Era verão, apesar do ar condicionado, a sala estava um pouco abafada, mas nem ela podia ter adivinhado, antes de entrar, nem me pareceu ser a forma mais discreta de ir vestida para uma consulta. Devia ter uns 50 anos, mais tarde espantei-me com os seus 64 — os homens gostam muito de dizer que as mulheres já estão velhas, depois dos 50, mas são bem enganados — não posso dizer que estivesse com uma minissaia, mas também não era muito comprida… Mas era bem justa.
Uma blusa em V, com o vértice bastante baixo, e uns sapatos de salto com pelo menos 12 centímetros compunham uma senhora, para quem apetecia olhar, mas, no contexto em que me encontrava, aprendi, desde há muito, a controlar a incidência dos feixes óticos, para não pensarem que a minha neutralidade fica posta em causa.
“Senhor doutor, deixe-me primeiro fazer uma introdução à minha vinda cá. Tenho uma vida normal, se é que alguém tem, mas quero dizer com isto que cresci, tirei o meu curso, sou arquiteta, gosto muito do que faço, tenho dois filhos, já três netos. Há uns quatro anos a minha vida deu uma volta. O meu casamento já não estava muito bem, sabe como é, cada um para seu lado, o meu ex-marido fazia a sua vida e acabei por fazer a minha. Mas também não é por isto que cá venho. Separámo-nos bem, sem dramas, continuamos muito próximos enquanto pais e avós, até falo bem com a namorada dele e parece gostar do meu namorado. Veja lá senhor doutor, eu que dizia a toda a gente que estava muito bem sozinha, apaixonei-me, aos 60 anos.”
Foi aqui que percebi que tinha sido “enganado” pelo meu machismo e preconceito. A senhora era bem mais velha do que os meus olhos tinham avaliado. Não sei porquê, em associação livre, surgiu-me no pensamento a Brigitte Macron, mas a história não tinha nada a ver… Continuou: “Quando me separei precisava de estar sozinha e fui viajar. Meti-me no carro, adoro guiar e fui estrada fora, sem destino. Os meus filhos ainda tentaram travar-me, que era perigoso, uma mulher sozinha, são mais conservadores que eu. Olhe, veja bem, à entrada de Itália, ali perto de Génova, numa área de serviço, encontrei o homem com quem agora vivo.”
Parecia que estava a adivinhar os meus pensamentos. “Mas não pense que é um camionista de longo curso. Um português que tinha ido ver a filha a Itália. Um pouco mais novo que eu, foi funcionário da ONU toda a vida, sabe como é, não fazem muito, reformam-se cedo e com belas maquias. Agora pouco trabalha, umas pequenas consultorias internacionais. Ao fim de pouco tempo veio viver para Portugal e juntámo-nos, voltar a casar não quero.”
Percebi que tínhamos chegado ao ponto mais difícil da consulta. Calou-se uns segundos, respeitei, esbocei um leve sorriso a que os psis chamam empático e esperei.
“Tenho de lhe falar da minha intimidade, não é fácil, mas cá vai. Pensava que tinha tido uma vida sexual muito boa e tive, mas com o Pedro, vou-lhe chamar assim, descobri e senti coisas que nunca tinha sentido. Os primeiros tempos foram de algum deslumbramento, eu sei que tinha estado “em pousio” uns anos, mas nós sabemos muito bem distinguir o bom, do muito bom. Mas já não vou para nova e todos os dias, por vezes mais do que uma vez, cansa. O raio do homem não pára. Ainda pensei que andava a tomar esses comprimidos que os homens tomam quando envelhecem, mas não encontrei nada. E, sabe, o que era muito bom, está a tornar-se uma chatice.”
Já falou com ele, perguntei. “Já, várias vezes. Os primeiros dias resulta, mas depois volta a insistir, diz que é o muito amor que sente por mim. E tenho medo que a nossa relação se estrague.” Pensei, mas não disse, tretas de homem. “Vim falar consigo porque uma amiga minha teve um problema parecido e um colega seu ajudou-a a resolver. Parece que vocês conhecem umas gotas que acalmam os homens.” Fiz-me desentendido e ela também. “Podia ser tão simples, bastava eu dizer-lhe, querido come a sopa.”
