As mulheres do PS, a testosterona do Chega e os pobres que sobram ao CDS

(Rafael Barbosa, In Diário de Notícias, 17/01/2021)

Além das projeções de resultados, abunda nos barómetros regulares informação que ajuda a medir a temperatura política. Juntámos as amostras dos barómetros feitas pela Aximage para o DN, o JN e a TSF ao longo dos últimos quatro meses de 2020 e esboçamos um retrato de cada um dos partidos com representação parlamentar.


PS

Socialismo vale quase metade do país grisalho

Não há por agora pontas soltas no apoio aos socialistas. A liderança é total em todos os segmentos da população, sempre com uma vantagem superior a cinco pontos percentuais sobre os rivais sociais-democratas. Mas há franjas do eleitorado em que a vantagem de António Costa é avassaladora.

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É o caso dos mais pobres, em que a média dos últimos quatro meses do ano foi superior a 50%. Aliás, quanto maior o rendimento do eleitor, menor a vontade de votar no PS: entre o fundo e o topo da escala social, os socialistas perdem mais de 17 pontos percentuais (nos dois escalões intermédios rondam os 37%, em linha com a média de setembro a dezembro).

Salta também à vista a força socialista entre as mulheres (e a relativa fraqueza entre os homens): em média, o eleitorado feminino valia mais oito pontos do que o masculino. Sendo certo que o fosso entre os dois géneros se acentuou nos dois últimos barómetros do ano, para chegar aos 14 pontos em dezembro.

Mais estável e esmagador é o apoio dos eleitores mais velhos: os que têm 65 ou mais anos valem 46,5%, ou seja quase dez pontos acima da média. Ao contrário, nos outros três escalões etários em que se dividem as amostras, o apoio está alguns pontos abaixo da média.

Quando a análise se centra na geografia, o ponto mais forte é a Área Metropolitana do Porto (42,6%), ainda que se notem grandes oscilações ao longo dos quatro barómetros do final do ano. As regiões menos fiáveis para os socialistas são, por razões diferentes, como veremos a seguir, a Área Metropolitana de Lisboa (34,8%) e a região norte (35,6%).


PSD

Região norte é o pequeno cavaquistão de Rui Rio

A designação ficou dos tempos em que Cavaco Silva conquistou duas maiorias absolutas para o PSD (1987 e 1991): os distritos do interior norte e centro deram-lhe percentagens superiores a 60% e ficaram no léxico político como “o cavaquistão”. Rui Rio não pode aspirar a nada de semelhante. O melhor que se pode dizer é que tem na região norte o seu pequeno cavaquistão. Porque é aí que melhor resiste ao sufoco socialista (30,3%). Uma tendência que se acentuou em dezembro.

Ao contrário, o território mais hostil, nos últimos quatro meses do ano, foi Lisboa (20,6%). Uma fraqueza que partilha com os socialistas e que tem uma explicação: a região da capital (que inclui o distrito de Setúbal) é a mais competitiva para o ecossistema partidário e, por isso, a menos generosa para o chamado bloco central, que aqui vale apenas 55% (no resto do país, PS e PSD somam sempre 60 ou mais pontos, com destaque para o Porto).

Quando se avaliam as forças e as fraquezas dos sociais-democratas nos restantes segmentos em que se pode dividir a amostra (género, classes sociais ou faixas etárias), o que mais se destaca é que… nada se destaca. O equilíbrio tem sido a marca de água do partido, seja no género (ainda que com ligeiro pendor feminino), nas classes sociais (mesmo que melhorando a intenção de voto à medida que os rendimentos crescem, o inverso do que acontece aos socialistas) e nas faixas etárias (com um pouco mais de tração nos eleitores mais velhos).

Recorde-se que o PSD está em perda relativamente às eleições de 2019. Não porque a direita valha menos votos, mas porque há uma recomposição desse lado do espectro político, com vantagem para os novos partidos. Quando se faz a média dos mapas de transferência de voto dos últimos quatros barómetros, a fuga é evidente: o maior beneficiário é o Chega, mas também a Iniciativa Liberal está a provocar uma erosão social-democrata.

