Estado da direita: nevoeiro e borrasca

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 27/02/2021)

(Que ia voltar a 25 de Março o D. Sebastião de Massamá, dizia o Expresso aqui. Agora parece que já não volta, diz também o Expresso aqui, talvez por até os “Desejados” temerem o vírus e a pandemia, may be… 😉

Assim sendo, bem podem os meteorologistas opinar mas, em 25 de Março, já não teremos uma manhã de nevoeiro… 😉

Comentário da Estátua, 27/02/2021)


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Parece que o político mais preparado, o líder mais forte, a mais convincente e inspiradora promessa para voltar ao poleiro que a direita portuguesa consegue encontrar dá pelo nome de Pedro Manuel Mamede Passos Coelho, um jovem de 56 anos que actualmente dá aulas de não sei quê não sei onde, e que é o nosso melhor especialista no milagre da multiplicação de técnicos de aeroporto para o que seriam dezenas ou centenas de aeroportos na Região Centro, um craque sem rival neste planeta (e não só neste, há seres noutros mundos que conhecem a história e que já confirmaram não terem nos seus sistemas solares quem lhe faça sombra na matéria).

A seu favor tem o registo de ter criado, formado e lançado um político extraordinário chamado André Ventura, também um valiosíssimo talento da direita portuguesa e fulano muito amigo de mandar portugueses emigrarem (sinal inequívoco de ter aprendido com zelo as lições do mestre).

Acontece que não está fácil. O nevoeiro é instável e volúvel. Pelo que este fascinante político – de tão boa memória pelo seu patriotismo e pela melhoria de vida que a classe média e os pobres lhe devem – está na fase de ter de dizer às crianças que lhe acendem velas e beijam os pés: “Acham que me apetece voltar a aturar os estróinas e os madraços que andam a comprar televisores, fazer férias com a família e a jantar fora acima das suas possibilidades? Pensam que tenho algum gosto em lidar com esses piegas a chafurdar na sua zona de conforto? Isso é um disparate.


A pandemia urbanística

(António Guerreiro, in Público, 26/02/2021)

António Guerreiro

“Airbnb” é o nome de uma empresa fundada em 2008, em São Francisco, na Califórnia, exemplo máximo da ascensão do capitalismo das plataformas. Antes da pandemia, já não era apenas uma marca, tinha-se tornado quase um nome comum para dizer “alojamento local” ou “arrendamento temporário”. No último ano, esse nome quase desapareceu, deixou de ser uma das palavras do poder.

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Este desaparecimento tem uma tradução bem visível no plano da nossa realidade urbana. Os centros históricos das cidades turistificadas ficaram vazios e emergiu com dramática evidência o que era bem sabido e longamente diagnosticado, mas que era visto pelos poderes gestionários — económicos, políticos, mediáticos — como um mal menor que até era fácil esconder ou menosprezar porque neste domínio tem valor de evidência a regra segundo a qual “tudo o que aparece é bom e tudo o que é bom aparece”. Quando, subitamente, por efeito de uma pandemia, o fenómeno do aparecimento espectacular foi interrompido, o que se torna conspícuo é o desaparecimento. Medir os seus efeitos e contabilizar as suas vítimas é por enquanto uma tarefa impossível porque o processo não chegou ao fim e não é fácil prever o que se vai passar. Mas se há aspectos em que é possível dizer com alguma segurança que nada será como dantes, a vida das cidades é um deles. Por agora, a paisagem dos centros históricos das cidades turísticas, onde se tinha instalado uma monocultura, permanecem vazios, espectrais. São imagens de pesadelo que deixam adivinhar miséria e projectos interrompidos que por agora ainda é possível silenciar, mas que hão-de tornar-se vozes desesperadas e de revolta. Os actuais tumultos nalgumas cidades espanholas, principalmente em Barcelona e Madrid, tendo muito embora sido incendiados por uma sentença que a Justiça aplicou a um rapper, têm a motivação anárquica das revoltas actuais. Como mostram as reportagens, são quase exclusivamente os jovens desocupados ou precários que têm alimentado estas manifestações inorgânicas que resultam em destruição e confrontos com a polícia. Quando o turismo desaparece, as cidades que dependiam dele começam a ser obrigadas a erguer barricadas.

