A bem aventurada austeridade ou o “tem que ser”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 06/05/2020)

A pergunta final é sempre a mesma: vai ou não vai ter que recorrer à “austeridade”? Não, responde Costa, não ao modelo de austeridade que foi implementada na crise anterior ( leia-se 2011 a 2015), a do corte nos rendimentos e direitos.

Costa explica-lhes pacientemente que são crises diferentes, a anterior decorrente da pressão sobre as dívidas soberanas em que os mercados atingiram de sobremaneira os países do Sul e esta de origem pandémica e que maltrata todos sem excepção.

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Mas vai ter que haver “austeridade”, não vai poder deixar de haver, afirmam os Comentadores, não escondendo o inconfessável desejo que lhes vai na alma: Que haja mesmo, para que Costa se dê conta do mal que fez ao subestimar os sacrifícios que foram “pedidos” aos Portugueses, sendo que o “pedidos” que eles repetem à exaustão são uma forma enfática de dizer “impostos”, entregando de imediato a esses mesmos Portugueses aquilo que muito bem lhes tinha sido retirado.

Pois voltou o regabofe, dizem eles e os Portugueses não podem ter dinheiro nos bolsos pois começam de imediato a gastar à grande e à francesa, a viver acima das suas possibilidades, em putas e vinho, como dizia aquele coiso, e a consumir como se fossem ricos. Depois a dívida aumenta… Mal por mal já estavam habituados. E agora Costa, vai ou não vai haver austeridade Costa? Como vais sair disto Costa?

Pois eles aí estão sempre à mercê dos nossos olhos e ouvidos, sempre com uma prontidão olímpica a explicar o que disse e o que não disse o Primeiro Ministro, mas com uma fidelidade exemplar à agenda que lhes foi imposta: fazer crer que vai ter que haver “austeridade”. Mas uma “austeridade” à sua maneira.

Mas que ou qual “austeridade”, pergunto-me eu e como eu muitos dos leitores? Ué, como dizem os Brasileiros, qual “austeridade”? Pensam que é passar a haver menos produtos fúteis no mercado? Menos carros de forte luxo como se fôssemos super ricos? Viagens ao preço da uva mijona para irmos tomar o pequeno almoço a Paris e voltarmos para uma reunião? Ir para o Havaí como se estivéssemos aqui? Trocar de carro e de mulher como quem troca de camisa and do on, and do on e mais on, on e on?

Nada disso, né? Isso até que é sagrado! Isso faz parte do nosso (deles) “way of life”, isso faz parte da “governance”, faz parte de um sortilégio de classe adquirido com muito “savoir faire” e “sex appeal”, apenas ao alcance de alguns…

A “Austeridade”  é apenas uma, inapelável e definitiva: Corte nos Salários e Direitos! De quem? Ora de quem: de quem trabalha pois trabalhar já é uma regalia… E das Pensões! De quem? Ora de quem: de quem está Reformado e por isso já não trabalha…

É isto que eles querem de volta. E voltarem a dizer que “salvaram o País” desta vez não da banca rota mas da sua rota carteira. E dos desvarios de quem não pode, nem a isso alguma vez teve direito: a viver condignamente.

E quem são estes “cães de fila”, autênticos capatazes de autoritários donos empenhados,  quais “Trumps” de pocilga, em defender seus lucros e suas acções na Bolsa? Todos sabemos…

O seu desejo supremo, e para muitos inconfessados até, era não ter que pagar aos trabalhadores! Estão admirados? Disse-o o da Altice, sem papas na língua, tal como muitos, e a maior parte até dizem: não estás bem? Põe-te… Até àquele monte de sebo daquela Americana, que dizem ser a mulher mais rica da América: os empregados deviam ganhar como se ganha em África.

Eles defendem, como capangas, atiradores contratados e como milícias ou cangaceiros armados com as armas da persuasão contínua e do medo, o seu dono, tal como um cão amestrado.

