Sete dias de covil: 20-26 de Março

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/03/2020)

Miguel Sousa Tavares

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20 de Março. Tornou-se mais do que um ritual, mais do que uma dependência. Uma demência: todos os dias, entre o meio-dia e o meio-dia e meia, paro tudo para assistir à conferência de imprensa com a divulgação dos números que dão conta dos danos causados pela passagem do Monstro na véspera. Novos infectados, novos mortos, novos internados, novos internados em UCI, novos, e tão desesperadamente poucos, recuperados. E, imediatamente, faço de cabeça a percentagem que desenhará a célebre curva da morte que fará de cada dia um dia de angústia ou um dia de fugaz alívio. Angústia na segunda, alívio na terça, angústia renovada na quarta, novo alívio na quinta: a curva brinca connosco, o Monstro diverte-se a esconder o seu jogo. E ontem ainda, havia outra vida!

Os alemães são o quinto país com mais casos no mundo, mas os alemães não morrem do vírus. Os alemães têm mais camas de UCI por habitante do que qualquer outro país e fabricam ventiladores. Os alemães não querem ajudar a Itália e nem assim se convencem que para resistir ao terramoto económico que já aí está os países do sul da Europa têm o direito de pagar as mesmas taxas de juro pelos empréstimos a que todos irão recorrer que eles próprios — como é mais do que expectável que suceda numa união monetária e para enfrentar uma crise nunca antes vista e da qual nenhum é responsável. Sim, a Alemanha sozinha aguentará, mas não é certo que a União Europeia sobreviva. Glória aos alemães, coitados dos alemães: vão acabar a comer os seus lindos carros.

A despropósito: se nunca percebi por que razão as pessoas açambarcaram montanhas de papel higiénico para combater o vírus a partir de casa, também não consigo entender a razão pela qual o autarca de Ovar, Salvador Malheiro, resolveu munir-se de uma máscara abaixo do queixo (entretanto abandonada) e de um colete da Proteção Civil para dirigir o estado de calamidade pública no seu concelho. Será para futuro cartaz eleitoral?

21 de Março. O que quereria Francisco Assis dizer no seu texto do “Público” com a “ditadura das forças da natureza” em que viveremos e o lamento de que “o homem subsiste, em grande parte, prisioneiro do mundo natural”? Fui eu que o percebi mal ou foi ele que não percebeu nada do que está a acontecer?

Mais simples de entender é a solução “global” para o ataque planetário de covid-19 e tudo o resto, apresentada pela “historiadora” Raquel Varela, no mesmo jornal: “Só a classe trabalhadora europeia organizada, que é de operários e de médicos, de call-centers e de enfermeiros, ou de professores e motoristas (de pesados), pode oferecer uma saída para a pandemia planetária e para a crise global.” É reconfortante ver que não se esqueceu dos professores, como ela, mas talvez estranho não a ver incluir na solução algumas categorias da “classe trabalhadora europeia”, que, assim de repente, me parecem de considerar: cientistas, investigadores, matemáticos, técnicos de saúde pública, psicólogos, forças de segurança, militares, e, sim, os horríveis decisores políticos. Mas ela deve ter exemplos históricos do que diz. Tanto que, dois dias depois, voltaria à carga com novo texto, ocupando nova página no “Público”. E quatro dias adiante, mais outro, onde desta vez acrescentava os estivadores do porto de Lisboa ao rol dos membros da “classe trabalhadora europeia” de onde só pode vir a solução contra o vírus. Estes, e o seu peculiar sistema sindical tipo familiar (digamos assim…), eu conheci-os brevemente, quando fiz parte de um movimento que há uns anos contestou o projecto de expansão demencial do Terminal de Contentores de Alcântara, roubando quilómetros de Tejo aos lisboetas. Na altura, os estivadores estavam irmanados com a entidade patronal, a Mota-Engil, na defesa de um contrato acabado de assinar com o porto de Lisboa que era das coisas mais infames que alguma vez vi serem feitas em nome do suposto interesse público. São detalhes “históricos”, que, todavia, não apagam o essencial da tese defendida por Raquel Varela no último da sua trilogia de textos da semana que passou, no “Público”: defende ela que o decreto que instituiu o estado de emergência, há dias, faz lembrar os que instituíram o Estado Novo de Salazar ou o Terceiro Reich, de Adolf Hitler. Está-se sempre a aprender com os historiadores.