Sabemos bem, até porque não há promessa mais reiterada no último ano, que tudo será feito para que a vida anterior retome o seu curso, com os mesmos ou, substituindo os que sucumbiram de vez, com outros. Mas há aqui um problema de tempo. Um ano de interrupção, medido pela escala da velocidade e da aceleração necessárias para o equilíbrio do sistema, é muito tempo, produz instabilidade destruidora. Há muita coisa que não vai, pura e simplesmente, ser retomada. E entre essas coisas sujeitas à descontinuidade está a lógica que governava as cidades turísticas. Evidentemente, não é de esperar que Veneza ou Roma continuem, como agora, vazias. Mas alguns factores de esvaziamento vão manter-se mesmo quando acabar a pandemia, por razões psicológicas, mas também por questões logísticas (por exemplo: como é que as companhias aéreas de low cost vão retomar a sua actividade, depois de um desastre desta dimensão?).

Entretanto, vamos tendo notícias que indiciam algumas mudanças que podem tornar-se irreversíveis, mesmo que se façam todos os esforços para retomar a “normalidade”. De Itália, chega-nos através da revista Micromega, dirigida por Paolo Flores d’Arcais, um dossier sobre o “depois do vírus”, onde se faz o retrato de uma “pandemia urbanística” que obriga a uma tarefa ingente: nada mais nada menos do que “redesenhar a Itália”, mudar o “perfil do nosso território” e deter a “corrida da urbanização”. Em suma: o desastre da pandemia ocorrido no último ano mostrou o verdadeiro rosto de um desastre muito anterior que muitos queriam disfarçar. E em França, na semana passada, o Le Monde publicou uma reportagem sobre o êxodo das pessoas para cidades mais pequenas, como menos de 100 mil habitantes, porque o custo de vida é mais baixo, a qualidade é melhor e o modelo da megalópole como Paris só já atrai o turismo ou quem tem muito dinheiro.

Neste modelo de desenvolvimento, as fronteiras da periferia atravessam os centros. Quanto à vida urbana, a pandemia tem efeitos devastadores, mas o fim da cidade tal como a conhecemos no auge da turistificação e do neo-liberalismo estava anunciado e já não pode ser detido.


A bazuca, agora em vídeo

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 26/02/2021)

Portugal é uma questão de fé. Já era, com o milagre, a azinheira e os três pastorinhos que nos iam salvar e que anunciaram, a sobreviva, a conversão da Rússia. Como se vê, a Rússia converteu-se ao capitalismo. Viver em Portugal, se queremos estar confortáveis, significa abolir a dúvida e deixar a crença instalar-se. Mais do que a benzodiazepina, que faz mal à cabeça, o que se pretende é um programa de fé, começando por acreditar em tudo o que nos prometem, tudo o que nos explicam, tudo o que nos adiantam e tudo o que nos atrasa. Acreditar, eis a palavra. Este processo tem diversas fases de habituação e deve ser iniciado com a experimentação da abolição da dúvida sobre pequenas coisas, pequenos temas, minudências e excrescências.

Como no Direito, os casos práticos são o teste à vontade de acreditar, ao desejo de pegar em rosas mentirosas sem picar os dedos.

Por exemplo, comecemos por acreditar em tudo o que dizem em Portugal certos representantes que transportam o apelido Loureiro. Chamem-se eles Manuel, Valentim, João, o que quer que seja. Se é Loureiro é, deverá ser, certificado e verdadeiro. O João Loureiro, dirigente desportivo de um clube do Norte, diz que apanhou uma boleia para o Brasil num jato privado que depois se veio a saber transportava meia tonelada de cocaína no porão. O Loureiro certifica que só ia ao Brasil a uma entrevista de emprego de consultoria, e mesmo assim porque lhe ofereceram lugar no avião ao lado de um espanhol suspeito de tráfico em que a nossa Polícia Judiciária andava “de olho”. Logo esta expressão, andar de olho em cima de alguém, é deliciosa. Congratulemo-nos. Apesar do olho, os dois passageiros viajaram sossegadamente, podem ter trocado algumas palavras sobre um espumante ou uma cava, comentando, apesar da proibição de viajar para o Brasil, afinal sempre se pode dar um salto a São Paulo e Salvador porque ninguém maça. Isto, apesar do olho.

O Brasil costuma ser um país agradável para se viajar em pandemia, mas a Polícia brasileira estragou tudo com uma inspeção que revelou a meia tonelada de droga. Ora, como ia o nosso Loureiro saber do porão? Porventura, uma pessoa que viaja num jatinho, ainda por cima à borla e de boleia, vai inquirir sobre a carga? Ouça lá, aquilo que estão a carregar são as malas do espanhol? Porque eu só trago mala de cabina. É muita mala. Não, não, são uns pastéis de Belém para a família no Brasil. Um azeite português, e umas garrafas de Douro, colheita escolhida. E uns Rioja mais uns Pata Negra, no Brasil apreciam muito o enchido e o fumado ibérico. O nosso Loureiro disse logo, não tenho nada a ver com este filme, apesar de interrogado. Queria ser repatriado, mas parece que não lhe deram lugar no voo “humanitário” da TAP, onde decerto virá mais gente que só foi ao Brasil entregar um farnel. A variante já cá está, não vale a pena estar com imposições. Acreditemos que o Loureiro está inocente, presumidamente, e o resto alegadamente, e nem sabe o que é cocaína e muito menos benzoilmetilecgonina. No Norte, basta a palavra de um homem.