E defendem efusiva e veementemente uma nova “austeridade redentora”. Porque não há outra saída, dizem eles, pois o Estado vai ter que se endividar e alguém vai ter que pagar. .. Mas quem? Sempre os mesmos? Na anterior deu resultado, eles repetem…

O problema, sempre o mesmo problema, é que muitos, mesmo sofrendo, continuam a acreditar… Como acreditam como redentores os castigos, os sacrifícios e as imolações…que as procissões aliviam, tal como as penitências. E o “tem que ser” sufraga…

Eles querem que volte a “austeridade redentora” do Passos, aquela que separa os produtivos dos improdutivos, os novos dos velhos, os informados dos reformados, os que pagam impostos (uma regalia pois sinal de que trabalham…) e os que vivem dos impostos…quer dizer, dos Subsídios de Desemprego ( onde já se viu quem não trabalha ainda por cima receber…) e desse famigerado Rendimento Social de Inserção, que vai direitinho para malandrins drogadolas que não querem trabalhar… Mas também a quem nunca ninguém dará trabalho, digo eu!

Estes são produtos nefastos, maçãs podres da sociedade, maus exemplos que se devem evitar, isolar, deixar apodrecer…

Assim pensam os fascistas, os “trampas” desta vida, os eternos defensores da “austeridade”,…prós outros, sempre prós outros é claro…

Cretinos é o que são… E todos sabem quem são!

NB: Eu Reformado me confesso mas ainda disponível para as lutas pela Dignidade Humana!


Os cabelos de Marques Mendes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/05/2020)

Estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes, que ficou com eles em pé com a eleição de uma deputada do PS para a FPF. É que quando o ex-deputado Gilberto Madaíl acumulou funções na FPF o seu líder parlamentar era Marques Mendes. E quando o ex-deputado Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga o líder do partido era Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar.


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Corria o ano de 1996 quando o deputado do PSD Gilberto Madaíl foi eleito presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). E como deputado permaneceu mais um ano, conseguindo a proeza de acumular a presidência da FPF com a da Comissão Parlamentar para o Desporto. Em 2006, o também deputado do PSD Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga e vice-presidente da FPF, por inerência de funções. E acumulou as funções políticas e de dirigente desportivo durante três anos. A promiscuidade entre política e futebol ainda só era tema de gente politicamente marginal. E assim continuou até há poucos dias. Os presidentes de clubes eram namorados pelos partidos do poder, muitos deputados ocupam funções associativas e os painéis de comentadores desportivos forneceram candidatos a autarcas. Como André Ventura, o moralista mais promíscuo da nossa praça.

Tudo continuava nesta pouca-vergonha até o comentador político Marques Mendes ter ficado “de cabelos em pé” com a eleição de uma deputada do PS, Cláudia Santos, para presidente do Conselho de Disciplina da FPF. Visivelmente indignado, o comentador explicou-nos: “Isto é um problema político e ético. Isto é um problema de promiscuidade, de confusão, de ligação perigosa entre o futebol e a política.” Confesso que senti um arrebatamento. Finalmente alguém punha o dedo na ferida, dizia as coisas como têm de ser ditas e tudo o mais que se costuma escrever nas redes sociais quando um demagogo fala para a plateia a fazer figas atrás das costas.

Só que o passado é uma sarna que não larga o hipócrita. E toda a gente tem o seu. Quando trago à baila Madaíl e Loureiro não é para entrar na rábula da troca de cromos ente PS e PSD. Seria um jogo interminável. Apenas estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes. É que quando Gilberto Madaíl acumulou funções, o seu líder parlamentar era, nem mais nem menos, o cabeludo Marques Mendes. E quando Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga, o presidente do partido era, nem mais nem menos, o mesmo Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar. E a sorte é tanta que os três – Marques Mendes, Gilberto Madaíl e Hermínio Loureiro – foram eleitos pelo mesmo círculo de Aveiro. Ninguém sabe se ele disse aos dois senhores, como aconselhou agora, que aquilo não era “politicamente recomendável”. Ou se propôs que se mudasse a lei. Sei que não agiu nem falou, apesar de ter poder para o fazer, nos dois casos.

Ao contrário de muitos, acho normal ex-políticos fazerem comentário. O comentário é assinado e é para ter posição. E, tenho de confessar, ver Marques Mendes ter sobressaltos éticos com as promiscuidades dos outros é o meu “guilty pleasure”. E, por isso, espero ansioso pelo esclarecimento deste domingo, quando o comentador for confrontado com o que mudou para se ter transformado no guardião da ética que lhe escapava quando tinha poder para a impor. Se o comentário lhe serve para criar factos políticos, que desta vez seja ele o facto político. É que não é Marcelo quem quer, é Marcelo quem sabe. E, como se viu na polémica do 1º de Maio, na arte da fuga e da dissimulação todos são aprendizes ao pé do Presidente.


Recomeçar (mas sem amor romântico)

(Ana Sá Lopes, in Público, 04/05/2020)

Alguém arrisca passar agora, com o risco do vírus, pelos estágios iniciais do estabelecimento de uma relação?


E agora como é? Fazemos o quê? Olhamos para a mudança de “estado de emergência” para “calamidade” como uma possibilidade de esperança, uma coisa incrível quando entre dois palavrões horrorosos venha o diabo e escolha. Chegou agora, enfim, a possibilidade de nos reconciliarmos com algumas coisas banais que o longo confinamento varreu das nossas vidas.

— O que me apetece é beber um café na rua.

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A maioria dos nossos desejos será tão banal como o desta minha amiga. Beber um café na rua passou a ser um bem raro, apenas disponível em algumas padarias. Um café. Vamos lá a ver: é só um café. E no entanto a sua falta revelou-se para muitos de nós, por muitas máquinas expresso que tenham inundado o mercado, desagradável de suportar.

Queremos regressar a uma normalidade, reconhecer alguma parte do mundo que era nosso e o vírus implodiu. Mas o novo normal será anormal, já sabemos. Não poderemos abraçar, quando é que poderemos abraçar? Daqui a um ano e meio com vacina? Sem a possibilidade de um abraço, o nosso mundo encolhe e gela. Claro que sabemos viver encolhidos. E a felicidade também vem de se fazer o que, a cada momento, é o mais certo. E encolher-nos é agora a nossa possibilidade. Mesmo um bocado gelados, avancemos. 

Acho que em todo este tempo demos por nós a fazer perguntas antes inimagináveis uns aos outros. Eu dei. Aqui há dias:

— Tu abraças o teu filho?

— Não, ele não gosta de abraços. Mas toco-lhe.

— Tu desinfectas as compras?

Alguns meus amigos desinfectam as compras. Outros não. Eu também não. Mas não dou abraços. Não toco em ninguém e sabe Deus o que isso é doloroso. Mas agora, podendo ir ver o mar e a sua infinitude, as coisas vão ficar melhores.

O que vai acabar é o amor romântico ou a sua possibilidade. Falo dos novos amores — a quarentena demonstrou como é maravilhoso ter um bom casamento ou similar, para todos os que tinham esquecido ou desprezavam o facto. Um conselho de amigo: tratem dele, do vosso casamento, porque já não há mais.

Ah e tal o amor não acaba, respondem-me. Não? Alguém arrisca passar agora, com o risco do vírus, pelos estágios iniciais do estabelecimento de uma relação? Quem desinfecta compras não vai beijar estranhos. A máscara vai ser uma nova burka usada por razões sanitárias — vai proteger-nos da covid-19 e do amor romântico. O vírus da SIDA tinha formas de protecção. Aqui não há. O álcool gel não é para ser usado na boca e não consta que exista alguém disponível para tomar banho em álcool gel antes de tocar em alguém que não conhecia antes da quarentena.

Vamos então recomeçar como se nos faltasse uma parte. Mas recomeçamos. E apesar do muito que o vírus nos veio retirar, a tendência do humano para a busca da felicidade consegue ser comovedora. Bebamos o café.