E vamos calar-nos porquê, senhor Presidente?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/02/2021)

(Pronto, Miguel, lá te publico: certeiras e justas críticas ao Governo e ao Presidente. Mas como no tempo histórico não há rewind – e apesar de, em teoria, ser sempre possível fazer melhor -, ficamos todos sem saber se, outro qualquer Governo, o teria feito. Assim sendo, deixo-te um conselho: antecipa tu as “boas medidas” e manda email ao António Costa. Talvez assim ele passe a falhar menos…

Comentário da Estátua, 19/03/2021)


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Se bem o li, no seu discurso de posse, Marcelo Rebelo de Sousa fez um sermão zangado aos que criticam a gestão da pandemia por parte do Governo e aos que procuram “bodes expiatórios” a quem assacar culpas pelo que correu e corre mal. Já antes, também avisara, solene, que não contassem com ele para desencadear ou alimentar “crises políticas”, a pretexto de alguns, incluindo eu próprio, se atreverem a dizer o que salta à vista de todos: que o actual Governo integra, em postos-chaves, notórios incompetentes na função e para o momento que atravessamos. Mas, que eu saiba, tal não é crime de lesa-majestade, nem, conforme nos repetem, a democracia ou o direito à crítica estão suspensos. E defender que o Governo se desembarace dos incompetentes, dos que só lá estão porque servem o partido e não o país, não é o mesmo que defender nem uma mudança de Governo, nem uma crise política: é defender que sejam chamados os melhores para enfrentar um momento de emergência nacional, sem olhar a cores políticas e a currículos partidários. Compreendo que o Presidente se queira manter na sua zona de conforto e de não conflito, na sua ponderada gestão dos timings de actuação que mais lhe convêm, mas, entretanto, há gente a morrer sem razão, há gente a perder o emprego, há empresas a falir, há portugueses desesperados e cansados de esperar. Não, Marcelo não tem razão nenhuma para nos pedir para continuar a ser pacientes, silenciosos e acomodados.

Tivemos aqui, de um lado, dez milhões de cidadãos que, muito antes de quem os devia orientar, perceberam o perigo que aí vinha e voluntariamente fecharam-se em casa, inventaram novas formas de vida, de trabalho e de sobrevivência e, com isso, evitaram o colapso do serviço público de saúde, faz agora um ano. E tivemos, do outro lado, um Governo que começou por dizer que a pandemia nunca cá chegaria, depois que estávamos absolutamente preparados para ela, e, a seguir lançou o país em pânico porque não tinha camas, nem ventiladores, nem máscaras (que começou por declarar que não serviam para nada e acabou a agradecer às fábricas de têxteis que se reconverteram para as fabricar). Tivemos depois um país civil que, passada a primeira vaga da pandemia, lambeu as suas feridas e lançou-se à reconstrução de uma economia devastada e curada com pensos rápidos pelo Governo, enquanto este, incapaz de sufocar os surtos residuais de infecção na região de Lisboa e Vale do Tejo, por não tratar de montar uma rede de rastreio, liquidou a imagem do “milagre português”, tão louvado por Marcelo e, com isso, o Verão do turismo. E ao longo desse Verão de 2020, em que a ausência de turistas estrangeiros só foi minimizada pela presença dos portugueses, o Governo nada fez, durante três decisivos meses, para se preparar para a anunciada segunda vaga, preferindo esperar para ver se ela viria, de facto. E, quando veio, declarou-se espantado por ter chegado tão mais cedo e mais forte do que esperava. E entrámos então no infernal ciclo dos estados de emergência, ao sabor de indicadores sempre atrasados, de palpites de ocasião e de anunciadas certezas, logo contraditadas pelos mesmos uns dias depois, com a mesma certeza. E os portugueses sempre confiantes, obedientes, crédulos em quem decidia em seu nome. Entra Novembro, e com a iminência da chegada das vacinas e vários países a prepararem há meses a logística da sua aplicação, só então, e depois de interpelado de fora, é que o Governo se lembra de acordar para o assunto e nomear à pressa uma task force encabeçada por um socialista disponível, e repousa sobre o assunto, após convocar as televisões para filmarem a “sala de comando” da operação de vacinação. Mas, para espanto geral, descobre-se que o comandante da operação, um mês após entrar em funções e ter produzido uma série de declarações — grandiloquentes umas, assustadoras outras — havia aceitado desempenhar em acumulação o cargo de presidente do conselho de administração de um hospital privado. E que, mais umas semanas decorridas e invocando uma grave ocorrência ética nesse hospital, se demitia — mas não do hospital e sim da task force da vacinação. (Felizmente, foi substituído por alguém com menos ego e mais sentido de missão). E os portugueses sempre a assistir.