BE

No centro (e em Lisboa) está a virtude bloquista

O Bloco de Esquerda está em perda face às últimas legislativas e vê aproximar-se o Chega. Mas a verdade é que, no final de 2020, permanecia incontestado no terceiro lugar. A principal praça-forte bloquista, em termos percentuais, é a região centro (12,2% na média dos últimos quatro barómetros), ainda que a dimensão de Lisboa garanta mais deputados e votos (10%). O ponto fraco de Catarina Martins é a região norte, o único caso em que perde o terceiro lugar, ultrapassada pelo PAN (8%) e pelo Chega (5,9%).

Com uma notável igualdade de género (ainda que as mulheres estivessem a ganhar preponderância no final do ano), os bloquistas são um partido tendencialmente mais jovem, conseguindo resultados acima da média nos três grupos etários até aos 64 anos, para caírem bastante entre os mais velhos (65 anos ou mais). Foram estes aliás os que mais contribuíram para o castigo sentido no barómetro de novembro, no rescaldo do chumbo ao Orçamento do Estado e do divórcio com o PS.

Igualmente notória, na média geral, como nos resultados de cada um dos quatro barómetros, entre setembro e dezembro, é a predominância dos dois escalões sociais mais altos, face aos dois mais baixos (com uma diferença que ronda os três pontos percentuais, o que é significativo num partido com a dimensão do BE).


Chega

Radicais de classe média-baixa e na meia-idade

O Chega é o partido que mais cresce, quando comparamos os resultados das legislativas de 2019 com a média de resultados dos últimos quatro barómetros de 2020 – são quase seis pontos percentuais a mais nas intenções de voto. Apoios conquistados à direita tradicional (PSD e CDS) e que se concentram sobretudo em três segmentos: homens, de classe média-baixa, entre 50 e 64 anos.

O domínio da testosterona entre a direita radical é particularmente saliente: se votassem apenas homens, André Ventura seria o líder do terceiro maior partido nacional (são quase cinco vezes mais homens do que mulheres). Uma tendência que se acentuou nos últimos dois meses, coincidindo com o crescimento do final do ano.

Noutros tipos de segmentação, o Chega também se destaca em escalões específicos: a classe média-baixa (12,5%) é um desses casos (em todos os restantes está abaixo da média geral), com a tendência a acentuar-se no barómetro mais recente (um em cada cinco portugueses de classe média-baixa daria o seu voto aos radicais em dezembro).

O mesmo acontece nos grupos etários, com o destaque para os que têm 50 a 64 anos (10,4%), mas grande dificuldade em atrair os eleitores mais velhos (cada vez mais relutantes nos últimos dois meses, em clara oposição à subida média das intenções de voto no mesmo período).

Em proporção, foi ao CDS que o Chega roubou mais eleitores ao longo dos últimos quatro meses (quase metade dos centristas em dezembro), mas, em números absolutos, foi ao PSD. Contributos que fazem do partido de direita radical uma força a ter em conta no sul e ilhas, no centro, mas também em Lisboa (ronda os oito pontos percentuais nas três regiões). O território mais agreste para Ventura é a Área Metropolitana do Porto.

CDU

Comunistas envelhecidos em Lisboa e no Alentejo

A CDU pode não viver os seus melhores dias, mas há coisas que não mudam e que os barómetros dos últimos quatro meses confirmam: seja o envelhecimento da sua base de apoio seja um relativo acantonamento em Lisboa e no sul do país (com o peso do Alentejo). É na região da capital (que inclui Setúbal) que os comunistas têm o seu melhor resultado médio (7,8%), verificando-se uma tendência para ganhar peso relativamente ao resto do país nos dois últimos barómetros do ano. Os territórios mais hostis são a região norte e a Área Metropolitana do Porto.

Com tendência para ter uma representação mais masculina do que feminina (uma diferença de quase três pontos que, tendo em conta os resultados globais, é significativa), a CDU vê o apoio crescer, de forma substancial, à medida que o eleitor envelhece. Feitas as médias às amostras de quatro meses, os apoiantes com 65 ou mais anos valem mais sete pontos percentuais do que os mais jovens (18 a 34 anos), ainda que no final do ano esse cisma geracional desse mostras de estar a atenuar-se.

Os comunistas revelam uma influência relativamente transversal ao posicionamento social, mas com tendência para ter maior aceitação entre os dois escalões do topo, face aos dois do fundo (e com uma fragilidade evidente nos mais pobres). Através do mapa de transferência de votos, percebe-se que é para o PS que a CDU perde alguns dos seus eleitores de 2019 (um em cada dez) e que a capacidade de atrair gente de outros segmentos partidários é reduzida.

