580 EUROS

(In Blog O Jumento, 07/05/2018)
580
Não sei quanto ganha o Marques Mendes a fazer de garganta funda na SIC, nunca me dei ao trabalho de saber quanto ganhará a deputada Ana Gomes no Parlamento Europeu, não imagino quanto cobra o jurisconsulto Moreira pelos seus pareceres e opiniões, não quero saber quanto aufere o juiz Carlos Alexandre que dispensa promoções, não faço ideia de quanto ganhava a companheira de Marcelo quando era administradora no BES.
Sei que Sócrates tinha um apartamento de luxo no centro de Lisboa e foi estudar para Paris com o dinheiro da mamã rica, que os almoços de peixe grelhado no Gigi custam um dinheirão, que as festas palacianas da capital custam fortunas, sei que há uma imensa burguesia política que vive luxuosamente na capital.
Mas, voltemos aos 580 Euros, talvez muitos estejam esquecidos, mas esta quantia é um salário mínimo bruto. Agora tirem as deslocações, porque os pobres não vivem propriamente nos centros das cidades, as refeições e outros custos associados ao trabalho, como os trapinhos e outras pequenas coisas, multipliquem por dois e façam as contas a quanto ganha um casal de portugueses que auferem do salário mínimo.
Imaginem que este casal comete a loucura de ter dois filhos, descontem as despesas do infantário, das roupas, dos brinquedos, dos medicamentos, da renda de casa, da luz, da água, do gás, façam bem todas estas continhas e vejam quanto sobra. Pois é, o melhor é que a assistente social não saiba de nada, senão as crianças ainda vão parar à família de algum bispo da IURD, com o competente relatório da Santa Casa e o consentimento de uma magistrada que se preocupa muito com as criancinhas.
Não vou discutir quem pagou os sapatos Prada do José Sócrates, quanto é que Marques Mendes ganha por contar segredos e recados, quanto é que os vistos gold e muitas outras coisas rendem em gorjetas a toda esta burguesia ostensiva da capital. O que me irrita é que toda esta gente mete um ar muito sério na hora de discutir o ordenado mínimo e invariavelmente chega à brilhante conclusão de que é preciso cuidado para defender a competitividade nacional.
Quando devia ser toda essa gente a trabalhar e a esforçar-se para acabar com a miséria de muitos portugueses são estes a serem obrigados a viver com ordenados de 580 Euros não vá a perda da competitividade dar cabo do caldinho. Quando ouvimos falar dos milhões do Carlos Silva, das off shores do Pinho, dos esquemas dos vistos, da imensidão de notícias sobre dinheiro é impossível conter alguma revolta e, ou isto muda, ou um dia vai mesmo acabar mal.