22 de Março. Sem dúvida que temos de ser solidários para com os que foram apanhados desprevenidos, em trânsito pelo mundo ou fora dos seus países e querem voltar ou, ao menos, desembarcar em algum lado. Mas, um mês depois de verem o que aconteceu com os passageiros dos paquetes apanhados pelas medidas de isolamento quando o coronavírus chegou à China, 15 dias depois de o caos já estar instalado em Itália e vários dias depois de toda a Europa e Portugal incluído ter começado a fechar fronteiras, é completamente irresponsável — dos passageiros e das agências — iniciar cruzeiros turísticos no Brasil com destino à Europa e depois ficar a suplicar que alguém os deixasse desembarcar. Assim como é quase criminoso que tenha havido portugueses a partir para férias — em Espanha, em Itália (!), no Peru ou em Bali — quando todo o mundo já estava em estado de excepção e depois ficar a mandar vídeos para cá com apelos lancinantes e acusações de que o Estado português os tinha abandonado nas suas férias lá longe. É incrível saber que a linha telefónica de emergência montada pelo MNE para assistir no repatriamento dos mais de 4 mil portugueses no estrangeiro a quererem voltar estava a ser ocupada a 75% por chamadas de portugueses a perguntarem se poderiam ir passar as férias da Páscoa no estrangeiro! Estes turistas acidentais deviam pagar bem caro o custo do seu repatriamento.

23 de Março. No “Público” de hoje, o professor de Epidemiologia, Manuel Carmo Gomes, assina um texto profundamente pessimista sobre a evolução do Monstro. A sua conclusão é arrepiante: a segunda vaga da ofensiva é quase inevitável e a única defesa eficaz é mantermos os velhos fechados em casa durante um ano ou ano e meio, até haver uma vacina. Entrevisto-o para o “Jornal das 8” de segunda-feira, da TVI, e pergunto-lhe se isso não é uma forma de eutanásia social, que consiste em afastar os velhos dos filhos, dos netos, da vida em comunidade, das ruas, do ar livre, numa espécie de prisão domiciliária, durante um longo tempo do pouco tempo de vida que já lhes resta. “Não há outra forma de parar a doença”, responde-me. Com o todo o respeito para quem olha para este susto com o olhar do epidemiologista e não do sociólogo ou do psiquiatra, esta não é uma resposta para a doença: é outra doença. Acabaremos a ver os velhos a serem enxotados dos jardins, das praias, das ruas, quando se atreverem a pôr a cabeça de fora. No sul de Espanha, dois dias depois, uma coluna de ambulâncias que evacuava velhos de um lar, foi apedrejada e atacada com explosivos ao chegar a uma cidadezinha onde iriam ser realojados. Por enquanto, o Monstro apenas infecta humanos, não animais. Mas em breve terá o dom de transformar os humanos nos piores dos animais. Um tipo chamado Donald J. Trump já deu o mote.

Por enquanto, o Monstro apenas infecta humanos, não animais. Mas em breve terá o dom de transformar os humanos nos piores dos animais. Um tipo chamado Donald J. Trump já deu o mote

