Todos pela Ucrânia, ninguém por Gaza

(Amílcar Correia, in Público, 13/05/2025)

Imagem obtida no mural do Facebook de Alfredo Barroso

(Hesitei antes de publicar este texto: para defender a causa palestiniana e condenar o silêncio da União Europeia não era necessário comparar Putin a Netanyhau. Porque não há comparação entre o modus operandi da Rússia na Ucrânia e o de Israel em Gaza. A Rússia privilegia alvos militares enquanto Israel ataca só alvos civis e está a levar a cabo uma limpeza étnica. Mas, feita esta ressalva, o resto é escorreito.

Estátua de Sal, 17/05/2025)


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Ninguém pode alegar que não sabe o que se está a passar em Gaza. O plano aprovado pelo Governo israelita, perante a indiferença e passividade generalizada, mais não é do que a intenção assumida de anexar o território, de continuar a massacrar a população civil, seja através de bombardeamentos, seja através da fome, e de preparar a sua eventual deportação. Este plano só vai provocar mais mortes civis e não garante que a assistência humanitária seja retomada na devida quantidade e frequência.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse recentemente que “Gaza será totalmente destruída e que os civis serão enviados para sul do enclave e que daí serão deportados em “grande número” para outros países. O ultranacionalista Itamar Ben-Gvir defendeu a destruição total dos poucos armazéns de alimentos na Faixa de Gaza, em mais uma demonstração da sua desumanidade.

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As imagens mais recentes de Rafah são bem exemplificativas: os edifícios em ruínas estão a ser demolidos por bulldozers israelitas. Há que terraplenar Gaza. Esta retórica da crueldade deveria envergonhar um povo perseguido ao longo de séculos, liderado por uma cúpula extremista, para qual a guerra é a única opção.

O que os países do bloco europeu estão dispostos a fazer pela Ucrânia não estão dispostos a fazer por Gaza e pela Cisjordânia, como se existisse alguma diferença entre o que Vladimir Putin e Benjamin Netanyhau têm vindo a fazer ou uma diferença de valor entre as vítimas de um e as vítimas do outro.

É compreensível que os países europeus tenham problemas de consciência pelo seu passado anti-semita. Mas essa má consciência não se pode sobrepor à anexação de território palestiniano, ao extermínio da população civil, com recurso à abominável arma da fome e ao desprezo mais absoluto por qualquer réstia de assistência humanitária, direitos humanos ou Justiça.

Este precedente será utilizado daqui em diante para reivindicar a mesma impunidade que é concedida a Israel. E quem se calar agora não terá legitimidade para se fazer ouvir no futuro.

A discrepância entre a veemência com que as principais potências europeias condenam Putin e bajulam Netanyahu — o novo chanceler alemão foi lesto a convidar o primeiro-ministro israelita para visitar a Alemanha — representa a falência moral das democracias ocidentais. A forma como proíbem o activismo pró-palestiniano não tem precedentes nem cabimento. É mais tolerável defender o III Reich do que a solução dos dois estados? Por vezes, parece que sim.

Apelar ao cessar-fogo, como têm feito Emmanuel Macron e Keir Starmer, é bem-intencionado, mas os apelos não passam disso mesmo. Imagine-se quais seriam as reacções de ambos se Putin tivesse como alvos funcionários das agências das Nações Unidas, se os soldados russos assassinassem socorristas e jornalistas, atacassem constantemente hospitais e escolas, e bombardeassem abrigos e campos de refugiados.

Os líderes europeus que foram a Kiev apoiar a proposta de cessar-fogo ucraniana garantiram a sua disposição em agravar as sanções económicas a Moscovo. Aproveitando a efeméride do 80.º aniversário do final da II Guerra Mundial, Starmer fez o paralelo entre a guerra do passado, sobre os “valores da liberdade e da democracia e pelo direito dos países de poderem tomar as suas próprias decisões, o seu direito soberano a fazê-lo”, e a guerra do presente. Mas a “coligação de vontades” contra Putin é dócil com Netanyhau e nem sequer pondera aplicar sanções ou até suspender venda de armamento a Israel. Os valores variam em função de a quem são aplicados.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE) que se reuniram em Varsóvia, na última sexta-feira, usaram termos como inconcebível ou catastrófico para classificar o que se passa em Gaza, mas não foram capazes de chegar a um consenso sobre o repúdio que merece o massacre israelita.

