EUA, um país rico ou um país pobre?

(Joaquim Vassalo Abreu, 23/04/2020)

Num texto que publiquei em 31-03 p.p, que titulei de “O Combate ao Covid 19” eu escrevi acerca de Trump e da “sua” América o seguinte, ainda a Pandemia lá não tinha assentado arraiais:

Na sua postura inicial arrogante Trump não cuidou de saber, nem soube ouvir, que perante um vírus desta natureza os EUA estariam tão frágeis como quaisquer outros países, mas mais frágeis ficaram quando subestimando a sua propagação foi tardio a tomar medidas.

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E, posto isto, tendo em consideração os seus precários Sistemas de Saúde, onde prevalecem os Seguros (quase um terço da população ou não têm qualquer Seguro ou tem apenas o mais básico) e de Assistência Social, muito se teme que possa vir a acontecer uma autêntica desgraça humanitária naquele que dizem ser o país mais rico do mundo…”

Passados pouco mais de três semanas, para além do que eu previ, e também não era exercício extraordinário prevê-lo, ficaram ou vieram à superfície e de um modo clamoroso, todas as debilidades dessa “grande América”, grande sim mas só para uns quantos.

E o que vemos? Vemos um país sem infraestruturas básicas que salvaguardem as pessoas mais débeis; vemos uma ausência de um Estado Social universal e igualitário; uma ausência total de uma Assistência Social também ela universal; vemos uma Saúde só para quem pode, através dos Seguros, que exclui e abandona todos os que não os possuem…

Vemos uma Sociedade, mais de um terço da sua população, abandonada à sua sorte e agora ao sabor de um Vírus…

E essa “grande América” começou agora, realmente, a mostrar a sua verdadeira face: um país comandado por algumas elites egoistas e egocêntricas, completamente desfasadas do seu  Povo e da sua realidade e apenas confiando em que a “ caridade” das pessoas mais conscientes e as comunidades possam obviar…

Mas a eles o que os preocupa são as suas acções na Bolsa e tudo o resto são números pois a única coisa que sabem ler são números…

Mas os números são muitas vezes traiçoeiros e chega até a dar pena assistir aos avanços e recuos de um presidente que, não percebendo nada do que se está a passar, a dirige apenas sob o impulso da sua intuição para os negócios, como se isto de isso algo fosse…

E vai-se notando o seu ar de assustado: para quem, qual “Super Homem” que ele julgava encarnar, vê de olhos esbugalhados que no total de infectados no mundo inteiro pela Covid 19 o seu  “grande” país representa mais de um terço e os mortos idem. 

Mas não só: é também o desprezo total que vem demonstrando pelos seus cidadãos quando permite, e vimos imagens de Nova York, que gente, pessoas humanas iguais a si tanto na nascença como na morte, sejam despejadas para uma vala comum por, mesmo sendo cidadãos, não merecerem da sua Pátria qualquer consideração…

Mas a História, como nos ensinava o Nosso Pai, ela volta sempre por mais voltas que possamos dar,  e muitas vezes  castigadora até, pois faz humildemente de nós todos iguais perante o seu poder…

E Trump está a provar dessa “cicuta”: o seu “poderoso”  States em pouco mais de um mês já perdeu cerca de trinta milhões de “Jobs” e todos foram direitinhos para as portas do Fundo de Desemprego! Mas Trump, num acto de autêntica e magnânima compaixão, vai mandar a todos eles um cheque de mil dólares, mas assinado por ele, para saberem quem os salvou…por um mês!

É que à pobreza de sentimentos junta-se muitas vezes, e neste caso também, uma ainda maior: a pobreza de espírito…”Quo Vadis America”?

A suposta “grande América” perante um desafio destes reage assim…mas pagando pelos seus enormes pecados, mas sempre mais o justo que o pecador…

Será que o “balão” que é a sua “riqueza”, feita de especulação e dívida, ainda lhe vai rebentar nas mãos?


Cartas em cima da mesa, faz favor

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/04/2020)

A reunião desta quinta-feira do Conselho Europeu é talvez a mais importante da história da União Europeia e é realizada nas piores condições. O Conselho vai acrescentar ao nada do Eurogrupo alguma coisa que pareça caridade, isso é certo. O custo político de não fingir é imenso.


