


Como observador atento da evolução energética global, só posso ficar consternado com a forma como a Europa se precipita voluntariamente para uma nova dependência energética. Os números de Novembro passado, divulgados pelo Berliner Zeitung , são inequívocos e contam uma história de submissão estratégica.

À velocidade da luz, as exportações de GNL dos EUA para a Europa atingiram um número sem precedentes de 5,09 milhões de toneladas – ou 68% de todas as exportações de gás natural liquefeito dos EUA. Este registo é um testemunho impressionante das mudanças no poder geopolítico do nosso tempo. Em vez de dependerem do “gás limpo” transportado por gasoduto a partir da Rússia, os europeus estão gradualmente a tornar-se dependentes do GNL americano, produzido por fracking e muito mais poluente – tudo a preços extremamente elevados.

Em Novembro, os preços do gás na Europa dispararam para 12,90 dólares por MMBtu, enquanto as empresas de energia dos EUA esfregaram as mãos. A diferença de preços em relação a outros mercados desencadeou uma verdadeira corrida do ouro. A “janela de arbitragem”, como a chamam os traders de Wall Street, está totalmente aberta. Particularmente notável é a transformação gradual da dependência europeia: em apenas um ano, a quota dos Estados Unidos nas importações europeias de GNL aumentou de 13,5% para 20%. Um desenvolvimento que Washington está certamente a acompanhar com satisfação.

A dimensão ecológica deste desenvolvimento beira a farsa: enquanto a Comissão Europeia continua a alardear os seus objectivos climáticos globalistas e ambientalistas, está a aumentar as suas importações de gás de xisto, cujo equilíbrio de metano desafia toda a lógica científica. A Universidade Cornell demonstrou que, ao longo de todo o seu ciclo de vida, o GNL dos EUA emite até 33% mais gases com efeito de estufa do que o carvão – uma verdade inconveniente que Bruxelas prefere ignorar.

Os analistas do think tank Bruegel já alertam para o aumento da volatilidade dos preços devido a esta crescente dependência do GNL. Com efeito, a indústria e os consumidores europeus tornam-se reféns das flutuações globais de preços, enquanto a indústria americana de fracking maximiza os seus lucros. O que estamos a testemunhar é nada menos do que uma reorganização estratégica do mercado energético global, com a Europa no papel de cliente cativo, pagando preços premium. A tão alardeada diversificação acaba por ser um eufemismo para simples substituição de dependências.

A questão central que me vem à mente é a seguinte: estará a Europa a sacrificar a sua soberania energética no altar da segurança do abastecimento a curto prazo? A resposta parece óbvia, mas nos corredores do poder em Bruxelas, as pessoas parecem recusar-se a ler os sinais de alerta.

A ofensiva americana ao GNL marca um ponto de viragem na política energética europeia. Embora o discurso político fale de segurança do abastecimento e de diversificação, está a ocorrer uma verdadeira mudança de poder – com consequências profundas para o futuro económico e político da Europa.

Fonte aqui.


Mário Soares — o extraordinário político prático

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/12/2024)


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Um provérbio africano ensina que a cabra come onde está amarrada. A transposição desta sabedoria para a grande política tomou o nome de realpolitik. Que é uma outra forma de designar o pragmatismo.

Mário Soares é o exemplar mais sofisticado do político português pragmático, juntamente com Melo Antunes e o processo político português a partir de 25 de Abril de 1974 desenrolou-se subordinado ao pragmatismo, ao anti-idealismo desses dois homens que perceberam onde a “cabra” estava amarrada, onde tinha que comer e viver e da cerca de onde não podia sair. Ou, na afirmação de Gil Vicente na Farsa de Inês Pereira, representada pela primeira vez no Convento de Cristo em Tomar: Antes quero asno que me leve do que cavalo que me derrube.

Ao ver chegar o 25 de Abril de 1974, Mário Soares, que recebera a herança política da República e vivera as tensões da política do Estado Novo na Guerra Civil de Espanha, da tensão entre as fações pró-Aliados e pró-Eixo na Segunda Guerra, os jogos que levaram os Aliados a preferirem manter Salazar e a ditadura no governo em vez do risco de um regime mais ou menos democrático trazer comunistas para a zona do poder, que assistira à troca dos Açores pela entrada na NATO; o apoio dos Estados Unidos pós Kennedy à guerra colonial, não tinha dúvidas que o novo regime e os novos políticos iriam ser sujeitos a um exame de admissão a um clube reservado a sócios credenciados.

Mário Soares formara-se como político no ambiente a Guerra Fria, durante o qual os Estados Unidos se estabeleceram como os únicos validadores da democracia, os senhores do selo de qualidade democrática que garantia o acesso ao clube democrático. Para atestarem a qualidade de democrata fundiram o inimigo real com o inimigo imaginário segundo as conveniências do momento. Suspeita-se dos neutros, não há lugar para terceiros, a quem cumpre hostilizar. Na Europa, depois da Grécia e da Turquia, a intervenção dos Estados Unidos foi sempre muito intensa na Itália, contra o comunismo gramsciano e ocidental de Berlinguer, também em França, contra Georges Marchais, de modo a impedir, no caso da Itália, o compromisso histórico com a Democracia Cristã, o que levou ao assassinato de Aldo Moro, e em França a promoção de Mitterrand a chefe do Partido Socialista francês como partido de governo foi feita à custa do afastamento de todos os adeptos da Frente Popular com o Partido Comunista.

A definição da linha principal de atuação dos Estados Unidos, de que Kissinger será o expoente maior, orientou-se desde o final da Segunda Guerra para a imposição de alinhamentos e punições de heresias. Os líderes políticos europeus que pretenderam ter um papel a desempenhar na “reconstrução europeia” perceberam com toda a clareza — eram pragmáticos — que tinham de abjurar o seu passado antifascista e antinazi. Willy Brandt, que seria chanceler da República Federal Alemã, começou por ser militante do Partido Trabalhador Socialista (SAP), uma formação socialista-esquerdista, combateu na Guerra Civil de Espanha ao lado dos republicanos, anarquistas e comunistas, foi expulso da Alemanha pelo partido nazi, mas como chanceler, ou para ser chanceler, promoveu uma legislação que não permitia a elementos radicais serem funcionários públicos, o que teoricamente que afetaria tanto direitistas como esquerdistas, mas na prática foi aplicado a pessoas consideradas extremistas da esquerda, porque os extremistas de direita são sempre classificados como “moderados”. Teve sempre os Liberais como um partido travão de medidas soberanas nos seus governos.

Todos estes antigos socialistas acabaram por adotar o atlantismo americano e desenvolverem política de liberalismo económico, em aliança estratégica com Margareth Thatcher. No plano das relações externas, todos eles cultivaram um bom relacionamento com os Estados Unidos, seguindo a estratégia destes de utilizarem a Alemanha do conservador Helmut Khol como a sua potência delegada na Europa continental. Em Portugal, Mário Soares seguiu um percurso idêntico desde militante do Partido Comunista a primeiro-ministro pós-revolucionário merecedor da confiança dos Estados Unidos.

A reconstrução política da Europa do pós Segunda Guerra assentou na estratégia do pragmatismo que permitiu concluir que para ser pastor não é necessário ser corajoso contra os lobos, mas merecer a confiança do dono do rebanho.

Mário Soares conseguiu com grande brilhantismo navegar entre o discurso da utopia revolucionária e a prática que garantia que a situação portuguesa não iria ofender a ordem estabelecida na Europa Ocidental e no mundo americano. Ele exerceu a grande arte da Oratória, a dos grandes cardeais que no púlpito das catedrais prometem o Paraíso aos pobres e nas sacristias e consistórios garantem o poder e os lucros aos seus financiadores. Mário Soares, foi um florentino, um Médicis, entre cabos da guarda municipal.

Mário Soares não pode, ou não deve, ser apreciado segundo os valores da moral, do Bem e do Mal, nem da Ética, do que deve ou não deve ser feito, mas sim do principio do senso e com o “pormaior” de o ter conseguido liderando um processo sobre um fino e traiçoeiro cabo, obtendo as boas graças se não de todos pelo menos da maioria.

A grande arte de Mário Soares foi a de saber de ciência certa que não podia ocorrer uma revolução em Portugal e de ter conseguido que as alterações sociais representadas pelos três D — Democratização, Descolonização e Desenvolvimento (mínimo) — que na Europa tinham sido implantadas há trinta anos, após o final da II Guerra Mundial fossem aceites como uma revolução! O slogan “A Europa Conosco” é uma brilhante afirmação como o último grito da moda de um produto com 30 anos de uso.

Por fim, comparando Mário Soares com os outros líderes europeus da época, verificamos que ele é o único líder carismático entre figuras respeitáveis, mas baças, de Willy Brandt a Miterrand, de Aldo Moro a Gonzalez, James Callaghan ou mesmo Olaf Palme o que vemos hoje nos programas de memórias são tristes funcionários que podiam andar a vender enciclopédias. Mário Soares é uma figura extraordinária em Portugal e na Europa.

Como o triste desfile de mangas de alpaca e palradores de balcão candidatos a candidatos a presidentes da República tem revelado, são tão raras as figuras extraordinárias em Portugal, ou mesmo “passables” que temos de apreciar as raras que surgiram. Haverá sempre saudosos do impossível, mas essa é uma outra abordagem. Eu, que sou e fui dos hereges, dos que, como Zaratustra, entende que devemos tentar chegar ao cume das montanhas, nem que que seja para verificar que dali se observa uma outra montanha, presto o meu tributo a Mário Soares.

Uma Nota contra a cobardia: Recordo que Mário Soares impôs uma visita à Palestina e a Gaza quando efetuou um visita oficial a Israel e uma outra como chefe de uma delegação da Internacional Socialista. Hoje assistimos a cobardes vassalagens.

Bellum omnia omnes

(Por José Gabriel, in Facebook, 05/12/2024)

(A tradução do título, do latim, é A guerra de todos contra todos. É nesse estado que Hobbes entende que viverá a humanidade na situação de estado natural (pré-social), descrita em sua obra Leviatã.

Estátua de Sal, 05/12/2024)


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No princípio eram apoios bilaterais. A NATO fingia assobiar para o lado, como fingia que não tinha nada a ver com as causas da guerra – nomeadamente a tentativa de a Ucrânia entrar para organização, mesmo com um governo saído de um golpe cuja natureza não deixa dúvidas a ninguém. Os apoios militares eram, de início, por solidariedade de este e aquele país – era essa a aparência, a formalidade, embora fosse óbvia a acção concertada dos países da NATO, os já pertencentes e os a haver. Mas, oficialmente, a organização não era protagonista, ou, pelo menos, mantinha-se discreta na sua intervenção.

Agora, tudo isso mudou. O secretário-geral da NATO porta-se como presidente desta freguesia – ainda Stoltemberg, mas mais ainda o arrebitado Mark Rutte. Em coro com o caducado Antony Blinken, que mostra uma agressividade muito mais abrutalhada, dando ordens a todos os países “aliados”, ordens tanto mais atrevidas e terminantes quanto mais se sentem discordâncias e ovelhas a tresmalhar no rebanho “natista”.

As provocações sucedem-se. A boçalidade da criatura chegou hoje ao ponto de ordenar à Ucrânia que alargasse a mobilização e mandasse mais tropas para a frente de batalha. Sabendo nós a dimensão dos números de ucranianos refratários, dos que saíram do país por não quererem participar na guerra, da dimensão provável das baixas em combate e das deserções, a solução fácil de Blinken é, não a mesa das negociações e a busca de paz, mas atirar adolescentes ucranianos para a frente de combate. O seu último discurso foi das intervenções mais pornográficas e psicopáticas de todo este processo. 

Agora, pois, fala a NATO – pela voz de Blinken e Rutte -, e não países aliados, mais ou menos empenhados. E o secretário de estado norte-americano pensa-se o dono e senhor, pastor de todo o rebanho belicista. E o trágico é que talvez seja. Desaparecem do espaço público – pelos métodos que bem sabemos – todas as vozes discordantes – em grau ou em substância.  Se não está de acordo, tem de parecer. Ou desaparecer.

E a Europa-com-eles, uma tal União Europeia? Essa, começa a provar os efeitos sociais, económicos e políticos desta tragédia. Governada por um bando de uma mediocridade nunca vista, vê os seus maiores portando-se como galinhas tontas, sem inteligência, autonomia ou, sequer, um sentido mínimo do caminho a seguir.

Só parecem saber uma coisa: os ucranianos que morram até ao último. Depois, cá estarão para ajudar. E lucrar faustosamente com o desastre, como fazem os abutres – sem ofensa para os animaizinhos.

E a Palestina? – Perguntareis vós. Hoje, até a Amnistia Internacional acordou e, num extenso relatório, classificou como genocídio a intervenção de Israel. Alguns dos nossos governantes até já manifestaram algum incómodo moral. Que, como de costume, não será transformado em ato.

Mas não faltarão à chamada quando Israel transformar – como já nem disfarça – a faixa de Gaza numa zona balnear de luxo. Tudo será de luxo – até os colonatos. Há muito dinheiro a ganhar. E Deus, está escrito, tudo perdoa.