Os despojos da noite americana

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/11/2020)

Cartoon de António in Expresso, 07/11/2020

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1 Mais de três dias para contar os votos e saber quem ganhou uma eleição é próprio de democracias principiantes de África ou da América do Sul, não do país mais desenvolvido do mundo. Que houvesse 160 milhões de votos para contar e muitos deles enviados pelo correio não é desculpa nem justifica que dois estados cujos votos poderiam ter indicado o vencedor 24 horas após o fecho das urnas — Arizona e Nevada — tenham ficado mais de 36 horas depois sem acrescentar nada à contagem em que já iam então, de 86% e 96%. No país da sofisticação tecnológica e científica, ficar a assistir durante três penosos dias ao espectáculo de um processo de contagem pré-histórica de votos, enquanto o candidato que se antevê derrotado clama vitória com 20% dos votos contados e bombardeia os tribunais com pedidos para parar a contagem onde está à frente e prosseguir onde está atrás, é simplesmente degradante. Mas, às 2 da manhã de sexta-feira, assumo que, embora não oficialmente ainda, Joe Biden ganhou a eleição e em termos que obrigarão algumas raras cabeças ainda sensatas do Partido Republicano a explicar a Donald Trump que chegou o momento de declarar “game over”.

2 Que todo o sistema de colégio eleitoral por estados é profundamente estúpido, consentindo regras diferentes de votação e de contagem de votos, já se sabia, assim como se sabia que a justificação de servir para combater o centralismo de Washington contra o poder dos Estados serve apenas para favorecer os republicanos contra os democratas e para poder desvirtuar a vontade popular maioritária expressa nas urnas. Em 2016, Hillary Clinton tinha perdido para Trump apesar de ter obtido mais 3 milhões de votos; agora, Biden ganhou dificilmente no colégio eleitoral, apesar de ter aumentado essa diferença para mais de 4 milhões.

3 Um dos grandes factos políticos destas eleições foram os 4 milhões de votos a mais que Trump recebeu em relação a 2016, fazendo dele o segundo candidato mais votado de sempre, a seguir ao próprio Biden. Grande espanto de muitos com este resultado e imensas teorias a tentar explicar o que não entendem: como é que um tipo tão ignorante, tão boçal, tão impreparado, tão incapaz, tão irresponsável, tão desavergonhado ao ponto de não pagar impostos, de usar o avião presidencial e a Casa Branca para fazer campanha, que não hesitou em lançar mão de todos os truques baixos para se manter no poder (e o mais que vamos ver), consegue, não apenas manter toda a sua base de apoio, com excepção de uma franja significativa de mulheres (honra e gratidão lhes seja concedida!), e ainda acrescentar a sua legião de devotos? Pois, a resposta é simples: por mais sinistro que seja, Trump é igual a metade dos americanos. Estranho não é que ele tenha sido eleito em 2016, estranho é que Obama tenha sido eleito em 2008 e reeleito em 2012.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