1. Carlos Blanco de Morais (C.B.M.) retoma no PÚBLICO duas teses típicas da direita radical, ambas com a linguagem agressiva também habitual, quase uma marca da casa, e com a sempre presente vitimização. Uma é a tese trumpiana do combate à cancel culture e a outra a tese da hegemonia “asfixiante” da “extrema-esquerda” em Portugal:
“Uma intolerância sulfurosa ganhou o espaço público através de uma rede inorgânica de pivots televisivos, jornalistas de causas, humoristas militantes, comentadores encartados e redes sociais substitutivas da “Câmara Corporativa” de Sócrates. Políticos, magistrados, académicos e figuras públicas que desafiem os novos padrões de correção, assentes na nova filosofia pública, são heréticos e merecem as ‘chuvas ácidas’ que lhes oxidam a reputação, com a colagem de rótulos, simplistas, mas eficazes.”
2. Confesso que não percebo em que país ele e os seus vivem, ou melhor, percebo. Acharem que existe em Portugal, em 2021, uma ditadura da “extrema-esquerda” conduzida pelo PS, em conluio com o PCP e o BE, e ocultada por uma manipulação brutal da comunicação social, comprada com “almoços grátis”, devia ser considerado do domínio da paranóia política. Mas, que se tenha de dizer o óbvio, já é consideravelmente.
3. Numa variante da tese da ditadura actual do PS, que considera Costa uma imitação de Nicolás Maduro e Portugal igual à Venezuela, no texto de C.B.M. perpassa uma avaliação da “extrema-esquerda” ultrapoderosa: “Graças à sua sobre-representação nos media e aos laços que criou com setores da esquerda radical socialista e com comentadores ‘bon chic bon genre’ do liberalismo progressista” – ou seja, toda a gente menos ele e eles. Não há meio-termo, ou se é militante contra a “ditadura” ou idiota útil.
4. A tese é parecida com a de Diogo Pacheco de Amorim sobre a necessidade de uma “guerra cultural”, mas C.B.M. faz um upgrade, trata-se agora de uma guerra contra “uma agenda político-cultural com pretensões a filosofia pública de Estado”. Esta caracterização é bem conhecida: o mal está numa “filosofia centrada na desconstrução meticulosa dos valores da sociedade existente, com aspiração a ‘marco civilizacional’ e a ‘dogma de fé’, sendo implacável com os apóstatas que dela divergem”. Deixando a vitimização habitual no final da frase, traduzindo, o que ele diz é que há um ataque àquilo que no passado se chamavam os “valores ocidentais”, agora descritos como “valores da sociedade existente”, com a pretensão de os substituir por outra “civilização”, presume-se que a do bolchevismo cultural triunfante. “Civilização” versus “civilização” – estamos nos anos 30, a cruz de Cristo contra a foice e o martelo.
5. C.B.M. refere-se a alguns fenómenos realmente existentes, só que ao exagerar e colocá-los num contexto de conflito “civilizacional”, muda-lhes o carácter. Quando se pergunta que “civilização” é preciso defender, a resposta é sinistra. O ataque ao “politicamente correcto”, que realmente existe, passa para uma amálgama e uma demonização de tudo o que não seja a direita radical que defende. Esse ataque serve para justificar Bolsonaro e Trump, a sempre presente defesa do “músculo”, no passado de Pinochet, recentemente do “meio militar brasileiro [que se] pauta por modelos de organização eficazes”, uma referência que só pode remeter para a ditadura militar brasileira, e repetindo o catálogo habitual dos inimigos, até incluindo os ataques ao “financiador”.
Pode-se perguntar a estes próceres da direita radical: se há hoje uma ditadura dos socialistas, por que razão as Forças Armadas não “libertam” os portugueses do jugo da “extrema-esquerda”?
6. É verdade que há uma hegemonia da esquerda em certas áreas das ciências humanas nas universidades, e na comunicação social. De novo, não foram eles que deram por isso, até eu próprio escrevi sobre o assunto. Mas há razões históricas para que isso aconteça. Quando estive na universidade, a história e filosofia paravam na Revolução Francesa e em Hegel (exclusive). E as ciências sociais, como a sociologia, eram proibidas antes do 25 de Abril como disciplinas académicas de pleno direito. Mas, deixa-se em silêncio que a composição política das universidades varia muito de área para área – por exemplo, no direito e na economia há um peso significativo da direita, o que não lhes suscita preocupação. São, pelos vistos, dominados pela pura “ciência”.