Veio o Natal e, por estritas razões de popularidade, o Governo decretou soltura geral — não apenas por quatro dias, mas até meados de Janeiro, quando tivesse ocasião de avaliar os resultados do seu gesto de conforto. Desconfiados, os portugueses ainda acorreram a fazer testes preventivos, em massa e por conta própria. Mas isso não evitou o desastre anunciado: quando o Governo quis, enfim, saber o resultado do seu aventureirismo, descobriu que Portugal era o pior país do mundo em número de casos e de mortes por rácio de habitantes e logo depois deparou-se com o espectáculo de terror de filas de ambulâncias à porta dos hospitais esperando horas para entregar doentes que não tinham onde ser recebidos: Manaus em Lisboa. Entrámos então em dois meses de severo confinamento, do qual só agora começamos timidamente a sair, com avisos solenes de que, se não nos portarmos bem, tudo voltará atrás.

Mas, vejamos, onde é que nos portámos mal? Os portugueses aguentaram estes dois meses e tudo o resto sem manifestações de rua, sem desobediência civil organizada, como em quase todos os outros países da Europa e do mundo, sempre confiantes de que o Governo sabia o que estava a fazer e, mesmo quando manifestamente não foi o caso, sem terem sequer escutado um pedido de desculpas que lhes era devido. Milhares de empresas fecharam portas para sempre, outras viram perdidos anos de esforço, dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores perderam os seus empregos, sem que o Estado lhes acorresse na dimensão em que outros países o fizeram porque passou anos a endividar-se quando o não devia. Centenas de milhares de crianças ficaram sequestradas em casa com os pais, privadas de um ano de infância, de ensino e de alegria. Dezenas de milhares de portugueses morreram antes de tempo porque o SNS suspendeu as consultas, os tratamentos e as cirurgias de todos os doentes não-covid durante quase um ano — apesar de tantos médicos e enfermeiros terem estado em casa sem fazer nada, enquanto os outros estavam, de facto, a tratar dos doentes covid e a dar o melhor de si, e apesar dos 900.000 dias de faltas ao serviço a mais do que em 2019 no SNS. E, por mais que o desmintam, descobrimos ainda que só temos 47% dos mais de 80 anos vacinados e um número irrisório dos com mais de 65 anos e patologias de risco associadas vacinados, porque, mesmo sabendo que somos dos países mais envelhecidos do mundo e que a vacina da Astrazeneca não fora testada em maiores de 65 anos e não era, pois, recomendada para eles, foi nessa que preferencialmente apostámos de entre os lotes comprados pela Comissão Europeia, porque era a mais barata e a que dava menos trabalho a armazenar e a distribuir. E, assim, em lugar de seguir o critério de vacinar preferencialmente para salvar vidas — o único critério eticamente aceitável e seguido pelos outros —, fomos assistindo a sucessivas justificações para adoptar outros critérios e vendo passar à frente dos que verdadeiramente estão ameaçados de morrer as habituais clientelas do Estado. Tudo junto, para chegarmos ao fim de 2020 com mais 10% de profissionais no SNS, tal como toda a gente reclamava, um aumento não calculado ainda de gastos acrescidos, mas uma diminuição tão acentuada da população portuguesa que, pela primeira vez em muitos anos, a idade mínima para a reforma, em lugar de subir, desceu: hoje, graças ao número brutal de mortos de 2020, os sobreviventes podem-se reformar mais cedo.

Marcelo não tem razão nenhuma para nos pedir para continuar a ser pacientes, silenciosos e acomodados

E os portugueses, senhor Presidente, devem continuar mudos e calados, como mudo e calado tem estado o Governo português, na sua função de presidir durante seis meses ao Conselho da União Europeia, perante o absoluto desnorte e descalabro que é o plano de vacinação europeu, cuja boa execução era, segundo garantiu o próprio primeiro-ministro, o ponto número 1 da agenda europeia neste seis meses?