Segundo caso prático, mais complexo. A União Europeia quer que acreditemos que fez tudo bem e que em nome do ideal europeu teve de comprar vacinas para os 27 tentando um preço de saldo e por atacado, à dúzia é mais barato. No regateio, não acertou no shot, perdeu a vez na fila e agora estamos todos à espera de Godot e que se terminem de construir as fábricas de vacinas, rapidíssimas de construir. Um dubitativo diria duas coisas. Primeira, a Europa já nos pediu muitas coisas, entre elas que deixássemos de viver acima das nossas possibilidades de país mais pobre e desigual da Europa Ocidental, o género de país onde as crianças para comerem têm de ir à escola e dormem em casas geladas e gretadas, mas nunca nos tinha pedido para sacrificarmos a vida pelo ideal europeu. Para manter os 27 coesos, coisa que não aconteceu nem acontecerá, vocês têm de aturar mais uns milhares de mortos e de doentes até acertarmos a vacina.

Segunda coisa, no caso português, como somos um pequeno país, Bruxelas quer que acreditemos que se não fosse a Europa íamos estar anos à espera da vacina. Qualquer lista de países adiantados na vacinação nos diz o contrário, que os pequenos países teriam maior flexibilidade e, se tivessem planeado antecipadamente, e pago, coisa que detestamos fazer, pagar, teriam a população vacinada muito antes dos grandes países. Ora, há que acreditar na Europa, mesmo sabendo que o preço é elevado desta vez, a vida e a liberdade pelo ideal europeu.

E há que acreditar que, tendo nós os governantes que temos, mais os milhares de “especialistas” e diretores, se dependesse desta gente comprar a vacina e pagá-la a tempo e horas, planear decentemente, pagar, nem em 2025 tínhamos a primeira pica.

Planear não faz parte do nosso ethos, e pagar ainda menos. Uma borla é, como a raspadinha, o sonho de todos os portugueses. Desprezar uma borla, mesmo arriscando vidas, é insuportável. Acreditemos que é melhor assim, e sempre se salva o ideal europeu que acaba de decidir que não compra vacinas aos russos porque eles humilharam um europeu de Bruxelas chamado Borrell, que parece que fez uma viagem estúpida a Moscovo sem ninguém lhe mandar. Não, não é por causa do Navalny. É por causa do burocrata Borrell, e da humilhação, e acreditemos que Bruxelas sabe o que que faz. Fique em casa.

Por último, a fé ilumina-se com mais uma injeção de capital. Desde o império que Portugal vive embasbacado com as injeções de capital. Como diria o Palma Cavalão do Eça, um belo tipo de português, já cá canta o dinheirinho. O Costa deu-nos a bazuca, agora também chamada de vitamina, e um PRR. Dantes havia o PPR, uma poupança para descontar nos impostos e injetar capital na pátria e na banca, e agora vem aí o PRR, o Plano de Recuperação e Resiliência. Dinheiro fresco e abundante a ser repartido pelo Estado e os artilheiros do PS em “projetos”.

Precisamos de projetos, projetos de futuro, e projetos sustentáveis, e projetos bonitos, e precisamos de os executar. E tudo muito verde e tal e coisa. Ora coisa em que nunca fomos bons é em projetos e em executar, sobretudo executar projetos que não passam de um conjunto de boas ideias, vulgo fantasias. A nossa especialidade é vender as pratas. No cansaço das arruinadas almas lusitanas, temos de acreditar que pela primeira vez na História desde os Lencastre e a Ínclita Geração vamos arranjar energias para planear e executar. Com rigor e probidade. E sem aproveitar a borla para comprar o segundo BMW ou o Mercedes. Alguém acredita nisto? Não. Mas a bazuca, que Costa nos oferece agora em vídeo, chegou aos ecrãs nacionais. E não custa nada. É um vídeo de borla. Ora, se é de borla, acreditemos que vale a pena, como dizia Rimbaud, perder por delicadeza a vida. A fé é que nos sustenta. E o ideal europeu. E o dinheirinho.