Porra de Sísifo

(Francisco Louçã, in Público, 20/06/2017)

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Francisco Louçã

O maior de todos os incêndios na nossa história. Metade da área ardida da UE nos últimos anos. A maior proporção do território dedicada ao eucalipto no mundo. Afinal não há só Eurovisão e futebol em Portugal, afinal não crescemos vinte centímetros.

Mas responder à irresponsabilidade é mais difícil do que chorar a desilusão, como se viu: no tempo de um fósforo, alguma televisão passou a exibir histórias de morte e de pessoas em estado de choque, fazendo delas um espectáculo de voyeurismo, é como se este Portugal quisesse voltar a ser pequenino. Depois, no mesmo fósforo, veio o ajuste de contas político, a falange da direita atira-se ao Presidente, o despeito move montanhas: do CDS, que quer fazer esquecer que Cristas foi ministra da pasta, o tiro vai para os “beijinhos”, enquanto os comentadores da cor desprezam os “abracinhos” e tudo o que for. São fiéis à sua natureza.

Se é verdade que sabemos muito pouco sobre se a resposta à emergência foi adequada nas circunstâncias difíceis, sabemos pela certa que o que desencadeou esta tragédia foi um acontecimento excepcional. O problema é que sabemos também que haverá cada vez mais fenómenos extremos, considerando a montanha russa das alterações climáticas. E sabemos, há décadas que se sabe, que o efeito de tenaz de duas mudanças económicas é devastador: de um lado, a desertificação do interior e o abandono do mundo rural implica que a mata não é limpa, usada e protegida, de outro lado a eucaliptização transforma o interior num barril de pólvora. Para mais, o Estado tem 3% da floresta, na União Europeia tem em média 59% e olhe que são liberais. Não é portanto a meteorologia que nos diferencia de Espanha, Itália ou Grécia: é o factor humano, a floresta não dá votos mas dá lucro.

E aí temos a incúria organizada nesta que será das mais graves faltas de autoridade do Estado. Sempre por austeridade, um governo PS extinguiu o corpo dos guardas florestais; depois, o PSD-CDS, pela mão de Cristas, terminou com os serviços florestais e desmantelou as normas que obrigavam à autorização de novos eucaliptos, até baldios e zonas de regadio foram entusiasticamente prometidas às empresas da celulose, promovendo-se a economia do desastre – mas a ministra anunciava rezar piamente para que chovesse quando a floresta ardia.

Chegado a este ponto, lembro que o desastre do Funchal (foi no ano passado) e uma nova vaga de incêndios (é todos os anos) levou a uma discussão que se parece a papel químico com a que se vai agora iniciando: que não podemos esperar pelo inverno, quando então tudo estará esquecido e já teremos as iluminações de Natal, que é preciso fazer alguma coisa, que há tempo que não se faz nada. Maldito Sísifo.

No fim do verão passado, discutiu-se uma lei que permitisse ao Estado ocupar as terras não tratadas e obrigando-o a ocupar-se delas, dando aos proprietários 15 anos para as reclamarem. Discutiram-se formas de acelerar o cadastro das propriedade rurais, usando mapas militares, georeferenciação e o conhecimento local e agilizando a informação sobre heranças e proprietários. Um ano depois, tudo por decidir. Houve quem se opusesse, as Câmaras Municipais disseram que não têm meios e que há eleições no outono, na esquerda houve quem esgrimisse com a Constituição, tudo em marcha atrás. O governo reuniu em outubro e esperou até em março deste ano para apresentar uma proposta de lei que recua em relação ao que sugerira: em vez de obrigação pública, propõe a criação de empresas financeiras para gerir a floresta abandonada, o que significa a concentração da propriedade. Para mais, oferece novos financiamentos para a investigação nas empresas de celulose, para as compensar de qualquer inconveniente, sem criar qualquer mecanismo concreto para controlar a proibição da extensão do eucalipto. Em vez de gestão pública ou associativa da floresta, convida a raposa para o galinheiro; em vez de arrendamento compulsivo das parcelas abandonadas, aceita a regra da operação financeira.