Eu não pretendo ignorar — e já o escrevi várias vezes — quão difícil tem sido a tarefa de governar neste terrível último ano. Nenhum governo teve de enfrentar circunstâncias tão difíceis e imprevisíveis antes e, por isso, muitas hesitações e muitos erros são compreensíveis e aceitáveis. Mas se há coisa que não é possível dizer é que os portugueses não ajudaram o Governo. Mesmo quando muitos dos seus erros foram de pura soberba, de preconceito ideológico ou de manha propagandista. Para esses, eu acredito que já não vai haver mais paciência e mais contemplações por parte dos portugueses. É bom que o Governo e o Presidente estejam conscientes disso.


2 É bastante provinciana esta obsessão que tantos estrangeiros — e os portugueses, particularmente — têm em se preocuparem com a questão da Monarquia britânica. Não vejo os ingleses interessados em ocuparem-se dos sistemas constitucionais dos outros países e, aliás, como escreveu um inglês, o Reino Unido é, de facto, uma República, cujo Chefe de Estado é chamado de Rainha mas que detém menos poderes do que qualquer Presidente da República, em qualquer lugar do mundo. E, por alguma razão, ou várias, os ingleses dão-se bem com o sistema. Neste triste caso dos Duques de Sussex, trata-se apenas de mais uma tentativa dos americanos de conseguirem injectar algum royal glamour no seu republicaníssimo sistema constitucional. Wallis Simpson foi um tiro pela culatra, Grace Kelly um wrong target de uma Princesa fabricada pelas revistas sociais de um suposto Principado cujo Chefe de Estado é o Presidente da República Francesa. E esta patética Meghan (que eu só descobri que era negra porque ela e Oprah fizeram disso o chamariz da entrevista, à boleia do “Black Lives Matter”) é, patentemente, uma arrivista de ocasião, que afirma ter fugido de Inglaterra para escapar aos tablóides e se entrega, numa entrevista combinada ao detalhe, nas mãos do expoente máximo do jornalismo tablóide. “Oh!”, “Uau!”, “What?”, dizia Oprah, arregalando os olhos de estudado espanto, enquanto deixava por fazer as perguntas essenciais: de que viviam os duques, actualmente? De que se ocupavam, além das fraldas do Archie e da capoeira da sua casa de Santa Barbara? E a pobre Meghan tinha querido suicidar-se porque um tablóide tinha escrito que ela pusera a cunhada em lágrimas por causa de uns ramos de flores e a “Instituição” recusara prestar-lhe “apoio psicológico”? E alguém da “firma” manifestara preocupação ao Harry sobre “quão escuro” seria o Archie, mas o Harry (entretanto autorizado por elas a juntar-se à entrevista) não podia dizer quem fora e isso bastou a Oprah para ter o seu “caso”? Um caso que, dizem, é suficiente para abalar uma Monarquia cuja Rainha há mais de 50 anos preside a uma Commonwealth onde 70% dos seus pares são visivelmente escuros e nunca daí veio problema algum — até à Meghan entrar em jogo. Oh, God save the Queen!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


“Allen v. Farrow”: o criador, as criaturas e os linchadores

(Daniel Oliveira,in Expresso Diário, 18/03/2021)

Daniel Oliveira

De suspeitas de abusos sexuais trata a Justiça, não a HBO. Mas o alvo já é a obra de Woody Allen. Vimos isto com Polanski e Kazan. Polanski pagará ou não pelos seus crimes, Allen continuará a defender o seu nome, Kazan terá vivido com os seus fantasmas. Eu não tenho de pagar por eles, ficando sujeito a uma lista de obras que não posso ver, ler ou ouvir. Sinto o vento do moralismo pelas costas. Nenhum poeta maldito resistiria uma manifestação de ativistas munidos de um manual literário de boas-maneiras.


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Ainda só vi três episódios de “Allen v. Farrow”. O meu tempo é escasso e não sei se vou continuar. Se aquilo fosse jornalismo, teria muito para dizer. Não cumpriria os mínimos. Tem uma tese, uma acusação e testemunhas para sustentar essa tese e essa acusação. Alguns testemunhos até são poderosos. Mas recorre frequentemente à manipulação emocional e visual. E não ouve – ou desacredita quando refere – qualquer testemunho que se entreponha entre a tese e os factos. Sem qualquer opinião sobre este tema, detesto ser manipulado de forma tão grosseira.

