(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/12/2021)

Não é racional manter apoios sociais a quem os usa para se furtar ao trabalho e dessa forma condicionar a própria expansão empresarial que cada vez mais se lamenta da falta de mão-de-obra disponível para trabalhar.” A frase de Rui Rio, que mereceu prolongado aplauso do congresso do PSD, uma plateia de esforçados trabalhadores disponíveis para ser mão-de-obra em gabinetes ministeriais, não tem nada de novo. É a posição de sempre da direita, que ao longo da história resistiu a quase todos os apoios sociais que diz defender, refugiando-se sempre na teoria do abuso dos preguiçosos.
Não é costume centrarem o seu discurso nas fraudes quando defenderam os apoios às empresas, apesar de sabermos que elas existem, provavelmente em maior percentagem, seguramente em maior valor. Abusos existem sempre, o relevante é um político valorizar a necessidade da existência desses apoios, nuns casos, e a existência de fraudes, no outro. Que num caso se exija sempre menos burocracia e noutro mais fiscalização, apesar dos instrumentos para a fraude serem obviamente maiores no primeiro do que no segundo caso.
Claro que todos defendem apoios a empresas e cidadãos que precisam. Mas os preconceitos exibem-se na prioridade discursiva. E quase todas as intervenções de Rui Rio sobre apoios sociais, garantindo previamente que os quer para quem precisa, centram-se na minoria (terá sequer noção do peso que ela tem?) que os recebe indevidamente.
A ideia de que o empresário é merecedor de menos burocracia para receber um apoio e o pobre de mais controlo resulta do preconceito espontâneo que Rio nunca escondeu. E nisto aproxima-se, de forma genuína e não calculada, do Chega. Na realidade, o discurso social de quase toda a nossa direita – com todas as características classistas da direita de países muito desiguais – aproxima-se do que o Chega diz sem filtros.
Sobretudo hoje. Porque, ao contrário do que disseram tantas vezes neste fim de semana, não foi o PS que se radicalizou. Ele está onde sempre esteve, infelizmente em alguns casos. Foi a direita que se radicalizou desde Passos Coelho. Cada vez mais longe do centro, tudo lhe parece cada vez mais à esquerda. Até coisas que o próprio PSD defendia na sua origem. Essa radicalização ajuda, aliás, a explicar as condições para o aparecimento da “geringonça”.
Menos de 100 mil famílias. Um terço dos benificiários são crianças. Outro terço tem mais de 50 anos, para quem não haver grande oferta de trabalho. E o rendimento médio por família é pouco superior a 260 euros. É isto que Rui Rio acha que atrasa as nossas empresas.
Mas o mais relevante não é a suspeita de preguiça e desonestidade que a elite sempre fez pairar sobre os mais pobres. Essa é ancestral e sempre foi usada para desviar os olhos dos privilégios que contam. O mais relevante é a afirmação de que estes apoios condicionam “a própria expansão empresarial que cada vez mais se lamenta da falta de mão-de-obra disponível para trabalhar”.
Para Rui Rio, a falta de mão-de-obra não resulta de falta de formação ou de desadequação salarial da oferta. Não resulta do nosso atraso económico, que acrescentando pouco valor ao que produz, competindo com países que pagam valores com que é impossível viver em Portugal. Resulta da indisponibilidade em aceitar trabalhos que, supõem-se, garantem salários mais baixos do que os baixíssimos apoios sociais que se recebem neste país. Para Rui Rio, os apoios sociais criam uma distorção no mercado, que não permite que os trabalhadores aceitem receber muito abaixo do limiar de pobreza. A não ser que a imagine generalizada, não está a falar da fraude. Está mesmo a falar dos apoios sociais. Desse meio país que, na boca de André Ventura, “vive à custa do outro meio”.
Esta frase denuncia o oposto do que “centro” anunciado como pano de fundo do mesmo PSD que apoiou Rangel e ali estava a aplaudir Rio. Denuncia o populismo desbragado, que faz crer que as fraudes aos apoios sociais são de tal forma generalizadas que têm um efeito sistémico na falta de mão-de-obra. E denuncia o programa económico que Rui Rio tem para Portugal: retirar parte dos apoios sociais para que as pessoas sejam obrigadas a aceitar trabalhos mal pagos.
Não é à toa que Rui Rio foi contra o aumento do salário mínimo nacional, que iria aumentar o desemprego. Como se sabe, esse efeito nunca existiu, o que não impede Ferraz da Costa de dizer que o aumento de um dos salários mínimos mais baixos da Europa nos está a tornar “num país comunista”.
Foi o próprio Rui Rio que já explicou algumas vezes que a sua divergência com Passos Coelho era mais de estilo. O conteúdo é o de há muito tempo: salários baixos e apoios sociais que não desmotivem nenhum pobre de aceitar trabalhar por menos do que dá para viver. Esta é a “novíssima” receita da direita “ao centro”. Os entendimentos com a Iniciativa Liberal vão ser facílimos.
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