7. Quanto à comunicação social, foi igualmente verdade que havia uma simpatia acrítica pelo BE, mas é muito semelhante à que existe hoje, por exemplo, com a Iniciativa Liberal. Repararam no “foi”? É que esta é uma situação que está a mudar muito e rapidamente. A partir da imprensa económica, do Observador, do fact check escolhido a dedo, e da impregnação das redacções por jornalistas vindos de áreas da direita, a que se soma o financiamento de grupos de interesse, fundações e think tanks, a composição das redacções e os produtos finais têm hoje uma presença considerável desta direita radical. Este é um processo que começou com a hegemonia da TINA como “discurso único” no tempo da troika, que foi a linha dominante em todos os órgãos de comunicação social.
8. C.B.M. indigna-se com a Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, integrando-a numa ofensiva contra a liberdade de expressão vinda das esquerdas. Mais uma vez, há um pequeno problema: é que a direita ou votou a lei, ou foi-lhe indiferente, abstendo-se como fizeram o Chega e a IL. Se há matéria em que todos os espectros da direita não têm qualquer autoridade é esta. São ultra-sensíveis àquilo que chamam “liberdade económica” e bastante indiferentes à liberdade política. Não haveria polémica com esta lei se não fossem vários artigos no PÚBLICO, um dos quais meu.
9. Só quem não leia C.B.M. e o traduza, fiel ao conteúdo, é que não percebe como em todos os casos está sempre presente o ideário antidemocrático do grupo do Futuro Presente, e um ataque à ordem constitucional, como o que o levou no passado a contestar as decisões do Tribunal Constitucional que limitaram o governo da troika-Passos-Portas, defendendo que um “estado de necessidade financeira” devia ser introduzido na Constituição, condicionando as decisões dos juízes em matérias de direitos sociais, ou, de um modo geral, um princípio repressivo, a “maneira forte” como, a seu pretexto, escreveu Vasco Pulido Valente. Uma frase de C.B.M. precursora do Chega diz tudo:
“Salta à vista a debilidade dos governos e a incapacidade das forças da ordem em lidar com os motins, em boa parte graças a um sistema legal e judiciário hipergarantista, mais preocupado em deter polícias que reprimem amotinados, do que em punir estes últimos.”
10. No entretanto, vai-se normalizando o cerco. O que é que significa quererem perseguir um deputado por “ofensa aos símbolos nacionais”? O que é que significa haver um “problema” com os professores “esquerdistas”, identificados nome a nome, por um participante na Academia do Chega? Ou apelar à desobediência cívica durante a pandemia, contra a “ditadura” das vacinas e do Certificado de Vacinação? Ou à recusa às aulas de Educação Cívica (se fosse a Mocidade Portuguesa vá que não vá…)? Ou quererem fazer um expurgo ideológico dos programas escolares à moda da Polónia ou da Hungria? A grande diferença actual é que discursos que estavam acantonados na extrema-direita passaram para o “mainstream” da direita. Há um efeito de permeabilidade crescente a posições, teorias e falsidades que estavam até agora circunscritas a certos sectores da extrema-direita, mas estão a migrar para a direita radical.
11. Qual é o problema de intervenções como a de Diogo Pacheco de Amorim, ou do artigo do PÚBLICO de Carlos Blanco de Morais? Não é o facto de existirem, estão no seu pleno direito e a sua liberdade de expressão não precisa de autorização de ninguém. Muito menos é o seu conteúdo de per si, num caso e noutro sem nenhuma novidade – é a sua “circunstância”, no contexto dos dias de hoje.
12. Hoje, este tipo de discurso político exerce um duplo efeito, de trivialização do ataque à democracia e ao 25 de Abril, e de reforço de um argumentário tribal, que os faz sair das margens onde estavam para um campo muito mais vasto. Se repararem, eu evito classificar a direita radical de extrema-direita, porque não é a mesma coisa, mas comunicam entre si cada vez mais.
A grande diferença actual é que discursos que estavam acantonados na extrema-direita passaram para o mainstream da direita. Há um efeito de permeabilidade crescente a posições, teorias e falsidades que estavam até agora circunscritas a certos sectores da extrema-direita, mas estão a migrar para a direita radical.
13. Houve sempre quem tivesse saudades da Mocidade Portuguesa e dos seus “valores”, ou quem achasse que o 25 de Abril foi o resultado de uma estratégia soviética, ou quem louvasse a ditadura e as suas virtudes económicas em contraste com a democracia, quem fosse machista e misógino, quem fosse homofóbico, quem fosse racista e xenófobo, mas estava num local obscuro falando para a sua corte. E não estou a falar de quem “passasse por ser” tudo isto, era quem era mesmo. A parafernália com que se decoravam limitava a sua influência, como acontecia com o então “homem das luvas pretas”. A questão hoje é que alguém anda a educar muitos ouvidos para esta canção. E não são inocentes úteis. É gente que sabe muito bem o que quer. O problema deles é que também há gente que sabe muito bem o que não quer.