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À medida que a campanha pela abolição da homenagem ao 25 de Abril se vai reduzindo ao seu esqueleto, que é a disputa entre o CDS e o Chega pelo protagonismo na extrema-direita, o nevoeiro dissipa-se e podemos voltar a discutir o essencial. Não é pouca coisa, é a reunião do Conselho Europeu desta 5ª feira. É talvez a reunião mais importante da história da União Europeia e é realizada nas piores condições, a que já aqui me referi, sem um esforço meticuloso de negociação e de preparação de propostas convergentes.

Em todo o caso, a afobação é fácil de perceber. Não foi há tantos dias que nos embalaram com a doce notícia de um Eurogrupo esforçado, que se aplaudiu a si próprio e que oferecia rios de mel e euros para aliviar as chagas europeias. Poucas horas passadas, já todos os governos tinham avisado que não tocariam nesse tóxico Mecanismo de Estabilidade, pelo estigma que imporia aos pedintes. O plano do Eurogrupo ficou de imediato reduzido à insignificância de um catálogo de empréstimos, aliás geridos por outras entidades. Exit Eurogrupo. Sobra o Conselho, o mesmo organismo que não conseguiu chegar a nenhuma conclusão no seu último encontro.

Um dos indicadores da dificuldade negocial está no facto de vários dos protagonistas atuarem virados para as suas disputas políticas nacionais. O famigerado ministro das Finanças holandês, Hoekstra, prepara-se para disputar a liderança do seu partido democrata cristão e para ser concorrente do atual primeiro-ministro, Mark Rutte, nas próximas legislativas. Acumula trunfos ao recusar acordos com Espanha e Itália, ser “repugnante” dá votos, Rutte não lhe pode ceder terreno. A Holanda é um campo de minas e o seu Parlamento já estabeleceu que não há dinheiro para os países devastados pela pandemia.

Merkel, que tem uma aliança enfraquecida e que conta os dias para a sua retirada, manteve o dogma alemão contra a cooperação europeia, apesar de sempre incensada pelos governantes a quem recusa estender a mão.

Conte, à frente de uma coligação dividida sobre assuntos europeus e perante sondagens que confirmam a vantagem de Salvini, procura salvar o seu ministério.

Pedro Sánchez está em minoria no Parlamento e perante a pressão de uma direita ainda suspensa da guerra civil da década de 1930. Se todos estes governantes atuarem em antecipação das aberturas dos telejornais nacionais do dia seguinte, é mais fácil que cuidem da dissimulação do que da recuperação das economias. Não é tarefa impossível, há uma galeria de comentadores e analistas ansiosos por apresentarem o que quer que resulte da reunião como o quinto milagre de Fátima. Vão fazer uma parada na 6ª feira, aconteça o que acontecer. No entanto, há algo que ninguém conseguirá evitar. É a realidade.

O Conselho vai acrescentar ao nada do Eurogrupo alguma coisa que pareça caridade, isso é certo. O custo político de não fingir é imenso, alguns pensam que maior do que o custo de falhar, pois um é pago agora e outro só no futuro, sabe-se lá por quem. Assim, até o governo holandês propõe um fundinho de 20 mil milhões, o que daria a Portugal 0,2% do PIB. Macron propõe 400 mil milhões, o que daria para Portugal metade do défice que é previsto para este ano, nas análises mais otimistas. Não está esclarecido como isso seria financiado e a questão não é de somenos: qualquer coisa que seja um empréstimo terá um custo político e social grave. Estes muitos zeros, para lembrar as palavras de Centeno numa entrevista desta terça-feira, são muitos perigos. A Moody’s e a Fitch, velhos piratas que sabemos ao que vêm, já anunciaram reduzir o rating da dívida e da banca portuguesa.

A Comissão, com pouco poder, percebeu que está num beco e tentou lançar ideias mais ousadas nos últimos dias: Von der Leyen refere-se a um grande fundo e Gentiloni, o comissário da Economia, avançou, não se sabe se em termos pessoais ou como prospetor da Comissão, a verba de um bilião a ser suportada pelo orçamento comunitário, o que se aproxima da proposta italiana. Isso implicaria que Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia aceitassem uma expansão razoável do orçamento e por muito tempo. É improvável que aceitem.