No mesmo espaço da TVI, entrevisto António Costa. Logo de entrada, pergunto-lhe o que falta: testes, camas, ventiladores, material de protecção para o pessoal clínico? Responde-me que, até à data, não faltou nada nem prevê que venha a faltar. Pergunto-lhe, de seguida, qual é o ponto de saturação do SNS, quando e com quantos doentes o atingiremos. Responde que confia em que nunca o atingiremos, que nunca perderemos o controlo da situação. Nos dias que se vão seguir, o primeiro-ministro irá ser massacrado por estas duas respostas. “Está a mentir!”, gritam as redes sociais e vários médicos e enfermeiros, reportando da tão falada “linha da frente” e alimentando as redes sociais. “É falso”, proclamam a Ordem os Médicos e a dos Enfermeiros: falta tudo. Fico a pensar nisto: temos 140 doentes internados, 60 em cuidados intensivos — camas não faltam com certeza e muitas mais estão a ser disponibilizadas, ao mesmo tempo que os outros doentes evitam ir aos hospitais e às urgências. Os testes e os ventiladores são neste momento objecto de um mercado planetário ocupado por piratas, onde nenhum contrato de fornecimento é respeitado. Se o pessoal médico está ou não desprotegido, não sei, porque não estou lá para ver. Mas, dois dias depois, o director clínico do Serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral (o hospital de referência nesta crise), Fernando Maltez, declara tranquilamente: “Até ao momento, não nos tem faltado nada nem prevemos que nos venha a faltar nos tempos mais próximos.” Percebo perfeitamente que quem está nos hospitais a receber os doentes esteja assustado — no lugar deles, eu também estaria, e muito. Mas para enfrentar um combate que se antevê duro, a tranquilidade é melhor conselheira do que a histeria. Não temos tudo o que precisaríamos para uma crise desta dimensão? E qual é o país que tem? Qual é o serviço público de saúde que pode estar preparado, e a que custo, para uma crise desta natureza ou para as consequências da queda de um meteorito no planeta Terra? Sinceramente, não percebo: ficariam todos mais satisfeitos se António Costa tivesse dito: “Olhe, falta tudo e não estamos preparados para nada; vamos entrar em ruptura e vai ser um caos, salve-se quem puder”?

25 de Março. Para o que não estávamos preparados, e julgo que devíamos estar, foi para ter uma estratégia planeada para a bomba-relógio representada pelos lares de terceira idade, onde estão acantonados 100 mil velhinhos que são simultaneamente as principais vítimas e os principais difusores do vírus. Esqueceram-se de pensar nisso e neles, e agora actuamos à deriva.

26 de Março. No “Corriere della Sera”, o escritor e jornalista italiano, Antonio Scurati, escreveu isto sobre a sua geração, a que nasceu nos anos 70 do século passado: “Fomos a geração mais afortunada da história da Humanidade… Ter nascido em Itália no princípio dos anos 70 deu à nossa geração, por pura casualidade, a fracção da humanidade mais próspera, mais saudável, mais segura, mais protegida, com maior esperança de vida, mais bem vestida, alimentada e cuidada que alguma vez pisou a face da Terra. Agora, uma vez alcançado o ponto mais alto da nossa existência, vemo-nos postos à prova. Estaremos à altura?” Eu não tenho dúvida que sim. Na Roma Antiga — fundadora da mais extraordinária civilização que o mundo alguma vez conheceu, a civilização mediterrânica — os bárbaros ficavam a Norte e o mundo que valia a pena ser vivido ficava a Sul. A Itália sobreviverá. E nós com ela.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia



Covid-19/março-2020

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/03/2020)

Miguel Sousa Tavares

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Não creio que o mundo vá acabar. Mas espero e desejo que a nossa forma irresponsável de viver e de habitar o planeta mereça — agora, pelo menos — um momento sério de pausa para reflexão. Espero que coisas como o desfile trendy de Davos, onde é possível juntar um idiota como Trump com uma vedeta assimilável como Greta Thunberg, ou um milionário com dúvidas de consciência, como Bill Gates, com uma milionária que compra caro a sua presença para limpeza de cadastro, como Isabel dos Santos, não voltem a repetir-se. Para fingir que os grandes, os ricos e os poderosos do mundo estão preocupados com o futuro da humanidade. Não estão, nunca estiveram e não passarão a estar quando nos livrarmos deste monstro. Tudo o que eles desejam é voltar ao habitual, ao mundo que era o de antes e que eles controlavam.