PAN

A causa animal (e ambiental) é feminina e jovem

O PAN nasceu como partido animalista (ainda que tenha progressivamente aprofundado a mensagem ecologista) e pode dizer-se que esse é um campo jovem e feminino. O movimento de André Silva é o que tem um maior peso do eleitorado feminino: são mais do que o dobro dos homens (uma diferença de quatro pontos percentuais) e seria o quarto maior partido nacional se votassem apenas as mulheres.

Outra marca de água que se tem mantido ao longo do tempo é a identificação do eleitorado jovem com o PAN: é o partido que mais depende dos escalões mais novos (18 a 49 anos), mantendo alguma dificuldade em convencer os dois escalões mais velhos (50 em diante), sendo mensurável uma diferença média de cerca de seis pontos percentuais entre estas duas metades do eleitorado.

O norte tem-se revelado o bastião mais importante e estável (o PAN consegue o terceiro lugar com uma média de 8%), mas Lisboa (6,7%) vem logo a seguir, ainda que com muitas oscilações ao longo dos quatro meses em análise. O ponto fraco é a Área Metropolitana do Porto.

Quando se observa o posicionamento social dos eleitores, fica claro que é na classe média que o PAN consegue maior suporte, em particular no terceiro dos quatro escalões em que se divide a amostra, ou seja, algures entre a classe média e média-alta. Embora também tenha um razoável cartaz entre o segmento dos mais pobres.

Iniciativa Liberal

Homens portuenses, abastados e liberais

À medida que a percentagem de eleitores de cada partido vai reduzindo, mais escorregadia se torna a leitura dos segmentos, sujeitos a margens de erro mais elevadas. A junção dos quatro barómetros ajuda a atenuar esse problema, mas, no caso da Iniciativa Liberal, talvez nem fosse necessário, uma vez que mantém uma série de características de barómetro para barómetro.

Desde logo, é um novo fenómeno político marcadamente urbano e metropolitano. O seu único deputado foi eleito em Lisboa mas foi no Porto que conseguiu os melhores resultados no final do ano (4,8% na média dos quatro meses), ainda que se revele um território mais instável. Lisboa é um pouco menos generosa (3,4%) mas parece terreno mais sólido.

Os liberais são sobretudo homens (mais do dobro do que as mulheres), com maior preponderância nos escalões até aos 49 anos (em particular nos 18/34 anos) e revelam uma tendência linear no que diz respeito ao posicionamento social: quanto mais alto está o elevador, maior o número de apoiantes (estão completamente ausentes do escalão mais pobre). São eleitores, finalmente, que saíram sobretudo do CDS (em proporção) e do PSD (em número). Mas também há algumas fugas para o Chega

CDS

Quase todos em fuga para concorrentes na direita

O resultado das legislativas de 2019 já tinha sido fraco. Os barómetros que se seguiram foram piores. E o final deste ano foi catastrófico, com os centristas a baterem no fundo, em dezembro, com uma projeção de 0,3%. Mesmo considerando a média de 0,9% ao longo dos últimos quatro meses, a amostra é diminuta e deve ser lida com cautela adicional.

Uma das leituras possíveis é que o CDS só está no limiar da sobrevivência no que diz respeito ao escalão dos mais pobres (2,9% em média) – e foi assim em três dos últimos quatro meses. Nos mais ricos, pouco passa agora do ponto percentual. No que diz respeito aos grupos etários, se ainda vale alguma coisa é à custa dos que têm memória de outros tempos, ou seja, os que têm 50 ou mais anos, numa tendência que se aprofundou em dezembro, com a deserção total dos dois escalões mais jovens.

Relativamente à geografia é só em Lisboa e no Porto que o partido de Francisco Rodrigues dos Santos ultrapassa um ponto percentual. Insuficiente, em eleições, para conseguir deputados. Os eleitores fugiram, pelo menos por agora, para o Chega, o PSD e a Iniciativa Liberal, por esta ordem (os radicais de direita, em concreto, ficam com três em cada dez antigos eleitores dos centristas).

