Este amigo que eu canto, (Portugal)

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/04/2020)

Na Pandemia do Covid 19 o campeonato dos números está na ordem do dia!

Se isso me interessa? Interessa! Se me interessa de sobremaneira? Não! Se estou atento? Estou! Se me deixa feliz estar Portugal num óptimo lugar no ranking mundial da luta? Deixa e muito! Se isso me sossega? Não!

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Mas há várias coisas que me deixam extremamente feliz e nem é preciso comparar com os nossos vizinhos espanhóis que em nada se entendem! Nós felizmente entendemo-nos e assumimos nesta “guerra” que somos todos soldados!

Na união por um objectivo e, ultrapassando demais considerandos, sabendo e intuindo ser por ora a grande batalha das nossas vidas!

Os nossos vizinhos olham para nós e não entendem como o nosso Parlamento, com pequenas divisões apenas de pormenor, não amplifica qualquer diferença e ao contrário deles se mostra solidário e uno nessa mesma missão, missão essa que, de resto, pertence a todos. E sem ódios nem acrimónias! Somos assim, nem convencidos nem arrogantes, somos assim…

Como pode um qualquer país vencer uma guerra se os seus Generais não se entendem, nem quanto à táctica nem quanto à acção? É o paradoxo espanhol numa ocasião como esta.

E aí sinto-me particularmente orgulhoso do nosso sentido de Nação mas, muito mais ainda, da nossa consciência solidária e no deixar para outros tempos o explicitar das diferentes visões! Pois elas são hoje uma só: A Nossa sobrevivência colectiva! Sem mais…

E a homenagem de gente que tem estado permanentemente no terreno, numa atitude sempre profilática e aconselhadora, que não repressiva, mas cumprindo e zelando sempre de modo eficiente e ao mesmo tempo condescendente a causa comum, numa sabedoria inata que vem do sentir de comunidade, Todas as Forças de Segurança, aos verdadeiros “soldados” das frentes de trincheira, emocionou-me ontem! 

 E emocionou-me porque senti não ser nada programado e nem sequer com qualquer resquício de hipocrisia, mas sim um acto voluntário de gente que estando de corpo e alma na mesma batalha reconhece que é ali, nos Hospitais, que trabalhando e doando, se salvam vidas mas também de arrisca a sua própria vida. E eles, todas as Forças de Segurança e de Protecção, que sabem ter um estatuto de exclusividade aceite e normativo, melhor reconhece que outra classe que não o tem, isso mesmo aceite e cumpra! De louvar? Sim, e duplamente!

Mas isto relembrou-me uma coisa que eu pela vida já um pouco longa que tenho nunca esqueci, nem a nossa História recusa: podemos ser tudo, ter todos os defeitos desta vida e nem vale a pena enumera-los pois também são nosso património ( cada Povo é como é…) , mas quando o nosso mesmo que diverso sentimento converge, venha lá quem venha, como no Futebol, venham Franças, Brasis ou Alemanhas… Somos sempre um só!

E como disse o Presidente ( que agora e nestes tempos também é o meu Presidente) :  Milagre? Milagre é Portugal!

E por isso hoje, sem qualquer rebuço eu digo: que sorte nós temos neste preciso momento histórico:

Ter um autêntico “couraçado” como Primeiro Ministro! Um Capitão do navio equilibrado e colaborante; marinheiros às velas que de tão atentos nem dormem; e todos os restantes membros da tripulação, qual olímpica regata, coordenados e eficientes e apenas fixados na vitória.

E comedidos todos, acrescento agora depois da metáfora!

Orgulho imenso eu sinto em ter nascido neste lugar no extremo da Europa e dando lições de vida ao poderoso vizinho, que é tão meu amigo, no Amor sim, mas muitas vezes exagerado no seu auto convencimento.

Este Amigo que eu Canto-

Portugal ( Ary dos Santos)

Desde quando nasci

Que o conheço e lhe quero

Como a um irmão meu

Como ao pai que perdi,

Como tudo o que espero.

É um homem que tem o condão da doçura

No sorriso de água, nos olhos cansados,

É metade alegria, é metade ternura

Nas palavras cantadas, nos gestos dançados,

Nos silêncios magoados.

Tem um rosto moreno

Que o inverno o marcou

E apesar de ser forte,

É um homem pequeno

Mas maior do que eu sou.

Tem defeitos, é certo. Como todos nós.

Sonha, às vezes demais,

Fala, às vezes no ar

Mas quando dentro dele a alma ganha a voz

É tal como se fosse o som do nosso mar,

Se pudesse falar…

Foi capaz de mentir,

Foi capaz de calar

É capaz de chorar e de rir,

Tem um quê de fadista,

Tem um quê de gaivota,

E a mania que há-de ser artista.

Quando vê que precisa

É capaz de roubar,

Mas também sabe dar a camisa.

Foi capaz de sofrer,

Foi capaz de lutar,

È capaz de ganhar

E perder.