Não acredito em deuses nem em bruxas nem em teorias metafísicas para o que é simplesmente evidente. É evidente que o limite da capacidade do planeta em que vivemos é a natureza. Podemos agir sobre ela em muitos domínios e até certo ponto: podemos descobrir antibióticos até que o nosso organismo já não reaja a eles; podemos produzir alimentos transgénicos até que eles já não consigam alimentar mais gente do que aquela que matam; podemos ter 12 milhões de pessoas a voar todos os dias nos céus do mundo até que já não consigamos respirar; podemos produzir carne e soja para alimentar 1400 milhões de chineses e 140 chefes Michelin com os seus bifes Angus, em troca de milhões de hectares da Amazónia a arder todos os anos e a aquecer mais o planeta; e podemos plantar milhares ou milhões de hectares de eucaliptos, que crescem rápido e dão dinheiro rápido a ganhar em terras que nos dizem que, de outra forma, não valem nada, mas depois temos um mês de incêndios descontrolados na Grécia ou em Portugal ou seis meses na Austrália. Mas quando chegamos ao limite — ao limite da cobiça, ao limite da irresponsabilidade, ao limite da loucura — a natureza revolta-se. Depois, podemos dizer que foi um pangolim cruzado com um morcego, algures num mercado chinês — um azar que ninguém, nenhum epidemiologista, nenhum sociólogo, nenhum economista, podia prever, nos seus mais negros modelos de estudo. Mas não foi um azar: foi um aviso da natureza.

Os tempos requeriam grandes líderes. Não líderes locais, nacionais, pequeninos. Mas líderes mundiais, visionários, pelo menos mais fortes do que um morcego e um pangolim. Mas o que temos hoje são apenas duas espécies de líderes à frente das nações que têm armas, poder e dinheiro: os inteligentes e os idiotas. Desgraçadamente, porém, os inteligentes são cínicos e os idiotas são, por natureza, perigosos.

Desçamos aqui à terrinha, a Portugal. Ao contrário de tantos, procuro sempre todos os sinais de optimismo, de esperança, de continuidade. Tenho a imensa vantagem, que é uma escolha própria da primeira hora, de não habitar nas redes sociais. Isso permite-me passar ao lado do WhatsApp dos vizinhos, dos amigos e dos detentores de “informação privilegiada”. Mas não escapo à onda das mensagens de boataria originária das redes sociais e de apelo à cumplicidade no medo e no pânico dos que estão trancados em casa à espera do fim do mundo. São tantos os que transmitem mensagens aterradoras de um “médico meu amigo que está na primeira linha de combate”, que eu só posso chegar a duas conclusões: que toda a gente tem um médico amigo na frente de combate e que todos os médicos lá na frente perdem um tempo precioso a espalhar mensagens de pânico cá para fora. Felizmente, não acredito nisso. Mas ainda bem que eles estão trancados em casa. Não duvido que isso ajuda a conter a disseminação do vírus e é portanto louvável que o façam. Mas há outros que não podem ou não o querem fazer e, enquanto tal for permitido, também é legítimo que o façam. Aliás, só é possível a uns estarem trancados em casa porque outros o não estão.

Exemplo daquilo que não interessa num momento destes são as intervenções do deputado Telmo Correia. Reduzido a cinco deputados, o CDS tinha na anterior líder parlamentar, Cecília Meireles, uma pessoa séria, preparada e competente. Mas optou por substituí-la por Telmo Correia, um tribuno para todas as ocasiões, que tanto podia discutir Orçamentos do Estado no Parlamento como penáltis a favor do Benfica nos execráveis fóruns de debates futebolísticos televisivos. Ou a crise do coronavírus, julgavam eles. E, do primeiro ao 17º dia, Telmo Correia não conseguiu enxergar mais longe do que ver neste momento de excepção governativa e de sobrevivência pública uma oportunidade preciosa de atacar o Governo. Qualquer estagiário para spin doctor lhe teria explicado que este não era o momento para tal — como nem sequer tem sido em Espanha ou Itália, onde a gestão desastrosa da crise é por demais evidente: quando uma nação inteira está ameaçada, o povo quer cerrar fileiras atrás de um líder. Mas Telmo Correia, que no debate sobre a declaração do estado de emergência surgiu munido de ridículas citações churchillianas, optou antes por centrar a sua intervenção nas deficiências do Governo português para enfrentar o ataque à covid-19. É claro que as houve e é claro que foram cometidos erros, que são mais fáceis de ver a posteriori, como sempre sucede numa situação nunca antes vivida. Mas a Espanha, com quatro vezes mais habitantes do que Portugal, tem até sexta-feira, 200 vezes mais infectados do que nós e 300 vezes mais mortos; Itália, que se gaba de ter um dos melhores sistemas de saúde do mundo, é uma catástrofe inimaginável; a Holanda, com menos habitantes, tem o dobro de infectados e dez vezes mais mortos; a Suíça, um dos países mais ricos do mundo, com menos habitantes do que Portugal, tem três vezes mais infectados e oito vezes mais mortos e o seu sistema de saúde está à beira da ruptura; no outrora emblemático sistema de saúde inglês falta tudo: máscaras, ventiladores, médicos, camas, enfermeiros, ao ponto de a estratégia inicial ter sido a de deixar infectar todos; em França, que é o segundo país da UE que mais gasta em saúde pública, o sistema está em ruptura de tudo, após 300 mortos; e nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, o “New York Times” de quinta-feira reportava uma situação em que faltava tudo para acudir apenas à população que tinha cobertura de saúde. Todos foram apanhados de calças na mão. A covid-19 aproveitou aquilo que fazia a prosperidade do sistema — a globalização, a rapidez de comunicação e a interdependência das trocas comerciais, para atacar o centro vital do planeta. E por mais ricos que sejam os países, ter um sistema público de saúde preparado em permanência para responder a uma situação destas, continuando a responder também a todas as outras situações, teria um custo tamanho que ou os Estados esmagavam toda a economia com impostos ou deixavam de acorrer a tudo o resto.