4 Por um misto de sorte e oportunidade, tive um baptismo americano determinante para conhecer esse imenso país. Muito jovem jornalista, ao serviço de um jornal já desaparecido, ganhei uma bolsa de uma Fundação americana que me permitiu visitar pela primeira vez os Estados Unidos. Foi tudo descoberta em estado puro, a começar logo pelo primeiro dia, passado em Nova Iorque, quando, estando a jantar em Times Square, assisti a um tiroteio na rua entre a polícia e uns assaltantes de um café, acabando estendido no chão do restaurante e lá retido durante uma hora. Do deslumbramento de Nova Iorque voei para o encantamento de San Diego, na Califórnia, e aproveitei os dias aí passados para atravessar “a fronteira mais cruzada do mundo”, para o México — onde hoje Donald Trump ergueu um muro. E aí, puseram à minha disposição um carro e uma roulotte com capacidade para quatro pessoas, mas onde, sozinho, atravessei os Estados Unidos, de San Diego a Nova Iorque, do Pacífico ao Atlântico, milhares de quilómetros, durante um mês inteiro. New México, Arizona, Texas, Oklahoma, Arkansas, Missouri, Mississípi, Kansas, Tennessee, Arkansas, Virgínia: o cowboy country, o bastião conservador e republicano dos Estados Unidos. Impressionou-me a sensação de imensidão e de incrível liberdade de que gozei nesse mês, a inacreditável mobilidade de uma população que encontrava nos cafés das zonas de serviço das auto-estradas ou à boleia, deslocando-se muitas vezes sem saberem ao certo para onde, apenas porque o país era imenso e havia, seguramente, uma oportunidade de trabalho e de vida algures. E impressionou-me o patrio­tismo exacerbado, doentio mesmo — no culto asfixiante à bandeira, por exemplo. Eu sei que esse patriotismo inquestionável, a par da invocação de Deus a torto e a direito, permitiram aos Estados Unidos convocar os seus cidadãos e vê-los responder à chamada em momentos decisivos da sua história. O problema é que ali, nessa América tão bem retratada por cineastas como Michael Cimino ou Clint Eastwood, o patriotismo tem, como contrapeso, uma ignorância arrogante e larvar, um profundo desprezo e desconhecimento dos outros e um absoluto convencimento de que tudo o que é americano é melhor, é indiscutível e insubstituível. O pequeno mundo intelectual e cultural desses americanos é tudo o que lhes interessa e quanto lhes basta. E não apenas desconfiam dos outros como os vêem como ameaças ao seu modo de vida e aos seus valores. Que Donald Trump pague ou não pague impostos, que faça com que os Estados Unidos tenham 20% dos mortos de covid no mundo quando apenas têm 4% da população mundial, é-lhes indiferente. O que lhes interessa é que, da cabeça aos pés, Trump é um deles. E melhor ainda se não pensa quase nada e se exprime por roncos no Twitter: mais igual a eles fica.

Esta América não tem nada que ver com a da Costa Leste ou a da Califórnia. É outro mundo, outro país, que só militarmente foi derrotado na Guerra Civil. Olhando para o mapa eleitoral destas eleições, percebo que nada mudou desde que por lá passei. O cowboy country continua no seu mundo à parte. Não desapareceram e não diminuíram. E são muitos.

Essa América de Trump foi agora derrotada nas urnas, mas cresceu em votos, cresceu em militância e destemor e cresceu em falta de pudor. Vão procurar a desforra

5 Essa América foi agora derrotada nas urnas, mas cresceu em votos, cresceu em militância e destemor e cresceu em falta de pudor. No Senado, cuja maioria mantêm, entrou uma adepta confessa do QAnon, devota das teorias da grande conspiração pedófila dos democratas, dos seus ritos satânicos e da mentira mundialmente orquestrada da covid-19.

Em quatro anos, Trump soltou todos os demónios impensáveis que habitavam, escondidos, no mais fundo da mais profunda estupidez dessa gente. Foi por isso que, mais uma vez, as sondagens se enganaram em parte: porque muitos deles têm até vergonha de confessar o que são. Confortados com o controlo do Senado e do Supremo Tribunal, eles vão tornar a vida impossível a Joe Biden.

Vão gritar que a eleição foi roubada, vão fazer de Trump um mártir, evitar que ele seja investigado e acusado por evasão fiscal, por conspirar com Putin, por usar o cargo para traficar influências, por ter perseguido e despedido funcionários que apenas cumpriram o seu dever. Por mais que Biden queira conciliar com eles, eles vão procurar o confronto e a desforra, vão promover os conflitos raciais e a violência nas ruas e vão preparar o regresso de Trump em 2024. Nada os parará, a não ser uma não esperada revolta do Partido Republicano contra o fanatismo ideológico que tomou conta do Partido.

