Do caos ao delírio: o Cairo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

Eu tinha estado no Cairo há uns vinte e tal anos e guardara uma recordação de uma cidade imensa, fervilhante, caótica, imunda e, porém, fascinante. Sempre me atraíram os lugares onde os povos, a história, a geografia e as civilizações se cruzaram para formarem esses cross­roads onde diversos mundos tiveram de abrir passagem uns aos outros porque estavam ali, no lugar por onde uns e outros tinham de ir e vir: o Egipto, a Turquia, Marrocos. Há vinte e tal anos a paragem no Cairo antes de descer ao Alto Egipto tinha como consolação para o tamanho desgaste que isso implicava a inevitável visita às pirâmides, ao Museu do Cairo e às mesquitas mais importantes, sempre na expectativa do outro Egipto desafogado do deserto, do Nilo e dos oásis, com templos ao longo do deserto. Lembro-me de que era Maio e estavam 42 graus à sombra e que eu tirei o lenço que levava ao pescoço para limpar uma gota de suor que escorria do rosto de âmbar de Nefertiti. E que mais tarde ela retribuiria o meu gesto no Museu do Cairo com uma noite de luar entre as colunas da ilha de Philae, um longo olhar ao Nilo, ao pôr-do-sol, no cais de Luxor ou uma inesquecível limonada no terraço do Hotel Old Cataract, em Assuão. Mas tudo isso aconteceu antes. Agora, de regresso ao Cairo, dou-me conta de que não houve salvação possível. Esta é uma cidade impossível.

 <span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Hoje o Cairo são 20 milhões de habitantes: 10 milhões no centro e o resto nas periferias, das quais a mais importante é El Giza (Gizé), separada das pirâmides por uma extensa cerca de barras de ferro, para não as abocanhar. Tirando o centro em volta da Praça Tahrir, onde ficam os grandes hotéis e o velho Museu do Cairo (o novo tem visto a sua inauguração sucessivamente adia­da), quase todo o resto da cidade é um aglomerado caótico de casas e prédios clandestinos que cresceram à revelia de qualquer planeamento ou projecto arquitectónico: onde se autorizaram cinco andares, construíram-se sete; onde se autorizaram sete, construíram-se nove, e, como resultado, quase todos estão a desfazer-se aos bocados, mostrando interiores esventrados e paredes em vias de desabamento. E como o IMI só é devido após o licenciamento e a conclusão da obra, nenhum prédio está acabado, todos permanecem em tijolo sem reboco nem pintura ou telhado. Ao nível do piso térreo, como em todo o mundo árabe, a rua é integralmente preenchida pelo comércio de tudo e mais alguma coisa, com destaque para as inúmeras oficinas de pneus e jantes de automóveis. O que logo se percebe quando se mergulha no célebre trânsito do Cairo, que eu, pessoalmente, só consigo comparar ao de Bombaim ou Deli.

Tudo o que se diga sobre o trânsito do Cairo fica muito aquém da imaginação e da capacidade de descrição. Mas talvez se possa começar por enunciar as regras do jogo: mesmo nas avenidas mais largas, não há faixas de rodagem traçadas no piso, pelo que cada um inventa as suas; não há rotundas; não há semáforos; não há sinaleiros; não há lugares marcados para estacionamento; não há controles de velocidade, e, coisa extraordinária, não há passagens de peões, os quais atravessam as ruas e avenidas entre os carros e as motas, arriscando a vida a cada metro. Finalmente, todos — automobilistas, motociclistas e peões — estão ocupados ao telemóvel cada minuto do santo dia (cheguei a ver motociclistas com as duas mãos no volante e a cabeça inclinada para encaixar o telemóvel entre o ombro e a orelha, e todos, claro, sem capacete). Como resultado disto, uma densa nuvem castanho-avermelhada de mortal poluição paira permanentemente sobre a cidade e os seus infelizes milhões de sobreviventes. Talvez haja cidades que não têm solução, sobretudo quando à sobrepopulação se acrescenta a miséria e absoluta degradação das condições de vida e de habitação. E talvez o Cairo seja uma delas. E talvez também seja isso que levou o Presidente-general Abdel Fattah el-Sisi a congeminar uma solução radical. Grandiosa e, segundo os críticos, delirante e ruinosa: uma nova capital.