Pelo contrário, eu penso que António Costa tem sabido gerir com um misto de coragem e de sangue-frio praticamente inatacáveis uma situação de uma gravidade que nenhum primeiro-ministro enfrentou antes em democracia. Tenho, como todos, criticas pontuais, das quais a maior é a de que já aqui tinha dado conta a semana passada: o tempo que demorámos a fechar a fronteira com Espanha. Mas não podemos esquecer que as decisões que o Governo tem de tomar todos os dias vão muito além da competência política exigível a governantes, por mais ampla que seja, estando ainda, ou sobretudo, dependente de informações e opiniões técnicas que, por natureza, não lhe cabem. E foi com grande alívio que vi o primeiro-ministro não ceder aos apelos ao pânico dos que queriam ver o país completamente fechado e paralisado, sem se deterem a pensar nas consequências e convencidos de que uma economia completamente morta não mata gente. Até porque, não tenhamos dúvidas: depois de ultrapassada a ameaça de morte sobre a saúde pública, encontraremos uma economia devastada e todos vão querer tudo da varinha mágica do Governo.

Ontem, sexta-feira, ultrapassámos o número de mil casos de infectados. Respiremos fundo, porque fatalmente vamos por aí acima. Mas, com calma: mil casos é ainda menos de 0,01% da população.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


O novo vírus e o velho vírus

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/03/2020)

Miguel Sousa Tavares

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1 O que me preocupa mais em relação ao coronavírus? A Espanha e o comportamento colectivo dos portugueses. Com a Espanha, que é um país e um povo que eu admiro profundamente, sucede, todavia, um embaraço histórico: é o nosso único vizinho territorial e um péssimo vizinho. Seja a construir centrais nuclea­res encostadas à fronteira comum (ficando eles com a energia e nós com a poluição e o perigo), seja a gerir os caudais de água dos rios internacionais que, para azar nosso, são os nossos maiores e nascem todos lá, seja a aplicar os seus métodos predadores de agricultura no Perímetro de Rega do Alqueva, que nós pagámos, ou a pescar nas águas da nossa ZEE, a Espanha não é, infelizmente, o tipo de vizinho que mais se deseja ter. E agora é a maior ameaça que enfrentamos à disseminação do Covid-19, que lá já entrou em indisfarçado descontrole. À hora em que escrevo, de quinta-feira, Portugal tem 78 casos confirmados e zero mortes e Espanha, com quatro vezes mais população que Portugal, deveria ter, consequentemente e aplicando a nossa bitola, cerca de 400 casos e não mais de quatro mortes. Mas já vai, nesta quinta-feira, em 3500 casos (45 vezes mais que Portugal) e 86 mortos. Há 15 dias, quando a situação em Itália já estava também em descontrole, um bar do centro de Madrid (região onde ocorreu metade dos casos de infecção) ostentava um cartaz que rezava ufanamente: “Aqui não há máscaras nem desinfectantes: morremos como heróis, a beber uma copa.” Muy bravos, pero peligrosos. Sucede que, como é de tradição, milhares destes bravos vão provavelmente invadir Portugal dentro de dias, no período da Páscoa. Apesar do coronavírus ou justamente por causa do coronavírus: porque estão mais seguros aqui, não precisando de vir de avião, antes bastando-lhes viajar de carro pelas fronteiras da Galiza, de Trás-os-Montes, Vilar Formoso, Caia e Ayamonte. Seria uma machadada brutal para o turismo, já em agonia, mas, se houvesse coragem, fechávamos a fronteira.