6 Há aqui uma secção de intelectuais a que eu acho muita graça. E acho-lhes muita graça porque passam a vida a citar os livros, os filmes, as séries televisivas, os discos e os artigos de jornais americanos que leem, mas que, quando chega às eleições americanas, declaram, em tom superior, que essa coisa de os nossos media e os nossos colunistas (como eu) se preocuparem tanto com as eleições americanas é uma espécie de saloísmo, pois que isso é assunto da exclusiva competência dos americanos. Só para lembrar, então: estamos a falar do país que detém a maior capacidade militar e nuclear do mundo mas que nos exige 2% do PIB em despesas com a defesa comum na NATO, sem, em contrapartida, garantir as suas próprias obrigações face ao artigo 5º do Tratado; do país que responde por mais de um terço das emissões de CO2 do planeta e que acaba de oficializar a sua saída do Acordo de Paris; do país que amea­ça a UE com uma guerra tarifária se Bruxelas ousar taxar os lucros obtidos na Europa pelas gigantes americanas das telecomunicações; do país que declarou guerra à China (embora, por baixo da mesa, mantenha acordos com ela) e cujo embaixador em Lisboa nos ameaça de tratamento de inimigo se não alinharmos nessa guerra. Tudo isto é fruto da política de Donald Trump nos últimos quatro anos. E querem que tudo isto e a hipótese de mais quatro anos disto nos seja indiferente, enquanto eles lêem as suas revistas americanas de culto e vêem as suas séries preferidas da Netflix, comendo as suas bolachas encomendadas à Macy’s através da Amazon?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Sobre gelo fino

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/10/2020)

Miguel Sousa Tavares

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1 O que torna os tempos actuais verdadeiramente terríveis para tomar decisões — sejam decisões políticas, económicas, empresariais ou até pessoais — é que ninguém conhece ao certo um factor determinante em qualquer tomada de decisão: o timing adequado para cada medida, quando deverá ser tomada e por quanto tempo. Em relação à tão esperada vacina, por exemplo, dizem os optimistas que antes da próxima Primavera não haverá uma vacina eficaz e segura, pronta a ser distribuída à escala global; dizem os realistas que isso não acontecerá antes do final do ano; e dizem os pessimistas que nem mesmo a existência de uma vacina significará o fim do problema. E sem saber quando e como é que o problema terá fim, não é possível escolher medidas para o combater, desconhecendo-se a necessidade da sua duração e as suas consequências. É por isso que todos os governos parecem paralisados ou, na melhor das hipóteses, navegando à vista, sem bússola nem rumo fixado.

O dilema mais óbvio é o da escolha entre a economia e a saúde das pessoas. Diz-se que uma vida humana não tem preço, mas também se diz que matar a economia é uma outra forma de matar pessoas — e ambas as coisas são afirmações incontestáveis. Só que isso não facilita qualquer opção. O economista francês Patrick Artus resolveu fazer um exercício politicamente incorrecto, que foi o de calcular o custo de cada vida humana salva pela decisão de confinamento geral tomada pelo Governo de Emmanuel Macron na Primavera passada (e num momento em que a França, se não acontecer um milagre até lá, se prepara para regressar ao confinamento na próxima quarta-feira). Partindo dos dados dos epidemiologistas que calcularam que cada um dos dois meses de confinamento em França evitou 20.000 mortes, e calculando, por seu lado, que um mês com a economia parada custou à França 5% do PIB e 2,5% de aumento da taxa de desemprego a longo prazo, ele chegou a um número representativo do custo de uma vida humana salva pelo confinamento. Um número arrasador: seis milhões de euros! Não sei se as suas contas estão certas ou erradas, mas são contas semelhantes a estas que os governantes de toda a Europa têm em cima da mesa, na hora de decidir o que fazer.

Porém, ouvindo e lendo as opiniões sobre o assunto (e os comentários online a essas opiniões), parece que os portugueses, em geral, estão carregados de certezas absolutas, mesmo que de sinal oposto.

Todos acreditam saber mais do que os outros sobre a covid, as medidas que já deveriam ter sido tomadas e não foram, ou aquelas que foram tomadas e não deveriam ter sido, porque tudo isto, afinal, não passa de um embuste, as máscaras não servem para nada e o que o Governo quer é “roubar-nos o Natal” (não por acaso, Trump diz o mesmo de Biden), como se algum Governo ganhasse popularidade estragando o Natal aos governados.