Para quem veja a série, vale a pena temperar com a leitura este texto do The Guardian, que trata o documentário como trabalho de Relações Públicas e ativismo. Ou outro, de Moses Farrow, um dos filhos adotivos de Mia Farrow. Para se perceber como um outro documentário, de sentido inverso, poderia ser feito. Um dos problemas de quem não gosta do bom jornalismo é que ele lida com a contradição e a dúvida, que excita a inteligência e o espírito crítico, mas estraga uma história escorreita. Sendo um documentário, há maior liberdade na tomada de partido. Mas estando perante uma gravíssima acusação de abuso sexual de menores, restam-me todas as dúvidas éticas sobre este exercício de condenação televisionada.

Não tenho qualquer convicção sobre a inocência ou culpa de Woody Allen. Sou do tempo em que estas coisas se entregavam à Justiça e aos instrumentos de recurso e confronto, não à HBO. Nesta matéria, não há #MeToo, com tribunais plenários e pena de suspensão imediata da vida pública a partir de acusações de alguém, que me faça recuar. Porque sei de muitos linchamentos feitos na História em nome dos melhores valores.

Mas o debate que se instalou já tem como alvo a obra de Woody Allen. Já vimos isto com Roman Polanski. A tentativa de banir coletivamente uma obra é um ato de prepotência sobre os outros, que a querem fruir. A relação com a arte não é coletivamente determinada, não é democrática. A que conta, é antes de tudo entre o indivíduo e a obra.

Sobre a última obra de Polanski, o que tenho a dizer é que achei “J’accuse” um trabalho competente. Ele queria que o víssemos como um Dreyfus injustiçado? É indiferente. Assim como foi indiferente se Elia Kazan procurava o perdão por ter sido um delator durante o macarthismo quando realizou “Há Lodo no Cais” (“On the Waterfront”). Continua a ser uma das mais extraordinárias obras primas do cinema, na minha humilde opinião. Como ser humano, Kazan merece-me desprezo e até tive dúvidas quando lhe deram o Óscar de carreira, tendo em conta que a sua se salvou destruindo a de outros. Mas, felizmente aquele filme sobreviveu ao desprezo que ele me merece. E combaterei sem hesitação quem me queira impedir de o ver. Polanski pagará ou não pelos seus crimes, Allen continuará a defender justa ou injustamente o seu nome, Kazan terá vivido com os seus fantasmas e culpas. Eu não tenho de pagar nada por eles, ficando sujeito a uma lista de obras que não posso ver, ler ou ouvir.

Woody Allen até podia ser um serial killer. Nenhuma obra de arte é beliscada pela conduta moral, cívica, política, criminal ou pessoal do seu autor. Vale por si ou não vale. Podemos ter sobressaltos morais com uma obra, o que até a pode tornar mais estimulante. Mas ela não perde nada pelos pecados do autor. A obra tem uma vida própria, uma moral própria, pecados que são só dela e que só por eles deve responder.

O documentário entrega-se, aliás, a um exercício especialmente perverso, que parece querer justificar um movimento censório: encontrar nos filmes uma tentativa de naturalizar o abuso de menores. Indo ao seu fascínio doentio, nunca visto em homens de meia idade, por raparigas de 17 ou 18 anos. A perversidade deste exercício é a de passar a obra, e não apenas o autor, para o banco dos réus. Uma perversidade que levaria à saída das bancas de “Lolita” ou do maravilhoso texto de Luiz Pacheco – “A Comunidade”. Sendo que Pacheco manteve mesmo uma relação amorosa com uma menor e é também disso que fala no texto.

Claro que a conduta política ou moral de determinado autor pode determinar a sua obra. As ideias abjetas de Céline não estão apenas na sua vida, estão na sua obra. A obra de Leni Riefenstahl é em grande parte propaganda nazi. Nada nos impede de ter uma opinião política ou moral sobre as suas obras. Mas é sobre a obra, independente de quem seja o seu autor. E mesmo o julgamento moral das obras deve ser cuidadoso. A liberdade artística é única porque lhe conferimos a amplitude que nos permite questionar tudo. É nela que ultrapassamos todos os limites. É com ela que, coletivamente, fazemos perguntas a que ainda não podemos responder. Isso acontece graças à exposição, umas vezes autobiográficas outras não, das angústias pessoais dos autores. Por vezes monstruosas.