GOSTAVA DE SER O RICARDO SALGADO POR ALGUMAS HORAS

(In Blog O Jumento, 05/05/2018)
ricardo_s
Eu não gostava de ser mosca, preferia ser Ricardo Salgado nem que fosse por algumas horas. Perguntar-me-ão porquê horas, se não bastaria uns minutos. Há quem diga que gostava de ser mosca para entrar nalguns lugares onde o comum dos mortais não entram, mas preferia ser o Ricardo Salgado, por umas horas, e partilhar das suas memórias; deverão ser tantas que uns minutos não bastariam para tirar as minhas notas.
Quantos políticos, quantos governantes, quantos presidentes, quantos políticos promissores, quantos dirigentes do Estado não se terão curvado perante Ricardo Salgado? Quantos não deram o rabinho e cinco tostões para partilharem uma almoçarada com o Ricardo, quantos não terão sonhado serem convidados para uma tarde na praia do Carvalhal, quantos não terão pedido a próximos de Ricardo Salgado uma oportunidade, mesmo que fortuita, para estarem perto dele?
Durante anos Ricardo Salgado foi adorado, invejado, desejado, idolatrado, premiado, respeitado, elogiado e bajulado por muita gente; hoje seguem a lógica muito portuguesa e em vez de se manterem em silêncio espantam os fantasmas cuspindo no prato onde comeram, onde tentaram comer ou onde sonharam comer. Os políticos disputavam a sua simpatia, os jovens promissores tinham os seus estudos nos EUA financiados pelo padrinho, os filhos dos dirigentes do estado eram empregados.
O que sentirá Ricardo Salgado quando agora todos imitam Pedro e nesta imensa ceia de orgia de esquecimento asseguram que nunca o conheceram? O que sentirá Salgado ao ver tanta gente, que se dispôs a servi-lo, a exorcizar agora a sua corrupção moral, atacando-o e desprezando-o? Ricardo Salgado conhece agora a outra face de uma moralidade corrupta: a traição e a cobardia.
Como se sentirá Salgado a ver aqueles, a quem ofereceu aposentos em hotel de cinco estrelas, perseguirem ministros achando que a oferta de um café é motivo de corrupção? Ironicamente, Ricardo Salgado conhece bem melhor a forma de ser português, e muitas das personagens dos diversos poderes, do que os cientistas políticos formados na escola de Adriano Moreira, do que os mais distintos ideólogos, ou que os melhores alunos do catedrático Coelho.
Ricardo Salgado é, muito provavelmente, quem melhor conhece a forma de estar dos agentes do poder: foi ele que formou, alimentou e promoveu muitos deles.

O REGIME CORRUPTO

(In Blog O Jumento, 25/04/2018)
SALAZAR
Uma das heranças do salazarismo foi a falsa imagem de um ditador honesto e austero, imagem que todos os dias é passada de forma subliminar quando, por exemplo, o Expresso lança uma campanha sugerindo que os nossos deputados se andam a lambuzar em ajudas.
Os salazaristas raramente deram a cara pelo ditador; quem os viu em 1974 ficou a saber que eram todos democratas, alguns até tiveram o cuidado de evitar o PDC ou o CDS e optaram por um partido ligeiramente mais à esquerda, o então PPD.
Mas, há quarenta anos que a democracia é confrontada com a suposta superioridade do salazarimo nos domínios da ética, da competência e do nacionalismo, sugerindo-se que o país tem vindo a ser destruído pelos democratas e pela democracia. Dantes, esta mensagem era defendida pelos mais encarquilhados do salazarismo e do colonialismo, hoje é passada de forma subliminar por muito boa gente, a começar por jornalistas.
É bom recordar que o 25 de Abril aconteceu num momento em que o regime enfrentava uma grave crise económica, em que muitos produtos alimentares de primeira necessidade eram racionados, e quando o regime estava isolado internacionalmente e à beira de uma derrota militar na Guiné.
É bom recordar que muitos das grandes fortunas, hoje elogiadas como sinal de um empreendedorismo que nunca terá ocorrido em democracia, foram construídas à sombra da pior das corrupções, com os trabalhadores a terem de suportar um regime de salários de miséria e a total ausência de direitos, com os patrões a usarem a polícia do Estado para beneficiarem dessas condições.
É bom recordar que, desde o mais pequeno balcão do Estado até ao ministro, a regra era a da corrupção, nada no Estado funcionava sem se pagar por fora. Desde as Alfândegas à Inspeção Económica, tudo era oleado com dinheiro.
É bom recordar que, no tal Estado bondoso, morria-se de uma coisa, as aldeias e até algumas vilas tinham esgotos a céu aberto, eram raras as aldeias com acesso à electricidade, nas estradas mal dava para passarem dois carros, nas escolas reinava a tacanhez e os liceus, de que muitos se recordam como modelos, tinham uma boa parte dessa imagem graças a professores que eram opositores do regime.
Os exemplos poderiam multiplicar-se pondo fim a uma falta de memória que permitia que Passos Coelho, nas suas viagens, se sentasse em cima das memórias de Salazar, como se a inspiração deste passasse por osmose. Se compararmos, os quarenta e tal anos de ditadura com  os mais de quarenta anos de democracia, não encontraremos no presente nada que se compare com a pouca vergonha que foi o salazarismo.