Uns indignam-se com a Fórmula 1 na Mexilhoeira Grande, outros acham-na essencial para relançar o turismo no Algarve. Mas em duas coisas, pelo menos, todos parecem concordar: estão todos fartos da covid — o que é uma boa pista para encontrar uma solução; e todos já teriam despedido a ministra Marta Temido, incluindo um colunista que, alicerçado nos seus invocados 120.000 seguidores no Facebook, o faz em linguagem de carroceiro, que explica, afinal, porque é importante a frequência da tal disciplina liceal de Cidadania. E, no fim, não tendo mais desabafos nem verdades evidentes para descarregar nas redes sociais, vão às dezenas de milhares fazer fila para votar nas eleições do Benfica ou ver as ondas gigantes do canhão da Nazaré. Horas a fio, em dias de semana e em horário de trabalho: a vida como sempre, o antigo normal.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 De facto, já era madrugada aqui e regressava eu do meu fuso horário das eleições americanas, como sempre carregado de espanto, angústia e pavor, quando faço um zapping final pelas nossas televisões. Nada menos do que seis canais — seis! — estavam em directo do Estádio da Luz, transmitindo o desfecho das eleições do Sport Lisboa e Benfica. No nosso late night news era o único, rigorosamente o único assunto que ocupava as televisões: nem covid, nem Orçamento do Estado, nem eleições americanas, nem a tensão Turquia-França, nada mais — só as eleições no Sport Lisboa e Benfica. Subiu ao palco dos seis canais o candidato derrotado com 36% dos votos, que falou como um vencedor e como falaria um futuro primeiro-ministro da nação: agradeceu ao pai, à mulher e aos filhos, e, como político sabido, respondeu à pergunta sobre se voltaria a recandidatar-se dizendo que prometera que não à família mas que nunca diria que não aos benfiquistas. Depois, as televisões foram em directo até à ‘sede de campanha’ do terceiro candidato: um fulano que viveu nos últimos anos a vomitar ódio aos rivais nos programas de futebol gritado das televisões, julgando com isso angariar popularidade entre os benfiquistas, mas recolhendo, afinal, uns humilhantes 1,6% dos votos. Compreensivelmente, o candidato bem-falante não estava à vista e regressaram ao Estádio da Luz, onde o candidato vencedor se preparava para tomar posse para o que, avisadamente, prometeu ser o seu último mandato, no final do qual terá cumprido 22 à frente do S.L.B. — ainda longe dos 42 de Pinto da Costa à frente do F.C.P. E cada um deles recandidatando-se ao arrepio das melhores teorias políticas, não por causa dos seus êxitos, mas justamente por causa dos seus fracassos: o primeiro, para conseguir que o clube deixe de ser uma anedota desportiva, em termos europeus; o segundo para tirar o clube da falência a que a sua gestão o levou. Mas, nessa altura da noite, já tinha visto o suficiente e também não fiquei para ouvir o discurso de vitória do candidato apoiado pelo primeiro-ministro, pelo presidente da Câmara de Lisboa e pelo líder parlamentar do CDS.

