Como é que chegámos aqui? Ficando e calando

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 26/11/2020)

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Como é que chegámos aqui? Aqui onde a direita partidária se foi prostrar aos pés de um partido com um solitário deputado, deputado esse que defende em público a violação de direitos humanos e o aprisionamento de democratas. Aqui onde um caluniador profissional sem leituras nem pensamento é tratado como a intelligentsia da actual direita, o ponta-de-lança da normalização mediática do tal deputado abjecto e seu partido aberrante.

André Ventura e João Miguel Tavares partilham a mesma visão sobre o regime: está podre, corroído pela corrupção. Ambos repetem que toda a classe política, da Assembleia da República à Presidência da República, passando igualmente pelos Governos sucessivos, é cúmplice na criação e aprovação de leis cuja finalidade suprema não é o interesse nacional, tão-somente a impunidade para se continuar a roubar sem ser possível aos raros polícias, procuradores e juízes que resistem imaculados apanharem a bandidagem e dar-lhe a sova que merece.

Ambos são igualmente sósias na esperança messiânica de que Passos regresse para resgatar a Grei das mãos dos socialistas diabólicos e inaugurar um novo regime que irá durar mil anos sem casos de corrupção, pois finalmente a Justiça vai obrigar os criminosos socialistas a provarem a sua inocência caso pretendam sair dos calabouços (pista: não vai ser nada fácil dado que o mal está-lhes entranhado na pele e consegue ver-se nos olhos a brilharem de maldade quando os corruptos ficam às escuras).

Inacreditavelmente, o presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019, vedeta incensada pelo director de um “jornal de referência” que o cita sem parar, nunca é interrogado sobre as fontes do seu conhecimento acerca dos males que nos afligem. Rui Tavares, em A imaculada conceção do fascismo inconcebível, ensaia ao de leve esse exercício, mesmo assim já marcando uma radical diferença face à classe jornalística e comentarista circundante. Nem Tavares nem Ventura precisam de qualquer dado, número, facto para despacharem caudalosas lengalengas sobre o Apocalipse que precede a entrada no Paraíso (se o tal Passos coiso e tal, bem entendido). Basta-lhes a indústria da calúnia dominada pela direita e sua imparável produção sensacionalista, método que deu a ambos o prémio de terem visto um primeiro-ministro, um Presidente da República e um líder da oposição a irem ter com eles com o rabo a abanar.

Considerar João Miguel Tavares um liberal, ele que faz claque pelos que cometem crimes na Justiça e que treme de êxtase com a ideia de se reduzirem os direitos individuais face ao Estado (mas só para se apanhar e castigar os seus alvos, depois pode-se voltar logo ao Estado de direito democrático, claro), é não apenas estúpido perante o que vende em público, é lunático.

Considerar André Ventura de direita, ele que poderia ocupar qualquer quadrante ideológico do populismo exactamente com os mesmos objectivos imorais, inumanos e subversivos, é não apenas lunático perante o seu oportunismo rapace, faz de nós estúpidos.

Nós não chegámos aqui. Este aqui tem estado connosco desde 2004. Chama-se decadência da direita e, por terem declarado guerra à decência com meios de condicionamento da opinião pública nunca antes usados em democracia, conseguiram arrastar a esquerda para uma forma de cumplicidade que explica o actual triunfo dos pulhas e suas pulhices. Se ficamos banzos com o festival de irracionalidade criminosa que Trump está a dar ao mundo, não ficarmos atónitos com a facilidade com que André Ventura e João Miguel Tavares nos tratam como borregos é em si mesmo um crime de lesa inteligência e contra o respeito próprio.


A alegria de Rui Rio

(In Blog O Jumento, 27/11/2020)

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Rui Rio dá ares de quem ganhou um brinquedo novo, parece uma criança a quem ofereceram a primeira bicicleta, finalmente sente-se feliz porque consegue dar ares de líder do PSD. Não lhe importa que tenha conseguido dar ares de líder porque a Catarina Martins lhe emprestou a prancha de bodyboard (surf é demais para as suas capacidades) enquanto do outro lado o André Ventura o segurava para aparecer minimamente equilibrado para a fotografia. 

Não lhe importou que tenha sido uma figura secundária no debate do Novo Banco, não se incomodou de a sua cambalhota ter sido sincronizada com a do Ventura, o que o levou a pensar que afinal o espelho estava enganado, foi o momento de glória proporcionado pelo Novo Banco. O outro andava de chanatas enquanto pôs fim ao BES, este anda de botas cardadas quando dá o pontapé no Novo Banco. 

Mas o mais curioso é ver um ecrã cheio de gente engalfinhada para aparecer ao lado do líder. É a abordagem pacóvia muito típica, uns querem dizer na terra que são importantes porque têm direito a estar atrás do líder, outros aproveitam a foto para meter no Facebook do PSD da sua aldeia. À frente deles um líder excitado berra e como acha que o seu sorriso é lindo não usa máscara, porque deve achar que os portugueses preferem ler nos lábios. 

