(João Gomes, in Facebook, 25/06/2026)

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Há homens que passam à História pelas suas grandes ideias. Outros pelos seus grandes discursos. E há ainda aqueles que passam à História pela extraordinária capacidade de espalhar manteiga. Mark Rutte, atual secretário-geral da NATO, parece estar determinado a conquistar um lugar nesta última categoria.
Recentemente, perante Trump, apresentou aquilo que quase poderia ser considerado uma obra-prima da arte da engraxadela política. Com gráficos cuidadosamente preparados, números impressionantes e um entusiasmo digno de um vendedor de banha da cobra em dia de feira, Rutte mostrou ao presidente norte-americano aquilo a que chamou, com indisfarçável orgulho, o “Trilião de Trump”.
Segundo a narrativa, graças à pressão exercida por Trump, os países europeus e o Canadá passaram a gastar mais 1,2 biliões de dólares em defesa. Uma vitória histórica. Um feito extraordinário. Uma demonstração de liderança.
Faltou apenas um pequeno detalhe. De onde veio o dinheiro? Porque o dinheiro não nasce em árvores. Não vem dos canteiros de Bruxelas. Não aparece espontaneamente nos cofres dos Estados. Cada euro gasto em armamento teve primeiro de ser retirado de algum lado.
– Foi retirado dos hospitais que precisavam de mais médicos e enfermeiros.
– Foi retirado das escolas que precisavam de mais professores.
– Foi retirado das universidades que precisavam de mais investigação.
– Foi retirado das infraestruturas envelhecidas que continuam à espera de investimento.
– Foi retirado das políticas de habitação que poderiam ajudar milhões de jovens a sair da casa dos pais antes dos quarenta anos.
– Foi retirado dos sistemas de apoio social que envelhecem juntamente com uma Europa cada vez mais idosa.
Mas isso não aparece nos gráficos de Rutte.
Os gráficos mostram barras de investimento. Não mostram listas de espera na saúde. Mostram mísseis. Não mostram escolas degradadas. Mostram percentagens do PIB. Não mostram famílias que trabalham mais para viver pior. É uma espécie de magia contabilística: quando o dinheiro muda de bolso, desaparece da fotografia tudo aquilo que deixou de poder ser feito.
Mas existe uma segunda camada de ironia. Grande parte deste dinheiro nem sequer fica na Europa. Os contribuintes europeus pagam. Os governos europeus compram. Mas uma parte significativa dos contratos acaba nas contas das grandes empresas militares norte-americanas. Ou seja, o trabalhador português, francês, alemão ou italiano financia sistemas de armas produzidos do outro lado do Atlântico.
Trump exige mais gastos. A Europa paga. A indústria militar americana agradece. E Rutte aplaude. É um modelo de negócio admirável.
Imagine-se um restaurante onde o cliente paga a refeição, lava a loiça, limpa a cozinha e ainda agradece ao proprietário pela oportunidade. É mais ou menos isso.
Naturalmente, usam a narrativa de uma ameaça proveniente da Rússia e usam a guerra na Ucrânia – guerra que os EUA prepararam e que veio a alterar propositadamente a perceção de segurança na Europa. Antes a Europa comercializava produtos com a Rússia e nada a assustava. E a verdade é que uma parte substancial deste aumento de despesa resulta do medo de que os próprios Estados Unidos abandonem os seus compromissos de defesa.
E aqui encontramos o paradoxo mais delicioso de todos. Trump é apresentado como o homem que salvou a NATO. Mas uma parte da corrida ao armamento europeu existe precisamente porque muitos governos receiam o que Trump poderá fazer à NATO. É como contratar mais seguranças porque não se tem a certeza de que o guarda principal aparecerá amanhã ao trabalho. E ainda assim todos batem palmas ao guarda.
No entanto, talvez a maior omissão do discurso de Rutte seja outra. Quando os governos anunciam centenas de milhares de milhões para a defesa, raramente explicam o que acontecerá a seguir. Porque gastar é fácil. Difícil é sustentar. Um tanque comprado hoje exige manutenção amanhã. Um caça adquirido este ano exige peças, combustível, técnicos e atualizações durante décadas. Uma brigada militar ampliada exige salários, pensões e custos permanentes.
A defesa não é uma compra única. É uma conta vitalícia. Os políticos anunciam os investimentos. Os contribuintes recebem as prestações. Por isso, quando Mark Rutte exibe os seus gráficos triunfais, talvez valha a pena olhar para além das barras coloridas.
Aquilo que ele apresenta como uma vitória histórica pode igualmente ser visto como o retrato de uma Europa mais pobre, mais endividada, mais dependente e mais assustada.
Os gráficos mostram quanto dinheiro foi gasto. Não mostram o preço. E como qualquer cidadão sabe quando vai ao supermercado, o preço é normalmente a parte mais importante da conta.
Talvez seja por isso que os gráficos de Rutte venham sempre acompanhados de tanta manteiga. Porque sem ela, certas contas seriam muito mais difíceis de engolir.
Robin Wood tirava aos ricos para dar aos pobres;
Mark Rutte tira aos pobres para dar aos ricos.
Este lambe botas, ou, como o proprio Donald gosta de dizer, lambe cús, entendeu perfeitamente a essencia do capitalismo e nao perde oportunidade de o mostrar.
Tambem, ja agora, faz parte da essencia do capitalismo destruir para depois reconstruir, e aqui as guerras dão muito jeito porque permitem que os capitalistas comam a dois carrinhos.
Pena que a maioria dos cidadaos ainda nao tenha percebido isto e colobore na marosca, quanto mais nao seja, calando-se!!!
Obrigada pois ao autor deste artigo que faz pedagogia e tambem recorre a retórica, recurso fundamental nos tempos que estamos a atravessar
Bem dito!
Um patife perigoso e sem escrúpulos
CF