Sánchez avança uma proposta mais ousada: emissão de títulos perpétuos no valor de 1,5 biliões, a ser suportada pelos orçamentos futuros mas em valores anuais contidos, com transferências diretas e sem retorno para os países mais atingidos pela pandemia. É a proposta que Portugal devia apoiar. Mas, para ela se impor, terá que ser intransigente e vetar soluções alternativas prejudiciais. Se for trocada por empréstimos, a União vira as costas aos países do sul, mesmo que subam à mesa para dançar o fandango ou o vira no fim da reunião. Em qualquer caso, o primeiro-ministro de Madrid fez bem: mostrou as cartas, disse ao que ia, tornou mais difícil um recuo.

O governo português, que costuma ter aquela matreirice de querer estar bem com todos, esperando que venha o menos mau dos cenários, devia dizer o que quer e o que considera ser a sua fronteira na negociação. Também com isso faria um favor à Europa e à democracia e, assim, saberemos se a solução que resulte (ou que não resulte) do Conselho cumpre ou não essa regra de solidariedade. Cartas em cima da mesa.


A AR, o 25 de Abril e a extrema-direita

(Carlos Esperança, 20/04/2020)

Anda aí uma intensa animosidade às comemorações do 25 de Abril, na A.R., o órgão da soberania que a data simbólica permitiu livre e plural. Onde, pois, se poderá, de melhor forma, celebrar a data maior do devocionário da democracia, no estado de emergência?

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Desta vez, até há democratas a cair na teia que reacionários de diversos matizes teceram com o ódio que não cansa e a raiva que a democracia lhes causa. Os média do costume dizem que o país se dividiu, como se o deputado fascista, os 5 do CDS e a dúbia posição da IL pudessem comparar-se com restantes 223 do PS, PSD, BE, PCP e PEV (223 – 7). É preciso descaramento!

É inútil repetir mentiras e obscenidades que circulam no esgoto das redes sociais, com erros de ortografia e de sintaxe, a insultar o presidente da AR e a apelidar de gentalha os deputados de todos os partidos para se suspeitar das intenções e repudiar as mentiras.

O que dói aos répteis, obrigados a rastejar durante 46 anos, é a duração da democracia e a vitalidade da Constituição que, para decretar o estado de emergência, exigiu a maioria dos deputados, a permissão do Governo e a vontade do PR.

O que causa brotoeja e insónias aos salazaristas humilhados e fascistas das novas e velhas gerações, aos nostálgicos do “nosso Ultramar infelizmente perdido”, da ordem, que a polícia mantinha, e dos bons costumes, que a censura e o clero se encarregavam de vigiar, é a capacidade da democracia que resistiu a manifestações silenciosas, às bombas e à intensa demonização de grandes filhos da União Nacional.

A celebração do 25 de Abril, consensual entre todos os deputados democratas, obedece às regras de precaução sanitária de todas as outras reuniões com que a AR tem garantido o regular funcionamento da democracia.

“Os procedimentos foram adotados por largo consenso, tendo como pano de fundo uma proposta feita por Rui Rio ao presidente da Assembleia” [Adão Silva, Deputado do PSD]”.

Seria inaceitável que os deputados se reunissem na AR para o normal funcionamento do Parlamento, com as regras de reunião pós-pandemia, e não o fizessem para comemorar o fim da Pide, da Legião, da censura, da guerra colonial e das arbitrariedades fascistas da ditadura.

Celebrar Abril na AR é cumprir um dever dos deputados para com os heróicos capitães que nos legaram a democracia na madrugada imorredoura de Abril de 1974 e mostrar a gratidão de todo um povo, que os partidos representam.

Os democratas querem ouvir os discursos dos seus deputados a enaltecer a mais doce de todas as madrugadas, a agradecer a quem nos legou a liberdade com cravos floridos nos canos das espingardas.

A contestação é a campanha reacionária que arrasta alguns democratas, para mais tarde se lamentarem, de salazaristas que aguardavam um pretexto para atacar a democracia.

«O 25 de Abril tem de ser e vai ser comemorado na AR». Podem denegri-lo os néscios e insultá-lo os fascistas, mas Ferro Rodrigues tem razão e o povo está unido com ele.