Como me recordou um amigo, não é por acaso que Polanski volta permanentemente ao confinamento no espaço, a que está condenado há anos: em “O Deus da Carnificina” ou “The Ghost Writer”, por exemplo. Mas isso é a relação do criador com a criatura. Para nós, interessa a criatura. E mal seria que a puníssemos pelos pecados do criador. Podemos julgá-la, mas isso não leva ao seu silenciamento. Levará, quando muito, à revolta, ao sofrimento perante a obra, a um confronto individual com o que temos pela frente. Nunca à censura. Mesmo os apelos para notas introdutórias, com avisos morais, me deixam arrepiado. Um livro ou um filme podem precisar de contexto para serem compreendidos, o que não costuma ser bom sinal. Não precisam, quando se dirigem a adultos, de “parental advisory”.

Tenho pouca paciência para a conversa sobre a “cancel culture”. Entrámos naquela fase em que se mistura tudo e usa-se a expressão “cancelamento” para deslegitimar qualquer crítica a uma obra de arte, a um político, a um texto de opinião. Estes debates transformaram-se numa charada de vitimizações mútuas. Os que aplaudiram a prisão de Pablo Hasél sentem-se asfixiados pelo cancelamento viral, os que exigem liberdade para Pablo Hasél hesitam em ser intransigentes com a liberdade artística de suspeitos de abusos sexuais. Não há nada de novo nisto. Nem à esquerda, nem à direita. O inferno é a palavra do outro.

Para mim, o princípio em relação à produção artística é relativamente simples: todos temos direito a ler, ouvir e ver o que entendemos; todos temos o direito a criticar violentamente o que lemos, ouvimos e vemos (apesar de não gostar dessa estética e dessa ética, até temos o direito de queimar livros, se forem nossos); todos temos o direito a não ler, a não ouvir e a não ver o que não queremos e pelas razões que quisermos; ninguém tem o direito a tentar, de alguma forma, impedir que outros leiam, oiçam e vejam o que querem. Os limites são os que existem na lei e muito poucos se aplicam à arte. A única coisa ilegítima na arte é cometer um crime para a produzir.

Apesar de não cair na esparrela da conversa do “cancelamento”, que tenta misturar todos os debates para anular a critica contrária, sinto os ventos do moralismo pelas costas. E sei que se os puritanos fossem bem sucedidos, nada sobreviveria. Nenhum poeta maldito resistiria a uma manifestação de ativistas munidos de um manual literário de boas-maneiras.

Interessa-me tanto o caso de Dylan Farrow como qualquer outro caso de abuso sexual de menores, de alienação parental (que o documentário tenta negar que exista, sequer) ou seja o que for que esteja em causa. Muito, pelo drama concreto e pela lei. Nada, do ponto de vista artístico e cultural. Nada do que tenha ou não acontecido naquele sótão tem alguma coisa a ver com “Annie Hall”, “Manhattan”, “Zelig”, “Rosa Púrpura do Cairo”, “Manhattan” ou “Ana e as Suas Irmãs”. Para quem julgue que desculpo Allen por algum fascínio artístico, gosto de muitos filmes dele, mas nenhum está nos meus vinte preferidos. Até acho que, a dada altura, encontrou uma fórmula e durante algum tempo viveu disso. Nisso, a sua obra merece um julgamento moral severo. No resto, é ele o julgado. Nos tribunais, que é onde os países onde vigora o Estado de Direito fazem os julgamentos.

Não há risco zero

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/03/2021)

Daniel Oliveira

Amanhã, pode ficar claro que as autoridades nacionais de saúde decidiram interromper uma vacinação atrasadíssima na Europa ao sabor das ansiedades dos cidadãos. Não é preciso ser cientista para perceber que cautela sem fundamento científico não é sinal de responsabilidade, mas de desnorte. Que é impossível vencer uma pandemia com base na fantasia do risco zero. O risco zero não existe. Nem quando se sai de casa para ir ao pão. Existe apenas a ponderação entre riscos e benefícios.


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Seguindo Espanha, Itália, Alemanha, França, Noruega, Áustria, Roménia, Estónia, Países Baixos, Islândia, Lituânia, Letónia, Bulgária, Luxemburgo, Chipre, Irlanda, Dinamarca, Suécia e mais uns poucos países fora da União Europeia, Portugal suspendeu, no início desta semana, a vacinação com a AstraZeneca. Suspendeu, não. Fez “uma pausa”, como se disse, para tentar aliviar o peso da decisão. E fê-lo explicando sempre que a vacina era segura e que não tinha base científica para tal decisão, o que não deixa de ser estranho.

Não tenho bagagem para falar de vacinas. Por isso, limitei-me a ouvir cientistas. Uns cientistas foram mais cautelosos do que outros, mas todos os que ouvi foram claros ao falar da ausência de evidência científica para pôr em causa a vacina da AstraZeneca. 40 casos de eventos tromboembólicos (coágulo sanguíneo que bloqueia uma veia​) em 17 milhões de vacinas administradas é abaixo de insignificante. E sem prova de causalidade estabelecida. Se este efeito levasse (numa dimensão até mais significativa) a suspender um fármaco, as mulheres deixariam de tomar a pílula.

Há quem, mesmo sem evidências científicas, apele ao princípio da cautela. Claro que deve haver cautela, mas ela não pode ignorar a ciência ou esperar que se descubra um medicamento sem qualquer risco associado. Se for esta a exigência, podemos parar a vacinação e entregamo-nos à sorte ou azar da pandemia. Mas talvez não seja isso que o princípio da cautela nos aconselhe. Ponderado o risco da vacina (poucas dezenas de casos em muitos milhões de vacinas) com o risco de não vacinar (milhares de mortes diárias que não serão evitadas), percebe-se que está em causa outra coisa: como as mortes por covid que poderiam ser evitadas não são contabilizadas, não serão atribuídas aos governos (incluindo a de mais uns dias perdidos). Os riscos que se querem evitar são políticos.

Não vou desenvolver qualquer teoria racional sobre o que levou a esta queda de peças de dominó, em que, de forma desordenada, os países se foram imitando numa suposta inevitabilidade, para evitar o pânico (alimentando-o). Apesar de não gostar de trabalhar em teorias da conspiração, há guerras comerciais e peritos ingleses vieram passar essa ideia. Há governos paralisados pelo medo de falhar, sobretudo nos países do norte, com muitos antivacinas, desejosos por ver uma vitima para apontar o dedo às autoridades. E há o fracasso do processo europeu de vacinação, que acabou por favorecer a descoordenação entre Estados. Parece estar cada um por si.

Esta terça-feira, a presidente da Agência Europeia do Medicamento (EMA) veio repetir o que já tinha dito: “Neste momento, não há qualquer indicação que a vacinação é que provocou estas situações. (…) Embora a investigação esteja em curso, continuamos firmemente convencidos de que os benefícios da vacina AstraZeneca na prevenção da covid-19, com os riscos associados à hospitalização e morte, são superiores aos riscos de efeitos secundários.”

Apesar das tentativas de EMA e OMS para travarem a onda de pânico de políticos europeus, o mal está feito. Com a reunião da EMA desta quinta-feira, pode ficar claro que as autoridades nacionais de saúde decidiram interromper um processo de vacinação que está atrasadíssimo na Europa ao sabor das ansiedades dos cidadãos, mesmo sem evidências científicas para o fazerem. Já se a EMA mudasse de opinião em dois dias, sem dados científicos novos (como mudou a da Direção-Geral da Saúde portuguesa), seria difícil acreditar futuramente nas palavras dos seus dirigentes.

Não é preciso ser cientista para perceber que cautela sem fundamento científico não é sinal de responsabilidade, mas de desnorte. Quantas pessoas morrerão com o adiamento desta vacinação? Não é preciso ser cientista para saber que ao reagir ao medo com medo se alimenta o medo e se dá força aos que se têm dedicado a espalhar desinformação. Na Bulgária, a vacinação está a ser um fiasco por desconfiança em relação às autoridades e à própria vacina, graças a meses de teorias da conspiração, propaganda e contradições. Não é preciso ser cientista para saber que esta descoordenação assustada apenas minou um pouco mais a confiança dos cidadãos europeus nas vacinas, quando percebem que as decisões das suas autoridades estão ao sabor dos humores públicos. Não é preciso ser cientista para saber que é impossível vencer uma pandemia com base na fantasia do risco zero. O risco zero não existe. Nem quando se sai de casa para ir ao pão. Existe ponderação entre riscos e benefícios. Conseguimos viver com isto?