É um amigo meu que às vezes me ofende

Mas que eu sei que me escuta,

Que eu sei que me ouve

E também compreende.

Quantas vezes lhe digo que tenha juízo,

Que a mania dos copos só lhe faz é mal,

Que a preguiça não paga e que o trabalho é preciso.

Ele encolhe-me os ombros num despreso total,

Este tipo é assim, mas…

Foi capaz de mentir,

Foi capaz de calar

É capaz de chorar e de rir,

Tem um quê de fadista,

Tem um quê de gaivota,

E a mania que há-de ser artista.

Quando vê que precisa

É capaz de roubar,

Mas também sabe dar a camisa.

Qual o nome final

Deste amigo que eu canto?

Pois é claro que é

Portugal.


Entre ruínas e morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/04/2020)

Miguel Sousa Tavares
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”

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1 O que nos propõem é simples e convém que todos estejam cientes da proposta, para que cada um carregue consigo o fardo da escolha: os que não morreram da doença não querem agora morrer da cura. E morrer da cura é continuar a deixar a economia em coma induzido, sem a trazer de volta à vida. Devagar, por sectores, com vários cuidados recomendados e diversas precauções. E, ao mesmo tempo, libertando a população da prisão domiciliária onde estamos todos encerrados, mas por fases e segundo critérios etários: primeiro, adultos saudáveis, na força da idade laboral; depois, jovens; e, a seguir, crianças. Porém, há uma excepção, e disso depende o êxito — ou a ousadia — de todo o plano: os velhos devem continuar encerrados, porque representam um perigo sanitário público e uma ameaça à sustentabilidade dos serviços de saúde. Devem, então, ser mantidos longe da vista, afastados de qualquer contacto com os outros, até que haja uma vacina e a sua distribuição seja universal — talvez no Verão do próximo ano, na melhor das hipóteses. Encerrados em casa sozinhos e entregues a si mesmos ou fechados em lares, em hotéis, em pavilhões, onde for. Confiados à cura de profissionais, de voluntários ou, se necessário, das Forças Armadas.

Muita coisa vai mudar depois disto passar, dizem alguns. Vamos ter de olhar para a vida de maneira diferente, juram. Uma das coisas que talvez mude é a ideia de que vale a pena viver tanto tempo.

2 Muitos deles, aliás, já cumpriram a sua função, deixando-se abater ao activo, vítimas do vírus ou de outras doenças que, por força do vírus, não foram tratadas ou eles próprios não quiseram tratar. Aqui, como em Espanha, um terço dos mortos da covid ocorreram em lares onde os velhos estavam acantonados e foram apanhados sem defesa, a coberto de uma ilusão de segurança que, de tão frágil, chega a parecer indiferença. Quando um utente infectado num lar é retirado dele, consegue recuperar cá fora e depois é devolvido ao lar onde permanece o foco de infecção, que outra palavra podemos usar que não indiferença?

3 Tal qual como os 90 trabalhadores cingaleses das estufas de Odemira, ou os 70 nepaleses do Algarve, ou os 130 ciganos de Moura — quando aparece ali algum infectado, a solução é simples: fecham-se todos juntos onde puder ser, mesmo que, no limite, isso signifique a infecção de todos. Em Moura, rodeou-se o acampamento cigano de arame farpado e colocou-se a GNR a vigiar todas as passagens, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Chamem a isto o que quiserem, eu chamo-lhe um campo de concentração, por provisório que seja. Há dias, a ministra da Agricultura dizia que talvez se pudesse pegar nos novos desempregados e enviá-los para trabalhar no campo. Julgo que a ministra, que já percebi ser uma entusiasta do olival intensivo do Alqueva e desse tipo de agricultura “industrial” predadora, se estava a referir a essa mão-de-obra que agora vai escassear. Que vive em contentores, que trabalha sem horários e que nenhum sindicato protege. E que, acha ela, os desempregados talvez quisessem substituir. Não sabe do que fala.

4 Olho para as previsões internacionais económicas e a primeira conclusão que tiro é de que todos estão à espera que nada de essencial mude depois de tudo isto passar — e se tudo isto passar, o que também têm por adquirido. Aparentemente, a nata dos economistas do mundo acredita que vamos todos produzir o mesmo, consumir o mesmo, viajar o mesmo, trabalhar da mesma maneira, investir igual. E, por isso, assim como prevêem quedas a pique no PIB de todos os países em 2020, logo prevêem substanciais recuperações em 2021. Oxalá, por uma vez, estejam certos!

Para Portugal, o FMI prevê uma queda do PIB de 8% este ano e uma recuperação de 5,5% já em 2021, com a dívida pública — que tanto custou a fazer baixar até aos 120% do PIB — a disparar de novo até aos 135%. Parece-me, apesar de tudo, demasiado optimista, assim como me parece optimista esperar que os 13 mil milhões que o Governo espera despejar nas empresas e nas famílias chegue para segurar as coisas até passar o grosso da tormenta. Porque, mesmo depois disso, vai haver mais subsídios de desemprego para pagar, mais apoios às empresas para manter, menos receitas na Segurança Social e no Fisco, e tudo isso vai entrar por 2021 adentro. Mas há muita gente que ainda não percebeu que, quando tudo isto assentar, a conta terá de ser paga. Como? Conhecem outra maneira que não seja a de aumentar mais os impostos a quem ainda estiver vivo? Como disse o ministro Siza Vieira, “a despesa do Estado hoje são impostos amanhã”. Só não o percebe quem não paga impostos.

5 É evidente que há muitas coisas que a China ainda terá de explicar ao mundo e muitas coisas que a China terá de garantir ao mundo que não voltam a acontecer por lá. E talvez a OMS tenha também de explicar a forma como tratou inicialmente os dados vindos da China, mas isso, como disse António Guterres, é uma conversa para ter depois. Agora, a meio de uma crise de saúde planetária de uma dimensão jamais vista, cortar o grosso do financiamento da OMS, quando ele é mais necessário do que nunca, é coisa que só podia ser levada a cabo por um tipo tresloucado, cruel e obcecado com a sua reeleição, antes de tudo o mais. Numa longa e terrível reportagem em dois hospitais do Bronx, esta semana, “The New York Times” recolheu o depoimento de médicos dizendo o que toda a gente teve ocasião de perceber por si mesma: que as semanas que Donald Trump levou a não querer aceitar a gravidade do coronavírus custaram milhares de mortos americanos. E é por isso, e também por não conseguir explicar como é que o país mais rico do mundo foi apanhado completamente desarmado em termos clínicos para esta crise, que ele procura todos os dias um novo culpado que possa desviar as atenções de si próprio. Este é o homem mais perigoso do planeta e está à frente da nação mais poderosa do planeta. E pensar que Marcelo o convidou para visitar Portugal! E que, para cúmulo da humilhação, ele desdenhou e recusou o convite!

6 “António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
— São tristes? — perguntava o velho.
— De chorar rios de lágrimas — garantia o dentista.
— Com pessoas que se amam mesmo?
— Como ninguém nunca amou.
— Sofrem muito?
— Eu quase não consegui suportar — respondia o dentista.
Mas o doutor Rubicundo Loachamin não lia os romances.”

E você, leitor, já leu isto em algum lado? Se não leu, leia agora, porque “o velho que lia romances de amor” já não os escreverá mais. Luis Sepúlveda perdeu para o inimigo sem rosto chamado covid uma vida em que nunca perdera para os inimigos com rosto, chamassem-se eles Pinochet ou outros cujo apelido também era morte. Uma vida que foi em si mesma o maior dos romances que escreveu e que, por isso, só lendo-os se percebe que valeu mesmo a pena ter sido vivida. Faz-me raiva pensar que um tão grande sobrevivente, um tão imenso vivente, tenha sucumbido a uma tão traiçoeira emboscada.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


COVID- 19 – Que fazer no dia seguinte?

(Carlos Esperança, 17/04/2020)

Por maior que seja a incerteza quanto à data do dia seguinte e à tranquilidade possível, há na catástrofe natural que nos flagela, razões para reflexão e para que os cientistas de variadas áreas ajudem os governos a planear o futuro no único Planeta que nos coube.

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Pode faltar outra chance para ponderar o modelo de sociedade e preservar as conquistas civilizacionais face ao aquecimento global e escassez de recursos. Respeitar o ambiente e reduzir o consumo, contendo a explosão demográfica, a fome e a doença, são as mais urgentes obrigações. Esta pandemia e a provável e incerta repetição, com uma bactéria ou outro vírus, demonstram que as fronteiras são acidentes precários no mundo global, para o bem e para o mal.

Pode não se fazer ideia do que é possível fazer, mas há certezas de erros que não devem ser repetidos. O trabalho e os rendimentos serão bens cada vez mais escassos e que urge repartir, para que as desigualdades obscenas entre países e, dentro destes, entre cidadãos não conservem níveis de injustiça a que o neoliberalismo condenou milhares de milhões de pessoas.

A guerra não é uma fatalidade, é uma fonte de riqueza para alguns e de sofrimento para multidões, que urge erradicar. Os arsenais nucleares são inúteis, perante as catástrofes, e obsoletos os mísseis para lhes porem termo.

É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente crédulo para imaginar que a brutal destruição de bens, de postos de trabalho, do tecido económico e perturbação social não terão reflexos no bem-estar de cada um, num mundo empobrecido onde a satisfação das necessidades básicas se tornará o alvo principal a atingir.

Só o medo da perda da vida pode levar os avarentos a prescindir do supérfluo, e nunca mais deixará de ser o Estado, a nível nacional, regional ou global, a obrigar-se a definir as regras pela quais todos teremos de nos pautar.

Apavora a possibilidade de um Estado totalitário substituir democracias pluripartidárias, e a de outra civilização, alheia à matriz greco/romana e iluminista, acabar por se impor à Europa e a nível global.