Para que preciso de um rei

(Arturo Pérez-Reverte, In Diário de Notícias, 22/08/2020)

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Faz tempo que acabou o tabu, e com razão. O rei Juan Carlos I, que comandou a Transição e frustrou o golpe de Estado que pretendia liquidá-la, a quem devemos um reconhecimento político indubitável, tinha vindo a submergir-se num lamaçal de igual dimensão de impunidade e pouca-vergonha, de conluios ocultos e braguilha aberta, até ao ponto de acabar por se transformar na principal ameaça contra o seu próprio legado. Para aqueles que pretendem liquidar a monarquia, a personagem estava a facilitar-lhes a vida, pois os sonhos húmidos de muitos protagonistas da atual política acarinham a imagem de um monarca que compareça, não perante um juiz, mas sim perante um Parlamento, com eles na tribuna e a apontarem o dedo. Fazendo de acusadores públicos à maneira de Fouquier-Tinville, com uma guilhotina simbólica em pano de fundo, enquanto os seus papás e familiares os veem em direto pela televisão e comentam: “Vejam até onde chegou o meu Manolín, ou a minha Conchita, que fazem corar um rei.”

Para ser sincero, duvido que a jovem Leonor chegue a reinar algum dia. Fica feio dizê-lo, mas é o que penso. Imagino que terei deixado de fumar nessa altura, portanto também não me afeta grande coisa. Mas o presente, sim, afeta-me. Vivo em Espanha e espero continuar a fazê-lo mais uns anos; por isso preciso que este seja um lugar habitável. Não digo perfeito, mas habitável. Mas quando ouço a rádio ou ligo a televisão e escuto a chusma infame que a partir do governo ou da oposição maneja os cordelinhos da minha vida, não gosto do que existe, nem do que aí vem. Há muitas coisas que ignoro, mas durante um terço da minha vida vivi em lugares perigosos e gabo-me de reconhecer um filho da puta quando o vejo.

Quando me perguntam se sou monárquico ou republicano costumo responder que o que a mim me excita é uma república romana com os seus Cincinatos, Cipiões e Gracos, que tinha um nível; ou, na falta dela, uma república como a francesa, resultado da que em 1789 mudou o mundo, tornou iguais os cidadãos, aboliu privilégios corporativos, provinciais e de classe, e tornou possível que a bandeira francesa ondule hoje em todas as escolas e que, depois de um atentado terrorista, nos estádios de futebol se cante A Marselhesa.

Sou republicano, em suma, da linha dura, jacobina quando necessário: cidadãos livres, mas tratados com dureza quando põem em perigo a liberdade. E no que respeita a monarquias hereditárias, bem, claro que não. Quando penso em Fernando VII, Isabel II ou Afonso XIII, passa-me a vontade. Mas estamos a falar de Espanha, deste momento. E isso já é outra coisa.

Vamos ver se me consigo explicar. Uma república precisa de um presidente culto, sábio, respeitado por todos. Um árbitro supremo cuja serenidade e atitude o situem acima de lutas políticas, interesses e mesquinhezes humanas. Alguém é capaz de nomear um político, homem ou mulher, que encaixe nessa descrição em Espanha? Mais ainda, imaginam esse árbitro supremo, essa autoridade absoluta, encarnados em Pedro Sánchez? Em Pablo Iglesias e na sua república plurinacional da senhorita Pepis? Em Mariano Rajoy e na sua obtusa e passiva estupidez? Nesse palhaço irresponsável e transatlântico chamado Rodríguez Zapatero, que desenterrou uma nova guerra civil? Num Felipe González, a quem agora não sai da boca a palavra Espanha que enquanto esteve no poder evitou sempre pronunciar? Em Rufián? Em Torra? Em Casado? Em Abascal? Em Irene Montero?

Quanto a vós não sei, mas eu, que estou a ficar velho, preciso de alguém acima de tudo isso. Um cimento comum, um mecanismo unitário que mantenha a harmonia de terras e gentes tão complexas e perigosas a que chamamos Espanha. Sobretudo, porque os ataques atuais à monarquia não correspondem a uma reflexão intelectual de pensadores sérios, mas antes ao velho afã centrífugo de demolir um Estado em troca de interesses privados, trapaças locais, demagogias idiotas e argumentos de assembleia de faculdade. Imaginam uma Constituição redigida por Echenique, Otegui ou Puigdemont?… Enquanto aguarda a libertação da sombra nefasta de seu pai, Felipe VI é um homem sereno e bem-formado, irrepreensível até hoje, muito mais Grécia do que Bourbon. Estou convencido de que é uma boa pessoa e um sujeito honrado, e não há nada até agora que me leve a pensar o contrário. Creio que é um bom tipo, como se costuma dizer, e ninguém que tenha trocado duas palavras com ele afirmará o contrário. Ama Espanha e acredita de verdade que é útil para a preservar em tempos de tormenta. Faz o que pode e o que o deixam fazer. E, na minha opinião, é a única barreira que nos resta face ao disparate e ao caos em que isto se pode tornar se nos descuidarmos um pouco mais. Disse-lhe uma vez: o senhor é uma questão de simples utilidade pública. O que não é pouco, tratando-se de Espanha. A ténue linha vermelha. Disse-lhe isso e ele sorriu como sempre faz, gentil e prudente. E, no entanto, gostei mais dele por esse sorriso.