Maldito Sísifo, nem sequer conseguimos por uma vez voltar ao cimo da montanha para parecer que se fez alguma coisa.

Os últimos dias da humanidade?

(Francisco Louçã, in Públco, 16/06/2017)

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Francisco Louçã

Custa-me dizer-lhe isto tão à bruta: a Agência do Medicamento é questão de somenos e provavelmente rumará a outras paragens. Mas o que resta desta questão é o retrato de uma caça egoísta aos “despojos” britânicos, como gentilmente escreve um entusiasta europeu, com os governos a promoverem descontos fiscais e mordomias para seduzirem os chefes nómadas, o que diz muito sobre a malandrice numa União que vive disto. Em Portugal, também tudo trivial: é assunto para as eleições autárquicas. Ora, esta banalidade é inócua, será o menos que nos ameaça. É assim e vai continuar a ser assim, a genética europeia manda.

A questão que então me importa é outra: por que é que nos embriagamos com estes casos (ou com os mails e as zangas do futebol, sem dúvida ainda mais apaixonantes)? A resposta talvez seja que é assim que se forma o senso comum, o mais poderoso instrumento de poder dos nossos dias, ou que esta é a dominação mais forte, por se reproduzir consensualmente. É eficaz: não gera conflito, o cidadão é um espectador. É universal: não requer presença, aceita a representação etérea da decisão. O senso comum é portanto uma exterioridade que nos invade sem se ver.

“George Steiner em The New Yorker” (Relógio d’Água, 2017) é um livro fascinante que selecciona alguns dos artigos de Steiner, judeu franco-americano, crítico literário e ensaísta. No seu labirinto de temas, há um que porventura interessará aos meus leitores de hoje e que responde precisamente a este sentimento de banalização como gramática do quotidiano. Lembra ele o trabalho de Karl Kraus, austríaco, dramaturgo, que interpretava Shakespeare a solo, promoveu centenas de récitas que fascinavam os ouvintes e que, com a sua peça “Os Últimos Dias da Humanidade” (esteve recentemente em representação em Lisboa e Porto, pelo Teatro de S. João), descreveu, numa possessão de lucidez, termo de Steiner, a vulgaridade, a ostentação, os discursos do Estado Maior, do governo ou da imprensa para justificarem a Primeira Guerra, ou o mapa das palavras em que se tecia a ordem burguesa que anunciou a catástrofe – e ela veio mesmo.

Só que Kraus se enganou, não foram os últimos dias, nem seriam depois com Hitler (numa trágica ambiguidade, Kraus respondeu a Hitler com o silêncio, e morreu em 1936 sem ver o que estava a chegar). Houve o apocalipse e a meia-noite no século, houve o Gulag e a guerra do Vietname, houve napalm em Angola e tortura na Argélia, houve as Torres Gémeas e bombas de fósforo em Falluja, há a vala comum do Mediterrâneo, mas ainda cá andamos. Ou seja, o terror banalizou-se também, são dias como outros quaisquer.

Lembra então Steiner: “1984” esteve para se chamar “O Último Homem da Europa”, mas Orwell preferiu por no título uma data sem significado. O livro tornou-se assim um sucesso, narrando precisamente a banalização do poder sob a novilíngua, a sua voz do senso comum. Mas é assim, insiste Steiner, que a Europa se descobriu sempre: antes de “1984”, “As Viagens de Gulliver”, de Swift, que desembarca num Estado de bufos, ou Kafka, com a alucinação dos campos em que a sua Milena e as suas irmãs morreriam, ou Huxley com o “Admirável Mundo Novo”, ou Zamiatine com “Nós”, ou London com “O Tacão de Ferro”, todos descrevem esse mosaico de vozes de poder que domestica a cultura de massas. Ou seja, gritam contra uma época crepuscular que é engendrada pela banalização.

A literatura europeia sobre a Europa do século XX tem esta marca: o seu tom é a tragédia, descobrimos com ela que o pior não é vivermos os últimos dias, que não o são, mas antes sabermos que a humanidade está submetida a uma transcendência – a banalidade. Talvez por isso, a crítica ficou sempre à margem, o que tem consequência política, pois ela trata de um mundo que não se reconhece.

Magnífico Pirro

(Francisco Louçã, in Público, 09/06/2017)

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Francisco Louçã

Tudo falhou na estratégia dos Tories e os resultados não deixam margem para dúvida. A aventura começou – e foi ontem – com uma vantagem de 20% nas sondagens e a certeza da maior vitória em cem anos, com Corbyn etiquetado como um “activo tóxico” que levaria os trabalhistas às catacumbas. À medida que a campanha decorria, apesar do reforço de gravitas que os atentados sempre permitem, Theresa May foi caindo e recorreu ao desespero, com a promessa de dinamitar os direitos humanos, facto significativo para demonstrar como a direita pensa ganhar uma eleição. Perdeu a maioria e agora só sobrevive com uma difícil aliança com os lealistas irlandeses (na Irlanda o partido que mais cresce é o Sinn Fein, que disputa a supremacia e que beneficiará desta aliança).

Mas engana-se quem pensa que ficará tudo na mesma, passado o nevoeiro eleitoral. Há pelo menos três grandes mudanças de que estas eleições são sintoma.

A primeira, e é irreversível, é que a Europa se tornou um remoinho destruidor dos partidos em que assentou o poder político tradicional. Isso não volta atrás. Veja bem, há uma regra que se aplica nos grandes países: os perdedores da globalização e da União desconfiam dos seus governantes e preferem trocá-los por quem estiver em condições de os substituir. É isso que leva alguns dos líderes europeus à vertigem da aventura, como os referendos no Reino Unido e em Itália. É isso que explica a derrota da UE na primeira volta das presidenciais francesas e o recurso a uma cesarismo de ocasião para reverter o resultado, o que conseguiu na segunda volta. Assim, o consenso neoliberal desabou, e era o suporte dos partidos governantes, em Itália desde que o Partido Comunista se transformou em Renzi, em França desde que o PS ficou Hollande, na Grã-Bretanha desde que Blair herdou o thatcherismo e Cameron lhe sucedeu. Hoje só sobrevive Merkel e a razão é evidente: a Alemanha é a única beneficiária da globalização e da UE. Portanto, cada eleição continuará a crise, excepto na Alemanha.

A minha segunda conclusão é que não vale a pena perguntar se a social-democracia pode renascer com Corbyn. Ela já morreu e é vítima do fim da hegemonia neoliberal. A Segunda Internacional é uma fantasmagoria, inclui o MPLA e os partidos ditatoriais que foram derrubados no norte de África e é presidida por Papandreou, lembra-se dele? Resta o Partido Socialista Europeu, que é de pouca valia. Isto não tem destino: define-se como centro, ou nos dias de festa como centro-esquerda, e faz por cumprir, veja as listas das portas giratórias entre os governantes e a finança ou as privatizações e ficamos conversados.

Mas que um partido com tradições populares possa ter 40% de votos com um programa de nacionalizações, isso já tem muito significado. Corbyn está fora desse triângulo das Bermudas que é o centro e foi por isso que venceu Blair, os tabloides e as sondagens.

Finalmente, há uma derradeira resposta a esta crise europeia com a fragilização do centro e dos partidos neoliberais, que é manipular as leis eleitorais. Cuidado com ela. Em alguns casos, isso ainda funciona: no domingo, em França, Macron com um terço dos votos pode eleger dois terços dos deputados. Em Itália fracassou. Em Portugal é a confusão: Montenegro tanto propõe um sistema brasileiro, que poucos acharão um caso de sucesso, quanto se distancia dos círculos uninominais, que por sua vez o PS deseja mas não consegue aprovar (estava no seu programa, ao cuidado dos que aplaudem o desejo de uma maioria absoluta). Mas, como se viu, leis eleitorais manipulatórias podem tornar-se um factor de exasperação popular. E agravar a crise retirando-lhes legitimidade não é solução para a crise dos governos, pois não? Pois é nisso que estamos. No topo ninguém sabe o que fazer. Excepto a Alemanha.