Este é o senhor que revelou não ter classe nenhuma ao abordar a questão do congresso do PCP. Mas no mesmo telejornal vejo imagens do congresso do PCP, um controlo rigoroso nas entradas, distanciamento social, micros desinfetados após todas as intervenções, todas as cadeiras desinfetadas no intervalo para o jantar. 

Pessoalmente achei que a realização da Festa do Avante revelou alguma falta de bom senso e que o congresso tem muita teimosia ideológica. Mas recuso condenar a realização do congresso, como não condenei outro congresso e manifestações em tempos de pandemia e organizados sem um mínimo de seriedade. O PCP tem direito a fazer o uso dos seus direitos constitucionais e questioná-los, ainda que com os truques pacóvios do Rui Rio, só merece uma condenação. 

Mas depois de ver este Rui Rio acompanhado de um rebanho de gente em menos de dois metros quadrados acho que este palerma deveria pensar um pouco antes de abrir a boca.


Vacinas: uma frase de que Costa se vai arrepender

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 30/11/2020)

Daniel Oliveira

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Não me interessa, por agora, saber se a proposta de trabalho para ser apreciada pela DGS, que punha a possibilidade de deixar quem tinha mais de 75 anos no fim dos grupos prioritários, estará certa ou errada. Preocupa-me que, num assunto tão sensível, haja técnicos que deixam transpirar para fora um debate em fase inicial, quando se discutem documentos provisórios e inacabados num cenário em mudança e que ainda é de incerteza. E preocupa-me que a comunicação social seja leviana na forma como os apresenta. Assim, será difícil trabalhar. Contribuem para o caos e para a politização de um debate que deve ser ponderado. E preocupa-me a rápida indignação geral que tal informação provocou.

Não sendo técnico, não sei se é válida a hipótese destas vacinas não serem eficazes ou seguras para pessoas mais velhas. Nem eu, nem 99,9% das pessoas que decidiram indignar-se com esta possibilidade. Se se viesse a confirmar, a proposta, por mais contraintuitiva que seja, estaria certa. E esse é um problema com que a política tem de se confrontar: as escolhas tecnicamente acertadas podem ser politicamente difíceis.

Todo o processo de vacinação vai ser difícil para o poder político. O Governo devia, aliás, evitar promessas temerárias de que o risco de não estarmos preparados é igual a zero. Sobretudo depois do que aconteceu com a vacina da gripe. Mas, mais do que isso, deve medir bem a situação em que coloca os técnicos.

Confrontado com a indignação militante que se instalou por causa de notícias sobre um documento provisório, António Costa teve a pior reação possível. Escreveu no Twitter (a banalização formal do discurso de Estado é transversal a todos os campos políticos) o que nunca deveria ter escrito: “Há critérios técnicos que nunca poderão ser aceites pelos responsáveis políticos.” A frase não está genericamente errada (no fim, será sempre a política a decidir), mas é a pior possível para começar um processo difícil, em que a pressão pública será tremenda. Desautoriza os técnicos. Quando tiver de explicar uma escolha politicamente difícil mas acertada do ponto de vista técnico, vão-lhe perguntar: mas esse critério é daqueles que os responsáveis políticos podem aceitar ou têm de recusar? Isto é um convite à pressão política. A frase apela à gritaria. Compreendo que acusação de querer “matar os velhinhos”, que rapidamente se espalhou pelas redes sociais, seja intolerável. Mas Costa vai arrepender-se de a ter escrito. Dificultou uma tarefa que já será penosa.

Os critérios dos técnicos não atendem apenas à necessidade de socorrer os grupos mais vulneráveis, apesar desse ser o mais evidente para toda a gente. O primeiro de todos será o de proteger aqueles que podem salvar vidas e, depois, o de travar a pandemia. No meio, tem de se ter em conta a segurança e eficácia da vacina em cada grupo – é o que teoricamente pode estar em causa, até mais informação das farmacêuticas, com as pessoas com mais de 75 anos. Nada disto pode ser avaliado por um político. Se o critério for político, vai receber a vacina quem mais se fizer ouvir.

Vamos assistir a uma grande pressão de vários sectores profissionais. Quase todos dirão que estão na “linha da frente”. Haverá discursos emotivos e demagógicos, como o do próprio primeiro-ministro: “Não é admissível desistir de proteger a vida em função da idade. As vidas não têm prazo de validade.” Se o documento provisório colocasse a hipótese de não vacinar logo aqueles que têm mais de 75 anos por uma questão de esperança de vida, compreendia-se esta afirmação. Se a dúvida por esclarecer é a eficácia da vacina nesta população, a frase é absurda.

Quando outros países tiverem mais pessoas vacinadas do que Portugal, a pressão será tremenda. E quando um grupo já estiver vacinado e noutro se continuar à espera, pior ainda. Não é habitual eu defender que os políticos devem deixar decisões a técnicos. Mas este é um caso evidente: decisões técnicas difíceis devem ser tomadas por quem está menos exposto à pressão. Para isso, é fundamental que a população aceite a autoridade dos técnicos. Não se pode dizer que o primeiro-ministro tenha contribuído para isso.