A segunda coisa que mais me preo­cupa é a reacção em cadeia e irracio­nal dos portugueses. Nada que não fosse de esperar, sobretudo nestes tempos da imbecilidade organizada das redes sociais, incentivando o pior de cada um e desaguando fatalmente no pior de cada sociedade.

Os que multiplicam os boatos e a desinformação, os que espalham o alarmismo, os que entopem as linhas de saúde só porque estiveram com a cunhada do primo cujo amigo acusou positivo, os que se precipitam para as urgências dos hospitais porque deram um espirro, sem quererem saber da sobrecarga do pessoal clínico que lá trabalha, os que assaltam os supermercados sem pensarem na utilidade ou consequências disso e de lá saem impantes, carregados de rolos de papel higiénico, como se o vírus desse ataques de diarreia incontroláveis, os que defendem à viva força que o Governo feche escolas e tudo o resto, desde que lhes garanta o ordenado para ficarem em casa e haja alguém que, ao invés, não fique em casa e faça o mínimo para que o país não pare e não entre em colapso. Tenho mais medo disto do que do próprio vírus. É verdade que o vírus tem o rosto de um inimigo ainda oculto, para cujas armas ainda não temos resposta adequada e cuja sede de destruição e morte não sabemos até quando e até onde irá. Mas estamos a combatê-lo e eu confio nos médicos, nos enfermeiros, nos auxiliares que nos nossos hospitais o enfrentam, por vezes com meios insuficientes mas com uma atitude que é em tudo o oposto dos açambarcadores de papel higiénico. E nos reformados, que voluntariamente se juntaram a estes, respondendo ao apelo do bastonário dos médicos. E nos técnicos de saúde pública. E nos investigadores e cientistas que no mundo inteiro deixaram tudo o resto de lado na busca de um tratamento e de uma vacina contra este inimigo comum. E, apesar de tudo, vejo sinais de esperança no facto de a China já estar à beira de poder declarar vitória, com um número diário de infectados já inferior a Portugal, tal como a Coreia do Sul — e eram os dois países mais atingidos. E de a Rússia nunca ter sido verdadeiramente atingida. Mas, pelo contrário, o pânico descontrolado e a irracionalidade de massas tem o potencial para se auto-alimentar até um ponto cujo limite desconhecemos: a desintegração do SNS? Do próprio Estado? Da vida em comunidade?

2 Conheci pessoalmente José Oliveira e Costa nas circunstâncias mais insólitas e mais desagradáveis possíveis. Era ele secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num Governo de Cavaco Silva e estava atolado num caso de perdões fiscais que concedera a uma empresa de Aveiro e que depois degeneraria num caso de justiça baptizado como Águas Turvas — que, todavia, acabou em águas de bacalhau, por insuficiência de provas. Enfim, mais um dos muitos ‘ajudantes’ de Cavaco Silva que viriam a revelar uma tendência para terem uma relação complicada com o Código Penal ou com a simples ética política. Na altura, escrevi qualquer coisa sobre isso, que levou o senhor a telefonar-me: queria estar comigo para me explicar a sua verdade dos factos. Acontece às vezes, são ossos do ofício. Bem tentei evitar um encontro, que já antevia inútil e desagradável, mas não houve nada a fazer, ele usou o argumento incontornável: teria eu medo de conhecer a verdade? Mas, surpreendentemente, ele não se contentava com um encontro no seu gabinete, nem, ao menos, com um desses “almoços de trabalho” tão do agrado dos homens muito ocupados, e que eu abomino: queria um jantar! E escolheu, bem a propósito, o Solar dos Presuntos, por onde gosta de desfilar tudo o que é poder ou aspirante a poder, na capital ou de visita à capital. O horror era completo. Cheguei pon­tual, como sempre chego, mas o homem já lá estava — e bem à vista, na primeira mesa. Porém, decididamente, o secretário de Estado tinha maneiras originais: não estava sozinho, estava acompanhado pela mulher e pelos dois filhos. Apresentou-mos e eu não pude evitar a ironia:

— Não sabia que era um jantar de família. Podia ter trazido a minha também…

— Eu trouxe a minha família — respondeu ele — para que o senhor veja que somos todos pessoas sérias.