Sisi chegou ao poder por golpe militar em 2014, depondo o radicalismo islâmico do Presidente eleito Mohamed Morsi e, de caminho, sufocando também as aspirações democráticas da população, que, três anos antes e durante 18 heróicos dias, tinha levado a Primavera Árabe à Praça Tahrir e às ruas do Cairo. Em troca de uma repressão sem contemplações, ele prometeu progresso, desenvolvimento, modernidade. Começou por alargar o Canal do Suez, a segunda maior fonte de receitas do Egipto a seguir ao turismo. Nisso gastou oito biliões de dólares, mas as receitas esperadas foram metade do previsto. Então, congeminou outro plano, digno de um faraó dos tempos modernos: uma “New Cairo”, ou “Nova Capital Administrativa”, ou “5th Setlement”, até se fixar no nome definitivo e oficial: “Wedian”, o plural da palavra árabe wadi, que quer dizer um vale no deserto que retém água das raras chuvas.

Mas o primeiro problema da Wedian de Sisi é exactamente a água. Fica a 45 km a leste do Cairo e mais longe ainda do delta do Nilo, a única fonte de água mais próxima e já bastante explorada. Não obstante, a New Cairo terá um rio artificial, lagos e mais lagos, milhares de árvores, que estão a ser plantadas em pleno deserto, e um parque que terá o dobro do tamanho do Central Park, em Nova Iorque. Porque tudo está pensado para esmagar estatísticas: a superfície total de Wedian é de 714 km2, igual a Singapura e quatro vezes Washington, D.C.; terá 700 hospitais e clínicas e duas mil escolas, num país tão carenciado de uma e outra coisa; 1200 mesquitas e igrejas e um complexo militar, o Octógono, com quatro vezes o tamanho do Pentágono; o ­maior arranha-céus de África, e, cereja no topo do bolo, 40 mil camas de hotel, obviamente destinadas às moscas, pois não se alcança que turista queira visitar o Cairo para se instalar a 45 minutos do Nilo e da cidade antiga, num arranha-céus com vista para torres e deserto. Todo este imenso delírio, cujas obras se iniciaram em 2015 e estão agora oficialmente em fase de conclusão, está enxameado de urbanizações e bairros com nomes tão apelativos como Utopia, Belle Vie ou Palmar Hills, e por todos os lados pululam centros comerciais, malls e stands de todas as marcas de automóveis, pois aqui não há outro meio de transporte acessível e de futuro que não esse. Para lá, Sisi vai mudar também todo o poder executivo, legislativo e administrativo — segundo os críticos, para não ter de enfrentar novos embaraços como manifestações na Praça Tahrir. E, obviamente, também lá terá o seu imenso palácio, digno de um faraó, e cujas críticas rebateu com toda a naturalidade: “Qual é o mal de ter palácios? Eles são de todos os egípcios!”

O mal, está bem de ver, são os custos do delírio do general-Presidente. Na última década, o Egipto multiplicou por quatro a sua dívida externa e recebeu 20 biliões de dólares de ajudas do FMI, estando já a pedir novo auxílio. Mas o sonho de Sisi vai custar, em números oficiais, mais 60 biliões — a serem custeados pelos amigos do Golfo, pelos chineses e pela emissão de mais dívida em condições que vão onerar o futuro do país por décadas. Entretanto, com a construção da nova capital, não só o Governo abandona o Cairo à sua sorte — procedendo, por via administrativo-urbanística, à maior separação de classes da idade moderna — como não se percebe como irá conseguir povoar com sete milhões de pessoas a nova capital. De facto, num país onde o rendimento médio per capita é de 220 dólares por mês e a taxa de juro 12% ao ano, quem conseguirá ir viver numa cidade onde o apartamento mais barato custa 80 mil dólares e a renda de um T2 vai de 400 a dois mil dólares por mês?

O território do Egipto é formado por 95% de deserto e a sua única fonte de vida é o Nilo, que percorre 3500 km dentro do Egipto até à foz. Ao longo das suas margens e à vista dele, no Alto Egipto, os antigos faraós construíam, há milhares de anos e com trabalho escravo, templos que, desenterrados da areia, irão permanecer para a eternidade: deles ficou o nome dos que os mandaram fazer, não a história dos que viveram e morreram na miséria para que eles fossem feitos. E em 969 d.C. os otomanos fundaram, mais acima, a cidade que seria a sua capital: o Cairo.

Hoje, um general que também aspira à eternidade constrói uma nova capital na areia, um templo ao luxo, contrastando com a miséria do povo. E nos cartazes de rua sorri, esperando que o povo lhe agradeça. Enquanto, por estes dias, recebe nas praias de Sharm el-Sheikh os dirigentes do mundo inteiro na COP27, para, todos juntos, fingirem, mais uma vez, que se preocupam com o futuro dos povos que governam e a salvação do planeta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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O futebol é lindo, este Mundial é uma vergonha

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

No próximo dia 20 começa no Catar o 22º Campeonato do Mundo de Futebol, envolvendo 32 selecções, entre as quais a nossa. Antes que as nossas varandas se cubram de bandeirinhas nacio­nais e as crianças se vistam de camisolas do Ronaldo, antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial. Não sei se a nossa Federação de Futebol fez parte das que votaram contra o Mundial no Catar, das que votaram em consciência a favor ou daquelas cujos dirigentes se deixaram comprar para votar a favor. Espero bem que não tenha sido a última hipótese, mas todas são possíveis, pois só através da corrupção do colégio eleitoral — em grande parte provada — foi possível atribuir o Mundial a um país que, por razões climáticas, é forçado a organizá-lo pela primeira vez no Outono do Hemisfério Norte, forçando a alteração dos calendários estabelecidos na Europa para as provas nacionais e internacionais. Um país cujos nacionais se estão nas tintas para o futebol e cuja selecção (classificada no ranking da FIFA em 102º lugar e com o recurso a 17 estrangeiros em 23 jogadores) jamais conseguiria, não sendo anfitriã, apurar-se para um Mundial.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em 24 de Outubro, o dirigente vitalício do Catar, o emir Tamin bin Hamad Al Thani, explodiu de indignação com as “críticas feitas de invenções e duplos padrões” dirigidas ao seu país e “sem precedentes em relação a qualquer outro país organizador”. E com razão. Além da questão da corrupção na escolha do Catar, da questão do clima e das nulas credenciais do país em matéria futebolística, e apesar de toda a cobertura dada pela FIFA, o Catar tem sido alvo de um rol de críticas relativas à forma como conseguiu pôr de pé este Mundial e, designadamente, construir de raiz 10 estádios, que, a seguir ao evento, não servirão para nada, num país em que não há memória de um jogo de futebol alguma vez ter tido mais do que mil espectadores num estádio. Mas, em contrapartida, o Catar tem muito, muito dinheiro: tem, por exemplo, a maior reserva mundial de gás natural, agora tão precioso. E consta que o emir, ao contrário dos seus súbditos, gosta muito de futebol, tanto que, através da Qatar Sports Investments, além de patrocinar a Roma e o Bayern de Munique, é dono do PSG — onde, troçando das regras do fair-play da FIFA e UEFA, que só se aplicam a pobres, juntou um trio atacante composto por Mbappé, Neymar e Messi, que custam em salários, sem contar com direitos de imagem, mais de €250 milhões por ano. Mas para organizar este Mundial, que o extasiado presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirma que será o melhor de sempre, o emir não olhou a despesas: foram €330 mil milhões de custos, o equivalente a toda a riqueza produzida em Portugal durante um ano inteiro. Só que Portugal tem 10 milhões e meio de habitantes e o Catar tem três milhões, dos quais só 320 mil são catarianos, gozando de todos os direitos de cidadania, como o de não pagar impostos. Todos os restantes são emigrantes asiáticos, dos quais 72% homens trabalhando na construção civil e 28% mulheres trabalhando como empregadas domésticas. Claro que foram estes homens que o regime empregou para construir os estádios e tudo o mais, trabalhando oito a 12 horas por dia, seis dias por semana, debaixo de temperaturas extremas e em condições iguais aos que nós contratamos para as estufas de Odemira ou os olivais e amendoais do Alqueva: entregues à protecção de um kafala, com o passaporte retido, amontoados como gado, sem quaisquer direitos sindicais ou sociais. 6500 deles morreram a construir os 10 estádios onde as vedetas e os seleccionadores pagos a peso de ouro e especializados na fuga aos impostos se vão exibir para o mundo inteiro, não se esquecendo de cantar os respectivos hinos a plenos pulmões para que o povo em casa ou nas bancadas pense que eles se batem pela pátria.

Antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial

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Pois, o emir está zangado com tudo isto. O emir não percebe como é que as melhores empresas de consultadoria de imagem inglesas e europeias ou vedetas como Xavi Hernández ou o pateta do David Beckham, que só sabia marcar cantos e variar de penteados, não conseguiram mostrar ao mundo como o Catar — que até sedia uma televisão, a Al Jazeera, tantas vezes melhor do que as grandes marcas internacionais — não era aquilo que um relatório da ONU de há um par de anos classificava como “uma sociedade de castas de organização medieval”. É verdade que o próprio Governo do emir não ajudou muito quando começou a divulgar conselhos ao milhão de visitantes previstos para o Mundial de que deveriam “respeitar os costumes do país” e aos milhares de jornalistas que irão cobrir o evento avisos de que não poderão entrevistar pessoas na rua ou em suas casas, em especial os trabalhadores estrangeiros, ou entrar em edifícios públicos. Acontece que entre os costumes do país está a proibição da homossexualidade, que lá é crime, e o Governo fez saber que tolerará a sua entrada (como não?) mas não tolerará as suas manifestações. Quanto às mulheres, estão autorizadas a conduzir automóveis mas não se aconselha que saiam à rua sozinhas: Alá não gosta e, além disso, o Catar é suspeito de tolerar, sim, simpatizantes da Irmandade Islâmica e do Daesh.

Eis, a traços largos, o retrato do país que albergará o próximo Mundial de Futebol. Mas o futebol não tem culpa nenhuma disto. Algures, em estádios do antigamente, como o La Bombonera, em Buenos Aires, onde Diego Armando Maradona começou a elevar-se aos céus ao serviço do Boca Juniors, ainda hoje a multidão enche o estádio sem precisar de ir ao engano, porque aí ainda o futebol é genuíno. Feito de arte, geometria, dor e alegria. A toda a volta, onde estão os ídolos que as televisões e os jornais promovem e as massas idolatram, há toda uma teia de sanguessugas — na FIFA, na UEFA, nas federações nacionais, nos grandes clubes — que explora a “festa do povo” em seu benefício próprio e que de há muito perverteu tudo. O jogo agora chama-se dinheiro. E a cobiça é tanta que, depois de a UEFA ter inventado um outro Campeonato da Europa de Selecções a que chama Taça das Nações e que alterna com aquele a cada dois anos, é a vez de a FIFA querer também um Mundial de dois em dois anos e de os grandes clubes da Europa congeminarem outra Champion’s League só para eles e com lugar cativo para eles todos os anos. Tudo isto, claro, é feito à custa de uma overdose de jogos absurda e de uma exploração extrema do esforço dos jogadores. Mas os grandes jogadores aceitam porque também a eles só uma coisa verdadeiramente lhes interessa: o dinheiro. Já alguém viu um jogador de futebol, nas imensas viagens que faz ou nos intermináveis estágios em que tem de permanecer, ocupado a ler um livro ou um jornal que não seja desportivo? Já alguém o viu de visita a um museu, um monumento, umas ruínas históricas? Não, ocupam todos os tempos livres a jogar futebol na PlayStation, a postar imagens das férias no Instagram ou a debitar banalidades para os seguidores no Facebook.

E tudo isto, claro, alimenta-se do terceiro factor: o público. No dia em que não houver público nos estádios o futebol definhará até morrer, como se viu durante a covid. E é uma pena se o que nos leva ao estádio, seja tanto a beleza do jogo como a descarga de adrenalina e tudo o mais que precisamos de descarregar e que um jogo de futebol permite como poucas coisas mais, não seja também uma oportunidade para descarregar contra todo o universo sujo escondido por detrás do jogo.

Se os espectadores soubessem (se os jornalistas desportivos lhes contassem…) o luxo em que vivem e viajam os dirigentes dos clubes, das organizações de futebol, das federações, os agentes que chulam os clubes, os da UEFA e da FIFA, a riqueza que acumulam enquanto eles, espectadores, só gastam o seu dinheiro a manter o negócio milionário dos outros, talvez as coisas fossem diferentes.

Se a multidão que enche os estádios com o seu amor à camisola (o único que é genuí­no) tivesse o mesmo espírito crítico para com jogadores e dirigentes — em matéria de corrupção, de fiscalidade, de negociatas — que tem para com os políticos, talvez o futebol fosse menos indecente. Ou, ao menos, mais envergonhado. Não estou a ver as opiniões públicas a engolir um prémio das Nações Unidas para os direitos humanos atribuído ao Catar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Entre todas as tempestades

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/10/2022)

Miguel Sousa Tavares

O acordo tripartido entre Portugal, Espanha e França sobre o gasoduto ibérico com destino à Europa é demasiado importante para descambar numa querela azeda entre o Governo e o maior partido da oposição, tornando a sua compreensão inalcançável pela comum das pessoas. Sabemos que, por enquanto, tudo não passa de um acordo de princípio, o que, todavia, não exime o Governo do dever de o explicar ao menos nas suas linhas gerais e nas suas consequências. Por outro lado, as reacções histéricas, do tipo de quase traição à pátria, tão rápidas quanto previsíveis, da parte de Paulo Rangel também nada ajudam a entender o que está em causa. Porém, as objecções ou reticências levantadas por outras figuras mais sensatas e conhecedoras do assunto reforçam a ideia de que há muito por esclarecer.

Parece que não se confirma, desde logo, a principal crítica do PSD, a de que o acordo anula a possibilidade de estabelecer três ligações para o transporte de electricidade da Península Ibérica para França, assim desfazendo o que já havia sido estabelecido em 2015 entre portugueses e espanhóis (mas não com os franceses). Mas isso não elimina todas as dúvidas, principalmente a de saber o que se irá passar no futuro gasoduto, o chamado “corredor de energia verde”. No longo prazo, servirá para transportar hidrogénio verde, se ele for, de facto, uma das energias limpas do futuro, e, no curto prazo, transportará gás natural liquefeito — para o qual Espanha dispõe de seis portos de entrada e nós apenas de Sines. A pergunta, então, é: ficará apenas ao critério de Madrid decidir que gás vai escoar, o deles ou o nosso, apenas quando não tiver mais do deles? Passar-se-á com a exportação do “nosso” GNL o inverso do que se passa com a importação da “nossa” água? Eu até gosto de Espanha e dos espanhóis e, ao contrário da opi­nião corrente, acredito que também os espanhóis gostam de Portugal e dos portugueses. Mas não ignoro quer a antiga vocação imperial de Madrid quer a nossa infeliz tentação de subserviência.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 De uma penada, o Governo negoceia um acordo de rendimentos com os parceiros sociais (patrões e UGT) a quatro anos, um acordo com os sindicatos da Função Pública filiados na UGT e um acordo com o Sindicato dos Enfermeiros. De fora deixa — ou melhor, auto-exclui-se, como sempre — a CGTP, isola os antigos parceiros da extrema-esquerda e silencia o PSD. Agora segue-se o habitual, com os trabalhadores do Estado ligados aos sindicatos da Frente Comum, da CGTP, a “saírem para a rua” em greves e manifestações. Não digo que não tenham razão, em parte ou grande parte, ou no essencial: a inflação vai crescer mais do que os salários. Mas é a forma de luta, sempre tão igual e previsível a sua deliberada postura ideológica ao serviço do PCP e não dos trabalhadores que deviam representar, que a exclui do diálogo social e a desacredita como parceiro relevante. Quando vejo o cartaz do PCP — “Parar a inflação/Aumentar salários e pensões” —, pergunto-me se ainda haverá alguém que os leve a sério. As urnas dizem que há cada vez menos.

3 Um dia talvez nos queiram explicar porque quiseram tanto livrar-se de Antonoaldo Neves (agora escolhido para CEO da Etihad) como presidente da TAP ou porque decidiram pagar €57 milhões a David Neeleman e ficar com a dose de problemas dele na TAP. Por que razão era tão imperioso retomar a maioria do capital da TAP, com o ónus de ser o Estado o único accionista a injectar lá dinheiro. Agora que a crença é outra e o que querem é despachar a companhia, parecem ter desaparecido, afinal, as razões de interesse nacional que tornaram imperiosa a sua renacionalização. Mas se, por sorte, conseguirem desfazer-se deste berbicacho, há duas coisas que eu aposto às escuras: que ao contrário do que nos prometeram jamais veremos um euro dos €3,2 mil milhões lá metidos da última vez, e que, apesar de vendida, o contrato em que o Estado será assessorado por um brilhante escritório de advogados da nossa praça garantirá ao comprador que não só ele não terá de pagar nada de especial pela TAP como ainda ficará salvaguardado quanto a dívidas emergentes, lucros cessantes, danos contingentes e mais um sem-número de situações tipo Novo Banco, com as quais passaremos anos a pagar a “venda” da TAP.

4 Quem duvida do que acima escrevi atente no exemplo da ANA, essa outrora rentável empresa pública, vendida aos franceses da Vinci no Governo do agora resgatado Passos Coelho. Além de ter transformado o aeroporto de Lisboa num caó­tico centro comercial e de subir incontroladamente e a seu bel-prazer as taxas aeroportuárias em todos os aeroportos do continente e ilhas, não se conhece nenhuma vantagem para os utentes da gestão privada da ANA. Mas sabe-se que o contrato de venda contém uma cláusula que impede o Estado de construir um novo aeroporto de Lisboa a menos de 75 km da Portela sem indemnizar a Vinci — o que, para todos os efeitos, representa uma alie­nação de soberania nacional. Agora sabe-se também que a ANA/Vinci quer subir as taxas aeroportuários acima da inflação em todos os aeroportos que explora: em Lisboa, 5,7% acima da taxa de inflação prevista. E li que vai para tribunal arbitral (onde o Estado costuma perder sempre) reclamar uma indemnização pelos lucros que não teve durante a covid, quando os aeroportos do mundo inteiro ficaram desertos. Os contribuintes, via Estado, serão, assim, responsáveis pelo raio do vírus. Mas só perante a ANA, não perante os outros milhares de empresas que faliram ou perderam dinheiro pela mesma razão.

5 Com excepção do analista/especialista Nuno Rogeiro, que insinuou que a sabotagem da ponte da Crimeia foi mais um dano auto-infligido pelos russos, todos os comentadores ocidentais saudaram a brilhante operação dos serviços secretos ucranianos que afectou profundamente a manobra militar dos russos e os humilhou aos olhos do mundo inteiro. Putin, que também não comprou a tese da sabotagem própria, demitiu o general responsável pela segurança da ponte e contra-atacou em força, como seria de esperar, concentrando todos os esforços no bombardeamento de estruturas civis estratégicas, em particular no campo energético. Mas se a destruição da ponte pelos ucranianos não levantou quaisquer objecções no lado de cá — e com razão, pois uma ponte, sendo um alvo civil, transforma-se também num alvo militar em tempo de guerra, pois serve para deslocar tropas e armamento —, já o bombardeamento de centrais eléctricas pela Rússia na Ucrânia, classificadas unicamente como “alvos civis” pela imprensa e políticos ocidentais, foi condenado como “crimes de guerra”, e a Rússia viu o Conselho da Europa, por 27 votos a favor e uma única abstenção, declará-la “Estado terrorista”.

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Os recentes bombardeamentos russos sobre uma já massacrada Ucrânia fizeram subir a estimativa do custo das reparações no país para €750 mil milhões e, segundo o FMI, €3 mil milhões por mês enquanto a guerra durar e apenas para garantir a sobrevivência do país. Fora os milhares de milhões em material e equipamento militar que Zelensky pede e obtém todos os dias. A Comissão Europeia já se comprometeu com um cheque de €2 mil milhões por mês até um primeiro plafond de €18 mil milhões… enquanto a guerra durar. E aqui é que está a grande incógnita, pois Zelensky diz e repete que quer guerra até ao fim, até mesmo a recuperação da Crimeia, e não faltam vozes a apoiá-lo e a defender que o fim da guerra só poderá ser a derrota total de Moscovo, enquanto as poucas vozes que se atrevem a sugerir a abertura de negociações, incluindo entre congressistas do Partido Democrata americano, são silenciadas, abafadas, afastadas, cilindradas.

Mas um dia, como quer que seja e sobre as ruínas do que quer que seja, a guerra chegará ao fim. Então, tal como sobre as ruínas de Belgrado, bombardeada dos céus durante 78 dias pela NATO, colocar-se-ão duas questões de alta política: quais serão os países e as empresas chamadas para a reconstrução da Ucrânia e quais serão os países chamados a pagá-la.

6 Entrou como uma Bobolina, saiu como uma actriz de teatro de revista: Liz Truss. Três patéticos primeiros-ministros depois do ‘Brexit’, é, sem dúvida, irónico que os ingleses, que escolheram abandonar a “decadente” Europa em nome da sua superioridade anglo-saxónica e da sua nostalgia imperial, tenham acabado, para salvar os dedos e já não os anéis, por confiar a sua sorte a um descendente dos súbditos do Raj. Churchill, que todos gostariam de conseguir imitar, deve estar aos saltos no túmulo. Ele que declarou, para ser escutado pela eternidade, que a Inglaterra sem a Índia nunca seria nada.

7 E domingo sustenham a respiração: se Bolsonaro ganhar no Brasil, em breve vamos precisar do pouco ar que ele deixará na Amazónia.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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