3 Depois do atentado terrorista que causou vários mortos na redacção do jornal francês “Charlie Hebdo”, foi moda de bom tom todos se declararem “Je suis Charlie”. Fizeram-se T-shirts, toalhas de praia e cartazes, organizaram-se manifestações, proclamações e abaixo-assinados. Nunca me apeteceu aderir: je ne suis pas Charlie. Não que tenha a menor complacência com o terrorismo, seja qual for a sua motivação, a sua justificação ou a sua desculpa. Uma coisa é a guerrilha, a luta armada, a resistência, certa ou errada, contra um inimigo armado, outra coisa é o terrorismo cobarde contra inocentes desarmados. Mas o que o “Charlie Hebdo” faz hoje não é jornalismo nem é um exercício de liberdade de imprensa: é pura provocação gratuita e ofensa às crenças religiosas alheias: é terrorismo jornalístico. Ainda a semana passada trazia uma caricatura do primeiro-ministro turco, Erdogan, sentado numa retrete a defecar. Ora, Erdogan, é um dos tiranos europeus da actualidade, um homem decerto sinistro, que se toma pelo novo sultão otomano e que tem planos perigosos para toda a região do Oriente próximo. Fruto — mais um — da ausência de uma visão de política externa de Donald Trump, ele vem conquistando espaço e influência na região, passo a passo e com intenções que são uma ameaça à segurança da Europa e dos seus vizinhos, e a que só a França tem tido a coragem de se opor. Certamente que ele merece ser atacado e confrontado, mas não como o “Charlie Hebdo” o fez. E, pior ainda: acrescentando à caricatura uma referência ordinária ao Profeta — o que é uma obsessão do jornal.

Ora, atacar o Islão desta forma é ofender gratuitamente centenas de milhões de fiéis seguidores do islamismo, cuja fé a França laica respeita, por imperativo constitucional. Mas não apenas isso: o Islão representa também uma civilização e uma cultura que fazem parte da nossa história de povos do sul e que foi absolutamente extraordinária. Os meninos do “Charlie Hebdo”, que brincam aos jornalistas, não sabem o que fazem nem do que falam: deviam ir visitar o Alhambra, em Granada, para começarem a perceber a imbecilidade das suas caricaturas.

Isto posto, resta dizer que Emmanuel Macron tem toda a razão quando diz que a França está sob ataque aos seus valores republicanos fundamentais. Se alguns, infelizmente, usam o valor inalienável da liberdade de expressão para ofender a fé e a cultura de outros, a solução não é abolir a liberdade de expressão. E se os outros, sentindo-se ofendidos, não entendem esses valores e julgam que a resposta se dá degolando pessoas ou colocando bombas para matar inocentes, se são eles próprios que transformaram a ideia luminosa do Islão na ideia sinistra do regresso à barbárie e às trevas e se são eles que escolheram fazer do “Alcorão” um manual de assassínios, a França tem o direito e o dever de se defender por todos os meios — todos — desta gente que não merece viver nas nossas sociedades. E todos nós temos o dever de ser solidários com a França.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Memórias

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/10/2020)

Miguel Sousa Tavares

(Ó Miguel, com um violino desses, a tocar tantas músicas, é impossível ter “bom ouvido” para todas. Direi que algumas estão um pouco “desafinadas”. Mas rendo-me ao “fado das catacumbas” com letra do Professor Cavaco… 🙂

Comentário da Estátua, 10/10/2020)


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A grande discussão do momento — em que gastar os 56 mil milhões de euros que vamos receber da Europa nos próximos nove anos — destapou um lado positivo e um lado negativo das coisas. O positivo é que agora parece haver uma consciencialização e uma mobilização de muita gente e de vários sectores para não deixar que os mesmos de sempre, pelos processos de sempre e pelas influências de sempre, se apropriem do grosso do dinheiro em benefício próprio e não do país. O lado negativo é o contraponto desta preocupação: o país não confia na honestidade dos seus — de quem vai distribuir e de quem vai beneficiar do dinheiro. São penosas memórias de circunstâncias semelhantes, que dizem muito sobre nós e as razões do nosso invencível atraso. Se tal fosse possível, só veria uma maneira de calar as desconfianças e garantir que não vamos desperdiçar mais esta oportunidade: pedir à própria UE que mandasse para cá uma equipa com poderes para gerir e vigiar todo o processo. Seria uma afronta à nossa sagrada soberania (que só se manifesta de vez em quando, quando o dinheiro nos é dado, mas não quando precisamos de o esmolar). Mas, entre orgulho e preconceito, eu não hesitava.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Outra discussão conexa com esta é a de saber se o Estado deve gastar o que for preciso para fazer frente à crise, sem se preocupar com o défice e com a dívida pública, que vai acabar o ano no valor assustador de 130% do PIB. A tentação imediata é rendermo-nos, sem estados de alma, às velhas lições keynesianas: numa crise, o Estado gasta e investe; na abundância, poupa e recolhe. Mas, mais uma vez, assalta-me a memória o ano de 2008, quando José Sócrates veio de Berlim e de Bruxelas com luz verde para gastar sem pensar e depois foi o que se sabe: ou o enganaram ou ele se deixou enganar, mas pagámos dolorosamente a experiência. Preocupa-me duas coisas: que o Estado — isto é, conjunturalmente, o Governo da esquerda e extrema-esquerda — se tome pelo salvador da pátria, asfixiando todo o papel da iniciativa privada e alargando ainda mais o modelo pernicioso, e tão caro à esquerda, de uma economia assente essencialmente nos dinheiros públicos e na inevitável dependência e clientelismo que ela fatalmente traz consigo. E, escutando o soberbo desprezo do PCP e do BE por essas questões menores do défice e da dívida, preocupa-me igualmente o regresso a uma mentalidade tão cara neste tempo de egoísmos e que é a raiz profunda dos nossos males: gastar hoje e com os de hoje, deixando a conta para pagar amanhã e pelos de amanhã.

3 A escolha do juiz conselheiro José Tavares para o Tribunal de Contas foi, no mínimo, infeliz no timing e na pessoa, sem prejuízo de todos esperarmos nada menos do que uma boa surpresa. Nada tenho contra o princípio dos mandatos únicos, mas desde que a regra seja anunciada antes e não depois. E nada tenho contra a pessoa, fora algumas amizades cultivadas que remetem para memórias de um passado que não se recomenda. Outro problema é quando o timing da sua escolha coincide com várias outras escolhas com um certo ar de “família”, como as do Conselho Geral Independente da RTP.

Ouvindo António Costa rastejar aos pés do PCP, mendigando o seu apoio no Orçamento, Mário Soares deve estar a torcer-se de furor lá no seu lugar além de todos nós

4 Ouvindo António Costa rastejar aos pés do PCP, mendigando o seu apoio no Orçamento, Mário Soares deve estar a torcer-se de furor lá no seu lugar além de todos nós. Ele sempre soube que o PCP não tem nada para dar ao PS nem ao país, a não ser um discurso repetitivo e museológico, sejam quais forem os tempos e as circunstâncias, e a chantagem de uma paz sindical que um Governo com coragem pode enfrentar e vencer. Já as três condições que, ao que consta, ainda separam o BE do PS para a aprovação do Orçamento são concretas e merecem reflexão. É justa a reivindicação de uma nova prestação de apoio social aos verdadeiramente pobres e é inteiramente justificada a recusa em aceitar mais dinheiro dos contribuintes para a Lone Star enquanto não se apurar, sem margem para dúvidas, em que o vêm gastando e porquê. Já li muitas posições defendendo que não há alternativa, pois o Estado tem de honrar os compromissos assumidos e não pode, além disso, sobressaltar o sistema bancário. Este último argumento deve ser o lado para que dormimos melhor, depois de tantos “sobressaltos”, e todos ruinosos, que o sistema bancário tem servido aos contribuintes portugueses. Sobre o Estado dever portar-se como uma pessoa de bem, concordo — desde que os outros se comportem também consigo como pessoas de bem. O que está por apurar no caso do Novo Banco.

Mas a terceira reivindicação do BE — a revisão da legislação laboral, nomea­damente proibindo despedimentos nas empresas com lucros — resulta apenas de um preconceito ideológico característico da extrema-esquerda, que é o da perseguição ao triunfo da iniciativa privada. Mesmo partindo da premissa de que a proposta deixaria de fora os despedimentos com justa causa, ela teria como consequência imediata o aumento exponencial das empresas que passariam a declarar prejuízos onde antes declaravam lucros, coisa fácil de conseguir com um mínimo de imaginação fiscal. Porém, ainda que ineficaz na prática, a medida serviria para transmitir uma mensagem fatídica aos empresários: os lucros são inadmissíveis e a vossa única função é manter postos de trabalho, mesmo que à custa da reconversão, do investimento e até da própria sobrevivência da empresa. Também já conhecemos a receita e todos recordamos o seu sucesso.