Tenho mais medo da reacção imbecil e em cadeia das pessoas do que do próprio vírus

E jantámos. Sem que a família dele abrisse a boca, tão constrangida com a situação quanto eu. E sem que ele abordasse, quer ao de leve, o assunto que era suposto ali nos ter levado. De facto, nem me lembro de que teremos falado, presumo que de inconciliáveis trivialidades. A única coisa que retive foi um último pormenor ainda mais constrangente: durante todo o tempo daquele penoso jantar, o homem esgrimia na minha direcção um dedo mindinho onde despontava uma unha que deixara crescer em forma de estilete, não um pouco mais que as outras, mas uns bons 5 cm, como faziam os caixas dos bancos para contar notas no século XIX.

Realmente, Oliveira e Costa fora empregado bancário antes de, por artes mágicas da década gloriosa do cavaquismo, vir a ascender depois a presidente de banco — coisa que eu, no final daquele que foi seguramente um dos mais desagradáveis jantares da minha vida, jamais poderia imaginar. Esse banco, o BPN, custou a todos os portugueses — com excepção de Cavaco Silva, que com ele ganhou bom dinheiro — seis mil milhões de euros, e a sua gestão, a par da ausência de supervisão de que foi alvo, juntamente com outros, ficará para a história como um manual da pouca vergonha na arte de roubar contribuintes. Condenado a 15 anos de prisão, Oliveira e Costa morreu agora, tendo apenas passado oito meses em prisão preventiva. Jamais mostrou o menor sinal de arrependimento e, menos ainda, um assomo que fosse de vergonha pública.

3 Mais ou menos na mesma altura, e por razões profissionais, conheci Jardim Gonçalves — “o Engenheiro”. Foi um dos dois banqueiros que Mário Soares foi buscar ao exílio (o outro foi Ricardo Salgado). Ele veio e de imediato revolucionou a banca com a criação do BCP e da rede de balcões de proximidade Nova Rede. Pela sua mão, e num ápice, a banca acomodada, “revolucionária” e habituada a desprezar os clientes, que era a que tínhamos, teve de enfrentar uma concorrência, essa, sim, absolutamente revolucionária. O BCP fundara-se com o capital dos empresários do Norte e sobretudo para financiar os empresários do Norte, mas aos poucos Jardim Gonçalves foi consumando um MBO de facto, chamando a si todo o poder e afastando os accionistas fundadores. A par dos seus evidentes méritos de banqueiro, tinha, a meu ver, duas fraquezas pessoais: o luxo absurdo em que gostava de viver (em desobediência aos mandamentos da fé católica que tanto preza) e o desejo impossível de tentar fazer passar dinheiro novo por dinheiro velho. Isso acabaria por exacerbar vontades contra ele, conduzindo a um levantamento de “facas longas” que o derrubou do pedestal onde se imaginava inatingível através de um indecente conluio entre a rapaziada do Compromisso Portugal, o comendador Berardo e o PS, com o consentimento cúmplice do PSD e a utilização do banco público CGD. Derrubado, mas não desprevenido, “o Engenheiro” deixara, porém, o seu futuro bem acautelado: uma pensão de 175 mil euros por mês (!), mais direito a utilização do jacto privado do banco para uso pessoal e dois seguranças em permanência. O Tribunal da Relação de Lisboa acaba de reduzir todas essas mordomias a um terço, mandando-o ainda devolver 18 milhões de retroactivos. Mas, obviamente, a história vai continuar: Jardim Gonçalves irá até ao Supremo, ao Constitucional e, quem sabe até, reclamar os seus milhões no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Às vezes pergunto-me se o sangue que corre nas artérias dos banqueiros será igual ao nosso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia