Tadinho do Marques Mendes

(In Blog O Jumento, 29/05/2017)
Marques_Mendes
Se recuarmos uns anos, não muitos, veremos a comunicação social da direita elogiando Vítor Gaspar porque tinha escrito um artigo para publicar no site do ministério das Finanças alemão. O ministro achou que devia premiar o seu pau mandado em Portugal e escolheu essa forma. Mais tarde, Wolfgang Schäuble achou que Maria Luís Albuquerque merecia idêntica distinção e montou uma encenação a que chamou seminário, juntou uns quantos funcionários do seu ministério e a Maria Luís lá falou para as máquinas fotográficas.
Gaspar que até era doutorado, herdeiro das virtudes da avó Prazeres, mulher com a sabedoria ruralista da Serra da Estrela, era o novo Salazarzinho das nossas finanças públicas, dele se dizia ter um grande futuro e até já havia quem garantisse que o papel de Passos Coelho era transitório. Mas as coisas correram mal, num momento de lucidez Gaspar percebeu que tinha falhado e fugiu.
Maria Luís Albuquerque era a mulher cheia de virtudes próprias de quem era filha do cabo da guarda de Cabora Bassa, falando com voz grossa passava a mensagem da grande economista. Passos, um grande admirador desta licenciada na Lusíada com alguns conhecimentos de swaps e outros produtos financeiros, chegou a vê-la com uma grande pasta na Comissão Europeia. Passos até mandou o Moedas para Bruxelas porque achou que um mero cargo de comissária europeia era pouca coisa para tão grande sumidade.
Agora temos o pobre Mário Centeno, foi gozado pelos cenários macroeconómicos, desde então que a direita adotou como estratégia a ridicularização do ministro das Finanças, na primeira vez que foi ao parlamento a notícia foi a de que Passos riu até às lágrimas. Durante um ano todas as medidas económicas do governo foram chumbadas por Passos, com a preciosa ajuda da Dra. Teodora.
Desde o salazarismo que a direita está convencida da sua superioridade técnica em matéria de economia, os seus economistas até olham de soslaio para todo o economista que seja de esquerda, consideram-nos gente mal habilitada e nem reconhecem qualquer valor às escolas onde andaram. E se frequentaram  Harvard, como sucede com Centeno, lá descobrem que a sua especialidade era um qualquer tema menos importante.
Ver um político como marques Mendes, que é um caso raro de equilíbrio entre dimensão física e dimensão intelectual, desvalorizar Centeno (Ver notícia aqui) e insinuar que o ministro das Finanças se está a oferecer para presidente do Eurogrupo só pode merecer uma gargalhada.

O diabo só veio em maio

Fonte aqui(In Blog O Jumento, 27/05/2017)
Passos Coelho tinha toda a razão, o diabo estava mesmo para vir. Mas veio atrasado, em vez de vir em Setembro de 2016, para anunciar um segundo resgate em consequência da execução orçamental de Agosto, veio em Maio. Mas em vez de se apresentar em São Bento, parece que o diabo preferiu como alojamento local a sede do PSD, na São Caetano à Lapa.
Passos estava convencido de que por esta ocasião já era primeiro-ministro e que poderia voltar a governar com o chicote dos credores, ameaçando tudo e todos e fazendo gato sapato do Tribunal Constitucional. Um segundo resgate ou a ameaça disso permitir-lhe ia impor o “ajustamento” ao setor privado, leia-se um corte brutal dos rendimentos e dos direitos do trabalho, governando sem regras e sem limites.
Mas o diabo trocou-lhe as voltas e a sua vida é agora um inferno, poderíamos dizer que de certa forma que o diabo lhe fez a vontade, se queria um inferno então que fique com ele. E o Passos que pensava que com meia dúzia de jantares de lombo assados com as mulheres social-democratas chegaria ao poder, arrasta-se agora penosamente sem saber quando é que se livrará da via sacra a que se condenou no dia em que em vez de se demitir da liderança do PSD optou pela pantominice do primeiro-ministro no exílio.
Passos teve aquilo a que se designa como azar dos Távoras, previu que os investidores fugiam e eles aparecem, garantiu que votava no PS se tudo desse certo e deu, previa um défice acima dos 3% e o país é elogiado pela Comissão que o livra do procedimento dos défices excessivos, previu uma subida incomportável dos juros e fala-se de uma melhoria no rating da dívida portuguesa.
Como se tudo isto fosse pouco sujeita-se a ouvir Marcelo, o tal a que designou por cata-vento, atribuir-lhe o mérito pela saída do procedimento dos défices excessivos. Depois de tanta humilhação Marcelo dá-lhe um presente envenenado, elogia-o por aquilo que não fez, pelos resultados que condenou, pelo sucesso de um governo que considerou ilegítimo.
Passos está comendo o pão que o diabo amassou, e, pior do que isso, o pão é-lhe levado à boca por Marcelo.
E ainda faltam não sei quantos meses para as autárquicas e mais dois anos para as legislativas, tanto tempo para que Passos se arraste, começou por se dispensar de fazer oposição e agora que a quer fazer não sabe como e com que argumentos. Queria que o diabo viesse e este fez-lhe a vontade.

Bardamerda para o mérito

(In Blog O Jumento, 25/05/2017)
cheer
Tanto António Costa como Marcelo Rebelo de Sousa decidiram considerar que a saída do procedimento dos défices excessivos foi mérito de todos os portugueses, de caminho Marcelo terá telefonado ao primeiro-ministro para o felicitar, tendo ainda feito o elogio público do ex-primeiro-ministro. Pelo ambiente de festa e de parabéns fiquei com a sensação de Portugal tinha feito anos e até haveria bolo de aniversário e o competente espumante produzido segundo o método champanhês.
Mérito de quê?
Tanto quanto me recordo nunca fui voluntário de qualquer esforço coletivo, muitos portugueses e principalmente os que votaram no PSD foram enganados com falsas promessas eleitorais, muitos dos que votaram PS não esperariam pelo espetáculo triste proporcionado por Seguro. Muitos dos que votaram no PSD e ficaram com cortes nos vencimentos e nas pensões confiaram em quem lhes garantiu que não o faria.
Mérito por ter sido enganado, mérito por ter ficado com um corte de rendimentos de quase 30%, depois de somadas todas as artimanhas inventadas pelo governo de Passos e Portas para empobrecer os portugueses e, principalmente, os funcionários públicos e reformados? Mérito por ver os filhos partir para os quatro cantos do mundo? Mérito por ter um salário mínimo congelado ao mesmo tempo que se aumentava o IVA nos bens essenciais e na energia? Mérito por se morrer à espera de ser atendido numa urgência?
Há uma grande diferença entre o líder de uma claque ou um treinador de futebol e um primeiro-ministro ou um ministro das Finanças. O que sucedeu em Portugal foi muito mais do que um esforço coletivo, foi uma tentativa desastrada de promover uma brutal transferência de rendimentos, aumentando a injustiça social, com o objetivo de resolver a falta de capital de uns à custa da subsistência de outros.
Da parte que me toca não tive qualquer mérito sem ver aumentado o horário de trabalho sem qualquer compensação, de ter ficado sem feriados sem ser remunerado por isso, por ter perdido direito a férias só para que Passos me exibisse ao ministro das Finanças da Alemanha. Não sinto que tenha tido mérito quando fui exibido como uma “despesa pública”, quando fui acusado de ganhar mais do que os outros, quando fui acusado de, enquanto funcionário público ou reformado, de ser o culpado dos males do país.
O país não é um imenso grupo de cheerleaders (como as da foto) a quem o chefe vem agradecer o belo desempenho no fim do jogo. Há os que partilhavam a mesa e os negócios com o Ricardo Salgado e os que foram enganados pelos BES, os que aguentaram a austeridade e os que diziam que os outros aguentavam, aguentavam, os que passaram fome e os que compraram carros de luxo cujas vendas aumentaram.