Um vendaval de sangue varre todo o país. Por toda a Síria, centos de casos filmados, geolocalizados e confirmados de matanças de cristãos, ex-militares, alauitas, quadros administrativos e académicos, até terríveis crimes cometidos dentro dos hospitais e praticados contra doentes internados. Tais imagens não são, obviamente, mostradas aos europeus manipulados, teledirigidos e anestesiados. Entretanto, como nunca jamais ocorreu no passado, com a impunidade do cobrador de favores que ajuda o terror e lembra o preço ajustado, o regime israelita bombardeia a seu bel-prazer todos os objectivos que estabeleceu para erradicar a Síria do mapa, invade-lhe o território e alega desenvolver uma operação visando alargar o território dos Golãs já ocupado desde 1967 e estabelecer uma região-tampão com desconhecida profundidade em território sírio.
É evidente que há quem se regozije com tudo o que de terrível ali acontece, os mesmos que durante mais de um ano assistiram impávidos à destruição de uma cidade de dois milhões de habitantes e desculparam a campanha contra o Líbano, da qual resultaram milhares de mortes. De facto, há que o reconhecer, este sistema de dois pesos, duas medidas, domina os ocidentais há muitas décadas e não se pense que dele fará contrição, pois este ocidente não é Ocidente, as suas capitais não são Washington, Paris, Berlim ou Londres, mas outra à qual prestam vassalagem.
Hoje, após o tratamento e da entrega de um trabalho que me foi solicitado com urgência, dediquei meia hora à leitura atenta da Constituição da Síria de Assad. Um monumento à tolerância, à inclusão e à partilha do poder entre cristãos, muçulmanos e judeus, um tesouro jurídico de rara beleza e equilíbrio.
Logo no seu articulado geral afirma não aceitar «grupos políticos com base na religião, no sectarismo, na tribo, região, classe, profissão ou discriminação de género, origem, raça ou cor» (4); precisa o lugar e o papel das mulheres («O Estado deve proporcionar às mulheres todas as oportunidades que lhes permitam contribuir efetiva e plenamente para a vida política, económica, social e cultural e deve trabalhar para remover as restrições que impedem seu desenvolvimento e participação na construção da sociedade» (23); respeita a «inviolabilidade da vida privada», assegura a educação universal e gratuita para rapazes e raparigas, assim como a liberdade científica, literária, artística e cultural.
Bastaram 48 horas para eclipsar a ilusão da liberdade e do «25 de Abril sírio» que tantos quiseram ao arrepio da básica inteligência, ou acreditavam realmente que da Irmandade Muçulmana, da Al Qaeda e do ISIS nasceria um regime de freios e contrapesos e a cultura westminsteriana que, mesmo na outrora livre Inglaterra, conhece dias de quase ditadura?
Os “rebeldes” sírios vieram roubar e saquear, realizando até mesmo execuções públicas. A SÍRIA retrocedeu vários séculos em poucas horas. A barbárie afetou pessoas que tinham amplas liberdades civis e políticas. O “pecado” da Síria, é ter petróleo. Ver vídeo abaixo.
As cinzentas tardes de Outono facilitam leituras cinzentas. Cinzentas como as cinzas das antigas braseiras. Um artigo de um número não muito antigo do Le Monde Diplomatique referia o domínio da Europa por elites conservadoras-liberais desde a “marcante” presidência do português Durão Barroso.
Afinal de que se podem gabar os conservadores liberais? De uma guerra por procuração na Ucrânia, da desindustrialização, da submissão aos EUA, da cumplicidade no genocídio do século na Palestina, da irrelevância internacional. Hoje na TV surgia a notícia de mais uma falência de uma fábrica fornecedora de componentes para a Auto Europa, a seguir a uma outra que fornecia bancos.
Mas, o interessante do artigo era a questão sem resposta, o que distingue Boris Jonhson, Keir Starmer, o secretário da NATO, a contabilista do Banco Central Europeu, o petit Macron e o petit Sholz?
Para a desindustrialização e a crise do estado social, os conservadores liberais propõem o desvio de capitais de setores produtivos e de prestação de serviços de bem-estar pelas despesas com compras de material de guerra aos EUA! Viva o liberalismo.
A contabilista do BCE, uma ultraliberal, impõe os juros com que os europeus pagam os seus empréstimos aos bancos privados – mercado? Livre concorrência? Isso é para tansos. Os petit do coração da Europa, Macron e Sholz o que propõem: Nada. Fugir! A Alemanha levar as fábricas para a China e os Estados Unidos, a França transformar a Renault num museu.
O que querem conservar afinal os conservadores europeus? A agua Pérrier para acompanhar o uísque escocês? E liberalismo o que é? Escolher entre dormir num banco da Gare du Nord ou da estação de Frankfurt?
Os conservadores e os liberais que há mais de 30 anos marcam o destino da Europa têm rosto e têm o dever de responder. Ou temos de perguntar ao Bugalho, que é um poço de ignorância, ou ao Paulo Rangel que é, de entre os furões ativos da politica portuguesa, um dos muito poucos que distingue o Comte do Kant e o preço do Guaidó do preço do Zelenski?