No mínimo, como sugere o ministro dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, a decência deveria obrigar a UE a rever o acordo de associação com Israel, que obriga os signatários a respeitar os direitos humanos e os princípios democráticos.

A pressão interna sobre Netanyahu para um cessar-fogo, que permita o regresso dos reféns, tem vindo a aumentar, mas não é suficiente para o demover. Só a pressão externa dos EUA poderia convencer os extremistas de Israel a pararem o massacre, mas não é provável que isso aconteça em breve. Convencido da sua impunidade, Israel já ultrapassou todos os limites do bom senso e da legalidade. Este plano que acabou de aprovar tem um objectivo: a limpeza étnica. Tal como em 1945, ninguém pode dizer que não sabe o que se está a passar em Gaza. O silêncio europeu é o da cumplicidade.

A tónica desta campanha é de aprofundamento da crise da democracia liberal

(Raquel Varela, in Facebook, 15/05/2025, Revisão da Estátua)


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1) Paroquial e nacionalista: toda a campanha discute propostas para o país sem discutir a economia do país, ou seja, a União Europeia, e as regras de investimento desta, os Bancos Centrais e a dívida pública.

2) A fulanização ganha acrescidos contornos. Toda a campanha está centrada nas figuras/porta-vozes.

3) A educação política é substituída pela despolitização, através de frases curtas, de efeito rápido, e lógica binária.

4) Não há polarização política: a direita afirma o seu programa total, a esquerda não consegue mobilizar, incapaz de afirmar e defender uma alternativa ao neoliberalismo que não passe por um keynesianismo inexistente.

5) O único keynesianismo está a ser proposto pela direita, o PS e o Livre – a militarização da Europa. Forte investimento público na economia de guerra, impossível – felizmente! – de concretizar sem abrir portas à revolução. Quem faz a guerra deve ser o primeiro a pegar em armas. Nem um jovem europeu no teatro de guerra.

6) A democracia – o governo do povo, pelo menos, no mínimo, ouvir o povo, e mobilizá-lo para participar – é substituída pelo apelo ao voto. O fazer a democracia, em conjunto, é substituído pela profissionalização da política dos deputados, incapazes – todos eles, sem exceção – de denunciar o esvaziamento do papel do parlamente na democracia liberal e a burocratizarão das lideranças políticas. Não, não é nos parlamentos que a vida das pessoas se decide – o poder executivo de facto é cada vez menos  sujeito a escrutínio.

7) O Livre assumiu-se como parte dos Verdes alemães, militarista e liberal (“diminuir um pouco o luxo na habitação“) mas assistencial e progressista nos valores; o PS foi uns metros mais para a direita, com a “defesa da nossa cultura” (tal como o líder trabalhista na Grã-Bretanha esta semana “ilha de estranhos“), o PSD abraçou a repressão da greve e cheguizou-se na imigração; a IL consolidou-se como partido de extrema-direita, demagógico (tirar o país do socialismo), já propõe empreendedorismo na educação das escolas, e a revisão da Constituição; e o Chega defendeu publicamente as organizações neonazis que atacaram cidadãos indefesos no 25 de Abril.

8 ) O BE e o PCP afirmaram um programa keynesiano – hoje ainda mais ilusório do que no passado, já que nunca se concretizou a não ser no senso comum que desconhece a história da Europa – e fizeram-no sem nunca questionarem a propriedade das grandes empresas e Bancos (o mais longe que foram é na taxação ou “contributos da Banca“). Ou, quando defenderam a nacionalização da REN não questionam a nova gestão pública. De que nos servem as empresas estatais se não geridas por gestores profissionais de forma empresarial? O povo escuta a palavra privado e tem medo, escuta Estado e tem medo, e tem razão. Faltou uma proposta clara sobre como vamos gerir esta sociedade.

9) A explosão caricata dos pequenos partidos de extrema-direita.

10) Vão votar os idosos, os sectores mais conservadores e temerosos da sociedade, o povo de esquerda e os jovens abstém-se mais do que os de direita, alguma esquerda urbana irá votar, como sempre, e quase 20% da população activa – migrantes – nem sequer tem direito a voto.

Finalmente, Gaza. Gaza é tudo. É o começo e o fim de qualquer política hoje. Não esteve na campanha.

A propósito de tudo isto – não para Portugal especificamente – vale a pena ler o último artigo de Perry Anderson – “Neoliberalismo, este zumbi” – ver aqui. No fundo, o neoliberalismo é um cadáver morto, mas sem oposição.

Gerindo percepções

(António Gil, in Substack.com, 15/05/2025, Revisão da Estátua)


Os media e políticos ocidentais são indiferentes à realidade: eles nunca viveram lá.


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No artigo titulado O Penultimato – ver aqui -, escrevi meio a brincar que a Rússia devia enviar a dupla Vovan e Lexus a Istambul para negociar com Zelensky. Seria uma negociação entre colegas comediantes. A dupla concordaria com todas as exigências do ucraniano, assinaria a rendição da Rússia enquanto o exército de seu país continuava a avançar no terreno como se não houvesse amanhã.

Mais tarde, reflectindo sobre isso, a ideia não me pareceu tão disparatada assim, considerando os precedentes: regra geral o Ocidente colectivo nunca cumpriu nada do que assinou, logo talvez tenha chegado a altura de lhe dar a provar um pouco do seu remédio. Mas houve ainda outro aspecto que me fez pensar que tal solução absurda poderia responder às angústias dos líderes ocidentais.

Trata-se do seguinte: regra geral, tudo o que importa deste lado onde o sol se põe é o controlo da narrativa. De há alguns anos a esta parte, o arremedo de líderes que temos preocupa-se quase nada com o que é, e tudo com o que parece. Se a Rússia admitisse a derrota, mesmo comportando-se no terreno como vencedora, os media ocidentais exultariam com um punhado de assinaturas russas num documento surreal e inútil.

Há algum tempo ando a escrever um livro sobre um manicómio um pouco diferente dos outros. Nesse hospício, a filosofia seguida é nunca contrariar o paciente. Se ele se julga Napoleão, ele deve ser tratado como tal. Se ela acredita ser a Lady Gaga, há que dar-lhe um palco. Todo o espaço desse manicómio, desde os quartos até aos jardins, são lugares onde a realidade foi decretada como nula.

Entretanto, os hóspedes vão sendo espoliados de suas fortunas, é claro. Porque sim, tratam-se de pessoas com posses e fazer-lhes todas as vontades tem um preço muito alto. Assim que toda a sua fortuna é sugada pela instituição, os pacientes são descartados de formas variadas que podem ir do abandono ao assassinato.

Claro que a Rússia não pode actuar – como eu a brincar sugeri -, porque mesmo tendo em conta que foi várias vezes enganada pelos seus inimigos, ainda tem a sua credibilidade a defender junto do Sul Global, que é neste momento o foco de seus esforços para a construção de um mundo multi-polar.

Mas isso não significa que os líderes do Ocidente colectivo não continuem a preocupar-se sobretudo com a narrativa e isso será feito mesmo sem a farsa de um acordo para não cumprir. Mesmo quando for ainda mais evidente do que é hoje que todo o sangue (ucraniano) e o tesouro (ocidental) investidos na Ucrânia não impediram a vitória russa, nenhum líder dirá que foi uma aposta errada.

Assim, as “ideias” para justificarem o que não tem justificação possível de resto já andam aí, só não foram ainda marteladas exaustivamente para convencer as populações. Eles dirão, então, o que já vão sugerindo:

1- O sacrifício da Ucrânia salvou a Europa pois Putin ficou sem forças para atacar outros países. (a nova versão neocom de combatêmos-los lá para não termos de os combater aqui.

2- Enquanto a Ucrânia lutava, a Europa rearmava-se, portanto ganhámos tempo.

3- Permanecemos unidos e estamos prontos para qualquer eventual nova ofensiva russa.

E pouco importará que a Rússia nunca tenha tipo intenção de invadir a Europa, que o rearmamento tenha sido o previsível fiasco ou que as brechas entre os diversos países da União Europeia se tenham agravado por causa dessa guerra. Eles não se ocupam mais da realidade: tudo o que sabem fazer é tentar gerir as percepções.

Fonte aqui.