Escritor espanhol
Artigo originalmente publicado na revista 
XL Semanal

Carta aberta ao Presidente da República

(Sérgio Tréfaut, in Público, 09/06/2020)

Bolsonaro saúda um grupo de apoiantes em Brasília, 31 de Maio

Dizem os políticos que Portugal e o Brasil são países irmãos. Marcelo Rebelo de Sousa aprecia esta figura retórica. Mas chegou o momento em que é necessário decidir de que país Portugal é irmão. Do Brasil que está a matar? Ou do Brasil que está a morrer? O que se passa no Brasil hoje é mais grave do que um crime de Estado.

Desde o final de março, das janelas da minha casa no Rio de Janeiro, ouvi todos os dias gritar: “Bolsonaro genocida!” Porquê gritam assim os vizinhos à janela? Porque vários genocídios invadiram suas vidas.

O primeiro é um genocídio de populações indígenas, denunciado no Tribunal de Haia em 2019, e denunciado também por Sebastião Salgado. A indiferença de Bolsonaro ao extermínio dos índios tornou-se óbvia no vídeo da reunião de 22 de abril, divulgado a pedido de Sérgio Moro.

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Nessa reunião de ministros, vemos o ministro do Meio Ambiente definir a atual epidemia como uma oportunidade para fazer passar as leis (ilegais) de desmatamento da Amazônia, o que significa quase o fim dos índios. Sabemos que 90% das populações indígenas morreram no século XVI de doenças como a varíola, levadas por europeus. O governo brasileiro pretende agora que os índios que restam morram de covid. O ministro do Ambiente representa bem os valores do governo Bolsonaro.

A segunda forma de genocídio praticada no Brasil de hoje é a mais mortífera. Trata-se do negacionismo face à pandemia.

Desde março, Bolsonaro insultou as televisões por divulgarem as mortes na Itália: o Brasil nunca viveria aquilo. Hoje Bolsonaro esconde o número de mortos. Este negacionismo é o espelho da sua política. “O Brasil não pode parar”, afirmava Bolsonaro, apoiado pelos grandes industriais.

Os dois ministros da Saúde que tentaram defender o confinamento foram despedidos ou forçados a sair. Aliás, o negacionismo mais criminoso é o do Ministério da Saúde. Como se tratava de uma “gripezinha”, houve uma ausência total de plano para enfrentar a pandemia. Falta de testes, falta de material de proteção, falta de camas, falta de ventiladores, falta de tudo. Em números absolutos, Portugal fez mais testes à covid-19 do que o Brasil, com 210 milhões de habitantes.

Curiosamente, durante a epidemia de dengue de 2008 (174 mortos), o Governo de Brasília, com o apoio das Forças Armadas, montou três hospitais de campanha no Rio de Janeiro e salvou vidas. Face ao coronavírus, o Governo Federal negou a importância do perigo. Não ponderou um instante sobre a necessidade de cordões sanitários para proteger aldeias indígenas, ou para proteger áreas urbanas sobrepovoadas, onde o confinamento seria impossível por falta de condições. Tudo foi lançado para os governadores, não por uma visão descentralizadora, mas em forma de ataque. Assim Brasília culpou os estados pela crise sanitária e pela crise económica.

Bolsonaro e os seus filhos defenderam uma política eugenista, de cariz hitleriana: “É velho? É doente? Tem mesmo que morrer.” “É a lei da vida.” Frases como esta foram repetidas até a exaustão. São dez mil mortos? “E daí?”

Pela falta de cuidados, o Brasil tornou-se o país com maior número de enfermeiros mortos por covid. Agora será o país com maior número de mortes do mundo. Não fazer face à pandemia, optar por 100 mil mortos em vez de 10 mil em nome da economia, o que é senão um crime de Estado?

O clã Bolsonaro lançou milícias anti-confinamento, com manifestações ilegais nas ruas. Assim, vários militantes anti-confinamento morreram de covid. Mas agora, com mais de mil mortes diárias, as manifestações já não são necessárias. Governos e prefeituras cederam a Bolsonaro, abrindo praias e comércio.

O que pensariam os portugueses se, durante o confinamento, Marcelo Rebelo de Sousa lutasse contra as normas do Ministério da Saúde, reunindo multidões em passeatas anti-confinamento? Em Portugal, imagino que o Presidente seria impedido, ou preso. Não é o caso no Brasil. Bolsonaro está acima da lei. E o genocídio no Brasil não se limita à covid.

Existe um genocídio diário levado a cabo pela polícia nas favelas. Os Estados Unidos mobilizaram-se agora com o assassinato de George Floyd. “Black lives matter” conquistou o mundo.

Se o assassinato de George Floyd tivesse ocorrido no Brasil, a polícia teria dado um tiro na cabeça da adolescente de 17 anos que estava a filmar, como faz todos os dias. Ninguém saberia. Esta é a banalização da impunidade policial validada por Bolsonaro. No ano de 2019, só no Rio de Janeiro, a polícia foi responsável por 1814 assassinatos, ou seja, cinco mortos por dia.

A polícia entra nas favelas e mata sem receio da lei. Nenhum polícia precisa de prestar contas dessas mortes. Bolsonaro assina por baixo: “Bandido bom é bandido morto.” Sem julgamento. Sem provas. Raras vezes um caso ganha destaque. Por exemplo, quando, no dia 18 de maio, João Pedro, 14 anos, brincava com amigos em casa e foi morto pela polícia. Dias antes tinham sido encontrados 12 corpos com marcas de tortura policial. Nenhum polícia foi detido. Nas favelas denuncia-se o genocídio negro. Mas ninguém ouve.

À banalização do crime acresce a liberação por Bolsonaro da venda de armas a civis, armas que eram de uso exclusivo dos militares. A imprensa diz que Bolsonaro aposta numa guerra civil. Aqui chegamos ao extermínio da própria democracia.

O que Portugal tem a ver com isto? Tudo.

No dia 1 de janeiro de 2019, há pouco mais de um ano, Marcelo Rebelo de Sousa era a estrela internacional da tomada de posse de Bolsonaro. Angela Merkel, Theresa May, Emmanuel Macron não foram à cerimónia, apesar de convidados. Os dirigentes da direita europeia tomavam uma posição distante face a um novo Presidente do Brasil, com um conhecido desprezo pela democracia.

Os únicos chefes de Estado europeus eram Marcelo e Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, cujas declarações sobre ciganos parecem extraídas de compêndios nazis. O ministro dos Negócios Estrangeiros português também não esteve presente, mas, sendo quem é, bem poderia ter estado. Quanto a Marcelo, pode ser acusado de tudo o que quiserem, mas não pode ser acusado de ser mal informado. Por isso, o seu silêncio à data de hoje é preocupante.

Marcelo terá visionado a criminosa reunião de ministros de 22 de abril, chefiada por Bolsonaro, vulgo covil dos infames. Pode ser que outros presidentes do mundo não compreendam o que foi dito nessa reunião. Marcelo compreende.

Marcelo também sabe que Bolsonaro fez ameaças de morte aos membros do Supremo Tribunal Federal.

Marcelo sabe que Bolsonaro falou em manifestações que pediam uma ditadura militar e o encerramento do Congresso. Sabe que em nenhum país democrático um cidadão poderia sequer se candidatar às eleições presidenciais tendo feito a apologia da tortura e lamentando os poucos mortos de um regime ditatorial. Marcelo recebe informações sobre a impunidade da polícia no Brasil. Cinco George Floyd por dia. bMarcelo sabe que Bolsonaro luta pelo descrédito da democracia. E que contra ele existem mais de 30 pedidos de impeachment. Quem cala, consente.

O que poderia fazer o Presidente da República? Poderia muito. Poderia liderar um movimento de pressão internacional. Poderia e deveria convocar o embaixador do Brasil e pedir explicações – nem que seja considerando a comunidade portuguesa no Brasil. A diplomacia não é apenas um entreposto para vender vinhos e azeite.

Além do Presidente, através do seu governo e dos seus deputados, Portugal pode apresentar moções condenatórias no Parlamento Europeu, no Conselho da Europa, na ONU.

Isto seria próprio de um país irmão.