O presidente francês anunciou no dia 12 de Julho um “revenu d’engagement” para jovens dos 16 aos 25 anos sem emprego, sem estudos e sem formação (em França são chamados “NEET”) que pode ir até cerca de 500 euros mensais. Como traduzir em português “revenu d’engagement”? Rendimento de compromisso? Rendimento mediante compromisso? Seja qual for a tradução, a palavra engagement significa que se estabelece um contrato – tem muito de simbólico, mas os simbolismos contam muito – que prescreve condições, sob a forma de deveres, aos beneficiários desse rendimento: eles têm de fazer um percurso de “inserção” na sociedade do trabalho. A preocupação de Emmanuel Macron com o léxico é muito evidente: o engagement expulsa a ideia de incondicionalidade e universalidade da allocation universelle, que em inglês se chama universal basic income e em português é dito rendimento básico universal. Na verdade, uma primeira versão deste programa agora anunciado (e que só teve existência no discurso e no papel) até se chamava Garantie jeunes universelle, mas a novilíngua macroniana actualizou uma novilíngua anterior, ainda do tempo de François Hollande.
No discurso em que anunciou essa medida, Macron disse que ela se fundava numa lógica de instauração de “um novo pacto entre as gerações”. Devemos entender estas palavras como a tentativa de reconstruir um pacto geracional já quebrado ou em vias de se quebrar. Não é novidade para ninguém que está instalado desde há algum tempo, por todo o lado, e não apenas em França, um mal-estar intergeracional que está a acentuar-se com a pandemia e à mínima oportunidade pode transformar-se num acerto de contas entre jovens e velhos. Em França, a ruptura do pacto é ainda mais visível, não por causa da tradição francesa das contestações e manifestações de rua, mas também porque a geração do Maio de 68 ainda está viva e, em muitos casos, com um grande peso na vida pública. Essa geração da contestação que abandonou todas as utopias e se tornou mensageira e executora do novo realismo que é o da “política das coisas” nunca passou verdadeiramente o testemunho, é incapaz de conceber o seu declínio e, por um conjunto de factores sociais e políticos, conseguiu manter em condição de dependência os seus filhos legítimos. O pacto intergeracional manteve-se enquanto as transições puderam ser comandadas pelos mais velhos.
É o que se passa também em Portugal: o espaço público é preenchido por um discurso político que apenas sofre algum aggiornamento para se manter igual. Em nenhum outro domínio há uma inércia tão forte. A máquina da alternância geracional avariou e não se vislumbra qualquer hipótese de repará-la. Nalguns sectores, como a escola e a universidade, o desastre é colossal.
O filósofo alemão Peter Sloterdijk, que tem um olhar agudíssimo para os fenómenos sociais, culturais, religiosos e políticos contemporâneos, inscrevendo-os em narrações de “longue durée”, publicou em 2014 um livro denso e de grande alcance (como é todo o seu pensamento) sobre os filhos “terríveis” da Modernidade. Segundo ele, a continuidade geracional que tinha estado na base do desenvolvimento cultural da nossa civilização deu lugar, na Modernidade, à revolta anti-genealógica, ou seja, à tentativa de emancipar o indivíduo da cadeia de continuidades que o ligava de maneira estável às gerações precedentes. A Modernidade teria então consistido na elevação e triunfo destes filhos terríveis, intratáveis, desobedientes, que não assumem as regras dos genitores e não se assumem como descendentes. São como que filhos ilegítimos ou “bastardos”, como lhes chama Sloterdijk, fazendo ao mesmo tempo um elogio do bastardismo. Foi assim a geração das rupturas. Transpondo esta narração com um âmbito cronológico de longa duração para um presente cada vez mais escandido em curtas durações, a categoria hoje determinante não é a dos filhos terríveis, os “enfants terribles”, assim baptizados numa novela de Cocteau, mas os pais terríveis que se imaginam sempre jovens. De tal modo que até a ideia de juventude acabou por ser conformada a esta aspiração dos mais velhos a uma eterna juventude. O pacto intergeracional que Macron quer restaurar foi enfraquecendo à medida que a geração dos filhos vive pior do que a dos pais, e até a dos pais já vive pior que a dos avós. Esta grande regressão arruína qualquer pacto.