5 E, das catacumbas da memória, emergiu o escritor Aníbal Cavaco Silva com mais um livro a acrescentar à sua obra literária. O tema é o mesmo de sempre: o elogio de si próprio e da obra feita. Ciclicamente, e decerto desesperado por não ver quem o faça, o professor Cavaco Silva oferece-nos um novo capítulo da sua biografia, temendo que a gente o esqueça e à sua obra. Aquele que um dia jurou, em tom de desprezo, não ser um “político profissional”, como os outros, viu agora o apresentador do livro, Marques Mendes, descrevê-lo como “o mais profissional” dos políticos portugueses. E, de facto, nunca terá havido outro que, tanto desdenhando da actividade política, dela se tenha sabido aproveitar tão bem. É por isso que ele volta sempre à carga, escrevendo, ao que imaginará, para memória futura. O problema é que a sua memória não coincide com a de muitos de nós.

Forte da convicção (aliás, acertada) de que somos um país sem memória, Cavaco Silva diverte-se hoje a dizer que “os analistas” não sabiam se deviam classificá-lo como de esquerda ou de direita (mas que analistas eram esses?). E, a posteriori, define-se agora como um “social-democrata moderno”, o único e verdadeiro introdutor da social-democracia em Portugal e um continuador da obra do seu inspirador, Olof Palme. É pena que Olof Palme já não esteja vivo, para nos dar a sua opinião, à luz da obra do seu autoproclamado continuador. Mas eu, que visitei a social-democracia sueca no tempo de Palme, posso dar-lhe a minha opinião: não, senhor professor, talvez o adjectivo “moderna” faça a diferença, porque, em relação à social-democracia “antiga” — a de Palme —, ela não tinha nada que ver com o que o senhor andou por aqui a fazer, durante 10 anos de Governo. Assim como o senhor não tem nada a ver com Olof Palme. E assim como a obra feita, desde os hospitais ao CCB, que arrola e reivindica como mérito próprio e exclusivo, assenta num pequeno pormenor que o senhor se esqueceu de lembrar: que só quis o poder depois de um senhor chamado Ernâni Lopes ter posto as contas públicas em dia, ultrapassado a segunda intervenção do FMI, e depois de Bruxelas ter aberto a torneira a um dilúvio de dinheiro como o país nunca havia visto em toda a sua existência. E se já num anterior livro seu, “As Reformas da Década”, podemos encontrar enumeradas todas as reformas que diz ter feito e que, curiosamente, ainda hoje permanecem por fazer, a única pergunta com que, queira ou não, a História o confrontará é esta: que fez o senhor que, efectivamente, tenha mudado o país, durante esses 10 anos em que teve ao seu dispor oportunidades e circunstâncias de que mais ninguém dispôs?

6 No tribunal de Beja julga-se uma rede acusada de promover o trabalho escravo de trabalhadores moldavos para a agricultura intensiva do Alqueva. O cenário descrito pela acusação é aquele que todos sabem existir e fingem não saber: trabalho de 12 horas por dia, seis dias por semana e pago a 3,5 euros à hora; trabalhadores a viver em contentores sem o mínimo de condições humanas, passando fome, frio e calor insuportável; passaportes retidos, entidade patronal inidentificável, zero de protecção legal. Por onde andam os sindicatos em situações destas? Que pensa deste “sucesso” da nossa agricultura a ministra da respectiva pasta? E a do Trabalho? E o do Ambiente, que diz, por exemplo, que a nova moda do abacate no Algarve, em regime de agricultura intensiva e intensivamente sorvedoura de água, é um problema que se resolve quando acabar a água no Algarve? Portugal, garantem-nos, é um modelo no acolhimento de imigrantes e refugiados. E o Inferno está cheio de crentes distraídos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia