(Por José Gabriel, in Facebook, 05/10/2025, Revisão da Estátua)
Donald está em choque. Como pôde o povo de New York dar-lhe um tal desgosto? A cidade onde, amorosamente, construiu a sua torre nº 1, onde estabeleceu o seu apartamento forrado a ouro – para que nenhum luxo faltasse aos nova-iorquinos. De onde partiu na sua cruzada para, inspirado, digo mais, enviado por Deus, salvar a alma – nem que fosse necessário sacrificar-lhes o corpo – dos americanos! Ele, que empunha a espada divina, vê-se derrotado pelo enviado do Demo, do Mafarrico.
E chorava: “Senhor, Senhor, porque me abandonaste? Aumento-te as tarifas do Céu, quem pensas que és?”
Tomou outro Xanax e continuou:
“Ele tem todos os defeitos. O nome diz tudo: Zohran Mamdani! Filho de pai e mãe de origem indiana, nascido no Uganda, muçulmano de religião, socialista registado de política – eu digo comunista que é o que ele é! -, patrocinado e apoiado por perigosos agentes subversivos/as como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, meus inimigos jurados. Porquê, Senhor? Eu, que tão ternamente bombardeei de avião os meus queridos nova-iorquinos com a minha preciosa merda, não merecia esta desfeita! Buuuuáááááá….”
Recompôs-se. Um presidente, quero dizer, um Presidente, não podia ficar-se. Enviaria as suas tropas para Nova Yorque. Eles iam ver! Vai tudo raso.
Ligou a televisão. E logo deparou com a festa dos eleitores nova-iorquinos frente ao abominado comunista incréu. Como o aclamavam! As notícias dos outros Estados não eram melhores. Com um nó na garganta, a raiva no coração e a fervura no sangue, correu de novo para o frasco do Xanax.
Aquilo não se fazia a um presidente, perdão, a um Presidente. O seu povo não o queria ver feliz. A ele, que até lhes tinha construído uma sala de baile dourada, maior que a Casa Branca original. Ele, que, para alegrar o seu povo, até tinha dado o seu – seu, dele – nome à nova edificação. Ballroom Trump. Que mais queriam eles, os ingratos!?
E Donald soube, nesta hora amarga, o que é a mágoa dos grandes. Dos grandes quê? – perguntareis. Não respondo, que isto é um texto sério e eu sou muito educadinho…
As palavras de Zelensky soam entre ruínas e sirenes: “A Ucrânia está pronta a aderir à União Europeia.” Disse ele hoje! Mas basta um olhar lúcido para perceber que esta afirmação é menos um anúncio político e mais um grito simbólico de sobrevivência. A Ucrânia não está pronta para nada – não sabe o seu destino político, não sabe quem a governará dentro de dois ou três anos, e muito menos sabe em que condições ela existirá quando a guerra finalmente se calar.
A verdade é que, perante a devastação quase total das suas infraestruturas energéticas e industriais, a destruição das colheitas, a fuga de milhões de cidadãos e a ocupação de mais de um quinto do território, falar em adesão à União Europeia é, no mínimo, uma fuga para a frente. É o reflexo de um país encurralado, que procura esconder a dor sob a capa de um futuro europeu idealizado – um futuro que, mesmo no melhor dos cenários, só poderia tornar-se realidade por volta de 2040, e ainda assim sob condições profundamente incertas.
Zelensky vive entre a resistência e a retórica. Transformou-se, com o apoio de uma comunicação ocidental eficaz, no símbolo da luta liberal contra o que “cheira a russo”. Contudo, por detrás da imagem mediática, há um país exausto, dividido e sem um projeto político coerente para o pós-guerra. A liderança ucraniana continua presa a um discurso de “vitória total” que já poucos acreditam ser possível. E, enquanto isso, cada dia de conflito aprofunda a dependência financeira e militar de Kiev em relação ao Ocidente.
O Ocidente, por sua vez, não tem uma estratégia clara de saída. Apoia a Ucrânia para não perder face, mas evita comprometer-se com objetivos tangíveis. Fala em vender ou utilizar ativos russos congelados, uma manobra que vários juristas europeus consideram ilegal e perigosa, pois abre precedentes que minam a própria credibilidade da ordem jurídica internacional que a União Europeia diz defender. E é nesse cenário de hipocrisias cruzadas que se mantém a ilusão de que a adesão ucraniana é um objetivo realista.
Entretanto, a Rússia prossegue o seu jogo de paciência. Desde 2014, Moscovo tem repetido as mesmas exigências: neutralidade da Ucrânia, respeito pelas minorias russófonas, e garantias de que o país não será uma plataforma militar da NATO. Foram avisos ignorados – ou talvez convenientemente abafados – num contexto em que a retórica de confronto parecia servir a todos: a Putin, para consolidar o poder; a Zelensky, para enganar um país fragmentado; e ao Ocidente, para justificar o fortalecimento de uma fronteira geopolítica que se tornou, de novo, o “muro de contenção” da Europa.
Hoje, porém, a realidade impõe-se: a Ucrânia não tem forças para vencer, nem margem para negociar. O seu futuro dependerá menos da vontade dos seus líderes e mais dos cálculos estratégicos de Washington, Bruxelas e Moscovo. E é por isso que o sonho europeu soa, neste momento, a miragem. Porque não há “porta da UE” aberta – há apenas um corredor de incertezas, onde cada passo pode significar a perda de mais um pedaço de soberania, de território ou de esperança.
“Fugir pela porta da União Europeia” seria, para Kiev, escapar à tragédia. Mas até isso é impossível. Antes de pensar na Europa, a Ucrânia precisa primeiro de se reencontrar consigo mesma – de reconhecer as suas feridas, compreender as suas divisões internas e, sobretudo, recuperar a capacidade de decidir o seu próprio destino sem depender da caridade armada dos outros.
Até lá, o sonho europeu continuará a ser apenas isso: um sonho – frágil, distante e, neste momento, impossível.
(Em tempos idos a Dona Clara era visita assídua da Estátua de Sal. Depois foi perdendo gaz e brilho, vieram as guerras, veio ao de cima o seu “americanismo” meio blasé, pelo que tem andado arredada. Só que, a Dona Clara sempre foi grande escriba e, confesso, este texto surpreendeu-me pela positiva. Fala de uma realidade de que ninguém fala, nem partidos políticos, nem sindicatos, nem a esquerda e muito menos a direita: os “excluídos” em contraponto com a riqueza pornográfica dos bilionários.
Pelo que só me resta publicar esta incursão da Dona Clara. Para a Estátua valem as mensagens, independentemente dos amores ou antipatias de estimação que tenha pelos mensageiros.
Estátua de Sal, 04/11/2025)
Os sentimentais e divulgadores de piedades, os cantores e artistas melancólicos, gostam de dizer que é o amor que faz mover o mundo, mas não é verdade. É o dinheiro.
Um a um, meia dúzia de homens e uma mulher deitaram-se encostados a um edifício abandonado na principal rua de Madrid. A Gran Via. O edifício, uma monstruosidade em vias de reabilitação e muito investimento, estava entaipado na face que dava para a rua, num dos cruzamentos mais concorridos, e durante o dia não tinha ninguém em frente. Não sei se o primeiro a chegar foi um rapaz loiro de uns 30 anos, com um cartaz que dizia que tinha uma doença mental e tinha fome. Deem qualquer coisa para comer. Esse aparecia durante o dia, ao contrário dos outros que viajavam a coberto da noite. A noite estava fria, aquele frio seco que faz gretas nas mãos e na boca e envelhece as caras. Muito diferente do verão é o inverno de Madrid.
Estenderam umas mantas ou sacos-camas sujos e velhos no chão, sujo e velho também, e aninharam-se em fila. O do cartaz era agora outro com outro cartaz também sobre doença mental. Numa das camas improvisadas, aninhavam-se dois sem-abrigo que se aqueciam um ao outro. Por trás, a decoração era de graffiti e slogans, com preponderância para Free Palestine. As cidades europeias são agora iguais às cidades americanas nos anos 80, quando os pavimentos, cantos e vãos foram invadidos por vagabundos e restos de humanidade caídos para fora da malha social. Veteranos da guerra com trauma, alcoólicos, drogados, desempregados, doentes, sobretudo os doentes mentais que os asilos e hospitais despejaram na rua de um dia para o outro, em nome da liberdade e da proibição do encarceramento. E por razões económicas.
As operações de limpeza do mayor Giuliani completaram o quadro. Nas ruas e subúrbios da América tropeçava-se nesta população que acabaria a construir cidades dentro das cidades, em tendas e tetos improvisados. Assim aconteceu em Los Angeles, Skid Row, ou em São Francisco, hoje uma metrópole onde os techies ocuparam as casas e inflacionaram as rendas e os preços, ajudando a expulsar os antigos habitantes que não acompanharam. A distância entre a miséria e a opulência é pequena se medida em metros.
As cidades da Europa são agora assim. O Estado social arranjou um nome para esta gente, os excluídos, e continuam a enxamear as ruas e becos, os vãos das pontes e viadutos, os cantos dos bancos desertos de noite. Ou bancos de jardins, mais expostos às intempéries. Alguns penetram nos aeroportos, donde são expulsos. De manhã, mudam de poiso e disfarçam a condição para não serem perseguidos. Os samaritanos entregam comida e tentam ajudar, e as instituições oficiais do Estado, os abrigos dos sem-abrigo, são repudiados pela insegurança e pelo ambiente perigoso e insalubre. As mulheres temem as violações. Preferem a rua e a liberdade.
Há doentes mentais, desencarcerados, desacompanhados, alcoólicos, desempregados, adolescentes fugidos, refugiados, toxicodependentes, velhos sem família e sem dinheiro, imigrantes, tal como naquela rua de Madrid. Na Gran Via, um destes vagabundos era uma mulher da América Latina, que de dia se escondia dentro do saco-cama com uma criança lá dentro e dormia o tempo todo com um copo de plástico ao lado para as moedas. Há sempre uns que escrevinham em bocados de papel, nada frustrados com a falta de esmola, que a digitalização tornou mais difícil. Ninguém, a não ser os mais pobres, carrega moedas.
Embora sejam inofensivos, o cheiro e o medo da visão desta solidão ou da loucura fazem com que as pessoas não se aproximem. São hoje tantos e tão banais que passaram a ser ignorados. Nos anos 80, quando não se podia caminhar no centro de cidades como Filadélfia sem tropeçar em dezenas de vagabundos, eram uma excentricidade. Nas cidades europeias havia pedintes, mas não havia a crise da habitação e a crise das migrações, e a economia capitalista ainda não tinha evoluído para o ponto em que hoje está.
Ninguém representa a gente sem voz nem voto, e ninguém os quer representar. São os “excluídos”, excluídos até pelas esquerdas que defendem sempre os pobres, os funcionários do Estado e os imigrantes com toda a virtude, mas nunca se pronunciam sobre os “excluídos”. Os excluídos não votam. Restam os samaritanos e a Igreja, mais os restos do Estado social que trata destes assuntos sem grande empenho. E sem dinheiro.
O problema tem-se agravado, como se vê por qualquer passeio pelas nossas cidades. Durante a guerra civil síria, nas ruas de Paris viam-se famílias inteiras a dormir na rua. No rescaldo da guerra do Afeganistão, viam-se tendas montadas num canto de Hyde Park, com refugiados afegãos lá dentro. Foram varridos.
Na outra ponta do espectro social está o dinheiro, muito dinheiro, muito mais dinheiro do que alguma vez a Humanidade deteve ou acumulou. O capital, a única força que faz mover o mundo. Os sentimentais e divulgadores de piedades, os cantores e artistas melancólicos, gostam de dizer que é o amor que faz mover o mundo, mas não é verdade. É o dinheiro.
E o dinheiro deixou de ser contado em milhões, é agora em biliões ou milhares de milhões. Nasceu a novíssima unidade, o trilião. O trilião é comum. Elon Musk pretende ser aumentado para um trilião antes da reunião de acionistas da Tesla. Se não for, deixa o cargo de CEO. Um trilião em “performance-based compensation package”. Este o nome. E quase de certeza ganhará, porque sem Musk as empresas valeriam muito menos e os acionistas perderiam. Um trilião é um valor incontável, incalculável, e fácil de torrar em aventuras espaciais ou nas aventuras da IA, que nesta fase precisa de torrar biliões para recolher triliões, tal como vaticinou Bill Gates.
Gates deixou de se preocupar com as alterações climáticas porque a Microsoft precisa de investir biliões na parceria com a Open AI de Sam Altman. E sabe que a IA precisa de água e de energia sem fim, consumindo recursos naturais finitos. Recomendou às Nações Unidas que se deixassem de climas e se preocupassem com a “pobreza” e a “doença” sabendo bem que as alterações climáticas trarão ainda mais doença e mais pobreza.
A benemerência acaba aqui e acaba assim. A IA é hoje o suporte fundamental da economia americana, ao ritmo de triliões. Quantidades de dinheiro em que se move uma empresa como a Nvidia. E em breve se moverão a Apple. Ou a Meta. Ou a Alphabet, mais conhecida por Google. O bilião é manifestamente insuficiente para quantificar a realidade. Os seis bilionários da tech, Elon Musk, Larry Ellison, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Page e Sergey Brin já ultrapassaram os 200 biliões da riqueza pessoal e juntos detêm 1,7 triliões. Musk sozinho tem 475 biliões. E faz o ultimato para o trilião. As grandes tecnológicas valem mais do que muitos países. Portugal podia ser comprado por eles, e nem tem valor residual. Bezos é agora o terceiro mais rico, ultrapassado por Musk e Ellison, que está a comprar os media americanos porque os filhos se interessam por cinema e televisão.
É claríssimo que nenhum político, liberal ou não, controla este universo opaco e virtual, que não compreende ou pode compreender. A plebe, com os dados capturados sem resistência, não se importa de ser pastoreada pela tecnologia, que lhe facilita a vida e vai criando empregos e subempregos e cada vez mais inovação. E dinheiro. E destituição.
O poder político é como o amor. Pensa que o mundo se move pela sua força, não é verdade. Musk enfrentou e combateu Trump e nada aconteceu, desiludindo os liberais que viam ali um mortal combate de gladiadores com mútua destruição. Cada um ficou no seu canto e Trump pode ameaçar verbalmente Musk mas não o pode contrariar ou impedir. O poder está no dinheiro e um tem mais dinheiro do que tem o outro. Todo o Napoleão tem o seu Waterloo.
À esquerda, defunta e faminta, restam as causas remotas, Palestina, migrações, uma teoria universal dos direitos humanos, e, se a História se repetisse, a revolução. Mas não se repetirá. A esquerda, como toda a gente, é ignorante sobre este dinheiro e sobre a ciência, a sapiência, as técnicas que o sustentam, e está capturada pela tecnologia. Incapaz de parar o futuro.
Os vagabundos irão morrer longe, longe da vista. O darwinismo social pode ser pseudocientífico sem deixar de ser uma experiência humana.